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Sinestesia e metáforas, Provas de Tradução

Eu sou um sinesteta e estudo sinestesia. Sinestesia não é uma doença, nem um déficit, na maioria dos casos (DAY, 2005, p. 11. – tradução nossa).3.

Tipologia: Provas

2023

Compartilhado em 16/01/2023

Jandiara62
Jandiara62 🇵🇹

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Sinestesia e metáforas
Hugo Mari*1
Resumo
O objetivo do texto é discutir e avaliar, de modo específico, os processos
de metáforas sinestésicas, avaliando as condições sensório-motoras que
integram a sua construção. Inicialmente, relato, retomando autores da área,
alguns posicionamentos sobre a questão da sinestesia como um fenômeno
neurofisiológico e sua importância como uma atividade perceptiva
multimodal. Na sequência, enfatizo as discussões que foram desenvolvidas
por diversos autores (Ullmann; Williams; Werning, Fleischhauer e
Beseoglu; Yu) sobre o alcance das metáforas sinestésicas. Além do
mais, procuro contemplar o essencial de cada uma das abordagens, com
ênfase especial sobre limites combinatórios sensoriais e a direcionalidade
preferencial para certas combinações. Como esses estudos foram realizados
a partir de corpora específicos ou de avaliação experimental, esses autores
apontam restrições às combinações que, intuitivamente, parecem naturais
numa dimensão interpretativa. Por último, aponto a necessidade de se
restringirem os limites e as condições sob as quais o aparelho sensório-
-motor opera na integração de percepções advindas de sensores diferentes.
Palavras-chave: Metáfora. Sinestesia. Percepção sensorial. Direcionalidade.
Integração sensorial.
* Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). Pesquisa associada ao Grupo
“Complex Cognitio” e desenvolvida através do projeto “Uma visão integrada da cognição humana:
corpo/significação, cérebro, mente, linguagem”, financiado pela FAPEMIG (SHA-APQ-00121-10).
I am a synesthete, and I study synesthesia.
Synesthesia is not a disease, nor is it a deficit in most cases
(DAY, 2005, p. 13).
Preliminares
Toda a discussão atual sobre manifestações metafóricas e seus processos de
produção destaca a importância da metáfora como um fenômeno que transcende
a sua dimensão discursiva restrita de se fazer dela uma estilização de sentido. A
metáfora torna-se um processo cognitivo de ampla repercussão e se faz representar
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SCRIPTA, Belo Horizonte, v. 18, n. 34, p. 257-282, 2º sem. 2014
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Sinestesia e metáforas

Hugo Mari* 1

Resumo

O objetivo do texto é discutir e avaliar, de modo específico, os processos de metáforas sinestésicas, avaliando as condições sensório-motoras que integram a sua construção. Inicialmente, relato, retomando autores da área, alguns posicionamentos sobre a questão da sinestesia como um fenômeno neurofisiológico e sua importância como uma atividade perceptiva multimodal. Na sequência, enfatizo as discussões que foram desenvolvidas por diversos autores (Ullmann; Williams; Werning, Fleischhauer e Beseoglu; Yu) sobre o alcance das metáforas sinestésicas. Além do mais, procuro contemplar o essencial de cada uma das abordagens, com ênfase especial sobre limites combinatórios sensoriais e a direcionalidade preferencial para certas combinações. Como esses estudos foram realizados a partir de corpora específicos ou de avaliação experimental, esses autores apontam restrições às combinações que, intuitivamente, parecem naturais numa dimensão interpretativa. Por último, aponto a necessidade de se restringirem os limites e as condições sob as quais o aparelho sensório- -motor opera na integração de percepções advindas de sensores diferentes. Palavras-chave: Metáfora. Sinestesia. Percepção sensorial. Direcionalidade. Integração sensorial.

  • Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). Pesquisa associada ao Grupo “Complex Cognitio” e desenvolvida através do projeto “Uma visão integrada da cognição humana: corpo/significação, cérebro, mente, linguagem”, financiado pela FAPEMIG (SHA-APQ-00121-10). I am a synesthete, and I study synesthesia. Synesthesia is not a disease, nor is it a deficit in most cases (DAY, 2005, p. 13). Preliminares Toda a discussão atual sobre manifestações metafóricas e seus processos de produção destaca a importância da metáfora como um fenômeno que transcende a sua dimensão discursiva restrita de se fazer dela uma estilização de sentido. A metáfora torna-se um processo cognitivo de ampla repercussão e se faz representar

sob as formas de conhecimento as mais variadas. Assim, ao discutir a metáfora, não estamos mais discutindo o teor idiossincrático de uma forma linguística e dos efeitos que pretendemos com ela – até podemos fazê-lo –, mas, sobretudo, a natureza do conhecimento, os aspectos mentais e neurofisiológicos de que nos valemos para sua apreensão e para sua produção. Na presente reflexão, pretendemos desenvolver a discussão de um fenômeno específico, ainda repleto de incertezas, mas de relevância fundamental, envolvendo a construção de metáforas. Trata-se da sua dimensão sinestésica, isto é, da integração de modalidades perceptivas distintas que concorrem para a sua produção. Ao estudar a metáfora sob esse ponto de vista, somos levados a refletir sobre dois pontos específicos na análise da questão: a compreensão mínima da sinestesia enquanto uma atividade perceptiva do homem em sua interação com o ambiente e a sua extensão aos procedimentos discursivos de construção de metáforas. Aspectos fundamentais da sinestesia A sinestesia, como mostram pesquisadores da área – Cytowic (1989), Baron-Cohen e Harrison (1997), Ramachandran e Hubbard (2001), Robertson e Sagiv (2005), entre outros –, não constitui um corpo coeso e único de conhecimento sobre a atividade perceptiva do homem. Encontramos padrões diversos para justificar o funcionamento da sinestesia, os quais vão desde a sua caracterização neurofisiológica em certos organismos,^1 passando pela sinestesia causada por disfunções neuronais, ou manifestações sinestésicas geradas pelo uso de psicotrópicos, como também processos sinestésicos associados à construção de metáforas (até um certo momento, uma falsa sinestesia para alguns autores). Apesar de toda essa tipologia que se associa ao campo dos fenômenos sinestésicos, existem controvérsias sobre muitos dos seus aspectos, e é, talvez, por essa razão que Baron-Cohen e Harrison iniciem sua obra da seguinte forma: Por que um livro sobre sinestesia? Começamos com esta pergunta, porque o tema da sinestesia atualmente goza de uma reputação 1 Um percepto sinestésico que alcança cerca de 1 em cada 25.000 pessoas costuma ser apontado, com base em avaliação de sujeitos que integram pesquisas empíricas no campo.

Hugo Mari

Muitos ensaios sobre a sinestesia guardam certo traço de intimidade experiencial de um sujeito com o fenômeno e acabam, em muitas circunstâncias, por servir de testemunhos vivenciados pela experiência sinestésica de sujeitos que têm dispositivos neurológicos aptos à percepção dessa natureza. Nessa dimensão, ela é um fenômeno essencialmente vivido, mas nem por isso deixa de ser um objeto de conhecimento desafiador para o campo das neurociências, da psicologia, da cognição e da linguística. Nessa parte do texto vamos repassar a sua conceituação como uma orientação necessária para aquilo que é o maior objetivo deste texto: a compreensão dos processos de metaforização sinestésica. Conceito de sinestesia O conceito de sinestesia é, ele próprio, circunscrito à especificidade dos fenômenos a que viermos atribuir essa denominação. Se o campo da sinestesia se faz representar por fenômenos de natureza distinta, como apontamos anteriormente, assim também deve ser um conceito que se proponha a abarcar tudo isso. Para os nossos propósitos na sequência deste texto, o que propõe Sagiv nos atende de modo adequado: O termo sinestesia (do grego syn = junto, estesia = sensação) tem sido usado para descrever uma grande variedade de fenômenos. Mais comumente, é utilizado para indicar uma condição em que a estimulação de uma modalidade sensorial, também dá origem a uma experiência de uma modalidade diferente (SAGIV, 2005. p. 3 – tradução nossa).^4 Mesmo considerando as diferentes dimensões que o estudo da sinestesia assume, sobretudo em relação aos seus fundamentos, o conceito acima, proposto por Sagiv, atende ao essencial da questão, à medida que especifica que os processos sinestésicos envolvem, em seu teor fundamental, a integração de ao menos duas play, the music looks like a floating, suspended coiling snake-ball of lif-up purple neon tubes. I am a synesthete, and I study synesthesia. Synesthesia is not a disease, nor is it a deficit in most cases (DAY, 2005, p. 13). 4 “The term synesthesia (Greek: syn = together, aesthesia = sensation) has been used to describe a wide variety of phenomena. Most commonly, it is used to denote a condition in which stimulation in one sensory modality also gives rise to an experience in a different modality”.

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modalidades sensoriais distintas. Destacando as cinco modalidades essenciais (visual, auditiva, táctil, gustativa, olfativa), numa combinatória simples de duas modalidades, seríamos levados a supor nove formas de sinestesia. Entretanto, existem restrições para essas combinações: (a) quando testemunhadas por muitas experiências de sujeitos sinestetas;^5 (b) quando se constata a sua manifestação nas expressões de línguas e culturas diferentes, como veremos a seguir nas pesquisas de diversos autores. Esse potencial de combinações tende também a aumentar quando, virtualmente, comparamos a inversão de uma modalidade-fonte (V/G) com uma dada modalidade-alvo (G/V) que pode mostrar sinestesias diferentes: assim, V(azul) + G(azedo) é distinto de um G(azedo) + V(azul), já que o primeiro caso tipifica uma experiência visual qualificando-a pelo sabor, enquanto a segunda tipifica uma experiência gustativa, qualificando-a pela cor. Além do mais, existem modalidades mais ativas do que outras em termos combinatórios, como aponta Day (2005, p. 14-15) em levantamento feito a partir de 572 casos de sinestesia analisados. O resultado geral dessa análise (cf. Anexo I) mostra que todas as modalidades sensoriais se fazem presentes tanto do domínio-fonte como do domínio-alvo. Ressalta-se na pesquisa o grande número de casos relativos à percepção visual – conjugada com modalizações de som, de odor, de sabor, de temperatura, etc. –, incluindo, de modo específico e dominante, a presença de cores, que se funde na percepção de todas as outras modalidades. O nosso interesse, todavia, para a presente reflexão não é um percurso geral sobre os aspectos mais importantes do estudo funcional da sinestesia como um processo perceptivo normal do organismo^6 humano, percurso que tem permitido, muitas vezes, o reconhecimento de sujeitos que dispõem, como mostram pesquisas, de certo pendor para a experienciação sinestésica. Estamos nos orientando, de modo mais específico, para a avaliação dos processos sinestésicos de produção discursiva de metáforas, a partir dos estudos desenvolvidos sobre a metáfora 5 Numa pesquisa com 572 casos de sinestesia, Day (2005, p. 15) não detectou nenhum caso de sinestesia combinando o teor gustativo com o olfativo, nem modalidade táctil (temperatura), combinando com olfato (quente cheiroso), ou com gosto (frio doce). É claro que evidências para a exclusão ou admissão de tais combinações podem estar relacionadas a aspectos socioculturais da pesquisa, como o próprio autor reconhece. 6 Já em 1988, Maurer e Maurer ( The world of the newborn ) apud Maurer e Mondloch (2005) afirmavam que o fenômeno da sinestesia se faz presente no organismo humano desde os primeiros meses de sua existência: “... the newborn does not keep sensations separate from one another, but rather mixes sights, sounds, feeling, and smells into a sensual bouillabaisse in which sights have sounds, feelings have tastes…”. Pesquisas sobre esse fato foram realizadas e confirmadas posteriormente por Maurer e Mondloch (1996, 2005), Maurer, D. (1993).

Sinestesia e metáforas

Será uma coincidência que a forma mais comum de sinestesia envolva grafemas e cores e que as áreas cerebrais correspondentes a eles sejam bem próximas umas das outras? (RAMACHANDRAN; HUBBARD, 2001a, p. 7 – tradução nossa).^8 Para os autores, a proximidade das áreas de processamento é algo a ser destacado como uma hipótese a justificar a larga presença de sinestesias, associando grafemas a cores. De fato, conforme estudo desenvolvido por Zeki (1993),^9 originalmente para o córtex visual do macaco, a área V3 do córtex visual, especializada no processamento espacial de linhas, traçados – grafemas: letras e números – é contígua à área V4, que processa cores. Embora a hipótese esteja formulada para justificar o processamento local de sinestesias de grafemas- -cores, Ramachandran e Hubbard admitem que se trata de uma hipótese genérica, a ser avaliada para os processos gerais de sinestesia. Existem muitos detalhes e problemas envolvidos nessa questão que foram apontados também por outros autores; sua extensão, todavia, ultrapassa os objetivos deste texto. Nas próximas seções deste texto, vamos discutir, de forma mais sistemática, os estudos da metáfora sinestésica (MS doravante), destacando suas realizações mais recorrentes e os problemas relativos à concepção de alguns limites que a ela costumam ser impostos por pesquisadores que têm avaliado a sua emergência nas línguas naturais. Metáforas sinestésicas Como se trata de um fenômeno de natureza psiconeurofisiológica, as MSs não são um fenômeno local exclusivo, ou seja, elas não representam um fato privilegiado para nenhuma língua natural em particular: uma língua não é mais propícia a metáforas sinestésicas do que outras. Sua emergência é partilhada, potencialmente, em todos os sistemas naturais. É possível, todavia, que também como um fato de ramificações estéticas e culturais sua recorrência possa ser mais ou menos marcada, considerando a diferença de gêneros discursivos, de sexo dos 8 “Can it be a coincidence that the most common form of synaesthesia involve graphemes and colours and the brain areas corresponding to these are right next to each other?” 9 ZEKI, Semir. The multiple visual areas of the cerebral cortex. In: ZEKI, Semir. A vision of the brain. Oxford: Blackwell, 1993. p. 87-93.

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falantes, das diferenças idioletais, de usos específicos de língua, entre outros que serviram de orientação para muitas pesquisas. É possível, pois, que algum falante se valha mais desse tipo de metáfora do que outro; que ele seja mais recorrente num gênero do que em outro. Os estudos, realizados por muitos pesquisadores que se ocuparam da questão, mostram diferenças de detalhes, mas evidenciam uma longa extensão de semelhanças de comportamento das MSs. Antes de passarmos a uma avaliação mais detalhada do conceito desse tipo de metáfora, consideremos as preocupações apontadas por Cacciari: Deve-se notar que as relações da metáfora linguística com propriedades sensório-perceptuais não foram ainda teoricamente explicitadas. São as metáforas perceptualmente fundamentadas, são elas alicerçadas em modelos culturais de nossas experiências diárias, ou são elas fundamentadas em representações amodais abstratas de nossa experiência perceptiva? (CACCIARI, 1998, p. 122). Cacciari coloca duas questões iniciais extensivas à MS e que repercutem sobre o seu conceito: qual a natureza do seu fundamento – perceptivo ou cultural? Embora a sua base seja as propriedades sensório-perceptivas, a autora coloca em questão a razão que leva os usuários a construírem metáforas em geral, isto é, o fato de estarem alicerçadas em modelos culturais da experiência diária ou em representações amodais abstratas. De fato, temos expressões como sorriso amarelo / amizade colorida , que são culturamente criadas numa tradição de fatos sociais corriqueiros como decepção sobre um episódio ou como afeição homossexual. É possível que uma explicação para sorriso amarelo tenha um valor perceptivo mais direto: o processo físico de tensão/distensão muscular dos lábios, associado a uma cor; enquanto amizade colorida pudesse ter uma caracterização mais cultural, pelo valor que pode assumir o termo amizade nas relações interpessoais, certamente qualificadas pelas variações cromáticas do espectro solar. Em acréscimo a essas duas dimensões apontadas pela autora, gostaria de ressaltar a importância a ser admitida para a experienciação, um termo fundamental para as MSs, ainda que, a partir de sua emergência, muitos outros comportamentos possam a ela ser associados. Certamente, para Rimbaud, as cores atribuídas às vogais em seu famoso poema Les voyellesA noir, E blanc, I rouge, U vert, O bleu :

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Esquema 1 – Domínio-fonte → domínio-alvo Para padronizar o conceito proposto por Petersen et al. , optamos por listar no domínio-fonte e no domínio-alvo a função sensória associada à dimensão corporal relativa aos sensores,^11 mas, evidentemente, a indicação poderia ser feita com outros termos. A exigência que se faz para o mapeamento entre os dois domínios é que a combinação seja feita a partir de elementos sensoriais de natureza diferente, logo não existe, pela definição dos autores, sinestesia em expressões como amarelo esverdeado ou ruído estridente ; o que existe em exemplos dessa natureza é apenas uma qualificação do domínio-alvo por um termo do domínio-fonte, sendo ambos pertencentes à mesma modalidade sensorial. Assim, o esquema mantém um teor genérico (explicativo) do potencial de que podemos dispor nas línguas naturais 11 Existem dificuldades para se fazer uma referência direta aos sensores humanos, em razão de certa diversidade de denominações que pode ser usada. Podemos usar as partes do corpo como uma referência metonímica (olho, ouvido, nariz, boca, mãos), ou a função associada essas partes (visão, audição, olfação, gustação, tateabilidade), ou ainda a classe geral das propriedades inerentes aos sensores (cor, som, odor, sabor, tato). Tais formas mostram vantagens e desvantagens: as mãos não representam todo o sistema háptico; cor não expressa toda capacidade do sistema visual; tateabilidade é um termo de pouco uso. Os indicadores para função parecem ser os mais adequados, mas existe, em geral, certa mistura de termos para indicar atividades sensoriais. Domínio-fonte Domínio-alvo Elementos sensórios associados à visão, audição, olfação, gustação Elementos sensórios associados à visão, audição, olfação, gustação tateabilidade tateabilidade Sinestesia forte Sinestesia fraca

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para construir MSs. Numa combinação livre, poderíamos realizar sinestesias diferentes, associando duas fontes sensoriais, que seriam desdobradas com base nos termos disponíveis para cada sensor, conforme discutiremos na sequência, sob a denominação de sinestesia forte e sinestesia fraca. Em sentido restrito – sinestesia forte –, existe MS quando combinamos qualidades sensoriais do domínio-fonte com qualidades sensoriais de outro domínio-alvo, ficando as restrições a essas combinações sujeitas a condições ulteriores. Por exemplo, vermelho amargo pode ser uma MS, porque combina uma qualidade gustativa (amargo) com uma visual (vermelho) e pode se prestar a caracterizar um evento esportivo desastrado a partir do uso de uma camisa vermelha; mas setembro vermelho pode ter um valor metafórico, mas não sinestésico, ao menos em sentido restrito, já que setembro não representa uma qualidade sensorial. Seria possível metaforizar eventos como doce agudo , macio amarelo , azedo tosco , para os quais seria possível criar condições de interpretabilidade. No caso do português, o primeiro elemento da expressão funciona como o domínio-alvo, isto é, as propriedades sensoriais associadas ao olho (vermelho), à boca (azedo) e à mão (macio); o segundo elemento da expressão representa o domínio-fonte, ou seja, o ouvido (agudo), o olho (amarelo) e o tato (tosco). Como muitas formas podem ser reversíveis – vermelho amargo ; amargo vermelho –, o efeito de sentido metafórico proporcionado por vermelho , qualificado como amargo , ou por amargo , quando qualificado por vermelho, pode ter condições de interpretabilidade diferentes.^12 A definição aponta o potencial de combinações possíveis, mas pesquisas realizadas em diversas línguas mostram não apenas restrições combinatórias, como também preferências, como veremos a seguir. Entretanto, em nome de uma flexibilização do uso é sempre possível supor uma condição de interpretabilidade possível para qualquer combinação que viermos a formular, ainda que a experienciação sinestésica nem sempre registre realizações de qualquer combinação. Quando confrontamos possibilidade e realização, ao mesmo tempo confrontamos interpretabilidade e experienciação. Além do mais, a definição dos autores) permite gerar metáforas sinestésicas fracas, o que pode ser melhor explicitado pela definição complementar seguinte: 12 No caso da MS forte, formada por dois adjetivos de origem sensorial, a relação determinante e determinado expressa melhor o teor semântico da expressão. De toda forma, estamos considerando, determinante como fonte e determinado como alvo.

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se desenvolvem livremente, deixando para o campo da interpretação justificativas ulteriores? (b) Se existe alguma restrição combinatória, devemos priorizar alguma forma de combinação? Nesse caso, alguma prioridade a ser fixada por essa ou aquela modalidade perceptiva decorre de critérios neuronais, ou de condições linguísticas de sua expressão? (c) Qual a natureza do processamento sinestésico da metáfora: conceitual ou neurofisiológico? Os padrões de processamento são os mesmos a serem considerados para a metáfora conceitual, por exemplo? Podemos reorganizar parte dessas questões, considerando dois aspectos fundamentais no processamento das MSs que se determinam mutuamente: um relaciona-se à direcionalidade na modalização perceptiva, isto é, em grande parte das pesquisas até hoje desenvolvidas, os autores consideram que algumas ordenações são mais frequentes do que outras, embora não exista um consenso, sobretudo quando se confrontam exemplos de línguas distintas. O outro aspecto pode ser considerado como uma modalização do primeiro, ou seja, a direcionalidade é qualificada hierarquicamente em termos de um movimento de baixo para cima. Essa tese tem origem em um estudo desenvolvido por Ullmann (1959) e foi sintetizada em termos de três tendências gerais, conforme apresentado por Yu: Especificamente, Ullmann descobriu três tendências globais (1959: 276-284). A primeira tendência, que ele denomina ‘distribuição hierárquica’, mostra que as transferências sinestésicas tendem ao percurso dos modos sensórios mais baixos para os mais altos , a saber, tato→ gosto→ odor→ som→ visão. A segunda tendência, alinhada à primeira, mostra que o tato, o nível mais baixo de sensação, é o domínio-fonte de transferência dominante. A terceira tendência mostra que o som, mais do que a visão, é o domínio- -alvo predominante para as transferências sinestésicas, o que é um tanto inesperado do ponto de visto hierárquico (YU, 2003, p. 21 – tradução nosssa).^14 14 “Specifically, Ullmann discovered three overall tendencies (1959: 276-284). The first tendency, which he calls “hierarchical distribution”, is that synesthetic transfers tend to go from the “lower” to the “higher” sensory modes, namely, touch→ taste→ smell→ sound→ sight. The second tendency, in keeping with the first one, is that touch, the lowest level of sensation, is the predominant source of transfers. The third tendency is that sound, rather than sight, is the predominant destination for synesthetic transfers, which is somewhat unexpected from the hierarchical point of view. According to Ullmann’s interpretation, this is because visual terminology is incomparably richer than its auditory counterpart.”

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Na retomada de Ullmann feita por Yu, destacam-se aspectos importantes para a compreensão dos processos metafóricos sinestésicos, os quais serviram de referência para uma discussão mais depurada do problema. Retomando um esquema proposto pelo próprio Ullmann, podemos avaliar melhor as questões levantadas por essa definição. Esquema 2 – Direcionalidade e hierarquia dos sentidos de acordo com Ullmann (1967) Fonte: WERNING et al. , 2010. O estudo de Ullmann destaca como tendências para a produção de MSs três fatos importantes: (a) a distribuição hierárquica dos sensores que segue uma organização com base em sua distribuição no corpo humano – do mais baixo, tAto, para o mais alto, vIsão. Por esse fundamento, teríamos sinestesias ordenadas como sabor áspero, verde adocicado, aroma azedo , mais comumente e não o inverso. (b) a importância da tateabilidade como domínio-fonte mais proeminente, o que implicaria uma grande quantidade de sinestesias como som áspero, voz fria, verde quente, azul liso ; (c) a presença da audição como domínio-alvo predominante nos processos sinestésicos de construção metafórica – agudo liso, estridente saboroso. Essa última afirmação de Ullmann é motivo de controvérsias, até mesmo pela extensão dos elementos disponíveis para o campo da visão (cor e forma) nas línguas naturais e, com certeza, pela quantidade de MSs, associadas a cores. Por outro lado, assumir (c) implica supor que o repertório de termos ligados à audição tivesse também uma presença maciça nas línguas e, em consequência, na construção de sinestesias. Além de todo o teor corpóreo presente na construção da MS em razão da associação imediata dos termos com partes do corpo, é importante ainda ressaltar que pares como frio/quente, suave/áspero poderiam representar padrões comuns da metáfora conceitual, ou seja, quente / liso imprime um valor de destaque aos elementos

touch taste smell sound color

lower sense higher sense

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Esquema 3 – Direcionalidades segundo Williams – Fonte: WILLIAMS, 1976, p. 463. Na pesquisa desenvolvida pelo autor, foram detectados seis caminhos possíveis para as mudanças sinestésicas, conforme a configuração apresentada no Esquema 3, que podemos resumir nos itens seguintes: (i) partindo do tAto, temos possibilidade de sinestesias com o sAbor – gosto cortante –, com a cor

  • verde áspero, amarelo liso –, com o soM – som quente, grunhido áspero, voz macia ; (ii) partindo do sAbor, temos uma combinação com odor – perfume azedo, cheiro doce ; com o soM – música azeda, ruído doce ; (iii) partindo do olFAto, segundo o autor, nenhuma sinestesia foi registrada; (iv) partindo de cor e soM, tem-se um processo reversivo de sinestesias, isto é, podemos ter: vermelho agudo, amarelo sonoro , como também sons brilhantes, sons azulados ; (v) o parâmetro dIMEnsão, embora abrigue termos não sensoriais, foi destacado pelo autor como importante para a mudança semântica e representa escalas gradientes que um conceito perceptivo pode comportar: para corEs – claro, escuro, denso, fosco –; para soM – suave, agitado. A pesquisa de Williams é densa porque traz detalhes sobre o processo histórico de mudança semântica sinestésica de muitos adjetivos em inglês, inclusive detalhando a hipótese sobre sucessivas mudanças que um mesmo item lexical pode comportar; é o que percebemos em seu estudo ao analisar o comportamento do adjetivo harsh (áspero) que se aplica a qualificações sensoriais do tAto, do sAbor, da cor e do soM. Esse caso, dentre muitos outros,

touch taste smell dimension

color

sound

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é analisado com detalhes de registros históricos e de levantamentos estatísticos que serviram de base para uma discussão sobre as mudanças sucessivas. Sua pesquisa é também ampla, não apenas pelo número de exemplos que analisa no inglês, mas pela recorrência dos fatos analisados em outros sistemas, numa análise comparativa com dados apontados em seu estudo. Por outro lado, embora a questão da direcionalidade tenha se mostrado de modo mais claro para os fatos linguísticos na formulação de Williams, até mesmo por ter se fundamentado no uso comum da língua, a proposta ainda apresenta dificuldades, conforme se pode verificar no comentário de Werning et al. Dado que alguma versão de direcionalidade é verdadeira para certas línguas, a escolha do domínio-fonte e do domínio-alvo deve significativamente influenciar a acessibilidade a uma metáfora sinestésica. Todavia, devem também existir outros fatores: a frequência global das palavras usadas como modificadores ou núcleos, a morfologia das palavras, bem como fatores pessoais relativos ao sujeito, como idade, gênero, língua materna. Nosso experimento, realizado para a língua alemã, foi projetado para isolar os fatores que se relacionam com a acessibilidade cognitiva das metáforas sinestésicas e para explorar explicitamente o papel de direcionalidade. O que, inicialmente, podemos extrair dessa formulação dos autores em termos de ajustes ou de objeções aos modelos propostos por Ullmann e Williams? (WERNING et al. , 2010, p. 2.266- 2.267)^16 Dois fatos merecem destaque, por serem recorrentes nas abordagens dos processos sinestésicos: a acessibilidade e a direcionalidade, numa relação complementar. A primeira, entendida como uma decisão sobre a escolha entre o domínio-fonte e o←o domínio-alvo consequente, coloca em questão se uma sinestesia pode se iniciar por qualquer sensor. A segunda, entendida como um 16 “Given that some version of a directionality claim is true for a certain language, the choice of source and target domain should significantly influence the accessibility of a synaesthetic metaphor. But there could also be other factors: the overall frequency of words used as modifiers or heads, the morphology of the words, as well as personal factors of the interpreter, like age, gender, and mother tongue. Our experiment performed for the German language was designed to isolate the factors that correlate with the cognitive accessibility of synaesthetic metaphors and to explicitly explore the role of directionality.”

Sinestesia e metáforas

[nome [sensorial] + adjetivo [sensorial]] ↓ Relação básica verde suave vermelho áspero amarelo insípido verdidão suave vermelhidão áspera sabor amarelo ↑ [adjetivo [sensorial] + adjetivo [sensorial]] ↓ aroma macio / aroma amaciado som azul / som azulado música saborosa Reversão suave verde áspero vermelho insípido amarelo suavidade verde / suavidade esverdeada aspereza vermelha / aspereza avermelhada amarelidão saborosa maciez aromática azul sonoro sabor musical Esquema 4 – Reversibilidade Outro problema apontado pelos autores é a fixação do D-fonte e do D-alvo: há trajetos de sinestesia que parecem mais naturais e mais processáveis do que outros, o que levaria certamente a uma flexibilização nesse processo. Em português, por exemplo, é discutível se na maioria dos casos não podemos reverter os domínios

  • verde gostoso , sabor esverdeado/verde; cheiro verde, verde cheiroso –, mas é

Sinestesia e metáforas

claro também que reversibilidade entre os domínios pode implicar perspectivas diferentes para o efeito de sentido almejado, como se pode apurar pelos exemplos do Esquema 4. Outro fato de natureza linguística importante e que foi destacado na pesquisa dos autores é a frequência global das palavras usadas nos processos de construção de MSs. O número de itens lexicais que as línguas disponibilizam na esfera dos sensores é muito diferenciado. Existe discrepância enorme, em português, entre os termos representativos para o olfato e para a visão, basta admitir que nesse último se incluem os nomes de cores. Certamente, teremos para a visão um número muito maior de possibilidades sinestésicas do que para o olfato,^18 como também para outros sensores. Por exemplo, ao longo de toda a pesquisa histórica sobre a gustação (de Aristóteles a meados do século XX), houve unanimidade no reconhecimento de quatro elementos básicos – doce, amargo, azedo, salgado –; outros elementos – metálico, pungente, áspero, aromático –, eventualmente constantes da lista de algum pesquisador, fariam parte de algo que Williams apontou como transferências de segunda, terceira ou quarta ordem.^19 À quantidade de elementos disponíveis na esfera de um sensor, devemos acrescentar o fato de que muitos deles apresentam uma baixa frequência de uso, o que os torna menos afeitos à integração sinestésica. Por exemplo, o uso pouco frequente de termos como adstringente, amaro, oblongo, ciano, magenta, absinto, olor, acre , certamente atenuam possibilidades de transformações sinestésicas. Embora com recorrência menos frequente, nada impede, todavia, a criação de uma forma como oblongo suave para nomear o formato de uma folha cuja extensão vertical fosse pouco acentuada em relação à horizontal. Por outro lado, como um dos destaques do seu estudo esteve centrado na direcionalidade, Werning et al. apontam orientações que se revelaram mais próximas às de Williams do que às de Ullmann. Entretanto, se a linearização proposta por Williams foi refutada, por parecer muito fechada nas possibilidades 18 No esquema proposto por Williams, o olfato não se constitui como um D-fonte, logo, a partir dele não existem ramificações sinestésicas; mas isso pode representar apenas uma particularidade da pesquisa diacrônica sobre adjetivos em inglês, desenvolvida pelo autor. 19 Conforme Williams, “Um grande número destes lexemas (aqueles implicados com atividades sensoriais), evidentemente, implica transferência por uma segunda, terceira e até mesmo por uma quarta vez.” (“A large number of these lexemes, of course, transfer a second, third, even fourth time (WILLIAMS, 1976, p. 465).

Hugo Mari