













Estude fácil! Tem muito documento disponível na Docsity
Ganhe pontos ajudando outros esrudantes ou compre um plano Premium
Prepare-se para as provas
Estude fácil! Tem muito documento disponível na Docsity
Prepare-se para as provas com trabalhos de outros alunos como você, aqui na Docsity
Encontra documentos específicos para os exames da tua universidade
Prepare-se com as videoaulas e exercícios resolvidos criados a partir da grade da sua Universidade
Responda perguntas de provas passadas e avalie sua preparação.
Ganhe pontos para baixar
Ganhe pontos ajudando outros esrudantes ou compre um plano Premium
A sinestesia espelho-toque não é uma doença com uma apresentação clássica e típica, não sendo fácil de diagnosticar e avaliar e não tem sintomas ...
Tipologia: Exercícios
1 / 21
Esta página não é visível na pré-visualização
Não perca as partes importantes!














SINESTESIA ESPELHO-TOQUE Revisão Bibliográfica
iii
Mirror-touch synesthesia is a developmental central nervous system condition characterized by a manifestation of touch without the presence of any real stimulus. Although it is considered primarily developmental, it can solely be discovered late in life. Recent studies showed that mirror-touch synesthesia can also be acquired after sensory loss, particularly after limb amputation. Its etiology is poorly known. Researchers believe it can be a combination of genetic factors and functional and structural deficits. In the present days, there are two theories that explain its physiology. Each one will be thoroughly discussed during this presentation. Whether or not is this disturbance hereditary it is still uncertain. The symptoms can vary from almost inexistent to very uncomfortable and can have a very negative impact in the persons’ quality of life and daily life events. However, it remains underdiagnosed because there is not an adequate method or neuropsychological exam that can be applied. The diagnosis is purely clinic and self-reported. The aim of this study is to describe what mirror-touch synesthesia is, present its epidemiology, alarm signs and mechanisms behind its physiology. This research was based on articles published on Pubmed , B-on , Medscape , ScienceDirect, UpToDate , and Google Scholar as well as in books and reference journals in the Psychiatry, Neurology and Psychology areas.
Synesthesia; Mirror-touch Synesthesia; Motor Neurons; Mirror Neuron System; Central Nervous System.
Abstract .................................................................................................................. iii
Estudos recentes têm demonstrado que existe uma tendência quase universal para as pessoas, indiretamente, sentirem sensações experienciadas por outras. Por exemplo, quando percebemos que uma pessoa está a sentir dor são ativadas no nosso cérebro regiões envolvidas na experiência da dor. Na maioria das pessoas, estas representações são implícitas e não levam ao aparecimento de sensações reais (1), no entanto, numa pequena minoria de pessoas, essas sensações tornam-se efetivamente reais. Indivíduos com sinestesia espelho-toque, ao observarem outras pessoas serem tocadas, não só despertam a sensação de serem eles próprios tocados, como ainda se verifica uma alteração na representação mental do próprio. (2) O estudo dos fundamentos neuronais da sinestesia providencia informação importante sobre os mecanismos das funções sensitivas, motoras, sociais e cognitivas (3) que, no seu conjunto, são o cerne desta experiência. O cérebro humano está constantemente a fazer predições quando uma pessoa está a observar uma ação. Défices nestes processos preditivos estão associados a anormalidades sociocognitivas como sinestesia, ou a distúrbios patológicos como autismo e esquizofrenia. (3) Todos estes aspetos irão ser abordados com maior clareza e especificidade no decorrer desta dissertação. Esta condição tem especial importância para médicos psiquiatras e neurologistas que frequentemente deixam passar por diagnosticar estes casos devido à sua complexidade e ambiguidade de sinais e sintomas apresentados. Na maioria dos casos, tudo o que o utente necessita quando procura ajuda junto dos cuidados de saúde é que o médico consiga identificar esta condição e que o tranquilize quanto às suas características não patológicas.
Esta revisão bibliográfica tem como objetivos primordiais a análise da literatura médica relativa ao tema Sinestesia Espelho-Toque, bem como a referência às diretrizes vigentes e conhecimentos atualmente aceites pela comunidade científica relativos a esta temática. A presente dissertação circunscrever-se-á a um estudo mais aprofundado da epidemiologia; fisiologia do sistema nervoso central, com especial incidência nas áreas responsáveis pelo aparecimento da sinestesia; etiologia, com apresentação de duas teorias atualmente ainda em discussão; apresentação dos sinais e dos sintomas característicos e suspeitas diagnósticas que podem surgir no decorrer do acompanhamento de um indivíduo com esta condição. Pretende-se também, que a utilidade deste texto passe pela sensibilização do leitor, procurando ser um contributo para uma melhor compreensão do indivíduo com sinestesia, com o intuito de proporcionar o melhor acompanhamento e orientação possível nestes casos.
Sinestesia Espelho-Toque
“Synesthesia is a remarkable way of perceiving the world.” (4) A sinestesia é uma condição neurológica (5), congénita ou adquirida (6), que ocorre quando a estimulação de uma modalidade sensitiva desperta uma resposta automática noutra modalidade que não foi estimulada (7). Atualmente encontram-se descritas na literatura médico-científica vários tipos de sinestesia, tendo o interesse por esta área começado em 1812, com a descrição do primeiro caso (7). As mais conhecidas e estudadas são a sinestesia grafema-cor (associação de uma cor a uma letra) e a sinestesia espelho-toque (associação de uma experiência conscienciosa de um estímulo tátil à observação de outra pessoa ou objeto ser tocado) (8), sobre a qual se vai debruçar esta dissertação. Diferentes variantes de sinestesia podem-se manifestar no mesmo indivíduo (8). A sinestesia é definida por três premissas: As experiências podem ser conscienciosas, percetivas ou semelhantes a percetivas; As experiências são induzidas por um atributo que não está tipicamente associado à experiência conscienciosa; As experiências ocorrem automaticamente. (8) (9) Para a maioria das pessoas, observar outra pessoa a ser tocada ativa regiões do córtex somatossensorial que estão envolvidas na experiência do toque. No entanto, essa ativação não leva a que as pessoas sintam de facto o toque observado. Pelo contrário, nos indivíduos com sinestesia espelho-toque manifesta-se a sensação de toque quando este é visualizado noutra pessoa. (10) Existem dois tipos de sinestesia espelho-toque: Subtipo especular (mais comum) – em que observar um toque no lado esquerdo de um indivíduo induz uma sensação de toque no lado direito do sinestésico, motivo pelo qual se chama sinestesia “em espelho”. Subtipo anatómico – em que observar um toque no lado esquerdo de um indivíduo induz uma sensação de toque no lado esquerdo do sinestésico, independentemente da posição em que ambos se encontram. (8) (11) Os subtipos não mudam durante a vida dos indivíduos nem diferem conforme diferentes partes do corpo sejam atingidas.
Sinestesia Espelho-Toque
A prevalência estimada de sinestesia no mundo atual é de 4,4%, com uma proporção sexo feminino - sexo masculino de 6 para 1 (7). No entanto, apenas 1,6% da população apresenta sinestesia espelho-toque (1) (apesar desta ser a sinestesia não-visual mais prevalente) (4). Apesar destas percentagens serem bastante elevadas, crê-se que a sinestesia é uma condição bastante subdiagnosticada, uma vez que o diagnóstico é puramente clínico e não há, por parte dos médicos assistentes, grandes suspeitas neste sentido. A sinestesia espelho-toque é das sinestesias com maior prevalência, juntamente com a sinestesia dia-cor (4) e a sinestesia grafema-cor (8). Um estudo realizado na Universidade de Cambridge concluiu que 36% dos sinestésicos têm pelo menos um familiar igualmente afetado (7), o que leva a comunidade científica a assumir que a sinestesia poderá ter uma base genética e, assim sendo, também hereditária. Esta incerteza despoletou já várias tentativas para estudar a sinestesia com o apoio da genética, de forma a tentar esclarecer esta situação, visto que estes resultados se baseiam apenas em testemunhos de 82 participantes. As primeiras manifestações podem surgir em qualquer altura da vida (apesar de ser frequente aparecer sintomas logo na infância), devendo ser investigada em consultas de qualquer especialidade, mas dando mais enfoque às consultas de Psiquiatria e de Neurologia.
Tabela 1. Estimativas atuais da prevalência de diferentes tipos de sinestesia. Adaptado de (4)
Tipo de Sinestesia Prevalência (%) Formas espaciais (ex.: calendário-espaço) 2.2 - 20 Dia-cor 2. Visão-toque (espelho-toque) 1. Grafema (letra ou número) - cor 1. Mês-cor 1. Pessoa-cor 0. Música-cor 0. Sabor-forma 0.
Sinestesia Espelho-Toque
Outras estruturas relacionadas com a capacidade sinestésica de certos indivíduos são o córtex pré-motor e uma subsecção deste, o sistema motor espelho. O córtex pré-motor é uma área do lobo frontal situada posteriormente ao córtex motor primário que inclui as áreas de Brodmann 6, 8, 23, 24, 44 e 45, enquanto o sistema motor espelho pode ser encontrado na parte ventrolateral do córtex pré-motor e contém neurónios espelho (uma classe particular de neurónios visuomotores) responsáveis pela intenção de fazer um movimento, pela aprendizagem através de imitação (15) e pelo entendimento das ações dos outros (16).
Figura 2. Córtex pré-motor identificado em imagem PET Scan durante um exercício de linguagem. (14)
O sistema de neurónios espelho foi identificado com estudos de estimulação magnética transcraniana. O núcleo do sistema é composto pela parte anterior do lobo parietal inferior, parte inferior do giro pré-central e parte posterior do giro frontal inferior. (16)
Sinestesia Espelho-Toque
Em 2005 foi reportado o primeiro caso de sinestesia espelho-toque com a utilização de ressonância magnética crânio-encefálica funcional (13), que é um instrumento sensível a mudanças na quantidade de O 2 no sangue em resposta a tarefas específicas que envolvem processamento cognitivo, motor e/ou sensitivo (5). A literatura atual mantém a dúvida se a sinestesia congénita é causada por ativação cruzada entre diferentes regiões do cérebro ou por desinibição cortical (8). Nos casos de sinestesia adquirida, esta pode resultar de lesão cerebral ou de efeitos secundários de medicamentos (6). A sinestesia espelho-toque pode ser explicada por uma função atípica da excitabilidade cortical de regiões neuronais somatossensoriais, mas ainda está por concluir o que contribui para esta hiperexcitabilidade (1). Exemplos dessas regiões são o córtex somatossensorial primário (9), a região posterior do córtex somatossensorial secundário (13), o córtex pré-motor esquerdo e a ínsula anterior (8). Vários estudos utilizando morfometria baseada em voxel demonstraram diferenças significativas na quantidade de matéria branca e cinzenta em diversas zonas do córtex entre indivíduos com sinestesia e indivíduos sem. Constatou-se que existe um aumento do volume da matéria cinzenta no córtex somatossensorial secundário, nomeadamente no polo temporal direito medial e lateral, na parte dorsal do giro pré-central direito e na região OP4 (13); uma diminuição do volume da matéria cinzenta na junção temporoparietal direita (1) e nas regiões dorsais do córtex medial pré-frontal (17) e ainda um aumento do volume da matéria branca no lobo temporal direito, imediatamente posterior às regiões ligadas à matéria cinzenta (13).
Figura 3. Resultados da análise com morfometria baseada em voxel mostrando as diferenças de volume da matéria cinzenta (GM) e da matéria branca (WM) entre indivíduos com sinestesia espelho-toque (MTS) e controlos (CON). SII (OP4) – Área OP4 do córtex somatossensorial secundário.
Sinestesia Espelho-Toque
A sinestesia espelho-toque não é uma doença com uma apresentação clássica e típica, não sendo fácil de diagnosticar e avaliar e não tem sintomas característicos que o utente refere espontaneamente. Apesar disto, há certas minúcias que podem fazer suspeitar de uma patologia associada a este tipo de sensações e instigar uma investigação mais aprofundada. Ao longo de vários anos, pensou-se que indivíduos com sinestesia espelho-toque apresentavam uma empatia superior a pessoas sem esta condição. Este mito foi desfeito recentemente com um estudo que comprovou que, afinal, indivíduos com sinestesia não têm uma empatia cognitiva superior à da restante população (7). Existem, de facto, algumas características associadas à sinestesia que podem aumentar o índice de suspeita, nomeadamente maior capacidade de reconhecer expressões faciais e emoções (12) (2); maior acuidade tátil nas pontas dos dedos dos membros superiores (13) (18); sinais de esquizotipia (nomeadamente experiências de perceção corporal, ilusões somatossensitivas e manifestações de despersonalização) (19); maior abertura a novas experiências e maiores habilidades cognitivas (20). A experiência de sensação de toque referida pelos sinestésicos é descrita como automática e duradoura (1). Estas sensações não se costumam alterar ao longo da vida.
Sinestesia Espelho-Toque
Atualmente, não existe nenhum método diagnóstico específico para determinar a presença ou ausência de sinestesia espelho-toque, o que ilustra a importância de um elevado índice de suspeição. O seu diagnóstico é tipicamente clínico e baseia-se na história pregressa, particularmente no reconhecimento de sintomas básicos na infância ou juventude, na análise da desadequação do comportamento provocado pelos sintomas e dos antecedentes familiares. Apesar do sofrimento psíquico causado não ser mensurável, e ́importante averiguar se os sintomas interferem, de forma crónica, persistente e/ou significativa, com o normal funcionamento ou desenvolvimento da pessoa afetada. Por enquanto, não há utilidade nem dados suficientes que apoiem o uso de técnicas de imagiologia cerebral no diagnóstico de sinestesia, ainda que estas demonstrem anormalidades no funcionamento cerebral de indivíduos com esta condição. A sinestesia continua a ser uma condição auto-relatada. (5)
A sinestesia espelho-toque, assim como outros tipos de sinestesia, é facilmente confundível com patologias psiquiátricas e/ou neurológicas que apresentam sintomas semelhantes. Por este motivo, é essencial que o médico que está a prestar apoio a estes utentes coloque a hipótese de que os sintomas relatados por estes possam ser causados por uma patologia. Doenças psiquiátricas e neurológicas podem ser facilmente confundidas e é muitas vezes necessário proceder a avaliações formais neuropsicológicas para as distinguir. (20) Várias doenças do foro psiquiátrico apresentam-se com alucinações. A esquizofrenia, por exemplo, é caracterizada por alucinações e delírios, que podem ser interpretados como tal na sinestesia. O diagnóstico de esquizofrenia, assim como o de sinestesia, é difícil, pois não existe ainda uma etiologia conhecida nem métodos de diagnósticos específicos universalmente aceites. Sinestesia e alucinações são ambas subjetivas, ocorrem na ausência de um estímulo apropriado e não estão sob controlo voluntário da pessoa afetada. A diferença principal entre estas duas experiências é que a sinestesia ocorre devido à existência de um estímulo, enquanto que as alucinações não têm um estímulo externo óbvio e presente. (20)
A sinestesia espelho-toque é uma condição ainda muito desconhecida no meio científico e entre médicos especialistas e não especialistas. O seu diagnóstico é tipicamente clínico, retrospetivo e auto relatado, não se dispondo ainda de um teste suficientemente sensível e específico que sirva de indicador diagnóstico. Estudos apontam para um possível contributo genético na propensão para a sinestesia devido a uma significante recorrência familiar. A maior parte das pesquisas acerca do tema, relata alterações funcionais a nível do córtex somatossensorial primário e secundário, córtex pré-motor esquerdo e ínsula anterior e alterações estruturais no córtex somatossensorial secundário, junção temporoparietal direita, regiões dorsais do córtex medial pré-frontal e lobo temporal direito. Uma maior capacidade de reconhecer expressões faciais e emoções, maior acuidade tátil nas pontas dos dedos dos membros superiores, sinais de esquizotipia, maior abertura a novas experiências e maiores habilidades cognitivas estão entre as principais características associadas à sinestesia espelho-toque. Contudo, nem sempre é equacionada a hipótese de se tratar de sinestesia, pois este é um diagnóstico relativamente recente, para o qual muitos clínicos ainda não estão suficientemente sensibilizados e informados. Ainda não existe nenhum guia de tratamento para estes casos ou, pelo menos, não foi encontrada qualquer informação sobre este tema na pesquisa realizada. Talvez num futuro próximo seja possível criar testes mais objetivos, através da evolução da imagiologia cerebral e dos conhecimentos da genética médica. Trata-se de uma área de pesquisa, que deve ser abordada em estudos futuros. Pequenas intervenções como terapias cognitivas e centros de apoio sociais poderiam melhorar a vida destes indivíduos. Não foram também encontrados artigos que demonstrem que a sinestesia espelho- toque faça parte de uma patologia. No entanto, é de ressaltar que indivíduos com esta característica são muitas vezes incompreendidos e sentem-se doentes sem motivo para tal. No fundo, a sinestesia é apenas uma forma diferente de ver o mundo e encontrar alguém que compreenda esta situação e que reconforte estes indivíduos é uma necessidade emergente. Face ao apresentado, justifica-se a premência de mais estudos que procurem chegar a um consenso na validação e adaptação dos critérios de diagnóstico, que permitam a resolução dos paradigmas etiológicos, criem instrumentos específicos e escalas de avaliação que auxiliem no diagnóstico, desenvolvam ferramentas que meçam o impacto da sinestesia nos índices de qualidade de vida e forneçam um alicerce teórico para inovações gnosiológicas a nível das intervenções psicoterápicas.