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Relato de baquaqua, Notas de estudo de Cultura

um dos poucos relatos da vida de um escravo contado pelo proprio

Tipologia: Notas de estudo

2011

Compartilhado em 04/09/2011

adriano-sousa-15
adriano-sousa-15 🇧🇷

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Biografia de Mahommah G. Baquaqua* Apresentação Silvia Hunold Lara Universidade Estadual de Campinas Um dia, quando estava começando a organizar este número da Revista Brasileira de História, numa conversa com Peter Eisenberg, ele me disse: “ You por logo as cartas na mesa. Tenho um documento incrível, mas um pouco longo, que gostaria de ver publicado em português. Posso traduzi- lo e podemos pensar em publicar parte dele na R. B. H, O que você acha”? Ao ver do que se tratava, concordei de imediato: realmente, Peter tinha em mãos uma pequena jóia! Ele havia conseguido obter, depois de várias pesquisas e tentativas, o texto da biografia de Mahommah G. Baquaqua. Trata-se de um ex-escravo, sua vida na África, sua escravização e transporte para o Brasil, de suas experiências como escravo em Penambuco junto aum padeiro, sua venda para 0 capitão de um navio que viajava até o Rio Grande do Sul, 'sua viagem até os Estados Unidos, da fuga para conseguir a liberdade, sua viagem ao Haiti, uma viagem de volta aos Estados Unidos e daí para o Canadá; a narrativa de uma vida extraordinária que também traz dados extraordinários sobre as experiências escravas no Brasil e nas Américas. Um documento raro, especialmente se pensarmos na escassez de testemunhos escravos diretos sobre a escravidão no Brasil. Peter começou a traduzir o texto, mas não pôde terminar o trabalho. Publico, então, uma parte deste relato (justamente aquela que se refere ao Brasil), não só como uma homenagem a um amigo e colega de ofício que já se foi, mas especialmente porque testemunhei sua sensibilidade como historiador e profissional e seu desejo de ver divulgado um documento tão importante quanto este. Esclareço que este texto foi publicado em Detroit em 1854. Está escrito na primeira e na terceira pessoa, pois o relato foi compilado e editado por Samuel Moore, engajado na luta abolicionista. Os limites desta revista não * Mahommah G. Baquaqua, Biography of Mahommah G. Baquaqua. A native of Zoogoo, in the interior of Africa. Edited by Samuel Moore, Esq. (Detroit: George E. Pomery and Co., Tribune Office, 1854) pp. 40-57). Tradução: Sonia Nussenzweig. 269 permitem a edição completa do texto — algo que pretendo fazer mais tarde. Por agora, os leitores podem desfrutar do privilégio de ler parte desta biografia de Mahommah G. Baquaqua e entrarem no mundo da escravidão no Brasil da primeira metade do século XIX pelas mãos de alguém que a experimentou na própria pele, e que dela guarda uma memória construída através das experiências da vida. . SHL, “(..) Em Gra-fe vi o primeiro homem branco o que, pode ter certeza, chamou-me muito a atenção. As janelas das casas também pareciam estranhas, pois era a primeira vez em minha vida que via casas com janelas. Levaram-me à casa de um homem branco, onde permenecemos até a manhã seguinte, quando me trouxeram o café da manhã. E, imagine minha surpresa quando vi que a pessoa que trazia minha comida era um velho conhecido, um conterrâneo. Ele não me reconheceu a princípio, mas quando me perguntou se meu nome era Gardo, e eu lhe disse que sim, o pobre homem encheu-se de alegria e tomou minhas mãos e me sacudiu violentamente, tão contente estava em me rever. Seu nome era Woo-roo, vinha de Zoogoo, € fora escravizado há cerca de dois anos; seus amigos não tinham idéia do que tinha acontecido com ele. Perguntou-me sobre seus amigos em Zoogoo, se eu viera de lá recentemente, olhou para minha cabeça e observou que meus cabelos estavam cortados do mesmo jeito como quando estávamos juntos em Zoogoo e eu concordei. Talvez caiba notar aqui que, na África, as nações das distintas partes do território têm seus modos diferentes de cortar o cabelo e são conhecidas, por essa marca, a que parte do território pertencem. Em Zoogoo, o cabelo de ambos os lados da cabeça é raspado e, em cima da cabeça, da testa até atrás, deixa-se o cabelo crescer em três mechas redondas que ficam bem compridas mantendo-se os espaços entre elas raspados rente à cabeça. Para alguém familiarizado com os diferentes cortes, não há dificuldade em reconhecer a que lugar um homem pertence. Woo-roo parecia muito ansioso para que eu permanecesse em Gra-fe mas meu destino era outro. Esta vila situava-se à margem de um grande rio. Depois do café da manhã, levaram-me ao rio e colocaram-me num barco. O rio era muito largo e bifurcava em duas direções antes de desembocar no mar. O barco em que os escravos foram colocados era grande e impulsionado por remos, embora também tivesse velas. No entanto, como o vento não era suficientemente forte, tinha-se que usar também os remos. Estávamos há duas noites e um dia nesse rio, quando chegamos a um lugar muito bonito, cujo nome não me lembro. Não ficamos ali por muito tempo, tão logo os 270 O NAVIO NEGREIRO Seus horrores, ah! quem pode descrever? Ninguém pode retratar seus horrores tão fielmente como o pobre desventurado, o miserável desgraçado que tenha sido confinado em seus portais. Oh! amigos da humanidade, tenham piedade do pobre africano, alijado e afastado de seus amigos e de seu lar, ao ser vendido e depositado no porão de um navio negreiro, para aguardar ainda mais horrores e misérias em uma terra distante, entre religiosos e benevolentes. Sim, até mesmo entre eles. Mas, vamos ao navio! Fomos arremessados, nus, porão adentro, os homens apinhados de lado e as mulheres do outro. O porão era tão baixo que não podíamos ficar em pé, éramos obrigados a nos agachar ou a sentar no chão. Noite e dia eram iguais para nós, o sono nos sendo negado devido ao confinamento de nossos corpos. Ficamos desesperados com o sofrimento e a fadiga. Oh! a repugnância e a imundície daquele lugar horrível nunca serão apagadas de minha memória. Não: enquanto a memória mantiver seu posto nesse cérebro distraído, lembrarei daquilo. Meu coração até hoje adoece ao pensar nisto. Que aqueles indivíduos humagitários, que são a favor da escravidão, coloquem-se no lugar do escravo no porão barulhento de um navio negreiro, apenas por uma viagem da África à América, sem sequer experimentarem mais que isso dos horrores da escravidão; se não saírem abolicionistas convictos, então não tenho mais nada a dizer a favor da abolição. Acho, no entanto, que suas opiniões e sentimentos relativos à escravidão se modificariam de algum modo. Se não, deixem-nos prosseguir no curso da escravidão, e cumprir seu tempo trabalhando em um campo de algodão, arroz, ou outra plantação, Se não disserem pare, basta! acho que devem ser feitos de ferro, sequer possuindo corações ou almas. Imagino que, em toda a criação, haja apenas um lugar mais horrível que o porão de um navio negreiro, e esse lugar é aquele onde os donos de escravos e seus lacaios muito provavelmente se encontrarão algum dia quando, ai de mim, será tarde demais, tarde demais! A única comida que tivemos durante a viagém foi milho velho cozido. Não posso dizer quanto tempo ficamos confinados assim, mas pareceu ser muito tempo, Sofríamos muito por falta de água, que nos era negada na medida de nossas necessidades. Um quartilho por dia era tudo que nos permitiam e nada mais. Muitos escravos morreram no percurso. Houve um pobre companheiro que ficou tão desesperado pela sede que tentou apanhar a faca do homem que nos trazia água. Foi levado ao convés e eu nunca mais soube o que lhe aconteceu. Suponho que foi jogado ao mar. 272 Quando qualquer um de nós se tornava rebelde, sua came era cortada com uma faca é O corte esfregado com pimenta e vinagre para torná-lo pacífico (!). Como os demais, fiquei muito mareado de início, mas nosso sofrimento não causou preocupação alguma aos nossos brutais donos. Nosso sofrimento era da nossa conta, não tínhamos .ninguém com quem pudéssemos compartilhá-lo, ninguém para cuidar de nós ou até mesmo nos dizer alguma palavra de conforto. Alguns foram jogados ao mar antes que o último suspiro exalasse de seus corpos; quando supunham que alguém não iria sobreviver, era assim que se livravam dele. Apenas duas vezes durante a viagem nos permitiram subir ao convés para que pudéssemos nos lavar — uma vez enquanto estávamos em alto mar, e outra pouco antes de entrarmos no porto. Chegamos em Pernambuco, América do Sul, de manhã cedo e o navio ficou zanzando durando o dia, sem lançar âncora. Ficamos sem comida e sem bebida o dia inteiro e nos foi dado a entender que deveríamos permanecer em - silêncio absoluto, sem clamor algum, senão: nossas vidas estariam em perigo. Mas quando “a noite lançou seu manto de trevas sobre a terra e o mar”, deitaram ferros e nos permitiram ir ao convés para sermos vistos € manuscados por nossos futuros senhores, que vieram da cidade. Desembarcamos a algumas milhas da cidade, na casa de um fazendeiro, que era usada como uma espécie de mercado de escravos. O fazendeiro tinha uma grande quantidade de escravos e não demorou muito para que eu o presenciasse empregando livremente seu chicote contra um rapaz. Essa cena causou-me uma impressão profunda pois, é claro, imaginei que em breve este seria meu destino. E oh!, não tardou, ai de mim, para que meus temores se realizassem. Quando desembarquei, senti-me grato à Providência por ter me permitido respirar ar puro novamente, pensamento este que absorvia quase. todos os outros. Pouco me importava, então, de ser um escravo, havia me safado do navio e era apenas nisso que eu pensava. Alguns escravos a bordo sabiam falar português. Haviam vivido no litoral com famílias portuguesas e faziam o papel de intérpretes. Não eram colocados no porão como nós, mas desciam ocasionalmente para nos dizer uma coisa ou outra. Estes escravos nunca sabiam que seriam despachados até o momento em que eram colocados a bordo do navio. Permaneci nesse mercado de escravos apenas um dia ou dois, antes de ser vendido a outro traficante na cidade que, por sua vez, me revendeu a um homem do interior, que era padeiro e residia num lugar não muito distante de Pernambuco. Quando um navio negreiro aporta, a notícia espalha-se como um rastilho de pólvora, Acorrem, então, todos os interessados na chegada da embarcação com sua carga de mercadoria viva, selecionando do estoque Meu conhecimento da língua Portuguesa melhorou rapidamente enquanto estava ali e, muito em breve, conseguia contar até cem. Fui então encarregado pelo meu senhor de vender pão, primeiro percorrendo a vila, seguindo de lá para o campo e, ao entardecer, depois de ter voltado para casa, ia para o mercado onde vendia até as nove horas da noite. Como era bastante honesto, perseverante, geralmente vendia tudo mas, às vezes, não era tão bem sucedido e, nessas ocasiões, o açoite era meu quinhão. Meus companheiros de cativeiro não eram tão constantes quanto eu, sendo muito dados à bebida e, por isso, eram menos rentáveis para meu senhor. Aproveitei disso para procurar elevar-me em sua opinião, sendo muito prestativo e obediente, mas tudo em vão; fizesse o que fizesse, descobri que servia a um tirano e nada parecia satisfazê-lo. Então comecei a beber como os outros €, assim, éramos todos da mesma laia, mau senhor, maus escravos. As coisas iam de mal a pior e estava muito ansioso para trocar de senhor, então tentei fugir mas logo fui apanhado, atado e restituído a ele. Em seguida, tentei ver o que me aconteceria se fosse desleal e indolente. Assim, um dia, quando me mandaram vender pão como de costume, vendi apenas uma pequena quantia e, com o dinheiro que recebi, comprei uísque e bebi à vontade, voltando para casa bastante embrigado. Quando fui fazer as contas da diária, meu senhor pegou minha cesta e, descobrindo o estado em que as coisas estavam, fui muito severamente espancado. Eu disse a ele que não deveria mais me açoitar € fiquei com tanta raiva que me veio à cabeça a idéia de matá-lo e, em seguida, suicidar-me. Por fim, resolvi me afogar. Preferia morrer do que viver sendo um escravo. Corri então até o rio € me joguei na água mas, como fui visto por algumas pessoas que estavam num barco, fui salvo. A maré estava baixa, senão seus esforços teriam provavelmente sido inúteis e, não obstante a minha predisposição, agradeci a Deus por ter preservado minha vida e impedido que um ato tão perverso se consumasse. Isse me levou a refletir seriamente que “Deus se move por caminhos misteriosos” e que todos os seus atos são atos de benevolência e misericórdia. Nessa época, eu cra apenas um pobre pagão, quase tão ignorante quanto um Hotentote, e não havia aprendido sobre o verdadeiro Deus ou quaisquer de seus mandamentos Divinos. No entanto, embora fosse ignorante e escravo odiava a escravidão, principalmente porque, suponho, era uma de suas vítimas. Depois deste triste atentado contra minha vida, fui levado à casa de meu senhor que atou minhas mãos para trás, colocou-me de pés juntos, chicoteou-me sem misericórdia e me espancou na cabeça e nas faces com uma vara pesada, em seguida ele me sacudiu pelo pescoço e lançou minha cabeça contra os batentes da porta cortando e contundindo a região em torno 275 de minhas têmporas. As cicatrizes desse tratamento selvagem são visíveis até hoje e assim permanecerão pelo resto de minha vida. Depois de toda essa crueldade, ele me levou à cidade e me vendeu a um traficante ao qual já haviam me enviado uma vez. Porém, naquela ocasião, seus amigos lhe haviam aconselhado a não se desfazer de mim, pois consideravam que ele se beneficiaria mais me mantendo, já que eu era um escravo rentável. Não relatei nem uma décima parte do cruel sofrimento que suportei enquanto servia a esse patife com feições humanas. Os limites desta obra não permitirão mais que uma olhada apressada às diferentes cenas que aconteceram em minha carreira. Poderia contar mais do que seria agradável a “ouvidos educados”, o que, certamente, não faria bem algum. Poderia relatar acontecimentos que “congelariam vosso sangue juvenil, dilacerariam vossa alma, e fariam cada fio de cabelo se erguer como os espinhos de um amedrontado porco espinho”. Contudo, seria apenas uma repetição dos mil e um contos, frequentemente narrados, dos horrores do cruel sistema da escravidão. O homem a quem fui novamente vendido era de fato muito cruel. Ele comprou duas fêmeas na ocasião em que me adquiriu. Uma delas era uma menina muito bonita a quem ele tratou com escandalosa barbaridade. Depois de algumas semanas, ele me despachou de navio para o Rio de Janeiro onde permaneci duas semanas até ser vendido novamente. Havia lá um homem de cor que queria me comprar mas, por uma ou outra razão, não fechou o negócio. Menciono esse fato apenas para ilustrar que a posse de escravos se origina no poder, e qualquer um que dispõe dos meios para comprar seu semelhante com o vil metal pode se tornar um senhor de escravos, não importa qual seja a sua cor, seu credo ou sua nacionalidade; e que o homem negro escravizaria seu semelhante tão prontamente quanto o homem branco, tivesse ele o poder. Finalmente, fui vendido para o Capitão de um navio que poderia ser qualificado de um “caso difícil”. Ele me convidou para conhecer sua Senhora (esposa)" . Fiz minha melhor reverência para ela e, em breve, fui instalado em meu novo posto, que consistia em polir as peças de bronze que se encontravam no navio, lavar as facas e os garfos, e fazer outras pequenas tarefas que têm que ser feitas na cabine. De início, não gostei da minha situação mas, ao me familiarizar com a tripulação e o restante dos escravos, me dei bastante bem. Em pouco tempo fui promovido ao cargo de segundo camareiro. O camareiro cuidava da dispensa e eu levava as provisões ao cozinheiro e servia à mesa; como era bem esperto, eles me mantinham muito ocupado. Pouco tempo depois, o capitão e o camareiro tiveram um * Grafado desta forma no original, seguido pela tradução para o inglês “(wife)”, NT) 276 sobre sua missão de paz e boa vontade para com todos os homens, nem havia ouvido falar naquela boa terra, tão graciosamente descrita pclo poeta, “uma terra de puro deleite onde habitam santos imortais”, terra prometida, da qual a cada dia o Cristão mais se aproxima. Não! Essas “novas de grande alegria” não haviam sido transmitidas à minha mente sombria € tudo era negro desespero. Mas, quando ouvi as palavras do Salvador, “vinde a mim todos os que estais oprimidos e eu vos aliviarei”, eu o procurei e encontrei e foi como um bálsamo para as minhas feridas, uma consolação para minha alma atormentada. Quando penso em tudo isso e considero o passado, fico feliz por seguir lutanto neste mundo para cumprir minha missão aqui, e fazer o trabalho de que sou incumbido. Ah! Cristandade, vós que sois apaziguadora dos sofrimentos do homem, guia dos cegos e força dos fracos, ide em vossa missão, anunciai em toda parte as pacíficas novas de salvação e fazei feliz o coração do homem e, “então, o deserto será feliz e florescerá como a rosa”. Então, a escravidão com todos os seus horrores finalmente chegará a seu término pois ninguém possuindo o vosso poder e sob vossa influência pode perpetuar um chamado tão completamente discrepante e repugnante a todas as vossas doutrinas. Depois de muito trabalho, atracamos em perfeita segurança. Durante essa viagem, suportei mais punições corporais do que em toda a minha vida. Um dia, O contramestre, um camarada que era um perfeito bruto, mandou-me lavar a embarcação, quando acabei o serviço, ele apontou para um lugar onde disse haver uma mancha e, blasfemando, ordenou-me que esfregasse ali novamente, o que fiz. Porém, como não estava de bom humor, ordenou-me que fizesse aquilo uma terceira vez, e assim por diante, Ao perceber que cra apenas um capricho, não havendo mancha alguma para limpar, enfim recusei-me a continuar esfregando. Ele então me atacou com um cabo de vassoura c, tendo o escovão de esfrega em minha mão, eu o ergui contra elc. O senhor, que viu tudo o que se passava, ficou muito bravo comigo por tentar atingir o contramestre. Ordenou a um de seus imediatos que lhe cortasse um pedaço de corda; ele me disse que seria açoitado, e eu respondi “muito bem”, mas continuei trabalhando, mantendo sempre um olho nele, observando seus movimentos. Quando havia servido o café da manhã, ele veio por trás de mim antes que cu pudesse sair de seu caminho, e me bateu nos ombros com a corda que, sendo muito comprida, pendcu para baixo e me acertou com muita força no estômago, provocando dor e náuseas; a força com a qual esse golpe me acertou me derrubou e, assim, prostado no convés, ele me espancou de um modo estremamente brutal. Minha senhora interveio, a essa altura, salvando-me de violências adicionais. 278 Permanecemos no Rio de Janeiro por quase um mês. Enquanto estávamos lá, ocorreu um incidente que passo a relatar como ilustração do sistema da escravidão. . . Um dia, tive que ir à terra com meu senhor como um dos remadorcs. Enquanto estive lá, bebi vinho à vontade e, vendo meu senhor por perto, voltando para o bote, fui em direção ao lugar onde este se encontrava e, estando um tanto atordoado com a bebida e perturbado por ter visto meu senhor, caí na água mas, como era raso, não sofri nada além de um bom mergulho por conta de minha bebedeira. Fui retirado de lá com facilidade. Enquanto remava, minha cabeça girava muito, devido aos efeitos do álcool que tinha bebido e, consegiientemente, não puxava o remo com firmeza. Quando meu senhor, vendo que eu estava em apuros, perguntou o que havia comigo, eu respondi “nada senhor”; ele perguntou mais uma vez, “você andou bebendo?” eu respondi, não senhor! Assim, sendo mal tratado, aprendi a beber e, a partir disso, aprendi a mentir e, sem dúvida teria ido, passo a passo, de mal a pior até que nada fosse suficientemente vil para meu gosto, € tudo isso por meio do horrível sistema da escravidão. Fico feliz, porém, ao dizer que fui levado, pela graça de Deus, a abandonar meus hábitos pecaminosos. Quando a carga foi desembarcada, um mercador Inglês, que tinha uma quantidade de café para ser transportada para Nova Iorque, contratou os serviços de meu senhor. Estipulou-se, depois de algum tempo, que eu o acompanharia, juntamente com vários outros, para servi-lo a bordo do navio. Tínhamos aprendido que em Nova Torque não havia escravidão, que era um país livre e que, uma vez ali, nada tínhamos a temer de nossos cruéis senhores e estávamos muito ansiosos para chegar lá. Antes de zarpar, fomos informados de que íamos para uma terra de liberdade. Disse, então, você nunca mais me verá, uma vez que tenhamos chegado lá. A idéia de estar a caminho de um país livre me enchia de alegria e despontava em mim um raio de esperança de que não estava distante o dia em que seria um homem livre. Na verdade, já me sentia livre! Como era belo o resplandecer do sol naquela manhã memorável, a manhã da nossa partida para a terra da liberdade sobre a qual tanto havíamos ouvido falar. Os ventos também estavam favoráveis, logo as velas se desfraldaram diante da brisa animadora e nosso navio rumou para aquela terra feliz. Durante aquela viagem, as obrigações do serviço pareciam leves, na verdade, em antecipação à visão daquela terra grandiosa e absolutamente nada me pertubava. Obedeci a todas as ordens de bom grado e com vivacidade. Aquela foi a época mais feliz de minha vida, mesmo agora meu coração palpita com jubiloso deleite quando penso naquela viagem, e creio que Deus todo misericordioso tudo ordenou para o meu bem; como me sentia grato. 279 Assim que me desataram avancei em direção ao capitão, que deu ordens aos homens para me prenderem na proa do navio € não deixarem que eu me aproximasse dele novamente, Os cortes e machucados me deixaram tão dolorido que não consegui fazer nada por vários dias. Enquanto estava doente, o capitão me mandava boas provisões de sua própria mesa, sem dúvida para conciliar-se comigo depois dos maus feitos cruéis que me havia infligido, mas foi em vão. Não tinha a menor pressa em voltar novamente ao trabalho, já que antes disso ele muitas vezes fez com que eu fosse açoitado por não conseguir realizar algo que demandaria o trabalho de três homens. Assim, dali em diante, senti-me inclinado a deixá- lo passar sem quaisquer de meus serviços. A escravidão é má, a escravidão é um erro. Esse capitão fez uma enorme quantidade de coisas cruéis que seria horrível relatar. Ele tratava as escravas com imensa crueldade e barbaridade. Ele impunha toda a sua vontade, não havia ninguém para tomar o partido delas. Ele era, naquele tempo, o “monarca de tudo o que estivesse sob sua vista”, o “rei da casa flutuante”, ninguém ousava contestar seu poder ou controlar sua vontade. Mas está se aproximando o dia em que seu poder scrá investido em outro é de sua intendência terá que prestar contas. E, ai, que explicação poderia ele dar para os crimes impediosos cometidos sobre os corpos contorcidos dos pobres miseráveis que estavam sob seu jugo, quando seu reinado cessar e a grande prestação de contas chegar, o que ele dirá? Qual será seu destino? Isso só será revelado quando o grandioso livro for aberto. Que Deus o perdoe (em sua infinita misericórdia) pelas torturas infligidas em seus semelhantes, embora de aparência diferente, A primeira palavra do Inglês que meus dois companheiros e eu aprendemos foi L-i-v-r-e; ela nos foi ensinada por um Inglês a bordo e, oh! quantas e quantas vezes eu a repeti. Esse mesmo homem contou-me muito a respeito da cidade de Nova Iorque, (ele sabia falar Português). Ele me contou que as pessoas de cor em Nova Iorque eram todas livres, o que me fez sentir muito feliz e ansiava pelo dia vindouro quando estaria lá. O dia, enfim, chegou, mas não era coisa fácil fugir, para dois rapazes e uma moça que sabiam falar apenas uma palavra de Inglês, não tendo, como tínhamos suposto, qualquer amigo para nos ajudar. Mas Deus era nosso amigo, como se comprovou no final, e fez surgir para nós muito amigos em uma terra estranha. O piloto que veio a bordo de nosso navio nos tratou com muita bondade — ele parecia diferente de qualquer pessoa que eu já tinha visto antes — &-essa pequena circunstância nos encorajou. No dia seguinte, muitas pessoas de cor vieram a bordo, e pergutaram se éramos livres. O capitão nos havia dito anteriormente para não contarmos que éramos escravos, mas não 281 atendemos ao seu desejo, e ele, ao ver tantas pessoas vindo a bordo, começou a temer que sua propriedade teria a idéia de dar no pé e fugir. Ele então, muito prudentemente, nos informou que Nova Iorque não era lugar para nós nos aventurarmos — que era um lugar muito ruim e que, tão certo como as pessoas iriam nos apanhar, nos matariam. Mas, quando estávamos a sós, concluímos que na primeira oportunidade nos arriscaríamos para ver como nós nos sairíamos em um país livre. Um dia, depois de ter tomado bastante vinho, fui imprudente a ponto de dizer que não ficaria mais a bordo, que eu seria livre. O capitão, ouvindo isso, me chamou lá embaixo e ele e mais três tentaram me prender, mas não conseguiram; no fim, porém, eles conseguiram me prender num quarto da proa. Fiquei confinado alí vários dias. O homem que trazia minha comida batia na porta e, se eu lhe dissesse para entrar, ele entrava, se não, ele passava ao largo de meu quarto e eu não pecebia comida. Numa ocasião cu. lhe disse que não permaneceria preso ali vivo nem mais um dia, que iria sair. E, ao anoitecer, havendo alguns pedaços de ferro no quarto, apanhei um deles — uma barra com cerca de dois pés de comprimento — e com esta abri a porta à força e fui-mc embora. Os homens estavam todos ocupados trabalhando e a esposa do capitão estava em pé no convés quando subi de minha prisão. Eu os ouvi perguntando uns aos outros quem havia me deixado sair, mas ninguém soube dizer. Fiz mesuras diante da mulher do capitão e segui adiante, para a amurada da embarcação. Havia uma prancha estendida do navio à terra. Atravessei-a andando c saí correndo como se fosse por minha vida, sem saber, é claro, para onde ia. Fui observado em minha fuga por um vigia que-era um pouco manco. Ele procurou me deter, mas me safei dele e segui em frente até alcançar uma loja em cuja porta me detive um pouco para respirar. Eles me perguntaram o que é que havia, mas eu não podia lhes contar já que não sabia nada de Inglês exceto a palavra L-i-v-r-e. Pouco depois, o vigia manco c outro homem me alcançaram. Um deles tirou uma estrela brilhante do bolso e me mostrou, mas eu não conseguia compreender o que ele queria com isso. Fui então levado para a casa de guarda e trancafiado ali a noite inteira. Na manhã seguinte o capitão chegou, pagou as despesas e me levou com ele dc volta ao navio. Os oficiais me disseram que eu seria um homem livre se assim escolhesse, mas eu não sabia como agir. Assim, depois de um pouco de persuasão por parte do capitão, este me induziu a voltar com ele, pois não havia o que temer. Isso aconteceu num Sábado, € nas Segunda-feira seguinte, à tarde, três carruagens chegaram, parando perto da embarcação. Alguns cavalheiros desceram delas e vieram a bordo. Eles andaram de um lado para 0 outro do convés conversando com o capitão, dizendo-lhe que todos a bordo eram livres e exigindo que ele hasteasse a bandeira. Ele enrubesceu um bocado e disse que não o faria, 282 preferido ir para lá, especialmente porque, como soube posteriormente, quase todos os ingleses são amigos do homem de cor e de sua raça, e eles têm feito muito pelo meu povo em termos de seu bem-estar e progresso e continuam lutando até hoje pela causa abolicionista e por todas as outras boas causas. Naquelas circunstâncias, resolvi ir para o Haiti; assim sendo, uma passagem gratuita foi providenciada para nós e uma quantidade considerável de provisões foi angariada para meu consumo durante a viagem.(...)”