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Vivi grande parte de minha infância, no período de 1956 a 1967, na fazenda Bela Vista, propriedade de meus pais nas redon- dezas de Catanduva. Morávamos em um casarão construído no começo do século, muito alto e alicerçado sobre porões. Tinha grandes portas e janelas, uma ampla varanda a marcar a entrada, entrelaçada com trepadeiras que a refrescavam com sombra aco- lhedora. Era todo rodeado de “flamboyants” floridos, cheirosos jambeiros e muitas outras árvores enormes. Apesar das diversas possibilidades de uma criança encontrar num lugar como esse motivos para brincar e divertir-se, eu me lembro de que meus entretimentos preferidos eram escutar minha mãe tocar piano; e construir com argila ídolos, estatuetas e templos com altas colunas, os quais eu utilizava para criar histórias curiosas. Fantasiava e imaginava as personagens durante a noite em meus sonhos, para materializá-las depois, durante o dia, entre dramas e acontecimentos interessantes. Outro fato que me marcou profundamente foi que ao ama- nhecer, quase todos os dias, fazia do criado-mudo do meu quarto o altar de uma igreja, gesticulando com as mãos, distribuindo bênçãos para os meus pais e minhas três irmãs, além de hóstias de miolo de pão feitas por mim. Se reúno aqui algumas dentre as muitas recordações de minha infância é somente para mostrar que, antes de entender-me como pessoa neste mundo e antes de possuir plena consciência das coisas, já se manifestavam em mim fortes reminiscências de vidas passadas, assim como tendências profundas pela religiosidade e interesses vigorosos pela vida espiritual. Posteriormente, no início de minha adolescência, mudamo- nos para a cidade, onde me recordo das sucessivas indagações a respeito do fenômeno “morte” que percorriam minha mente. Imensa curiosidade me envolvia quando acompanhava meus pais nos velórios de parentes e de amigos da família, pois reflexionava naqueles momentos, querendo desvendar a qualquer preço os mistérios do além-túmulo. Durante os intervalos das aulas
no Instituto de Educação Barão do Rio Branco, onde estudava, por seu prédio encontrar-se ao lado do cemitério local, eu tinha a possibilidade, às vezes, de acompanhar o sepultamento de pessoas das mais diversas classes sociais. Observando os funerais, sempre indagava de mim mesmo o porquê de caixões humildes com tampos de pano ou das umas caras com enfeites de bronze; das corbelhas de flores exóticas ou dos ramalhetes de flores caseiras; dos mausoléus suntuosos de mármore ou das covas rasas de terra batida. Se todos tinham a mesma destinação com a morte do corpo físico, por que tantos contrastes? Para onde iam as almas? Como viviam? Quais os critérios para se viver bem após a morte? Precisamente aos dezessete anos, ao ser tocado pela me- diunidade redentora, fui levado a descobrir gradativamente todas as respostas para as perguntas que povoavam há anos meu espírito sedento pelas coisas espirituais. Passei, então, por diferentes correntes religiosas e em algumas exercitei a mediunidade, aprendendo as primeiras lições sobre a reencarnação e sobre a vida no além. No entanto, foi em 1973 que, pela primeira vez, tomei contato com as obras “O Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec, e “Voltei”, do Irmão Jacob, presentes do querido amigo Diomar Zeviam, nas quais pude sentir uma atmosfera de recordações saudosas associada à emoção de já ter visto e apreciado todos aqueles textos e ensinamentos. Apesar de há muito o meu instrutor espiritual Hammed, junto de outros tantos espíritos bondosos que me assistem, estar presen- te dirigindo minhas faculdades mediúnicas através da psicofonia, somente em novembro de 1974 recebi minha primeira página psicografada. Tinha como título “O Valor da Oração” e vinha assi- nada pelo espírito Ivan de Albuquerque, entidade amiga até então completamente desconhecida em meu círculo de atividades espirituais. No decorrer desses quase vinte e cinco anos nas tarefas da mediunidade, recebi centenas de mensagens, realizando o devido exercício de ajustamento e flexibilidade que esses mesmos mentores diziam que eu necessitava ter para ser um elemento mais afinado com eles, para adquirir boa receptividade e produzir convenientemente. Ao longo desses anos, aprendi a admirar o Bem cada vez mais e, por meio dele, edifiquei, com outros tantos amigos, a Socie- dade Espírita Boa Nova, nascida de um trabalho despretensioso de um grupo de jovens em 1981. Os anos passaram e as atividades na
Costuma mostrar-se espiritualmente, ora com roupagem característica de um indiano, ora com trajes da época do rei francês Luís XIII. Em meus encontros com ele durante o sono, pude guardar com nitidez seu semblante sereno e ao mesmo tempo firme, o que facilitou a descrição precisa que fiz ao pintor catanduvense Morgilli, que o retratou em 1988 com muita originalidade. Hammed tem sido para mim não somente um mestre lúcido e lógico, mas também um amigo dedicado e compreensivo. Recebo sempre suas lições com muita atenção e carinho, porque ele tem mostrado possuir uma sabedoria e coerência ímpares, quando me orienta sobre fatos e ocorrências inerentes à tarefa na qual estamos ligados no Espiritismo. Explica-me demoradamente, quando preciso, as causas reais dos encontros, reencontros e desencontros com as criaturas e o porquê das dores e conflitos do hoje, mostrando-me sempre a origem dos fatos - verdadeiros motivos que culminaram nos acontecimentos agradáveis e desagradáveis do presente. Portanto, não poderia deixar de vir publicamente, no limiar deste livro, agradecer ao meu querido Benfeitor Espiritual todas as bênçãos de entendimento e paz que ele me tem proporcionado, bem como rogar ao Senhor da Vida que o abençoe e o ilumine agora e para sempre.
Catanduva, 4 de julho de 1997.
Francisco do Espírito Santo Neto
Recolhemos trechos de algumas mensagens de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, para tecer alguns comentários aos leitores amigos, na esperança de que possam renovar suas atitudes sob a inspiração de Jesus Cristo. Estudar e refletir sobre a profunda sabedoria do Mestre, emérito conhecedor da psique humana, a qual Ele sabia ser a fonte das causas reais dos sofrimentos, nos torna mais francos e honestos com nós mesmos e com os outros e nos possibilita a extinção de nossas reações neuróticas nas múltiplas situações da vida, reações essas que nos impedem o autoconhecimento e anulam toda e qualquer possibilidade de relacionamento sadio e sincero com os outros.
O Mestre sabia das nossas dificuldades de perceber a realidade, dos esconderijos psicológicos que edificamos como métodos de defesa e dos inúmeros papéis e jogos que cultivamos inconscientemente para não assumir responsabilidades ou para camuflar nossas diversas predisposições. O Evangelho à luz da obra de Kardec retém um enorme manancial para edificarmos nossos valores morais na renovação de nossas atitudes e para redescobrirmos nossas verdadeiras poten- cialidades, que herdamos da Paternidade Divina. As armadilhas do ego, as presunções da ilusão, as dependências e inseguranças, as falsas vocações ou as reais tendências podem ser identificadas com clareza se examinarmos com atenção nossos limites, fazendo autoobservação da vida em nós e fora de nós mesmos. Ao apresentarmos estas páginas aos leitores amigos, não temos a pretensão de impor regras ou determinar caminhos, nem mesmo regulamentar quais são as melhores atitudes a serem tomadas. Por termos plena consciência da imensa diversidade dos níveis de amadurecimento dos seres humanos, regidos como todos estamos pela “Lei das Vidas Sucessivas”, compreendemos que cada ser está num determinado estágio evolutivo e, portanto, fazendo tudo o que lhe é possível fazer no momento, ou seja, conduzindo-se no agora com o melhor de si mesmo. Tomemos a Natureza como exemplo: entendemos que passaríamos por incoerentes se censurássemos um botão de rosa ainda fechado por não estarjá totalmente desenvolvido ou aberto; ou se recriminássemos uma roseira por não ter dado a mesma quantidade de botões do que a roseira plantada a seu lado e cultivada no mesmo canteiro. Na realidade, afirmar aos outros quais atitudes eles deveriam ter é desrespeitar sua natureza íntima, ou seja, seu próprio grau de crescimento espiritual. O conteúdo deste livro tem a intenção de contribuir para que todos nós possamos reflexionar sobre o porquê das atitudes humanas, a fim de poder entendê-las em seus diversos matizes comportamentais e, como conseqüência, melhorar a nós próprios, reconstruindo-nos ou transformando-nos interiormente, para que o Reino dos Céus se edifique dentro de nós mesmos. Não podemos assegurar que nestas páginas vocês encontrarão sempre interpretações novas e inéditas, pois sabemos que existem excelentes obras amplamente habilitadas a dar grande contribuição, da mesma forma que outros tantos companheiros poderão suprir nossa dificuldade de expressão, com maior com- petência e destreza.
nos servimos para emitir opiniões ou pontos de vista, a fim de harmonizarmos e resguardarmos tudo aquilo em que acreditamos como sendo “verdades absolutas”. Em outras palavras, como forma de defender e proteger nossos “valores sagrados”, isto é, nossas aquisições mais fortes e poderosas, que nos servem como forma de sustentação. Em razão disso, os freqüentes julgamentos que fazemos em relação às outras pessoas nos informam sobre tudo aquilo que temos por dentro. Explicando melhor, a “forma” e o “material” utilizados para sentenciar os outros residem dentro de nós. Melhor do que medir ou apontar o comportamento de alguém seria tomarmos a decisão de visualizar bem fundo nossa intimidade, e nos perguntarmos onde está tudo isso em nós. Os indivíduos podem ser considerados, nesses casos, excelente espelho, no qual veremos quem somos realmente. Ao mesmo tempo, teremos uma ótima oportunidade de nos transformar intimamente, pois estaremos analisando as características gerais de nossos conceitos e atitudes inadequados. Só poderemos nos reabilitar ou reformar até onde con- seguimos nos perceber; ou seja, aquilo que não está consciente em nós dificilmente conseguiremos reparar ou modificar. Quando não enxergamos a nós mesmos, nossos compor- tamentos perante os outros não são totalmente livres para que pos- samos fazer escolhas ou emitir opiniões. Estamos amarrados a for- mas de avaliação, estruturadas nos mecanismos de defesa - processos mentais inconscientes que possibilitam ao indivíduo manter sua integridade psicológica através de uma forma de “auto- engano.” Certas pessoas, simplesmente por não conseguirem conviver com a verdade, tentam sufocar ou enclausurar seus sentimentos e emoções, disfarçando-os no inconsciente. Em todo comportamento humano existe uma lógica, isto é, uma maneira particular de raciocinar sobre sua verdade; portanto, julgar, medir e sentenciar os outros, não se levando em conta suas realidades, mesmo sendo consideradas preconceituosas, neuróticas ou psicóticas, é não ter bom senso ou racionalidade, pois na vida somente é válido e possível o “autojulgamento”. Não obstante, cada ser humano descobre suas próprias formas de encarar a vida e tende a usar suas oportunidades vivenciais, para tornar-se tudo aquilo que o leva a ser um “eu individualizado”. Devemos reavaliar nossas idéias retrógradas, que estreitam nossa personalidade, e, a partir daí, julgar os indivíduos de forma
não generalizada, apreciando suas singularidades, pois cada pessoa tem uma consciência própria e diversificada das outras tantas consciências. Julgar uma ação é diferente de julgar a criatura. Posso julgar e considerar a prostituição moralmente errada, mas não posso e não devo julgar a pessoa prostituída. Ao usarmos da empatia, colocando-nos no lugar do outro, “sentindo e pensando com ele”, em vez de “pensar a respeito dele”, teremos o comportamento ideal diante dos atos e atitudes das pessoas. Segundo Paulo de Tarso, “é indesculpável o homem, quem quer que seja, que se arvora em ser juiz. Porque julgando os outros, ele condena a si mesmo, pois praticará as mesmas coisas, atraindo-as para si, com seu julgamento”. (1) O “Apóstolo dos Gentios” manifesta-se claramente, evidenciando nessa afirmativa que todo comportamento julgador estará, na realidade, estabelecendo não somente uma sentença, ou um veredicto, mas, ao mesmo tempo, um juízo, um valor, um peso e uma medida de como julgaremos a nós mesmos. Essencialmente, tudo aquilo que decretamos ou sentenciamos tornar-se-á nossa “real medida”: como iremos viver com nós mesmos e com os outros. O ser humano é um verdadeiro campo magnético, atraindo pessoas e situações, as quais se sintonizam amorosamente com seu mundo mental, ou mesmo de forma antipática com sua maneira de ser. Dessa forma, nossas afirmações prescreverão as águas por onde a embarcação de nossa vida deverá navegar. Com freqüência, escolhemos, avaliamos e emitimos opiniões e, conseqüentemente, atraímos tudo aquilo que irradiamos. A psicologia diz que uma parte considerável desses pensamentos e experiências, os quais usamos para julgar e emitir pareceres, acon- tece de modo automático, ou seja, através de mecanismos não per- ceptíveis. É quase inconsciente para a nossa casa mental o que escolhemos ou opinamos, pois, sem nos dar conta, acreditamos estar usando o nosso “arbítrio”, mas, na verdade, estamos optando por um julgamento predeterminado e estabelecido por “arquivos que registram tudo o que nos ensinaram a respeito do que deveríamos fazer ou não, sobre tudo que é errado ou certo. Poder-se-á dizer que um comportamento é completamente livre para eleger um conceito eficaz somente quando as decisões não estão confinadas a padrões mentais rígidos e inflexíveis, não estão estruturadas em conceitos preconceituosos e não estão alicerçadas em idéias ou situações semelhantes que foram vivenciadas no passado.
(1) Romanos, 2:
Capítulo 5, item 20
“... Assim, pois, aqueles que pregam ser a Terra a única morada do homem, e que só nela, e numa só existência, lhe é permitido atingir o mais alto grau das felicidades que a sua natureza comporta, iludem-se e enganam aqueles que os escutam...” (Capítulo 5, item 20.)
As estradas que nos levam à felicidade fazem parte de um método gradual de crescimento íntimo cuja prática só pode ser exercitada pausadamente, pois a verdadeira fórmula da felicidade é a realização de um constante trabalho interior. Ser feliz não é uma questão de circunstância, de estarmos sozinhos ou acompanhados pelos outros, porém de uma atitude comportamental em face das tarefas que viemos desempenhar na Terra. Nosso principal objetivo é progredir espiritualmente e, ao mesmo tempo, tomar consciência de que os momentos felizes ou infelizes de nossa vida são o resultado direto de atitudes distorcidas ou não, vivenciadas ao longo do nosso caminho. No entanto, por acreditarmos que cabe unicamente a nós a responsabilidade pela felicidade dos outros, acabamos nos esquecendo de nós mesmos. Como conseqüência, não ad- ministramos, não dirigimos e não conduzimos nossos próprios passos. Tomamos como jugo deveres que não são nossos e assumimos compromissos que pertencem ao livre-arbítrio dos outros. O nosso erro começa quando zelamos pelas outras pessoas e as protegemos, deixando de segurar as rédeas de nossas decisões e de nossos caminhos. Construímos castelos no ar, sonhamos e sonhamos irrealidades, convertemos em mito a verdade e, por entre ilusões românticas, investimos toda a nossa felicidade em relacionamentos cheios de expectativas coloridas, condenando-nos sempre a decepções crônicas. Ninguém pode nos fazer felizes ou infelizes, somente nós mesmos é que regemos o nosso destino. Assim sendo, sucessos ou fracassos são subprodutos de nossas atitudes construtivas ou destrutivas.
A destinação do ser humano é ser feliz, pois todos fomos criados para desfrutar a felicidade como efetivo patrimônio e direito natural. O ser psicológico está fadado a uma realização de plena alegria, mas por enquanto a completa satisfação é de poucos, ou seja, somente daqueles que já descobriram que não é necessário compreender como os outros percebem a vida, mas sim como nós a percebemos, conscientizando-nos de que cada criatura tem uma maneira única de ser feliz. Para sentir as primeiras ondas do gosto de viver, basta aceitar que cada ser humano tem um ponto de vista que é válido, conforme sua idade espiritual. Para ser feliz, basta entender que a felicidade dos outros étambém a nossa felicidade, porque todos somos filhos de Deus, estamos todos sob a Proteção Divina e formamos um único re- banho, do qual, conforme as afirmações evangélicas, nenhuma ovelha se perderá. É sempre fácil demais culparmos um cônjuge, um amigo ou uma situação pela insatisfação de nossa alma, porque pensamos que, se os outros se comportassem de acordo com nossos planos e objetivos, tudo seria invariavelmente perfeito. Esquecemos, porém, que o controle absoluto sobre as criaturas não nos é vantajoso e nem mesmo possível. A felicidade dispensa rótulos, e nosso mundo seria mais repleto de momentos agradáveis se olhássemos as pessoas sem limitações preconceituosas, se a nossa forma de pensar ocorresse de modo independente e se avaliássemos cada indivíduo como uma pessoa singular e distinta. Nossa felicidade baseia-se numa adaptação satisfatória ànossa vida social, familiar, psíquica e espiritual, bem como numa capacidade de ajustamento às diversas situações vivenciais. Felicidade não é simplesmente a realização de todos os nossos desejos; é antes a noção de que podemos nos satisfazer com nossas reais possibilidades. Em face de todas essas conjunturas e de outras tantas que não se fizeram objeto de nossas presentes reflexões, consideramos que o trabalho interior que produz felicidade não é, obviamente, meta de uma curta etapa, mas um longo processo que levará muitas existências, através da Eternidade, nas muitas moradas da Casa do Pai.
Capítulo 18, itens 10 e 11
sociais onde ocorrem essas mesmas experiências, estruturas se- xuais, masculinas ou femininas, e motivações várias desenvolvidas na atualidade particularizam os seres humanos com vocações, tendências, interesses, grau de raciocínio e discernimento “sui generis”. Relativos e não generalizados devem ser os modos de ver as coisas e as pessoas. O próprio direito penal classifica e pune os crimes dentro dos padrões do “intencional” ou “doloso”, “passional” ou “ocasional”. Por que o Poder Inteligente que nos rege iria julgar- nos sem levar em conta nosso “tempo da ignorância” e nossa relatividade? Como educar ou avaliar genericamente, usando o mesmo critério, crianças que receberam uma educação cheia de energia e vida, ensinadas a questionar e criar; a ter curiosidade e admiração pela natureza; e outras que só vivenciaram discussões, agressões e comportamentos medíocres por entre odores de bebidas alcoólicas e nicotina, sem uma visão saudável de Deus; ao contrário, temerosa, distorcida, adquirida através da crença de um ser amea- çador e temperamental? O Amor de Deus programou-nos simples inicialmente para permitir que nos desenvolvêssemos, de forma gradativa, até atingir maiores plenitudes e totalidades. Temos, pois, que seguir essa programação da Natureza, ou seja, caminhar dentro desse projeto estabelecido pelas leis uni- versais para atingirmos a nossa integração como seres espirituais. Esse processo evolucional nos mostra que podemos estar um pouco atrás, ou adiante, das criaturas, embora cada uma delas tenha suas características próprias e certas de acordo com sua idade astral. Nesse decurso evolutivo, todos nós passamos por fases de egoísmo e orgulho até atingirmos mais tarde as grandes virtudes da alma. Consideremos, portanto, que não seremos censurados por estar nessas fases “primitivas”, porque o que chamamos de “defeito” ou “inferioridade” seja, talvez, a passagem por esses ciclos iniciantes onde estagiamos. Lembremos que essas “fases” ou “ciclos” não foram criados por nós, mas pelos desígnios de Deus, que regem a Natureza como um todo. Coisas inadequadas que vemos em outras pessoas podem ser naturais nelas, ou mesmo do “tempo da sua ignorância”, e representam características próprias de sua etapa evolucional na estrada por onde todos transitamos, alguns mais avançados e outros na retaguarda. A vida moderna nos deu raciocínio e reflexão, maturação intelectual e um desenrolar de novas descobertas, ensinando-nos
formulações racionais surpreendentes para que melhor pudéssemos compreender os métodos de evolução e progresso em nós mesmos e no Universo. Não somos responsáveis por aquilo que não sabemos, não sofreremos um castigo por atos ou atitudes que ignoramos. Talvez essas idéias de punição, alienatórias, sejam os frutos da incapacidade de nossa reflexão sobre a Bondade Divina, O que chamamos de “sofrimento” é simplesmente “resultado” de nossa falta de habilidade para desenvolver as coisas corretamente, pois na vida não existem “prêmios” nem “castigos”, somente as conse- qüências dos nossos atos. Vale, porém, considerar que, à medida que nossa consciência se expande e maior lucidez se faz em nossa mente, maiores serão nossos compromissos perante a existência. “Se fôsseis cegos, não teríeis pecado; mas agora dizeis que vedes e é por isso que vosso pecado permanece em vós”. (3) Podemos pretextar ignorância, mas se tivermos consciência de nossos feitos isso sempre será levado em conta. Avaliemos atentamente: os tesouros da alma que já inte- gramos nos obrigarão a prestar maiores ou menores contas perante a Vida Maior.
(1) Atos 17:30. (2) Lucas 12:48. (3) João 9:41.
Capítulo 17, item 7
“... O dever começa precisamente no ponto em que ameaçais a felicidade ou a tranqüilidade do vosso próximo; termina no limite que não gostaríeis de ver ultrapassado em relação a vós mesmos...” (Capítulo 17, item 7.)
Como decifrar o dever? De que maneira observar o dever íntimo impresso na consciência, diante de tantos deveres sociais, profissionais e afetivos que muitas vezes nos impõem caminhos divergentes? Efetivamente, nasceste e cresceste apenas para ser único no mundo. Em lugar algum existe alguém igual a tua maneira de ser; portanto, não podes perder de vista essa verdade, para encontrar o
objetivos e finalidades de vida têm valor unicamente para nós; os dos outros, particularmente para eles. Obrigação pode ser conceituada como sendo o que deve- ríamos fazer para agradar as pessoas, ou para nos enquadrar no que elas esperam de nós; jáo dever é um processo de auscultar a nós mesmos, descortinando nossa estrada interior, para, logo após, materializá-la num processo lento e constante. Ao decifrarmos nosso real dever, uma sensação de auto- realização toma conta de nossa atmosfera espiritual, e passamos a apreciar os verdadeiros e fundamentais valores da vida, associados a um prazer inexplicável. Lembremo-nos da afirmação do espírito Lázaro em “O Evangelho Segundo o Espiritismo”: “O dever é a obrigação moral, diante de si mesmo primeiro, e dos outros em seguida”. (1)
(1) O Evangelho Segundo o Espiritismo - Capítulo 17º, item 7.
Capítulo 10, item 2
“Se perdoardes aos homens as faltas que eles fazem contra vós, vosso Pai celestial vos perdoará também vossos pecados, mas se não perdoardes aos homens quando eles vos ofendem, vosso Pai, também, não vos perdoará os pecados.” (Capítulo 10, item 2.)
Nosso conceito de perdão tanto pode facilitar quanto limitar nossa capacidade de perdoar. Por possuirmos crenças negativas de que perdoar é “ser apático” com os erros alheios, ou mesmo, é aceitar de forma passiva tudo o que os outros nos fazem, é que supomos estar perdoando quando aceitamos agressões, abusos, manipulações e desrespeito aos nossos direitos e limites pessoais, como se nada tivesse acontecendo. Perdoar não é apoiar comportamentos que nos tragam dores físicas ou morais, não é fingir que tudo corre muito bem quando sabemos que tudo em nossa volta está em ruínas. Perdoar não é“ser conivente” com as condutas inadequadas de parentes e ami- gos, mas ter compaixão, ou seja, entendimento maior através do amor incondicional. Portanto, é um “modo de viver O ser humano, muitas vezes, confunde o “ato de perdoar” com a negação dos próprios sentimentos, emoções e anseios, repri-
mindo mágoas e usando supostamente o “perdão” como desculpa para fugir da realidade que, se assumida, poderia como conseqüência alterar toda uma vida de relacionamento. Uma das ferramentas básicas para alcançarmos o perdão real é manter-nos a uma certa “distância psíquica” da pessoa-problema, ou das discussões, bem como dos diálogos mentais que giram de modo constante no nosso psiquismo, porque estamos engajados emocionalmente nesses envolvimentos neuróticos. Ao desprendermo-nos mentalmente, passamos a usar de modo construtivo os poderes do nosso pensamento, evitando os “deveria ter falado ou agido” e eliminando de nossa produção imaginativa os acontecimentos infelizes e destrutivos que ocorreram conosco. Em muitas ocasiões, elaboramos interpretações exageradas de suscetibilidade e caímos em impulsos estranhos e desequili- brados, que causam em nossa energia mental uma sobrecarga, fazendo com que o cansaço tome conta do cérebro. A exaustão ínti- ma é profunda. A mente recheada de idéias desconexas dificulta o perdão, e somente desligando-nos da agressão ou do desrespeito ocorrido é que o pensamento sintoniza com as faixas da clareza e da nitidez, no processo denominado “renovação da atmosfera mental”. É fator imprescindível, ao “separar-nos” emocionalmente de acontecimentos e de criaturas em desequilíbrio, a terapia da prece, como forma de resgatar a harmonização de nosso “halo mental”. Método sempre eficaz, restaura-nos os sentimentos de paz e serenidade, propiciando-nos maior facilidade de harmonização interior. A qualidade do pensamento determina a “ideação” construtiva ou negativa, isto é, somos arquitetos de verdadeiros “quadros mentais” que circulam sistematicamente em nossa própria órbita áurica. Por nossa capacidade de “gerar imagens” ser fenomenal, é que essas mesmas criações nos fazem ficar presos em “mono- idéias”. Desejaríamos tanto esquecer, mas somos forçados a lembrar, repetidas vezes, pelo fenômeno “produção-conseqüência”. Desligar-se ou desconectar-se não é um processo que nos torna insensíveis e frios, como criaturas totalmente impermeáveis às ofensas e críticas e que vivem sempre numa atmosfera do tipo “ninguém mais vai me atingir ou machucar”. Desligar-se quer dizer deixar de alimentar-se das emoções alheias, desvinculando-se mentalmente dessas relações doentias de hipnoses magnéticas, de alucinações íntimas, de represálias, de desforras de qualquer matiz ou de problemas que não podemos solucionar no momento.
nelas o primeiro lugar, temendo que se encontre entre os convidados uma pessoa mais considerada que vós, e que aquele que vos tiver convidado não venha vos dizer: Dai vosso lugar a este...” “... todo aquele que se eleva será rebaixado, e todo aquele que se rebaixa será elevado.” (Capítulo 7, item 5.)
Querendo ilustrar suas prédicas, como sempre de modo claro e compreensível, Jesus de Nazaré considerava, certa ocasião, como os convidados de uma festividade se comportavam precipitadamente, na ânsia de tomar os lugares principais da mesa, com isso desrespeitando os princípios básicos do bom senso e da educação. Qual o teu lugar à mesa? Qual a tua posição no universo de ti mesmo? Essa a grande proposta feita pelo Mestre nesta parábola. Será que o lugar que ocupas hoje é teu mesmo? Ou influên- cias externas te levam a direções antagônicas de acordo com o teu modo de pensar e agir? Tens escutado a voz da alma, que é Deus em ti, ou escan- carado teus ouvidos às opiniões e conceitos dos outros? Nada pior do que te sentires deslocado na escola, profissão, circulo social ou mesmo entre familiares, porque deixas parentes, amigos, cônjuges e companheiros pensarem por ti, não permitindo que Deus fale contigo pelas vias inspirativas da alma. Essa inadaptação que sentes é fruto de teu deslocamento íntimo por não acreditares em tuas potencialidades. Achas-te incapaz, não por seres realmente, mas porque te fazes surdo às tuas escolhas e preferências oriundas de tua própria essência. Se permaneceres nesse comportamento volúvel, apontando freqüentemente os outros como responsáveis pela tua inadequação e conflitos, porque não assumes que és uma folha ao vento entre as vontades alheias, te sentirás sempre um solitário, ainda que rodeado por uma multidão. Porém, se não mais negares sistematicamente que tuas ações são, quase na totalidade, frutos do consenso que fizeste do somatório de conselhos e palpites vários, estarás sendo, a partir desse instante, convidado a sentar no teu real lugar, na mesa da existência. Por fim, perceberás com maior nitidez quem é que está mo- vimentando tuas decisões e o quanto de participação tens nas tuas opções vivenciais. No exame da máxima “todo aquele que se eleva será
rebaixado e todo aquele que se rebaixa será elevado”, vale consi- derar que não é a postura de se “dar ares” de humildade ou a de se rebaixar de forma exagerada e humilhante que te poderá levar àconscientização plena da tua localização dentro de ti mesmo. Sintonizando-te na verdadeira essência da humildade, que é conceituada como “olhar as coisas como elas são realmente”, e percebendo que a tua existência é responsabilidade unicamente tua, é que tu serás tu mesmo. Ser humilde é auscultar a origem real das coisas, não com os olhos da ilusão, mas com os da realidade, despojando-se da imaginação fantasiosa de uma ótica mental distorcida, nascida naqueles que sempre acham que merecem os “melhores lugares” em tudo. Vale considerar que, por não estarmos realizando um constante exercício de auto-observação, quase sempre deduzimos ou captamos a realidade até certo ponto e depois concluímos o restante a nosso bel-prazer, criando assim ilusões e expectativas desgastantes que nos descentralizam de nossos objetivos. Quem encontrou o seu lugar respeita invariavelmente o lugar dos outros, pois divisa a própria fronteira e, conseqüentemente, não ultrapassa o limite dos outros, colocando na prática o “amor ao próximo”. Para que encontres o teu lugar, é necessário que tenhas uma “simplicidade lúcida”, e o despojar dos teus enganos e fantasias fará com que encontres a autêntica humildade. Para que não tenhas que ceder teu lugar a outro, é indis- pensável que vejas as coisas como elas são realmente e que uses o bom senso como ponto de referência para o teu aprimoramento e para a tua percepção da verdade como um todo. Procura-te em ti mesmo: eis a possibilidade de sempre achares o lugar que te pertence perante a Vida Excelsa.
Capítulo 5, item 3
“... Por que uns nascem na miséria e outros na opulência, sem nada terem feito para justificar essa posição? Por que para uns nada dá certo, enquanto que para outros tudo parece sorrir?...” “... As vicissitudes da vida têm, pois, uma causa, e, uma vez que Deus é justo, essa causa deve ser justa. Eis do que cada um deve compenetrar-se bem...”