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Antônio Marcos Chaves Priscila de Lima Silva
A Teoria das Representações Sociais é uma abordagem psicosso- ciológica sobre o processo de construção do pensamento social. Foi pro- posta inicialmente por Serge Moscovici, psicólogo social, radicado na França, com a publicação em 1961 do livro “La psychanalyse, son image et son public” (Moscovici, 1961) 1. As representações sociais constituem um fenômeno que se apre- senta em diferentes formas, que têm maior ou menor complexidade, tais como: imagens, sistemas de referência, categorias e teorias (Monteiro Neto, 1998). De acordo com Jodelet (1989), as imagens condensam um conjunto de significações; os sistemas de referência nos permitem dar uma interpre- tação àquilo que percebemos; as categorias possibilitam a classificação das circunstâncias, dos fenômenos, dos indivíduos no nosso relacionamento social; as teorias admitem uma compreensão da realidade social em seu conjunto, quando estamos diante de realidades concretas da vida social. A Teoria das Representações Sociais tem sido usada para estudar os mais variados tópicos dentro de diferentes áreas das Ciências. Segundo Moscovici (1978), as Representações Sociais podem ser descritas como verdadeiras “teorias” do senso comum, “ciências coletivas”, pelas quais se procede à interpretação e mesmo à construção das realidades sociais.
1 Há uma edição em português: Moscovici, S. (1978). Representação social da psicaná- lise. Rio de Janeiro: Zahar.
CAPÍTULO 7
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Estudar as representações sociais é identificar a “visão de mundo” que os indivíduos ou grupos têm e empregam na forma de agir e se posi- cionar. Segundo Abric (1998), de acordo com a teoria das Representações Sociais, toda realidade é representada, reapropriada pelo indivíduo ou pelo grupo, reconstruída no seu sistema cognitivo, integrada no seu sis- tema de valores e dependente de seu contexto sócio-histórico e ideológico. Portanto, para Abric (1998) a representação social não pode ser reduzida a um simples reflexo da realidade, ela é uma organização signi- ficante. Existe uma reestruturação da realidade para integrar característi- cas objetivas do objeto representado, assim como experiências anteriores do sujeito e seu sistema de valores e normas. É esta realidade reapro- priada que constitui, para o indivíduo ou grupo, a própria realidade. Dentro dessa perspectiva, Moscovici (2003) afirma que os indi- víduos não são apenas receptores passivos de informação, nem meros seguidores de ideologias ou crenças coletivas, mas pensadores ativos que, frente aos mais diversos eventos presentes no cotidiano das inte- rações sociais, criam e comunicam suas próprias representações e solu- ções específicas para as questões que se colocam. Assim, a influência do social não é percebida como um estímulo que atinge o indivíduo, mas um contexto de relações onde o pensamento é construído.
A teoria das representações sociais é parte da Psicologia Social e como parte desta disciplina traz na sua centralidade a tensão criativa entre o indivíduo e a sociedade. Na tentativa de não perder a vitalidade desta tensão, procura não privilegiar qualquer dos dois polos. Para Jovchelovitch (2003), explicações demasiadamente individuali- zantes como parâmetros de compreensão da subjetividade e, por outro lado,
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é precondição para que “a emergência do Eu em oposição ao mundo externo ocorra em relação estreita com as transformações mentais que permitem a representação das coisas e, portanto, o desenvolvimento do pensamento simbólico e da linguagem” (Jovchelovitch, 2003, p. 75). O Eu só se constituí em relação ao Outro e é nessa dialética que se torna possível a construção da individualidade. Este outro social, sejam pessoas ou instituições, são partes constituintes que tornam viável o desenvolvimento de pluralidades humanas singulares, que se recombi- nam dentro do contexto simbólico cultural. Jovchelovitch (2003) afirma que não existe possibilidade para a construção simbólica fora de uma rede de significados já constituídos. Para essa autora, é sobre e dentro desta rede que os sujeitos psíquicos tra- balham para recriar o que já está lá, portanto, não estão nem abstraídos da realidade social, nem meramente condenados a reproduzi-la. A tarefa é elaborar a constante tensão entre um mundo que já se encontra constituído e seus próprios esforços para ser sujeito, encontrar a sua verdade em meio à tradição. Assim, as representações sociais fun- cionam enquanto fenômeno mediador entre o indivíduo e a sociedade. Jovchelovitch (2003) considera que as representações sociais, por serem simbólicas, se constroem sobre a capacidade representacional de um sujeito psicológico, contudo não podem ser diretamente equacio- nadas à atividade representacional per se, nem significa reduzi-las a um trabalho individual do psiquismo. Reconhecer que a realidade social “desempenha um papel constitutivo na gênese das representações, da atividade simbólica e do próprio sujeito individual” (p. 79) é afirmar que a representação social emerge como um fenômeno colado ao tecido social (Jovchelovitch, 2003). É considerar o social enquanto totalidade, isso quer dizer que o social envolve uma dinâmica que é diferente de um agregado de indivíduos. Esse social com configuração de totalidade vai
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além da soma de discursos isolados, isto é, a totalidade tem propriedades distintas das propriedades dos seus elementos. Desse modo, considera-se que as representações sociais não são um agregado de representações individuais, da mesma forma que o social é mais que um aglomerado de indivíduos. As representações sociais fun- cionam, na verdade, como estratégias para enfrentar “a diversidade e mobilidade de um mundo que embora pertença a todos, transcende a cada um individualmente”, elas são “um espaço potencial de produção comum, onde os sujeitos transcendem a sua própria individualidade para entrar no domínio da vida em comum” (Jovchelovitch, 2003, p. 81). Essa função simbólica, para Bauer
[...] se refere ao fato de que em representações sociais lida- mos com imagens variáveis da realidade, através das quais as pessoas estabelecem um sentido de ordem, transfor- mam o não familiar em familiar através da ancoragem de novos conhecimentos em antigos esquemas, criam uma estabilidade temporária através da objetivação, e locali- zam a si próprios entre os demais através de um senso de identidade social (2003, p. 231).
A identificação das representações sociais é indispensável para compreender a dinâmica das interações sociais e esclarecer os determi- nantes das práticas sociais. De acordo com Abric (1998), as represen- tações sociais possuem quatro funções essenciais: de conhecimento, identitária, de orientação e justificadora.
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As representações sociais, assegura Jodelet (2001, p. 22), não podem ser reconhecidas exclusivamente enquanto sistemas de interpre- tação que guiam nossa relação com o mundo e com os outros, sendo res- ponsáveis por nortear e organizar as condutas e as comunicações sociais. Pois elas intervêm em processos variados, que passam por “difusão e assimilação de conhecimento, desenvolvimento individual e coletivo, definição das identidades pessoais e sociais, expressão dos grupos e as transformações sociais”.
Assim, agregando as funções, as representações sociais funcionam como produto e processo de uma atividade de apropriação da realidade exterior ao pensamento e da elaboração psicológica e social dessa realidade. É de extrema relevância compreender essas duas possibilidades de apreensão da definição de Representações Sociais. Valsiner (2003) des- taca colocações de Moscovici que pontuam a essencialidade de se estudar as representações em seu processo de construção e não exclusivamente como já constituídas. Existe, então, uma distinção entre representação social enquanto processo, e representações sociais enquanto estruturas. Dentro da própria teoria há enfoques que privilegiam uma dimen- são em relação à outra. Banchs (2000) afirma que, para Moscovici e Jodelet, as representa- ções sociais devem ser analisadas em relação aos processos da dinâmica social e da dinâmica psíquica. Isto significa que devem ser considerados o funcionamento cognitivo, assim como o funcionamento do sistema social, dos grupos e das interações, pois todas estas dimensões afetam a criação, a estrutura e a evolução das representações.
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Dentro dessa perspectiva, conteúdo e processo não precisam ser descritos dentro de uma dicotomia. As representações sociais são abor- dadas, ao mesmo tempo, como o produto e o processo de uma atividade de apropriação do mundo social pelo pensamento e da elaboração psi- cológica e social dessa realidade. Desse modo, as representações sociais devem ser consideradas em relação aos seus aspectos constituintes (os processos) e constituídos (os conteúdos) (Jodelet, 2001). Contudo, Banchs (2000) pontua que, apesar de ser necessária essa consideração, são poucos os estudos que incluem, simultaneamente, conteúdos e processos representacionais e conseguem dar um enfoque que permita integrá-los. Dessa forma, existe também uma diferença no polo processual se comparado ao polo estrutural, no que se refere à definição do objeto de estudo da teoria das representações sociais. Para Spink (2003), dentro da perspectiva processual, o objeto de estudo seria a atividade de reinter- pretação contínua que emerge do processo de elaboração das represen- tações no contexto da interação em que elas se constituem. Então, segundo Banchs (2000), podemos descrever como carac- terísticas distintas da abordagem processual das representações sociais
[...] um enfoque qualitativo, hermenêutico, centrado na diversidade e nos aspectos significantes da atividade repre- sentativa; um uso mais freqüente de referentes teóricos pro- cedentes da filosofia, lingüística, sociologia; um interesse focalizado sobre o objeto de estudo em suas vinculações sociais, históricas e culturais específicas; uma definição do objeto como instituinte mais que como instituído (p. 37).
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admitindo a heterogeneidade do grupo e as contradições. Os elementos periféricos, por serem mais concretos, respondem por três funções: con- cretização, regulação e defesa. A função de concretização, para esse autor, está relacionada ao processo de ancoragem da representação social na realidade, os elemen- tos periféricos resultam desse processo e são dependentes do contexto. Os elementos periféricos constituem o aspecto móvel e evolutivo da representação social. Sendo assim, Abric (1998) afirma que a função de regulação tem um papel fundamental na adaptação da representação social às evoluções do contexto. É na periferia das representações sociais que informações novas, assim como elementos de conflitos, em relação aos fundamentos do núcleo central, podem ser integradas. O núcleo central resiste à mudança, pois isto implicaria em uma transformação completa da representação. Dessa forma, a função de defesa do sistema periférico refere-se à necessidade de dar conta das contradições que possam aparecer (Abric, 1998). Dentro dessa abordagem, os dois sistemas (central e periférico) podem parecer contraditórios, mas são, na verdade, complementares. Ao analisar as características de ambos, Abric (1998) afirma que o pri- meiro está ligado à memória coletiva e à história do grupo, é consensual e define uma homogeneidade. Por isso, é estável, coerente e rígido, resis- tindo às mudanças e às influências do contexto imediato. Este sistema é responsável por gerar o significado da representação e determinar a sua organização. Entretanto, o segundo sistema é descrito por esse pesquisador como mais flexível, permitindo a integração de experiências e histórias indivi- duais. Tolera, ainda, a heterogeneidade grupal, bem como as contradições. Sendo assim, é sensível ao contexto imediato e tem um caráter evolutivo que permite a adaptação à realidade concreta e à diferença de conteúdo.
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A formulação proposta por Abric (1998) possibilita compreender como uma representação social é compartilhada e como contém perspecti- vas da experiência individual. É possível pensar em uma estrutura dinâmica, que através das relações interpessoais se reorganiza, a partir dos elementos periféricos, ou seja, quando alguns destes se tornam compartilhados por um grupo, passando a ser elementos do núcleo central, mudando a repre- sentação. A ideia de uma estrutura que muda pode ser compreendida e aplicada aos sistemas central e periférico das representações sociais, a partir da noção de estrutura, proposta por Braudel (1992), que afirma:
estrutura não é imobilidade rigorosa. Ela só se parece imó- vel em relação a tudo que, em torno dela, se move, evolui mais ou menos depressa. Mas ela se desgasta, durando. Ela se apouca ... Nem tudo se quebra de um só golpe (p. 356).
A partir da noção de estrutura, proposta por Braudel (1992), pode-se afirmar que o núcleo central muda, mas lentamente, se apouca. Enquanto que os elementos periféricos, que estão ao seu redor, se des- gastam mais rapidamente.
Ao explorar as representações sociais destacando o seu caráter pro- cessual, enfatiza-se o processo de construção de conhecimento. Como afirma Moscovici (2003, p. 43), “quando estudamos representações sociais nós estudamos o ser humano, enquanto ele faz perguntas e procura respos- tas ou pensa e não enquanto ele processa informação, ou se comporta. Mais precisamente enquanto seu objetivo não é comportar-se, mas compreender”.
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específicas, para localizá-lo na matriz da identidade de nossa cultura. Assim, segundo Moscovici (2003), é dada uma identidade ao que não estava identificado, assegurando sua incorporação social. Isto significa que, ao entrarmos em contato com algo diferente, não podemos dizer que tentamos conhecê-lo, mas sim reconhecê-lo, tentando classificá-lo dentro de categorias já existentes. Segundo Moscovici (2003), o que está em jogo nessas classificações do não familiar, é a necessidade de defini-las, enquanto divergentes ou não da norma. Nesse contexto, “ancorar implica também a prioridade do veredicto sobre o julgamento e do predicado sobre o sujeito” (Moscovici, 2003, p. 64). Assim, segundo a teoria das representações sociais, é impossível ter um sistema geral sem vieses, pois é evidente que existe um sentido anterior para qualquer objeto específico. Moscovici (2003) afirma que esses vieses não expressam uma limitação social ou cognitiva, mas uma diferença normal de perspectiva entre indivíduos ou grupos heterogê- neos dentro de uma sociedade. Contudo, ao integrarmos os sentidos que emergem aos sistemas com os quais estamos familiarizados, as representações preexistentes são de certo modo modificadas e aquelas entidades que devem ser represen- tadas são mudadas ainda mais, de tal maneira que adquirem uma nova existência (Moscovici, 2003). Jodelet (2001) descreve que a ancoragem enraíza a representa- ção e o seu objeto em uma rede de significações que permite localizá- -lo em relação aos valores sociais e dar-lhe coerência, isto é, através de um trabalho da memória, o pensamento constituinte apóia-se sobre o pensamento constituído para enquadrar a novidade a esquemas já existentes. A objetivação, por sua vez, é o processo em que conceitos abstra- tos são materializados em realidades concretas. Para Moscovici (2003), objetivar é reproduzir um conceito em uma imagem até que essa imagem
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se converta num elemento da realidade, ao invés de ser apenas um ele- mento do pensamento. Ao objetivar algo, se preenche a defasagem entre a representação e o que ela representa. Segundo Moscovici (2003, p. 74), “as peculiarida- des da réplica do conceito tornam-se peculiaridades dos fenômenos, ou do ambiente ao qual eles se referem, passando a ser a referência real do conceito”. O processo de objetivação, conforme Jodelet (2001), pode ser decom- posto em três fases: construção seletiva, esquematização estruturante e naturalização. Segundo essa autora, as duas primeiras fases revelam o efeito da comunicação e das pressões, ligadas à pertença social dos sujeitos, sobre a escolha e a organização dos elementos constitutivos da representação. Estes processos possibilitam uma reflexão sobre como podemos nos aproximar das representações em diferentes níveis de complexidade. Como afirma Jodelet (2001, p. 39), “Desde a palavra até a teoria, que serve de versão do real; desde os conceitos ou categorias até as operações de pensamento, que os relacionam, e à lógica natural, característica de um pensamento orientado à comunicação e à ação”. Em relação aos processos de constituição das representações sociais, afirma Jovchelovitch (2003, p. 82) que “As representações emergem como processo que ao mesmo tempo desafia e reproduz, repete e supera, que é formado, mas que também forma a vida social de uma comunidade”. Assim, de acordo com Sá (1993), tudo que é estranho vai provocar medo, já que se manifesta como uma ameaça à ordem estabelecida, à ilusão de controle sobre o meio externo e interno. Quando o estranho é representado socialmente, ele se torna menos ameaçador. Dessa forma, “a finalidade de todas as representações é tornar familiar algo não familiar, ou a própria não familiaridade” (Moscovici, 2003, p. 54).
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sociedades contemporâneas, viabilizando a vivência em determinados contextos e produzindo estratégias de sobrevivências. (Moscovici, 1978). Pode-se dizer que a comunicação está no centro dos universos consensuais, porque configura e anima as representações sociais e, desse modo, lhes dá vida própria (Moscovici, 2003). Nesse contexto, o senso comum está continuamente sendo criado e recriado, principalmente onde o conhecimento científico e tecnológico está popularizado, estas imagens e linguagem simbólica da ciência estão, segundo Moscovici (2003), sendo constantemente retocadas. Mesmo que exista um intercâmbio entre o universo consen- sual e o universo reificado, um não pode ser reduzido ao outro, pois implicam em modos diversos de compreender e se relacionar com o mundo. Embora o senso comum mude seu conteúdo e a maneira de raciocinar, ele não é substituído pelas teorias científicas e pela lógica. Sua função de descrever e explicar as relações comuns entre os indi- víduos, suas atividades e comportamentos do dia-a-dia permanecem. De acordo Farr (2003), ele resiste a qualquer tentativa de reificação que transformaria os conceitos e imagens enraizadas em regras e pro- cedimentos explícitos. Este enfoque na teoria das representações sociais não distin- gue um status hierárquico a estas formas de conhecimento, ambas são importantes, pois independentemente da validade e credibilidade do conhecimento do senso comum, ele constitui “uma teia de significados capaz de criar efetivamente uma realidade social” (Spink, 2003, p.120). Jodelet (2001) aponta que tal característica é reconhecida pela comunidade científica, e reafirma que as representações sociais consti- tuem-se em “uma forma de conhecimento, socialmente elaborada e par- tilhada, com um objetivo prático, e que contribui para a construção de uma realidade comum a um conjunto social” (p. 22).
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Assim, o conhecimento “ingênuo”, produzido pelo senso comum, não deve ser invalidado como falso ou enviesado, pois se trata de um “outro” conhecimento. Este é diferente da ciência e adaptado à ação sobre o mundo, sua especificidade é justificada por formação e finalidades sociais (Jodelet, 2001). Dentro dessa perspectiva, estudar as representações sociais requer que seja examinado o aspecto simbólico dos nossos relacionamentos e dos universos consensuais de que fazemos parte.
Banchs (2000) pontua que as representações sociais inauguram, dentro da Psicologia Social, um novo sentido para o adjetivo social, utilizado anteriormente como um rótulo para se referir aos estímulos sociais, variáveis sociais e situações sociais. Essa autora destaca que o adjetivo social passa a ter uma amplitude que abarca tanto as condi- ções de produção das representações (meios de comunicações sociais, interação face a face, comunicação, linguagem), como as condições de circulação das mesmas (intercâmbio de saberes e inserção de pessoas em grupos, e dos grupos sociais em contextos sociais particulares den- tro de uma estrutura social) e também suas funções sociais (constru- ção social da realidade no intercâmbio social, desenvolvimento de uma identidade social e pessoal, busca de sentido ou construção do conhe- cimento do sentido comum). De fato, para Banchs (2000), o social nas representações não se polariza nem para o nível micro nem para o macro. Essa autora, então, apresenta os conceitos propostos por Moscovici de determinação social lateral e central.
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As representações, enquanto pensamento constituído, se orga- nizam como estruturas. Entretanto, estão contidas em uma dinâmica social onde as fronteiras são permeáveis, onde existe uma dialética de intercâmbio, ao mesmo tempo em que contêm uma memória social construída ao longo da história, preexistente enquanto uma configura- ção de um determinado indivíduo, situado em um contexto específico. Assim, segundo Silva (2005, p. 15), “o social é essencialmente um objeto construído e produzido a partir de diferentes práticas humanas e que não cessa de se transformar ao longo do tempo”. Desse modo, o adjetivo social não aparece na teoria das representações sociais como se opondo ao adjetivo individual, eles se complementam e são coconstruídos. Quando estuda-se o senso comum, o conhecimento popular, através das representações, de acordo com Moscovici (2003), se está pesquisando algo que liga sociedade ou indivíduo à sua cultura, à sua linguagem, ao seu mundo familiar. Existe uma busca por integrar conceitos, considerados opostos, descrevendo a interação em seus aspectos multidimensionais. As representações têm seus aspectos mais estáveis e estruturados que se apóiam na memória coletiva e no consenso, assim como seus aspectos mutáveis e dinâmicos, que são produzidos nas relações sociais. A interação entre esses aspectos se dá de forma processual e não pode ser compreendida fora de um contexto histórico específico. Diante das questões discutidas, pode-se observar que dentro da teoria das representações sociais existe uma transfertilização entre o social e o individual, estrutura e processo, principalmente na perspec- tiva do fundador da teoria, Serge Moscovici. De forma ideal, para que se abarque toda a complexidade das representações sociais, dever-se-ia deixar de lado o reducionismo e, conforme Moscovici (2003), apreender os fenômenos do pensamento e comunicação entre as pessoas em sua unidade, isto é, em sua existência confusa.
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Considera-se importante a inclusão do papel fundamental da ciência nesta interação existencial confusa que caracteriza a complexi- dade das representações sociais. Moscovici (1978) destaca que uma das funções essenciais da ciência consiste em transformar a existência dos homens e afirma:
Ela [a ciência] o consegue à força de fazer gravitar sua expe- riência ordinária em torno de novos temas, de inculcar sig- nificados diferentes a seus atos e suas falas, de transportá-los, por assim dizer, para um universo de relações e de eventos estranhos, até então desconhecidos. Se tiver êxito, ei-la con- vertida em material de que cada indivíduo se recompõe e recompõe subsequentemente à história individual e social, parte integrante de sua vida afetiva e intelectual (p. 17 e 18).
Assim, o fenômeno da participação da ciência, onde os grandes debates apoderam-se da consciência coletiva, confere à ciência a dimen- são de um importante fato social e a insere na vida cotidiana da sociedade. Moscovici (1978) relata que o indivíduo comum interessa-se pelas descobertas das ciências por diferentes motivos. A sua aproximação pode acontecer porque é solicitado pelos próprios cientistas, porque o seu meio ou os seus hábitos foram por elas afetados ou porque julga neces- sário estar a par, caso se veja obrigado a recorrer às novas descobertas. Para esse autor, as teorias, técnicas e invenções científicas têm impactos sobre hierarquias de valores, peso relativo de comportamen- tos, porque muitas vezes causa perturbações na relação com o real e nas normas vigentes.