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Sociologia e Educação, Resumos de Sociologia Contemporânea

Sociologia e Educação para alunos de ciencias sociais

Tipologia: Resumos

2026

Compartilhado em 15/04/2026

lisian-priscilla-oliveira
lisian-priscilla-oliveira 🇧🇷

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EM DEFESA DA SOCIOLOGIA (PORTUGUESE EDITION) 7 Quatro mitos na história do pensamento social Na presente discussão, E im Tenciono partir do argumento de que, embora gozem de o aceitação, tais interpretações são falsas ou errôneas. Na condição de mitos populares criados em torno dos escritos de um dos mais influentes autores que contribuiram para a formação da sociologia moderna, eles exerceram enorme influência sobre análises e avaliações do posterior desenvolvimento da matéria. Tais interpretações são as seguintes: 1. O mito do problema de ordem. Segundo essa linha interpretativa, o pensamento de certos autores, cuja obra teve importância notável para a sociologia moderna — sobretudo o desenvolvido por Durkheim -, pode ser en- tendido como uma tent de solucionar um “problema de ordem” abstrato que deita raízes profundas na filosofia social do Ocidente. 2. O mito das origens conservadoras da sociologia. A referida tese sustenta que os parâmetros intelectuais mais significati- vos subjacentes à sociologia moderna — e aqui, mais uma vez, os escritos de Durkheim são citados e recebem destaque especial - decorrem de várias formas de ideologia con- servadora que passaram a existir como uma reação às mudanças produzidas por “duas grandes revoluções” ocorridas no final do século estan na Europa: a Revolução Francesa de1789ea Fevolução Industrial. com essa visão, Tal como acontece com todos os mitos, essas quatro interpretações do desenvolvi- mento do pensamento social contêm elementos verdadeiros e, de fato, lançam luzes sobre aspectos encontrados na obra de Durkheim em particular e na formação da soci- ologia moderna em geral. Contudo, se cada uma delas tem certa validade, igualmente 1 hrs 8 mins restante(s) no livro 47% EM DEFESA DA SOCIOLOGIA (PORTUGUESE EDITION) cada uma delas representa uma distorção. Também, como em outros mitos, essas inter- pretações do desenvolvimento do pensamento social resultam dos esforços coletivos de vários autores. Na análise apresentada nas próximas páginas, limitar-me-ei a algumas das mais proeminentes exposições dos referidos pontos de vista. O problema de ordem O mito do problema de ordem conheceu nos trabalhos de Talcott Parsons sua formulação mais contundente e bem fundamentada. Ela constitui um dos mais im- portantes temas do que talvez tenha sido o mais influente estudo já realizado sobre o desenvolvimento da teoria social — The Structure of Social Action [A estrutura da ação Social, que também contribuiu para divulgar o mito da grande cisão. Não obstante, argumenta Ron os elementos essenciais da solução de Hobbes atantad veram-se, de maneira geral, incontestados, na medida em que o utilitarismo conservou uma posição predominante no campo da teoria social. Somente ao final do século XIX, quando o utilitarismo ficou sob fogo cerrado, os pensadores sociais lograram aproximar- se de uma solução satisfatória para a questão hobbesiana - e Durkheim ocupou uma po- sição de liderança nesse processo. Não é possível discutir, dentro de um escopo relativamente limitado, todas as ques- tões levinitadas pela análise de Parsons. Há contudo dubiedade, em pritieiro lugar, em embora i isso tenha sido tradicionalmente atribuído a Hobbes, tal antinomia concebida de modo tão estático demonstra-s se alheia ao próprio pensamento do autor, marcado por sociológicas de Durkheim leva a conclusões errôneas sob diversos aspectos: 1 Não expressa a verdade em relação às influências intelectuais que Durkheim procurou com- bater. O problema de ordem, esclarece Parsons, está condicionado a postulados implícitos na segundo a qual se parte da Logo, pus toma acrítica ao utilitárismo aa o praticamente oúnico ponto 2 Leva a uma representação errônea dos Segundo Parsons, esse estudo encerra uma ambiguidade fundamental: embora Durkheim 10 hrs 47 mins restante(s) no livro 48% EM DEFESA DA SOCIOLOGIA (PORTUGUESE EDITION) tema predominante da sociologia de Durkheim, tal perspectiva certamente não foi, nos termos formulados por Parsons, um problema para Durkheim. As origens conservadoras da sociologia A tese de que os escritos de Durkheim constituem uma investigação prolongada do problema de ordem está intimamente relacionada àquela que atesta sua dívida à ide- ologia “conservadora”. Essa tese tem sido formulada em maiores ou menores graus de sutileza. É desnecessário discutir a opinião de que Durkheim assumia uma postura po- lítica conservadora. Durkheim empreendeu muito poucas incursões à esfera da política prática, & parece impossível avaliar as características específicas de suas gjatitudas em EE Meio e sua participação no caso Dreyfus, mantendo-se ao lado daqueles que defendiam a inocência deste, deram provas irrefutáveis de suas tendências políticas. A maioria dos que destacam a sólida confiança de Durkheim no conservadorismo ideológico, no entanto, tem reconhecido o caráter liberal do autor no campo da política. A argumentação gira em torno de que, não obstante o liberalismo político de Durkheim, no âmbito intelectual ele adotou os principais teoremas conceituais que fizeram parte da “revolta” contra o legado dos filósofos racionalistas do século XVIII - conforme mani- festado nos escritos de autores como de Maistre, Bonald e Chateaubriand: Os conservadores do início do século XIX representam um anti-Iluminismo. Na renascença conservadora, não há um só trabalho, nem mesmo uma só ideia fundamental, que não pro- cure refutar as ideias dos philosophes. Alguns autores, como Chateaubriand, deleitavam-se em parecer por vezes alinhar-se a um dos iluministas como meio de engendrar ataques contra outros iluministas — desferidos via de regra contra Voltaire, cujas críticas brilhantes sobre o cristianismo foram demasiado virulentas para os conservadores de profundas convicções cristãs. Mesmo Burke emprega palavras gentis aqui e ali em momentos em que se prestam a propagar uma noção de inconsistência e divisão no âmbito do Iluminismo. Mas o ódio ao Ilumi- nismo e especialmente a Rousseau reveste-se de um caráter fundamental no conservadorismo filosófico ... E, no final do século, na obra de Durkheim, não religioso e politicamente liberal, encontramos ideias do conservadorismo francês convertidas em algumas das teorias mais es- senciais de sua sociologia sistemática: a consciência coletiva, o caráter funcional de instituições eideias, associações intermediárias, bem como seu desbragado ataque ao individualismo.? Ao avaliarmos tal visão, vale separar respeito às origens intelectuais do pensamento de Durkheim, e a se Isso porque alguns podem inclinar-se sensivelmente no sentido de uma determinada fonte intelectual e, no en- tanto, empregar as ideias por ela compreendidas de forma bem diferente do uso corrente até aquele momento. Daí não decorre que o simples fato de um pensador lançar mão de noções extraídas da filosofia social conservadora necessariamente fará suas próprias teorias assumirem um caráter conservador. Argumentaria, no entanto, que não está cor- reto referir-se a Durkheim como um conservador em qualquer um desses sentidos. Na discussão que propõe acerca da importância do conservadorismo para o desen- volvimento do pensamento social moderno, Nisbet divisa três principais “correntes ideológicas” no século XIX. Além do conservadorismo, existiam, na luta pela supre- macia, as poderosas influências do “radicalismo” e do “liberalismo”. Cada uma dessas 10 hrs 47 mins restante(s) no livro 49%, EM DEFESA DA SOCIOLOGIA (PORTUGUESE EDITION) influências também contribuiu para traçar as perspectivas sociológicas de alguns dos mais importantes pensadores do século XIX, por exemplo, Marx (“radicalismo”) ou John Stuart Mill e Spencer (“liberalismo”). Entretanto, mesmo um exame superficial demons- tra que nenhuma dessas correntes de pensamento foi, nem de longe, tão definida ou distinta como Nisbet procura sugerir. Em primeiro lugar, “conservadorismo”, bem como os outros rótulos apostos por Nisbet à composição ideológica do pensamento social, apresenta um escopo demasiado amplo, em que Nisbet inclui autores cujas ideias, na realidade, evidenciavam divergências fundamentais. Praticamente não há como negar que Marx tenha sido) bastante influenciado, e não só de modo negativo, pelo “conservadorismo”, na forma da filosofia de Hegel. Porém, claro, ele procurou integrar esse aspecto com ideias advindas das outras duas “correntes” - da economia política e da filosofia social “radical” francesa - ao mesmo tempo rejeitando todas as anteriores como formas adequadas de representação dos processos sociais que procurou analisar. A obra de Durkheim, embora não tão abrangente em termos de dívida intelectual como a de Marx, incorpora ideias cujas origens remontam a diversas tradições anterior- mente estabelecidas. Nisbet distingue apenas duas fontes intelectuais dessa obra: uma, metodológica, e a outra, substantiva: O positivismo (em seu sentido amplo - ou seja, de uma metodologia fundada na aplicação vigorosa de valores científicos ao estudo da natureza e sociedade humanas) e o conservado- rismo ... Coube a Durkheim o feito de traduzir para a rigorosa metodologia científica ideias e valores que apareceram pela primeira vez nas polêmicas suscitadas por Bonald, Maistre, Haller e outros que se opuseram à razão e ao racionalismo, bem como à revolução e à reforma.? Contudo, classificar as principais fontes da obra de Durkheim não é assim tão fácil. Para começar, a dívida de Durkheim em relação ao racionalismo do século XVIII não se limitava, tal como afirma Nisbet, a uma essência metodológica. Da mesma forma, os escritos de Durkheim, notadamente sobre Estado e política, foram marcados por um confronto com a filosofia social de Rousseau — não tendo sido apenas uma influência ne- gativa. É evidente que a obra de Saint-Simon e Comte, no entanto, teve importância bem maior para ajudar a traçar as linhas gerais do pensamento de Durkheim. Certamente cabe afirmar que Comte bebeu das fontes dos apologistas católicos conservadores. Isso é verdade sobretudo em relação às ideias manifestas em Positive Polity [Sistema de po- substantivas acerca da tendência de desenvolvimento da sociedade moderna, Durkheim debruçou-se com maior afinco sobre a versão da sociedade hierocrática emergente pro- posta por Saint-Simon do que a formulada por Comte em Positive Polity. A avaliação da importância de Saint-Simon como um dos precursores da sociologia de Durkheim tem, naturalmente, uma certa validade, visto que os trabalhos de Saint-Simon representam uma fonte comum tanto para o positivismo de Comte como para o socialismo de Marx. Conforme indicaremos a seguir, 10 hrs 40 mins restante(s) no livro 49%, EM DEFESA DA SOCIOLOGIA (PORTUGUESE EDITION) “autoridade” e “disciplina”, só pode ser compreendida adequadamente nesses termos. Aqueles que assinalam a natureza conservadora do pensamento de Durkheim, em con- junto com os que dão ênfase ao significado do problema de ordem, negligenciaram a importância da dimensão histórica na sociologia do referido autor. Consequentemente, Assim, parece que Durkheim assume uma posição muito semelhante à de Freud, segundo a qual há (como no “problema hobbesiano”) uma antinomia inerente entre in- divíduo e sociedade, o que necessariamente implica que a existência de “sociedade” está condicionada à repressão de faculdades e a propensões individuais. Com efeito, a visão de Durkheim afasta-se bastante disso. Nas sociedades tradicionais, os indivíduos estão sujeitos ao que Durkheim chama de “tirania do grupo”. Não só praticamente inexiste a tolerância ao desvio dos códigos morais incorporados à conscience collective, mas tam- bém verifica-se um baixo desenvolvimento das capacidades e faculdades individuais. A complexidade crescente da sociedade produz tanto um alcance mais amplo das Hbsis dades humanas como um crescimento na riqueza da Pero Esdada RRCAdENEO É certo que ele não logrou resolver, de maneira bem-sucedida, todas as questões suscitadas pelo fato de haver adotado esse ponto de vista. Os aspectos mais relevantes da postura que assumiu, no entanto, são suficientemente claros. Ao criticar o utilitarismo, Durkheim optou pela visão kantiana de que a moralidade jamais pode ser reduzida aos desejos do ator social individual. Assim, não há fenômeno moral que não apresente um aspecto “limitativo” a ele relacionado. O importante, contudo, é que limitação ou obri- gação não podem ser identificadas com repressão pura e simples, porquanto a conduta moral, segundo Durkheim, jamais envolve meramente limitação, tomada de forma iso- lada: também carrega uma valência positiva. Esta é a base de sua tentativa de síntese do utilitarismo e da filosofia moral de Kant: a conduta moral não está fundamentada nem só na capacidade de desejo, nem só nos deveres, mas sim em uma fusão desses dois elementos Nesses termos, Durkheim procurou transcender as antigas dicotomias filosóficas. ) n A grande cisão Omito da grande cisão foi construído de formas quase que diametralmente opostas. A versão predominante no âmbito da sociologia acadêmica ocidental é a anteriormente mencionada no presente capítulo, que rejeita o caráter pré-científico do pensamento 10 his 26 mins restante(s) no livro 50%, EM DEFESA DA SOCIOLOGIA (PORTUGUESE EDITION) social anterior ao último quarto do século XIX. Em geral, o contraste aqui apresenta-se entre teorias “filosóficas” e sociologia “científica” ou “fundada em bases empíricas”. A outra versão do mito da grande cisão mostra a perspectiva inversa, embora a natureza do suposto contraste em questão seja diferente. Trata-se da visão apresentada por alguns marxistas. A tese, nesse caso, reside no fato de que, muito embora a obra de Marx tenha lançado uma base científica para a teoria social, d Parece que esta última versão, encontrada somente nas variantes mais simples do marxismo, não merece ser discutida em detalhes. Ela não se demonstra consistente com o próprio ponto de vista de Marx: ainda que a economia política burguesa tenha sido “ideológica”, não há como negar que continha elementos básicos que atestavam sua va- A outra tese denota m maiores complicações e, assim nos ATSRE, maior probabilidade de defesa. Durkheim é muitas vezes considerado, em especial por sociólogos norte-ame- ricanos, o fundador da sociologia empírica - o primeiro autor a aplicar o método em- pírico sistemático ao exame de questões sociológicas definidas. Toma-se como modelo aqui o tema do suicídio. Tal visão, contudo, é explicitamente falsa, criada em razão de se ignorar a história pregressa da pesquisa empírica do século XIX. O uso sistemático de estatísticas oficiais para se examinar, de modo supostamente objetivo, a distribuição de “fenômenos morais” começou muito antes nesse século, sob a tutela de “estatísticos morais”, como Quételet. De fato, em geral não se percebe hoje até que ponto do passado remonta a tradição da pesquisa quantitativa em relação a fenômenos sociais. Durkheim debruçou-se sobre copiosos estudos anteriormente realizados que haviam relacionado a distribuição do suicídio a fatores sociais, e, em seus estudos, pouco havia de original no método estatístico ou nas generalizações empíricas que empregou. (Assim, por exemplo, a correlação entre índices de suicídio e grupo religioso já havia sido bem demonstrada em pesquisas anteriores.) A originalidade da obra de Durkheim reside muito menos nos métodos que empregou em Suicide [O suicídio] do que na teoria para a qual contribuiu com inovações; e esta última foi elaborada no contexto consideravelmente mais amplo dos problemas que o preocupavam em Da divisão do trabalho e seus outros escritos. (Ver Capítulo 9.) Evidentemente, não parece suficiente tratar desse assunto nesses termos. A verda- deira questão diz respeito a até onde Durkheim logrou sucesso em dissociar “sociologia” de “filosofia especulativa”. Certamente era essa a perspectiva na qual ele via seu próprio trabalho. Mesmo reconhecendo que Comte, na tentativa de estabelecer uma ciência sociológica autônoma, concebeu-se como um “cientista positivo” da conduta humana, Durkheim recusou a validade daquela descrição. Comte jamais foi capaz de se desvenci- lhar das armadilhas da filosofia especulativa. O fato manifesta-se, segundo Durkheim, “na lei dos três estágios”, que se impõe sobre a história em vez de derivar do estudo em-. pírico do desenvolvimento social. Isso também se aplica a Spencer, que “fez sociologia como um filósofo”, pois “dispôs-se não a estudar fatos sociais em e por si próprios, mas a demonstrar como se pode comprovar a hipótese evolucionária no mundo social.” A ênfase dada pelo próprio Durkheim à questão do caráter parcial do trabalho cien- tífico, da maneira penosa pela qual se conquistam avanços científicos e da necessidade 10 hrs 6 mins restante(s) no livro 51% EM DEFESA DA SOCIOLOGIA (PORTUGUESE EDITION) nados processos padronizados e recorrentes. A outra, a teoria da coerção da sociedade, trata a estrutura social como uma forma de organização mantida pela força e pela restrição e que con- tinuamente ultrapassa os próprios limites no sentido de produzir, em si mesma, as forças que a mantêm em um processo de mudança interminável? Aorigem da teoria da coerção, segundo Dahrendorf, deve ser buscada nos escritos de Marx. Ao estabelecer o contraste entre teoria da integração e da coerção, ele compara os trabalhos de Marx diretamente com os de Parsons; muitos outros escritores, contudo, referiram-se a Durkheim como o principal fundador moderno da teoria da integração. As diferenças que separam as visões de Marx e Durkheim, sustenta-se, residem em con- cepções divergentes do estado natural do indivíduo. De acordo com Horton e outros autores, tais divergências são enfocadas, respectivamente, mediante os conceitos de ali- enação e anomia. O modelo concebido por Durkheim do indivíduo em um estado de natureza, afirma-se, deve muito a Hobbes; Marx construiu o seu modelo a partir daquele retratado por Rousseau. Enquanto neste último parte-se da concepção de que os males da condição humana contemporânea decorrem dos efeitos repressivos da sociedade — dos quais devemos nos libertar - no primeiro, esses males são vistos como resultado justamente de um estado de coisas diametralmente oposto: originar-se-iam da falta de regulamentação social. O modelo marxista inevitavelmente concentra-se na coerção e no poder, ao menos no que concerne ao caráter das sociedades existentes, e, uma vez que se encontra voltado a transformações futuras, atribui ênfase à mudança e não à ordem; o modelo durkheimiano concentra-se no consenso e apresenta um caráter essencialmente estático. Vale distinguir aqui duas questões, em parte, dissociáveis: as supostas discrepâncias entre a obra de Marx e a de Durkheim e o papel da coerção versus consenso nas análises de cunho mais concreto dos dois pensadores. A primeira dessas questões pode ser descartada com certa facilidade. A compara- ção convencional entre as concepções de alienação e anomia nos escritos de Marx e Durkheim simplesmente não se demonstra verdadeira diante dos respectivos pontos de vista de ambos autores. Com certeza, os erros residem na interpretação do pensamento de Marx e, em igual medida, na do pensamento de Durkheim. Ao valer-se da concepção de alienação, Marx não trabalhou na linha de um contraste abstrato entre o “indivíduo na natureza” (não alienado, livre) e o “indivíduo na sociedade” (alienado, não livre). Um indivíduo não se torna “humano”, na concepção de Marx, evadindo-se da sociedade: como bem percebeu logo no início de sua carreira, essa visão é praticamente insusten- tável, posto que a maior parte das faculdades humanas é desenvolvida por meio da so- ciedade. Tanto os filósofos do século XVIII como os utilitaristas partiram da concepção do “indivíduo isolado”, mas o indivíduo humano é, em primeiro lugar e sobretudo, um ser social, e a simples noção do indivíduo isolado é criada como parte da ideologia de uma forma específica de sociedade (sendo, ela própria, uma expressão de consciência alienada). Seres primitivos não estão em condições de autoalienação, mas sim em condi- ção de alienação da natureza; à medida que aumenta nosso domínio da natureza, nossa alienação com respeito a ela passa a ser transcendida - mas somente à custa da alienação de nós mesmos. Expresso em termos menos genéricos: o progresso tecnológico criado pelo capitalismo permitiu-nos conquistar a natureza, porém foi justamente esse pro- cesso que ramificou e maximizou nossa autoalienação. O ponto é que os dois elementos da equação possuem um caráter social: a alienação não se refere a um processo pelo qual nossas necessidades naturais são negadas por nossa participação como membros da so- ciedade, mas sim a um processo em que capacidades geradas socialmente são negadas por formas sociais específicas. 10 hrs 6 mins restante(s) no livro 52% EM DEFESA DA SOCIOLOGIA (PORTUGUESE EDITION) Isso também vale para o uso que faz Durkheim do conceito de anomia. É óbvio que os mesmos dois lados da equação também entram aqui: quer dizer, a condição da anomia também envolve um deslocamento entre dois conjuntos de fenômenos gerados social- mente (necessidades e possibilidades de sua realização). Como Marx, Durkheim aponta que a maioria das faculdades e necessidades humanas são moldadas pela sociedade. Em um estado de natureza não seríamos anômicos, pois nossas necessidades, tal como as dos animais, seriam basicamente orgânicas e, portanto, ajustadas a níveis relativa- mente fixos de saciedade. “Todo instinto é delimitado porque responde a necessidades puramente orgânicas e porque essas necessidades orgânicas são definidas com rigor."!º Indivíduos socializados, contudo, encontram-se em posição bastante diferente. Como nossas necessidades são socialmente criadas, daí decorre, segundo Durkheim, que tam- bém os limites dessas necessidades devem ser fixados pela sociedade. O problema da anomia não reside apenas na limitação social de necessidades (o que já é dado), mas na penetração social tanto das necessidades como dos meios de saciedade. Nem Marx, nem Durkheim lograram esclarecer todas as dificuldades suscitadas a par- tir de seus pontos de vista; contudo, parece por demais simplista defender a ideia de que, embora o conceito de alienação pressuponha que indivíduos sejam, em certo sentido, naturalmente “bons”, passando a degradar-se ao viverem em sociedade, o conceito de anomia parte da premissa de que as pessoas são, por natureza, refratárias à organização social, devendo, portanto, estar sujeitas a limitações. As divergências entre os concei- tos de alienação e anomia, em outras palavras, dependem de diferenças presentes nas respectivas análises elaboradas por Marx e Durkheim do desenvolvimento da sociedade desde estágios primitivos até formas mais complexas. A questão diz respeito a até que ponto tais diferenças estão expressas com exatidão na oposição estabelecida entre a teo- ria da integração e a da coerção. Dahrendorf dissocia a teoria da integração de Durkheim da teoria da coerção de Marx com base no argumento de que a primeira dá ênfase ao “consenso”, ao passo que a segunda destaca o “poder”; afirma, ainda, que a primeira negligencia a importância do “conflito” na sociedade, enquanto a segunda acentua essa importância. “Consenso”, tal como empregado por Comte, por sua vez, foi um termo não utilizado por Marx, que nem sequer pensaria na hipótese de usá-lo. Durkheim o emprega com bastante frequência - embora faça uso muito mais frequente das expressões “cons- cience collective” ou “conscience commune”. Porém, é importante não ser induzido ao erro em virtude de diferenças terminológicas. O lugar ocupado pelo conceito de “ide- ologia” na teoria de Marx não é de todo pejorativo. Sem dúvida, é verdadeira a ideia de que “ideologia” refere-se ao que Engels chamou de consciência “falsa”, e de que esta é uma concepção completamente desprovida da noção de consenso. Contudo, embora a ideologia seja ontologicamente falsa, não é falsa em termos sociológicos. Quer dizer, ideias morais, tais como expressas, por exemplo, em sistemas-ideários religiosos, são de importância fundamental para estabilizar sistemas sociais existentes, bem como para legitimar as relações de classe que neles prevalecem. A hostilidade declarada de Marx à religião, assim como a tentativa, durante toda a sua vida, de desenvolver uma crítica da economia política como elemento da maior importância na ideologia da sociedade bur- guesa, somente faz sentido se este aspecto passar a ser reconhecido. Não é nenhuma surpresa que, enquanto Marx tinha a sociedade como um sistema instável de grupos (classes) em conflito, Durkheim a concebia como um todo unificado — uma entidade “maior que a soma de suas partes”, motivo pelo qual o autor não fez nenhuma análise das origens do conflito social. O fator que induz a erros nisso é o uso do termo genérico “sociedade”. Para tecer um julgamento acerca da validade do contraste, a única comparação adequada parece ser entre as respectivas análises de Marx e Durkheim 9 hrs 51 mins restante(s) no livro 53% EM DEFESA DA SOCIOLOGIA (PORTUGUESE EDITION) XIX”.!1 Caso essa interpretação seja rejeitada, a discrepância se esvai; o liberalismo polí- tico de Durkheim depara com um contraponto direto em sua tentativa, em sua análise sociológica mais geral, de identificar a estrutura de autoridade característica do Estado- nação moderno. Afirmei que cada um dos quatro mitos mencionados possui elementos válidos. Creio que seja oportuno apresentar em seguida uma tentativa de desenvolver esses elementos. Poderíamos partir da questão do “conservadorismo”. O elemento de verdade que une a sociologia da geração de Durkheim a uma reação conservadora às “duas grandes Revo- luções” apenas pode ser compreendido de maneira mais apropriada se essa sociologia es- tiver relacionada ao desenvolvimento sociopolítico dos principais países da Europa Oci- dental do século XIX. Tal observação parece lugar-comum, contudo trata-se de uma perspectiva cuja ausência nas análises que buscam demonstrar o débito da sociologia com o conservadorismo não pode deixar de ser notada. O “conservadorismo” de Bonald e de seus contemporâneos na França constituiu, acima de tudo, uma resposta às aparen- tes consequências dos acontecimentos de 1789. Conforme se tem escrito com proprie- dade acerca de Bonald, “desdenhoso das comunidades e manufaturas urbanas, que ele nem sequer discute, parece que quis fechar os olhos às realidades econômicas de seu tempo ... Bonald não escreveu um tratado de economia: lutou contra a Revolução”.!2 Ao longo de todo o século XIX, na França, o pensamento social continuou sendo dominado, de uma maneira ou de outra, pelo legado da Revolução de 1789. O advento da revolução, naturalmente, ensejou ondas de temor e ansiedade entre os grupos dominantes tantona Grã-Bretanha como na Alemanha, propiciando o cenário global para o surgimento do mais elaborado sistema teórico produzido neste último país: a filosofia de Hegel. No en- tanto, embora o temor da revolução continuasse a assombrar as camadas dominantes nesses dois países durante décadas, outras tendências de desenvolvimento os desviaram de forma decisiva da experiência francesa. Na Grã-Bretanha, uma taxa acelerada de de- senvolvimento industrial foi acompanhada de um processo único de acomodação e in- terpenetração mútuas da aristocracia proprietária de terras e da elite comercial e indus- trial emergente. O resultado foi o surgimento de uma sociedade sem paralelo em ne- nhuma outra parte do mundo no tocante ao teor relativamente uniforme de seu desen- volvimento, que não produziu nem um movimento socialista revolucionário de grande escala, tampouco seu contraponto, um conservadorismo agressivo e irracional. Sob de- terminados aspectos, a Grã-Bretanha foi na realidade contundentemente “conserva- dora”; porém, tal conservadorismo, marcado em especial na esfera política, revelou-se compatível com importantes e progressivas mudanças na infraestrutura social. Em suas famosas palestras sobre Law and Public Opinion in England [A lei e a opinião pública na Inglaterra], Dicey demonstrou de que forma esse fenômeno podia ser identificado medi- ante a natureza mutável do ordenamento jurídico: A França é o país da revolução, a Inglaterra é famosa pelo seu conservadorismo, porém um breve exame no histórico jurídico de cada país sugere a existência de um certo erro no contraste popularmente estabelecido entre a mutabilidade francesa e a imutabilidade inglesa. Apesar das revoluções em Paris, as disposições fundamentais do Código Napoleônico permaneceram, em grande medida, inalteradas desde sua publicação em 1804, e até 1900 o Código passou a ser investido de um tipo de aura jurídica que o protegeu contra mudanças repentinas e avassala- doras. Em 1804, George III estava no trono, e na ocasião a opinião pública inglesa mantinha-se inerte a toda e qualquer mudança legal ou política; no entanto, atualmente, é difícil encontrar alguma parte da legislação inglesa que entre 1804 e os dias de hoje não tenha sofrido alterações na forma ou no conteúdo.!? Portanto, o conteúdo interno do conceito de “conservadorismo”, bem como as inter- relações entre ideologia conservadora e teoria social, apresentou diferenças entre as três 9 hrs 45 mins restante(s) no livro 54% EM DEFESA DA SOCIOLOGIA (PORTUGUESE EDITION) principais sociedades europeias. Na Grã-Bretanha, o utilitarismo, embora tenha passado por transformações significativas desde Bentham a Spencer, sustentou-se como a forma predominante de teoria social ao longo da maior parte do século XIX. Embora final- mente contestado por T. H. Green e os filósofos de Oxford, a crítica à referida teoria permaneceu enfronhada na metafísica idealista. Em nenhum dos outros dois países mencionados o utilitarismo gozou de nada que fosse parecido com o papel preeminente que ocupou (mesmo em sua versão de economia política) na Grã-Bretanha. Tem-se verificado uma tendência comum nos autores britânicos e norte-americanos, ao discu- tirem o pensamento social europeu do século XIX, de atribuir demasiada importância ao significado do individualismo utilitarista. Na França, essa corrente foi desde o início suplantada pelas obras dos filósofos do século XVIII; na Alemanha, a inclinação forte- mente histórica para a filosofia e as ciências econômicas limitou de fato sua penetração. O desenvolvimento da sociedade alemã no século XIX foi sobretudo condicionado por três conjuntos de fatores: o fracasso em se concretizar uma “revolução burguesa” em 1848 e o consequente prolongamento da dominação de uma elite autocrática proprie- tária de terras que se estendeu até o século XX; o fato de a unificação alemã ter sido conquistada mediante o papel hegemônico ocupado pela Prússia, cujo poder se estabe- leceu com base na posição dessa elite; e o advento de um período de desenvolvimento industrial tardio, porém muito rápido, cujos efeitos se concentraram no período que se seguiu imediatamente à unificação do país. Esses fatores produziram diversas correntes de pensamento social, algumas bastante peculiares à Alemanha, envolvendo antigas fu- sões entre filosofias “conservadoras” e “progressistas”, como encontrado nos trabalhos de autores como Oldenberg, Wagner e Schãffle. “Conservadorismo” aqui, contudo, repre- senta primordialmente uma ligação nostálgica e romântica à comunidade (idealizada) da aldeia pré-industrial. A história da França do século XIX, como bem indica a observação de Dicey, foi marcada por uma volatilidade política superficial, que mascarou um conjunto profun- damente enraizado de divisões socioeconômicas que sobreviveram à Revolução de 1789 ou foram por ela engendradas. A nação mais revolucionária da Europa revelou-se tudo exceto revolucionária no que tange à efetiva criação da sociedade burguesa proclamada em seus slo gans. O “conservadorismo” na França esteve sempre relacionado com o cato- licismo e com as reivindicações de proprietários de terra enfraquecidos, porém dotados de tenacidade militante, de arrendatários - e do campesinato independente. Embora para os pensadores alemães da geração de Max Weber o problema maior fosse o dos antecedentes e das consequências do “capitalismo” (analisado aqui, basicamente, em termos de destruição de valores tradicionais por meio da disseminação da “racionaliza- ção” da cultura), na França o debate girou em torno do problema do “individualismo” em face das reivindicações da hierocracia católica. A teoria do Estado de Durkheim foi concebida como uma tentativa de solucionar o “legado da revolução”: a distância entre os ideais de liberdade e igualdade de oportunidade, proclamados em 1789, e a realidade da contínua estagnação da infraestrutura social. Na França, desde o início do século XIX, observou Durkheim: “Mudanças se sucedem a mudanças em uma velocidade sem paralelo ... Ao mesmo tempo, essas mudanças superficiais marcam uma estagnação habitual ... todas essas mudanças superficiais que prosseguem em várias direções anu- lam-se mutuamente”.!4 Tal fenômeno deve ser explicado nos termos da ausência de diferenciação entre Estado e sociedade. Nessas circunstâncias, o Estado não dispõe de independência suficiente para assumir uma postura firme para iniciar e realizar políti- cas, simplesmente é levado ao sabor das tendências da massa, em mudança constante. Segundo concluiu Durkheim, o que teve de ser estabelecido foi uma forma de Estado sólida o suficiente para resistir aos impulsos voláteis da massa (que, caso se permita que 9 hrs 30 mins restante(s) no livro 54% EM DEFESA DA SOCIOLOGIA (PORTUGUESE EDITION) rânea: resulta do fato de que as mudanças necessárias à conclusão do individualismo moral ainda não se tornaram realidade. Este é o contraponto teórico geral da interpre- tação mais concreta do autor dos fatores responsáveis pelo retardo no desenvolvimento de uma “sociedade burguesa” completamente estabelecida na França nos três primeiros quartos do século XIX. Se a ideia de considerar as preocupações de Durkheim oriundas de um interesse irresistível pelo problema da ordem não parece de grande utilidade, dificilmente se po- derá atribuir validade à aplicação dessa noção a Marx, considerando-se que “ordem” aqui decorre da aplicação de “coerção”. Uma vez que a noção de “ordem” é ambígua e pode abranger um número tão extenso de conjuntos possivelmente bastante distintos de circunstâncias (ausência de conflito, ausência de mudanças, prevalência de normas culturais mutuamente compatíveis etc.), pouco se tem a ganhar com o emprego desse termo, a menos que se refira ao “problema hobbesiano”, definido de maneira mais restrita, que está implícito em pelo menos algumas versões do utilitarismo. Desde os primeiros estágios de sua carreira intelectual, Marx repudiou o utilitarismo, tratando- o como uma expressão ideológica que mascara as relações sociais inerentes à divisão do trabalho no capitalismo. A sociologia de Durkheim fundamentou-se na tentativa de examinar as condições pelas quais a França seria capaz de tornar-se uma “sociedade burguesa” completamente desenvolvida. Contudo, foi mais que a defesa de um determinado status quo em face da ameaça do socialismo revolucionário. Se as reflexões sobre a “questão social” foram um fator importante que contribuiu para a formação do pensamento de Durkheim, não menos importante foi a ansiedade do autor em refutar o ressurgimento de forças conservadoras no âmbito da estrutura social. A exemplo de seu famoso contemporâneo na Alemanha, Max Weber, ao aproveitar ideias tanto do socialismo como do conserva- dorismo e recombiná-las em uma nova configuração, Durkheim procurou apresentar um conjunto de princípios lógicos sistemáticos para um Estado burguês que tinha ne- cessariamente de divergir dos princípios “clássicos” do liberalismo, quer dizer, os que haviam encontrado sua expressão no contexto britânico, bastante distinto. Uma vez que o quadro de desenvolvimento na Alemanha foi muito diferente do verificado na França —ea posição ocupada pela burguesia liberal, bem mais frágil -, a tentativa de síntese ela- borada por Weber foi bastante divergente da criada por Durkheim. A fórmula de Durkheim para o surgimento de uma disciplina autônoma de sociologia foi imediatamente relacionada à sua tentativa de avaliar e combinar ideias contidas na tradição de pensamento socialista e na conservadora, tendo sido por ele lapidada, de maneira bastante consciente, com esse objetivo. Segundo Durkheim, o principal pré- requisito intelectual para a instituição de uma sociologia científica foi o abandono com- pleto da filosofia especulativa que ainda permaneceu desempenhando importante papel nos escritos de pensadores de gerações anteriores como Saint-Simon e Comte. Porém, o resíduo mais significativo da filosofia especulativa nos trabalhos desses autores, se- gundo Durkheim, foi de dois tipos relacionados entre si, cada um intimamente ligado aos impulsos sociais que geraram a própria sociologia. O primeiro foi o impulso no sentido de reforma social ou reorganização social; o outro, o que visou à revitalização da religião. O primeiro encontra sua expressão mais característica nas doutrinas do socialismo; o segundo, na conclamação conservadora por uma revivificação religiosa. Durante os três primeiros quartos do século XIX, argumentava Durkheim, mas especi- almente nas épocas de levantes sociais, surge o ímpeto desses três conjuntos de ideias - socialismo, religião e sociologia. Nos trabalhos de Saint-Simon, são encontrados em uma mistura quase que inextricável. Comte foi além de Saint-Simon, não por dar o nome à “sociologia” (que Durkheim julgou ser “um neologismo barbaresco”), mas tam- 9 hrs 16 mins restante(s) no livro 55% EM DEFESA DA SOCIOLOGIA (PORTUGUESE EDITION) bém por fazer uma contribuição substancial no sentido da segregação desta disciplina das demais formas de pensamento em que estava embutida; contudo, ele não conseguiu concluir essa separação e, no final da carreira, sacrificou boa parte de sua sociologia ao impulso religioso. A ênfase de Durkheim na necessidade de se traçar um limite bem definido da matéria de que trata a sociologia, suas metas e objetivos, precisa, portanto, ser compreendida em termos do que foi percebido por esse autor como uma pressão por se diluir a soci- ologia no contexto dos impulsos mais diretamente práticos envolvidos no socialismo e na revivência religiosa. Só uma ciência da sociologia autônoma e estabelecida em bases sólidas tem condições de efetivamente discernir e analisar o que o socialismo e a revi- vência religiosa têm em comum, podendo assim diagnosticar com precisão as soluções para os problemas sociais para os quais cada uma dessas tendências dá expressão. Isso porque, embora o socialismo, especialmente o marxista, identifique-se como científico, as proposições nele contidas, que brotam de uma premente consciência da necessidade dereorganização social, vão muito além do que se pode afirmar ser verificado, ou mesmo verificável, sob o ponto de vista empírico. Daí se explica a ênfase bastante frequente dada por Durkheim à natureza modesta e cautelosa da investigação sociológica, bem como sua tentativa de conservar o caráter “positivo” da sociologia de Comte em uma nova roupagem. Apesar - ou, como a presente análise tem buscado demonstrar, por causa — de seu caráter restrito e científico, a sociologia realmente detém a chave para o entendimento prático da “crise moderna”. Assim, Durkheim foi levado a estabelecer uma definição precisa do campo da soci- ologia e a insistir na limitação das investigações sociológicas a problemas restritos e claramente delimitados. Porém, justamente a amplitude do contexto que levou o autor a erigir essa nova perspectiva sociológica pôs a sociologia em uma posição inevitavel- mente paradoxal, pois nenhuma disciplina de sociologia “neutra” e circunscrita seria capaz de fazer uma abordagem adequada dos problemas que estimularam a obra de Durkheim, e a maioria de seus trabalhos, antes de manter consistência com sua doutrina metodológica, apresenta um grau de variação muito mais vasto. Nos termos da dissoci- ação da sociologia da filosofia social (“especulativa”), a obra de Durkheim está longe de observar a linha demarcatória definida com exatidão, tal como sugerida por seu autor. Com efeito, parece ter sido uma característica de cada geração sucessiva de pensadores sociais do século XIX sustentar a tese de que, embora os trabalhos de seus predecessores tivessem cunho especulativo ou ideológico, ou ambos, seus próprios trabalhos estavam fundamentados na realidade empírica, assumindo portanto um caráter científico. Tal afirmação foi feita por Saint-Simon sobre os filósofos do século XVIII; por Comte e Marx acerca de Saint-Simon (entre outros); e por Durkheim, em relação a todos os anteriores. Assim, que validade pode ainda residir na noção da grande cisão? Uma discussão exaustiva dessa questão exigiria avaliar até que ponto, na sociologia, são viáveis avanços intelectuais comparáveis âqueles obtidos nas ciências naturais. O programa sociológico que Durkheim criou para si mesmo abriu-lhe a possibilidade de lançar luzes sobre uma série de problemas das mais diversas naturezas no campo da sociologia e da filosofia so- cial. Entretanto, isso não é o mesmo que romper com as estruturas gerais de pensamento e análise que guiaram seus precursores. Talvez haja dois aspectos sob os quais a socio- logia de Durkheim representa um marco como novo ponto de partida do pensamento social cultivado por seus antecessores. O primeiro diz respeito ao abandono por parte do autor do evolucionismo unilinear e a utilização de materiais extraídos de culturas alheias à Europa. Todos os pensadores de outras gerações cujas obras constituíram parte importante do horizonte intelectual de Durkheim estavam, de modo geral, presos à ex- periência europeia. De fato, sua disposição de fixar esquemas “universais” é testemunha 9 hrs 16 mins restante(s) no livro 56%