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Perspectivas mundiais: o sentido da série É tese de Perspectivas Mundiais que o homem está em via de desenvolver nova consciência que, apesar de seu aparente cativeiro espiritual e moral, poderá levar a raça humana para além do medo, da ignorância e do isolamento que a bloqueiam. Perspectivas Mundiais está dedicada a esta consciência emergente, a este conceito de homem nascido de um universo considerado através de nova visão da realidade. Minha introdução a esta Série não deve ser consid
Tipologia: Notas de estudo
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Não perca as partes importantes!





























































































tradução de LÚCIA MATHILDE ENDLICH ORTH 7ª Edição \VOZES/ Petrópolis 1985
Copyright © 1970, 1971 by Ivan Illich
Título do original inglês: DESCHOOLING SOCIETY
Harper & Row, Publishers, Inc.
Um volume da série Perspectivas Mundiais (World Perspectives)
Planejada e editada por Ruth Nanda Anshen
Conselho Editorial de Perspectivas Mundiais:
Lord Kenneth Clark Richard Courant Werner Heisenberg Ivan Illich
Konrad Lorenz Joseph Needham
I. I. Rabi
Sarvepalli Radhakrishnan
Karl Rahner, S.J. Alexander Sachs
C. N. Yang
© da tradução portuguesa Editora Vozes Ltda.
Rua Frei Luís, 100
Petrópolis, RJ
Brasil
Printed in Brazil
existe um primordial poder unitivo, uma vez que estamos todos ligados por uma comum humanidade, mais fundamental que qualquer unidade de dogma; aqueles que reconhecem que a força centrífuga que dispersou e atomizou o gênero humano deve ser substituída por uma estrutura integradora e por um processo capaz de dar sentido à existência; aqueles que percebem que mesmo a ciência, se castigada e humilhada e não limitada pelos parâmetros de sua própria metodologia, levará o homem a um campo indeterminado do qual poderão emanar conseqüências ainda imprevisíveis.
Virtualmente, todas as nossas disciplinas escolares se basearam em concepções que, hoje, são incompatíveis com o axioma cartesiano e com a visão de mundo estática que derivamos desse axioma em determinado momento. Para suporte das novas idéias, inclusive as da moderna física, existe urna ordem unificadora, mas que não é a causalidade; é finalidade, não finalidade do universo e do homem, mas a finalidade no universo e no homem. Em outras palavras, parece que habitamos um mundo de processos e estruturas dinâmicas. Por isso precisamos de um cálculo potencial, em vez de um cálculo de probabilidade, uma dialética de polaridade, um cálculo em que a unidade e diversidade sejam redefinidas como pólos simultâneos e necessários de unia mesma essência.
Estamos numa situação nova. Nenhuma civilização antes da nossa teve que enfrentar o desafio da especialização científica; nossa resposta deverá ser nova. Esta Série destina-se a assegurar que as necessidades morais e espirituais do homem como ser humano e os recursos científicos intelectuais a seu comando em benefício da vida podem ser reunidos numa harmonia produtiva, cheia de sentido criativa.
Em certo sentido podemos dizer que, atualmente, o homem readquiriu sua antiga posição geocêntrica no universo. Foi possível tirar uma fotografia da Terra do longínquo espaço, do deserto lunar, e o isolamento absoluto da Terra ficou evidente. Na história, esta é uma idéia tão nova e tão poderosa como jamais existiu outra nascida da mente humana. Estamos todos nos interessando seriamente pelo nosso meio-ambiente natural. Não é um interesse que resulta apenas das recomendações dos biólogos, ecologistas e conservacionistas. É antes resultado de profunda consciência de que algo novo aconteceu, que o planeta Terra é um lugar único e precioso. De fato, não é mera coincidência que esta consciência tenha nascido no exato momento
em que o homem deu seu primeiro passo fora do espaço.
Esta Série quer apresentar uma realidade da qual as teorias científicas mostraram apenas um aspecto. E este compromisso com a realidade que empresta dimensão universal ao pensamento mais original e solitário do cientista. Reconhecendo isto francamente poderemos restituir a ciência à grande família das aspirações humanas pelas quais os homens esperam realizar-se na comunidade mundial como seres pensantes e sensitivos. Nosso problema é descobrir um princípio de diferenciação e também um relacionamento lúcido o bastante para justificar e purificar o conhecimento científico, filosófico e todos os demais, sejam discursivos ou intuitivos, aceitando sua interdependência. Esta é a crise do conhecimento que se tornou perceptível pela crise da ciência. Este é o novo despertar.
Cada volume apresentará o pensamento e crença de seu autor. Mostrará como a religião, filosofia, arte, ciência, economia política e história podem constituir aquela forma de atividade humana que toma em conta, da forma plena precisa, a variedade, possibilidade, complexidade e dificuldade. Perspectivas Mundiais quer, assim, definir aquela força ecumênica da mente e do coração que capacita o homem a recriar sua vida, movido por sua grandeza misteriosa.
Esta Série quer reexaminar todos aqueles aspectos do esforço humano que o especialista aprendeu a crer que poderia perfeitamente deixar de lado. Tentará mostrar a estrutural afinidade entre sujeito e 'objeto; a imanência de um no outro. Interpretará fatos presentes e passados invadindo a vida humana nesse mundo que cresce em idade, analisará o que o homem poderá alcançar quando solicitado por uma inflexível necessidade interior a procurar que é mais nobre nele. Sua finalidade é apresentar novas perspectivas em termos de desenvolvimento do homem e do mundo; mas recusa-se a trair a íntima correlação entre universalidade e individualidade, entre dinâmica e forma, liberdade e destino. Todos os autores tratarão dos assuntos com a crescente convicção de que espírito e natureza não estão separados ou divididos; que intuição e razão devem readquirir sua importância como meios de perceber fundir o seu interior com a realidade exterior.
Perspectivas Mundiais quer mostrar que a concepção de totalidade, unidade, organismo é mais elevada e mais concreta que a de matéria e energia. Por isso esta Série tenta buscar um significado
para a reciprocidade dos elementos objetivos que ensejam e limitam a escolha feita. Portanto, uma compreensão dos problemas é condição necessária, ainda que não suficiente, a fim de dirigir a ação para soluções construtivas.
Outras questões vitais a serem analisadas referem-se a problemas da comprensão internacional bem como a problemas dos preconceitos e das tensões e antagonismos assim resultantes. A crescente percepção e responsabilidade de nossa época aponta para a nova realidade de que a pessoa individual e a pessoa coletiva se complementam e se integram; de que a escravidão totalitária, tanto da esquerda como da direita, foi abalada em seu desejo universal de reconquistar a autoridade de confiança e a humanidade inteira. A humanidade não pode mais depositar sua confiança no autoritarismo proletário nem no humanismo secularizado — ambos traíram o direito de propriedade espiritual da história — mas numa fraternidade sacramental e na unidade do conhecimento. Esta nova mentalidade criou abertura de horizontes humanos para além de qualquer paroquialismo e uma revolução no pensamento humano comparável à idéia básica, entre os antigos gregos, da soberania da razão; correspondente ao grande resplendor da consciência moral pregada pelos profetas hebreus; análoga às verdades fundamentais do cristianismo; ou ao início da nova era científica, a era da ciência dinâmica, os fundamentos experimentais que foram colocados por Galileu na Renascença.
Importante iniciativa desta Série será reexaminar os significados e aplicações contraditórios que se atribuem hoje a termos como democracia, liberdade, justiça, amor, paz, fraternidade e Deus. A finalidade dessas pesquisas será iluminar o caminho para a fundamentação de uma autêntica história do mundo, não em termos de nação, raça ou cultura, mas em termos de homem em relação a Deus, em relação a si mesmo, a seus semelhantes e ao universo, termos que ultrapassam o auto-interesse imediato. O sentido do mundo está em respeitar as esperanças e sonhos do homem que levam a uma compreensão mais profunda dos valores básicos de todos os povos.
Perspectivas Mundiais foi planejada para aprofundar o sentido do que vem a ser homem, que não apenas é determinado mas também determina a História. Deve-se entender a História como dizendo respeito não só à vida do homem neste planeta mas incluindo
também as influências cósmicas que interpenetram nosso mundo humano. A geração atual está descobrindo que a História não se conforma ao otimismo social da civilização moderna e que a organização de comunidades humanas e o estabelecimento de liberdade e paz não são apenas conquistas intelectuais mas também conquistas espirituais e morais, exigindo um engajamento da personalidade humana total, a "totalidade direta do sentimento e do pensar", constituindo desafio interminável ao homem, emergindo do abismo da insignificância e do sofrimento, para serem renovadas e aperfeiçoadas na totalidade de su a vida.
A própria justiça que esteve "num estado de peregrinação e crucifixão" e está sendo aos poucos libertada da pressão de demonologias sociais e políticas, tanto no Oriente como no Ocidente, começa a questionar suas próprias premissas. Os movimentos revolucionários modernos que desafiaram as sagradas instituições da sociedade, acusando-as de protegerem a injustiça social em nome da justiça social, são aqui examinados e reavaliados. À luz disso, não temos outra escolha a não ser admitir que a não-liberdade, pela qual é medida a liberdade, deve ser conservada juntamente com esta; que o aspecto da verdade do qual parece emergir a visão sombria, a escuridão de nosso tempo, não pode ser abandonado como não pode o progresso subjetivo do homem. Portanto, as duas fontes da consciência humana são inseparáveis — não como mortas, mas vivas e complementares —, um aspecto daquele "princípio de complementaridade" pelo qual Niels Bohr procurou unir o quantum e a onda que constituem a verdadeira estrutura da energia radiante da vida.
Há na humanidade de hoje uma contraforça à esterilidade ao perigo de uma cultura de massa quantitativa e anônima; um novo — às vezes imperceptível — senso espiritual de convergência para a unidade humana e mundial à base da sacralidade de cada pessoa humana e do respeito pela pluralidade de culturas. Cresce a certeza de que a igualdade não pode ser avaliada em simples termos numéricos, mas que é proporcional e analógica em sua realidade. Quando a igualdade for identificada com permutabilidade , então se nega a pessoa humana, e a identidade individual fica reduzida a máscara sem rosto.
Estamos próximos a uma época em que a vida humana pressionará para dar origem a novas formas. Reconhece -se a falsa
descobrirmos o acertado equilíbrio entre a falta de um princípio que tudo abranja, relevante para nossa maneira de avaliar a vida, e nosso poder de expressar-nos de maneira logicamente válida.
Nossa herança judeu-cristã e greco-romana, nossa tradição helênica levaram-nos a pensar em categorias exclusivas. Mas nossa experiência nos desafia a reconhecermos uma totalidade mais rica e bem mais complexa que o observador comum nem poderia suspeitar — uma totalidade que o leva a pensar de um modo que a lógica das dicotomias nega. Somos intimados a rever categoricamente nosso modo comum de conceber a experiência. E, assim, ampliando nossa visão e aceitando aquelas formas de pensamento que também incluem categorias não-exclusivas, estará a mente capaz de entender o que era incapaz de entender e aceitar antes.
Apesar dos infindos compromissos do homem; apesar de seu poder finito; da intransigência dos nacionalismos e do desabrigo das paixões morais, frustradas pela visão científica; sob a aparente turbulência e cataclismo da atualidade; aproveitando as transformações desse período dinâmico que vem acompanhado de um crescimento da consciência universal, o propósito de Perspectivas Mundiais é ajudar a acelerar "o inabalável coração da bem-cercada verdade" e a interpretar os elementos significativos no Mundo atual que agora tomam forma no cerne dessa continuidade eclatante do processo criativo que reintegra o homem na humanidade e, ao mesmo tempo, aprofunda e intensifica sua comunhão com o universo.
RUTH NANDA ANSHEN
Introdução
Devo meu interesse pela educação como uma função pública a Everett Reimer. Antes de nosso primeiro encontro em Porto Rico, em 1958, nunca havia questionado o valor de estender a obrigatoriedade escolar a todo o povo. Juntos, chegamos à conclusão de que a maioria dos homens tem seu direito de aprender cortado pela obrigação de freqüentar a escola. Os ensaios, apresentados no CIDOC e reunidos neste livro, brotaram de memoranda que submeti a ele e que discutimos durante 1970, o décimo terceiro ano de nosso diálogo. O último capítulo contém minhas reflexões sobre uma conversa que tive com Erich Fromm no Bachofen's Mutterrecht.
Desde 1967 Reimer e eu nos encontramos regularmente no Centro Intercultural de Documentação (CIDOC), em Cuernavaca, México. Valentine Borremans, a diretora do Centro, também participava de nosso diálogo e sempre insistia comigo para que nossa reflexão fosse testada sobre a realidade da América Latina e África. O presente livro reflete a convicção dela de que o «ethos» — e não tanto as instituições — da sociedade deveria ser «desescolarizado».
Não é possível uma educação universal através da escola. Seria mais factível se fosse tentada por outras instituições, seguindo o estilo das escolas atuais. Nem as novas atitudes dos professores em relação aos alunos, nem a proliferação de práticas educacionais rígidas ou permissivas (na escola ou no quarto de dormir) , nem a tentativa de prolongar a responsabilidade do pedagogo até absorver a própria existência de seus alunos vai conseguir a educação universal. A atual procura de novas saídas educacionais deve virar procura de seu inverso institucional: a teia educacional que aumenta a oportunidade de cada um de transformar todo instante de sua vida num instante de aprendizado, de participação, de cuidado. Esperamos contribuir com conceitos válidos aos que se ocupam dessa pesquisa no campo educacional — e também aos que procuram alternativas para outras indústrias de serviço estabelecidas.
Às quartas-feiras de manhã, durante a primavera e verão de 1970, submeti as diversas partes desse livro aos participantes de nosso programa CIDOC, em Cuernavaca. Vários deram sugestões e teceram críticas. Muitos reconhecerão idéias suas nestas páginas, sobretudo Paulo Freire, Peter Berger e José Maria Bulnes, mas
1. Por que devemos desinstalar a escola
Muitos estudantes, especialmente os mais pobres, percebem intuitivamente o que a escola faz por eles. Ela os escolariza para confundir processo com substância. Alcançado isto, uma nova lógica entra em jogo: quanto mais longa a escolaridade, melhores os resultados; ou, então, a graduação leva ao sucesso. O aluno é, desse modo, «escolarizado» a confundir ensino com aprendizagem, obtenção de graus com educação, diploma com competência, fluência no falar com capacidade de dizer algo novo. Sua imaginação é «escolarizada» a aceitar serviço em vez de valor. Identifica erroneamente cuidar da saúde com tratamento médico, melhoria da vida comunitária com assistência social, segurança com proteção policial, segurança nacional com aparato militar, trabalho produtivo com concorrência desleal. Saúde, aprendizagem, dignidade, independência e faculdade criativa são definidas como sendo um pouquinho mais que o produto das instituições que dizem servir a estes fins; e sua promoção está em conceder maiores recursos para a administração de hospitais, escolas e outras instituições semelhantes.
Nesses ensaios quero mostrar que a institucionalização de valores leva inevitavelmente à poluição física, à polarização social e à impotência psíquica três dimensões de um processo de degradação global e miséria modernizada. Explicarei como este processo de degradação se acelera quando necessidades não materiais são transformadas em demanda por mercadorias; quando saúde, educação, mobilidade pessoal, bem-estar, recuperação psicológica são definidos como resultados de serviços ou «tratamentos». Faço isso porque tenho a impressão de que a maioria das pesquisas realizadas atualmente sobre o futuro tendem a pleitear maior incremento na institucionalização de valores e porque acho que devemos definir condições que permitam acontecer exatamente o contrário. Necessitamos de pesquisas sobre a possibilidade de usar a tecnologia para criar instituições que sirvam à interação pessoal, criativa e autônoma e que façam emergir valores não passíveis de controle substancial pelos tecnocratas. Necessitamos de pesquisas que se oponham à futurologia em voga.
Desejo levantar uma questão de ordem geral, isto é, a definição comum de natureza humana e a natureza das modernas instituições que caracterizam nossa mundividência e linguagem. Para isso,
escolhia escola como paradigma. E só abordarei indiretamente outras instituições burocráticas do Estado: a família-consumidora, o partido, o exército, a igreja, os meios de comunicação. Minha análise do secreto currículo escolar poderá evidenciar que a educação pública tiraria proveito da desescolarização da sociedade; da mesma forma que a vida familiar, a política, a segurança, a fé e as comunicações tirariam proveito de processo análogo.
Começo minha análise, neste primeiro ensaio, tentando mostrar o que a desescolarização de uma sociedade escolarizada poderia significar. Neste contexto será mais fácil compreender minha escolha dos cinco aspectos específicos pertinentes a este processo dos quais tratarei nos capítulos subseqüentes.
Não apenas a educação, mas também a própria realidade social tornou-se escolarizada. Dá quase na mesma escolarizar pobres e ricos nas mesmas dependências. O gasto anual por aluno seja numa favela ou em rico subúrbio de qualquer cidade dos Estados Unidos está na mesma proporção, sendo às vezes favorável às favelas^1.
Pobres e ricos dependem igualmente de escolas e hospitais que dirigem suas vidas, formam sua visão de mundo e definem para eles o que é legítimo e o que não é. O medicar-se a si próprio é considerado irresponsabilidade; o aprender por si próprio é olhado com desconfiança; a organização comunitária, quando não é financiada por aqueles que estão no poder, é tida como forma de agressão ou subversão. A confiança no tratamento institucional torna suspeita toda e qualquer realização independente. O progressivo subdesenvolvimento da autoconfiança e da confiança na comunidade é mais acentuado em Westchester do que no Nordeste do Brasil. Em toda parte, não apenas a educação, mas a sociedade como um todo precisa ser «desescolarizada».
Departamentos de bem-estar reivindicam um mono-pólio profissional, político e financeiro sobre a imaginação social, estabelecendo padrões para o que é proveitoso e o que é possível. Este monopólio está na raiz da modernização da pobreza. Qualquer simples necessidade, para a qual foi encontrada resposta institucional, permite a invenção de nova classe de pobres e nova
(^1) JACKSON, Penrose B., Trends in Elementary and Secondary Education Expenditures: Central City and Suburban Comparisons 1965 a 1968. U.S. Office o1 Education, Office of Program and Planning Evaluation, junho 1969.
que custa sessenta dólares por dia — o equivalente ao ganho de três meses para a maioria das pessoas no mundo. Mas este cuidado somente os torna dependentes de mais atenções; torna-os progressivamente mais incapazes de organizar suas próprias vidas, a partir de suas experiências e recursos, dentro de suas próprias comunidades.
Os pobres, nos Estados Unidos, melhor do que ninguém, podem falar sobre a situação que ameaça todos os pobres do mundo que se moderniza. Estão descobrindo que nenhuma quantia de dólares pode remover a inerente destrutividade das instituições de bem-estar, uma vez que as hierarquias profissionais dessas instituições convenceram a sociedade que seu trabalho é moralmente necessário. Os pobres dos bairros urbanos dos Estados Unidos podem demonstrar, por experiência própria, a falácia sobre a qual está construída a legislação social numa sociedade «escolarizada».
Um magistrado da Corte Suprema, William O. Douglas, observou que «a única maneira de estabelecer uma instituição é financiando- a». O corolário que se segue também é verdadeiro. Somente tirando os dólares das instituições que atualmente cuidam da saúde, educação e bem-estar, pode ser sustado o progressivo empobrecimento que resulta de seus destrutivos efeitos colaterais.
Devemos ter isto em mente quando avaliamos os programas de ajuda federal. Para ilustrar, de 1965 a 1968 foram gastos nas escolas dos Estados Unidos mais de três bilhões de dólares para compensar as desvantagens que afetavam a seis milhões de crianças. Conhecido como Título Um (Title One), foi o programa compensatório em educação mais caro que já se realizou em qualquer parte do mundo, ainda que não se conseguisse perceber significativa melhoria na aprendizagem dessas crianças «em desvantagem». Comparadas com seus colegas, provindos de famílias de renda média, permaneceram mais atrasados ainda. Como se isso fosse pouco, durante a execução do programa, profissionais descobriram mais dez milhões de crianças que estavam em condições econômicas e educacionais desvantajosas. Existem agora mais razões para solicitar mais verbas federais.
Esse total fracasso no incremento da educação dos pobres, apesar das atenções bem dispendiosas, pode ser explicado de três formas :
três bilhões de dólares são insuficientes para melhorar o
rendimento, em quantidade mensurável, de seis milhões de crianças ; ou
o dinheiro foi incompetentemente gasto: eram necessários, e teriam resolvido o caso, diferentes currículos, melhor administração, ulterior concentração das verbas sobre a criança pobre e mais pesquisas; ou
a desvantagem educacional não pode ser sanada confiando na educação ministrada nas escolas.
A primeira forma é verdadeira na medida em que este dinheiro tiver sido aplicado pelo orçamento escolar. O dinheiro, na realidade, foi para as escolas que possuíam mais crianças «em desvantagem», mas não era gasto com as crianças pobres como tal. Essas crianças para as quais foi destinado o dinheiro eram apenas metade dos componentes das escolas que tiveram seus orçamentos aumentados pelos subsídios federais. O dinheiro foi gasto, portanto, com inspetores, ensino e seleção vocacional, bem como com educação. Todas essas funções diluem-se inextricavelmente em instalações, currículos, professores, administradores e outros componentes-chave dessas escolas e, portanto, de seus orçamentos.
Essas verbas extras fizeram com que as escolas provessem desproporcionalmente as necessidades das crianças relativamente mais ricas que também estavam «em desvantagem» por terem que freqüentar a escola em companhia dos pobres. No máximo uma pequena fração de cada dólar destinado a remediar as desvantagens educacionais de uma criança pobre podia atingi-la através do orçamento escolar.
Poderia ser verdade também que o dinheiro fosse gasto incompetentemente. Mas nenhuma incompetência, por mais crassa, pode competir com a incompetência do próprio sistema escolar. As escolas, por sua própria estrutura, opõem-se à concentração de privilégios naqueles que estão, de outra forma, em desvantagem. Currículos especiais, classes separadas ou aulas mais longas constituem mais discriminação, a um custo mais elevado.
Os contribuintes fiscais ainda não se acostumaram a permitir que desapareçam três bilhões de dólares na Saúde, Educação e Bem- Estar — como é o caso do Pentágono. A atual Administração pode crer que vai arcar com a ira dos educadores. Os americanos da classe média nada perdem se o programa é extinto. Os pais pobres acham