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TCC Astronomia, Teses (TCC) de Astronomia

Trabalho de conclusão de curso sobre astronomia

Tipologia: Teses (TCC)

2012

Compartilhado em 17/10/2012

jonkacio
jonkacio 🇧🇷

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Pró-Reitoria de Graduação
Curso de Física
Trabalho de Conclusão de Curso
ASTRONOMIA NO BRASIL: DAS GRANDES
DESCOBERTAS À POPULARIZAÇÃO
Autor: Diones Charles Costa de Araújo
Orientador: Prof. Dr. Paulo Eduardo de Brito
Brasília - DF
2010
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Pró-Reitoria de Graduação

Curso de Física

Trabalho de Conclusão de Curso

ASTRONOMIA NO BRASIL: DAS GRANDES

DESCOBERTAS À POPULARIZAÇÃO

Autor: Diones Charles Costa de Araújo

Orientador: Prof. Dr. Paulo Eduardo de Brito

Brasília - DF

DIONES CHARLES COSTA DE ARAÚJO

ASTRONOMIA NO BRASIL: DAS GRANDES DESCOBERTAS À POPULARIZAÇÃO

Monografia apresentada ao curso de graduação em Física da Universidade Católica de Brasília, como requisito parcial para a obtenção do Título de Licenciado em Física. Orientador: Prof. Dr. Paulo Eduardo de Brito

Brasília - DF 2010

AGRADECIMENTO

Primeiramente agradeço a Deus por ter me dado força de vontade para nunca desistir apesar das dificuldades; Aos meus verdadeiros amigos que sempre me motivaram, em particular a amiga Conceição Aparecida; A Universidade Católica de Brasília e ao Curso de Física que me deram a oportunidade de descobrir o desconhecido; Ao Governo Federal por ter financiado parcialmente meus estudos; Em especial, agradeço ao Professor Doutor Paulo Eduardo de Brito pela maneira simpática e respeitosa como me conduziu na tarefa de orientador, sobretudo pela preocupação e critério com a elaboração deste trabalho; Ao Professor Doutor Sérgio Luiz Garavelli pelo apoio e a liberdade que sempre me deu para elaborar e desenvolver os meus pequenos e humildes projetos dedicados ao Curso; Ao Professor Mestre Edson Benício de Carvalho Júnior por seus incentivos e suas maravilhosas aulas de Astronomia; A todos os professores que contribuíram para está conquista e, aos inúmeros amigos que ganhei durante esses longos e alegres anos de graduação. Finalmente, agradeço a todos que de alguma forma colaboraram para a realização deste sonho.

“O céu é um espetáculo sem concorrência. É possível contemplar todas as maravilhas do nosso planeta, palmilhar os desertos, atravessar os oceanos e visitar todas as suas cidades; mas o Cosmo permanecerá sempre para ser descoberto”. Ronaldo Rogério de Freitas Mourão

“Se eu vi mais longe, foi por estar de pé sobre ombros de gigantes”. Isaac Newton

SUMÁRIO

    1. INTRODUÇÃO
  • 1.1. Panorama da astronomia brasileira
  • 1.2. Objetivo geral
  • 1.3. Justificativa
  • 1.4. Metodologia
    1. ASTRONOMIA NO BRASIL
  • 2.1. A astronomia antes do descobrimento
  • 2.1.1. O Sol indígena
  • 2.1.2. A Lua para os nativos
  • 2.1.3. O planeta Vênus e as estrelas
  • 2.1.4. As constelações dos índios brasileiros
  • 2.2. A astronomia depois do descobrimento
  • 2.2.1. A astronomia brasileira do século XVIII ao XXI
    1. O PROGRESSO DA ASTRONOMIA NO BRASIL
  • 3.1. As instituições e os órgãos de pesquisas
  • 3.1.1. Observatório Nacional (ON)
  • 3.1.2. Laboratório Nacional de Astrofísica (LNA)
  • 3.1.3. Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE).................................................................
  • 3.1.4. Agência Espacial Brasileira (AEB)
  • 3.1.5. Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE)
  • 3.1.6. Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST)
  • 3.1.7. Universidades brasileiras
  • 3.2. Programa Espacial Brasileiro
  • 3.3. O Observatório Gemini e o Telescópio SOAR
  • 3.3.1. O Observatório Gemini
  • 3.3.2. O Telescópio SOAR
    1. A POPULARIZAÇÃO DA ASTRONOMIA NO BRASIL
  • 4.1. O ensino de astronomia no Brasil
  • 4.2. Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica (OBA)
  • 4.3. O Ano Internacional da Astronomia em
  • 4.4. O astrônomo brasileiro Ronaldo Mourão
    1. TEXTOS DE APOIO E LEITURAS COMPLEMENTARES
  • 5.1. Livros
  • 5.2. Periódicos
  • 5.3. Internet.........................................................................................................................
    1. CONCLUSÃO
    1. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. INTRODUÇÃO

“O Universo não passa de um grande vazio povoado de estrelas aqui e ali, em geral agrupadas em miríades. Povoada também por nuvens de gás e poeira. Há mais de cinco bilhões de anos, uma dessas grandes nuvens cósmicas começava a implodir e dava origem ao Sol e a seu cortejo de planetas”. (VERDET, 1987, p.11). O mundo em que vivemos é um lugar grandioso, estendendo-se em todas as direções aparentando não ter fim. É neste extenso e misterioso Universo que conseguimos enxergar as mais fantásticas variedades de coisas: terra, água, plantas, animais, pessoas, Lua, Sol, planetas, galáxias e etc. O conhecimento da natureza, do espaço e das estrelas fez com que a curiosidade humana aumentasse juntamente com a sua evolução. A necessidade em investigar o mundo natural e o desejo de romper o limite da razão vem acompanhando o homem desde o período pré-histórico. O mais primitivo ser humano se interessou em observar os fenômenos que ocorriam à sua volta, bem como em tentar compreendê-los. A claridade do dia e a escuridão da noite, o posicionamento do Sol, a Lua e seus movimentos, os eclipses e muitos outros fizeram com que o homem examinasse por longos anos os astros na tentativa de explicar seus comportamentos. Relatos através do tempo mostram que a busca dessas respostas originam o que hoje se conhece por Astronomia , a ciência mais antiga que se tem vestígio. Os registros astronômicos mais remotos datam de aproximadamente 3000 a.C. e se devem aos chineses, babilônios, assírios e egípcios (FILHO, 2004). Na astronomia antiga, as civilizações confiavam nos movimentos aparentes dos objetos celestes e a posições do Sol e da Lua serviam para medir o tempo em dias, meses e anos. Observadores constantes dos astros, os povos antigos tiveram a oportunidade de não apenas conhecer e prever fenômenos que ocorriam a sua volta, mas como também em criar métodos para determinar a sua posição na superfície da Terra, o início das estações do ano e, principalmente, as atividades agrícolas. Esses povos não faziam astronomia só por fazer, pois tudo tinha uma razão lógica para eles. Além da parte prática, havia também a religiosa, de ritual e culto aos mortos, de fertilidade, que também estavam relacionados à astronomia. Deuses e semi-deuses era homenageados. Muitos acreditavam que os astros eram verdadeiros deuses de veneração e para outros, símbolo de respeito e divina adoração. Para Faria (2009, p. 13) o desconhecimento da verdadeira natureza dos astros deve ter produzido no homem primitivo um sentimento misto de curiosidade, admiração e temor, levando-o a acreditar na natureza divina dos corpos. Em sua evolução, o homem percebeu que podia se utilizar das estrelas e demais astros para a sua orientação em viagens sobre a superfície terrestre e sobre os mares

1.1. Panorama da astronomia brasileira

Assim como em todas as civilizações do mundo, a astronomia brasileira também tem a sua história e, ao longo de sua evolução conseguiu nas últimas décadas uma posição de destaque no cenário nacional e internacional. Inicialmente praticada pelos povos indígenas que habitaram o território brasileiro antes mesmo da sua ocupação por europeus, a astronomia nativa é fruto de mitos e lendas. Com a colonização dos portugueses uma nova etapa na astronomia brasileira se inicia e na sua atual conjuntura está conquistando novos progressos. A astronomia brasileira, do mesmo modo que as demais ciências, desenvolve-se gradualmente com o decorrer do tempo, passando por crises, avanços e retrocessos, fracassos e sucessos. A História da Ciência tem procurado desvendar e compreender as transformações pelas quais a astronomia está atravessando. Nas últimas décadas, a astronomia praticada no Brasil obteve progressos notáveis e, não há de negar a poderosa presença da tecnologia na sociedade brasileira. Os últimos dez ou vinte anos testemunharam um claro despertar para a importância da pesquisa e do ensino da Astronomia em todo território nacional. Em nosso país, os trabalhos desenvolvidos sobre a astronomia teve início praticamente no século XX, sendo explorada como uma atividade complementar de pesquisadores interessados em fortalecer a História da Ciência. Embora a preocupação com a pesquisa sobre o ensino da Astronomia em território nacional tenha se intensificado nos últimos anos, a literatura da área indica que o seu estudo não é tão recente, remontando à algum tempo antes da chegada dos colonizadores ao país (LANGHI e NARDI, 2009, p. 1). Hoje, a Astronomia no Brasil tem seu papel de destaque no cenário mundial. Grandes investimentos em pesquisas, parcerias com outros países, modernos Centros e Institutos de pesquisas, universidades com laboratórios que possibilitam o desenvolvimento de pesquisas, um ensino que está tentando se adaptar ao atual padrão de ciência que nosso país vem oferecendo, e etc. A Astronomia brasileira, assim como as demais ciências é considerada, atualmente, um componente essencial para o país que está desejando ampliar o seu desenvolvimento científico e tecnológico, econômico e social. Graças às pesquisas desenvolvidas em astronomia, ou especificamente, na tecnologia espacial, podemos fazer uma ligação telefônica interurbana, assistir jogos de futebol com transmissão ao vivo de outros países, fazer previsões do tempo, entre tantas outras aplicações. Por trás desses avanços estão professores, astrônomos, cientistas, tecnólogos, engenheiros e empresários que com experiência e competência, aliadas a uma boa criatividade, estão conseguindo atingir progressos notáveis na ciência brasileira, em especial na astronomia.

1.2. Objetivo geral

A idéia central deste trabalho é apresentar um panorama histórico sobre a Astronomia no Brasil, buscando compreender todas as suas etapas de evolução que se deu através dos tempos. Com o objetivo de melhor compreender a autêntica história da astronomia brasileira e suas influências, este trabalho compõe-se de uma visão mais ampla sobre o progresso desta ciência, buscando suas origens entre as tribos indígenas que habitaram o Brasil antes de 1500, fazendo uma relação de todo o seu desenvolvimento que se deu após a chegada dos europeus em solo brasileiro até alcançar os tempos mais recentes. No entanto, quando se fala em séculos passados no Brasil, é difícil separar somente a Astronomia de outros assuntos, pois o tema é muito vasto e as épocas mencionadas são bastante extensas. Se analisarmos o Brasil no período colonial, por exemplo, identificamos situações onde a ciência teve uma presença marcante. Como a história da Astronomia no Brasil é pouca conhecida, será dada ênfase, tanto em sua origem bem como na sua situação atual. Porém, para uma visão mais ampla sobre a história da Astronomia no Brasil, mesmo nos tempos atuais, exige um número de informação e detalhes muito grande sendo necessária, para conhecê-la, uma pesquisa mais aprofundada e específica sobre o tema, o que aqui não é a intenção.

1.3. Justificativa

Motivado pelas maravilhosas noites de observações astronômicas realizadas no campus da Universidade Católica de Brasília (UCB) nas quais tiveram a coordenação do inspirador Professor Doutor Paulo Eduardo de Brito (atualmente professor da Universidade de Brasília – UnB) durante a extinta Semana Universitária e a primeira Semana da Física, até mesmo, pelas excelentes aulas de astronomia ministradas pelo Professor Mestre Edson Benício de Carvalho Júnior, bem como, pelos debates e idéias elaboradas, por mim juntamente com alguns amigos de graduação (Demétrius Leão e Deivid Cavalcanti), imaginei que seria interessante e de tamanha importância para a minha formação a realização de um Trabalho de Conclusão de Curso na área na qual passei a admirar com tanto gosto. Para mim, a astronomia é uma ciência apaixonante, de sonhos, de realidades e descobertas, e devido a essas razões que resolvi compartilhar os poucos conhecimento astronômicos que adquiri como estudante de graduação. Por meio da elaboração deste trabalho pretendo contribuir para que a astronomia brasileira seja compreendida como uma ciência que estimule ativamente a curiosidade humana e o envolvimento pessoal, fazendo uso dos sentidos e dos esforços intelectuais na formulação de questões e na busca de soluções, que objetive oferecer respostas, mas, sobretudo que possibilite gerar a indagação

2. ASTRONOMIA NO BRASIL

2.1. A astronomia antes do descobrimento

“Desde o começo dos tempos, o homem examina, interroga, anima, dramatiza o céu. Ele o povoa de deuses bondosos e aterrorizantes, de animais, familiares e fantásticos, de objeto bizarro, frutos de sua criação – e tece histórias maravilhosas sobre cada um deles.” (VERDET, 1987). Pode-se afirmar que a Astronomia no Brasil teve origem antes mesmo da chegada da esquadra portuguesa em terras brasileiras no ano de 1500. Para ser mais preciso, a astronomia originou-se com os diversos povos indígenas que habitavam essas terras e provavelmente já possuíam alguns conhecimentos astronômicos naquela época. As atividades cíclicas, como plantio e colheita de alimentos, eram determinadas pelo surgimento ou desaparecimentos de alguns astros. Com astronomia própria, os índios brasileiros definiam a contagem de dias, meses e anos, a duração das marés, a chegada das chuvas, desenhavam no céu história de mitos, lendas e seus códigos morais, fazendo do firmamento esteio de seu cotidiano (AFONSO, 2006).

Figura 1: Aldeia indígena Tupinambá, antes de 1500. Fonte: DATAMEX, 2010. Antes da chegada dos europeus em terras brasileiras, o atual território brasileiro era habitado por vários povos nativos. Esses povos se dividiam praticamente em tribos aos quais destacam-se os tupis-guaranis localizados na região do litoral, os macro-jê ou tapuias na região do Planalto Central, os aruaques e os caraíbas na Amazônia. Embora não saiba exatamente quantas tribos indígenas existiam no Brasil anteriormente a sua colonização, de

acordo com alguns historiadores a população estimava entre três a cinco milhões de nativos. No entanto, os diferentes povos indígenas brasileiros, a exemplo dos demais índios da América pré-colombiana, porém mais atrasados culturalmente, tinham maneiras próprias de se organizar, diferentes modos de vida, línguas e culturas. Suas principais atividades estavam diretamente relacionadas à sustentabilidade de suas tribos, como a caça, a pesca, a colheita e lavoura. Profundos conhecedores da natureza, além de conviverem intimamente com ela, mantiveram sempre notáveis adoração e reverência ao meio que os envolvia. Assim, como em todas as sociedades antigas a observação do céu, também, era à base do conhecimento dos índios brasileiros, apesar de não terem possuído uma tecnologia aperfeiçoada essa prática se tornou um elemento de grande importância em suas vidas. A necessidade de conhecer a natureza fez com que os indígenas percebessem que as atividades cíclicas ocorriam sempre em determinadas épocas do ano, ou seja, estavam sujeitas a variações sazonais. Na tentativa de compreender essas variações, procuraram desvendar os processos que descreviam tais fenômenos cósmicos com o intuito de utilizá- los a seu favor, principalmente para a sua sobrevivência. Os conhecimentos adquiridos tradicionalmente ao longo dos anos, pelos indígenas envolviam não somente as observações dos movimentos dos astros, mas também a continuidade das estações do ano e o comportamento de plantas e animais. Com isso eles conseguiam identificar, por exemplo que quando o Sol aparecia do lado norte trazia-lhes ventos brandos e frescos e que, ao contrário, quando aparecia do lado sul, trazia ventos fortes e chuvas. Para Mourão (2000) é conveniente assinalar desde logo, que os nossos índios acreditavam na existência de vários céus, imaginando que todos os astros se situassem a distâncias diferentes, o que explicaria a diversidade do brilho, pois deveriam achar que as estrelas tivessem igual intensidade luminosa. Além do mais, a visibilidade de certas estrelas e constelações marcava épocas significativas do ano. Desta forma, o surgimento da astronomia indígena veio como subsídio para os seguintes propósitos:

Além da orientação geográfica, um dos principais objetivos práticos da astronomia indígena era sua utilização na agricultura. Os indígenas associavam as estações do ano e as fases da Lua com a biodiversidade local, para determinar a época do plantio e da colheita, bem como para a melhoria da produção e o controle natural das pragas. Eles consideram que a melhor época para certas atividades, tais com, a caça, o plantio e o corte de madeira era perto da lua nova, pois perto da lua cheia os animais se tornam mais agitados devido ao aumento de luminosidade, por exemplo, a incidência dos percevejos que atacam a lavoura. (AFONSO, 2009, p. 2). É evidente no entanto, que nem todos os grupos indígenas, mesmo de uma única etnia, atribuíam idênticos significados a um determinado fenômeno astronômico específico, e a razão disso está no fato de cada grupo ter sua própria estratégia de sobrevivência (AFONSO, 2006, p. 48). Para os índios brasileiros, o céu tinha um significado bem diverso e

2.1.1. O Sol indígena

“O Sol é uma estrela banal, de porte e temperaturas médias. Estrela banal decerto, mas que apresenta a propriedade fundamental de estar próxima a Terra: o Sol é a nossa estrela. Há cinco bilhões de anos, ele inunda a Terra com uma torrente luz onde nascem toda energia e toda vida. Quase em toda parte, o Sol foi honrado, e muitas vezes deificado, mas os cultos solares são muito mais raros do que se imagina.” (VERDET, 1987, p.67). O índio brasileiro pré-cabralino^4 foi um atento observador do céu e certamente o Sol, astro mais brilhante da abóbada celeste, objeto de curiosidade e veneração teve suas mudanças de direções atentamente estudadas. Para as tribos mais antigas, o Sol era o principal regulador da vida na Terra e tinha uma grande importância prática, pois fornecia calor e luz durante o dia. Eles viam o Sol como um astro poderoso, mas não sabiam ao certo como descrever a imensidão que seria esse poder. Além do mais, o Sol tinha um enorme significado religioso, pois os indígenas buscavam nele a força divina e espiritual. Os guaranis, por exemplo, nomeiam o Sol de Kuaray , na linguagem do cotidiano e de Nhamandu , na espiritual (AFONSO, 2006, p. 50).

Figura 2: Arte computacional de uma gravura rupestre do que representa o Sol para os indígenas. Fonte: AFONSO, 2010. Desde seus tempos mais remotos, os índios brasileiros pré-cabralinos observaram que haviam constantes mudanças no clima e que os animais, as plantas e os frutos apareciam de acordo com as diferentes estações do ano. Assim, para desfrutar da natureza eles começaram a registrar os fenômenos celestes, principalmente os deslocamentos do Sol. Uma parcela significante desses registros obtidos pelos indígenas, deram-se através de um instrumento astronômico muito simples chamado de gnômon vertical ou relógio solar e a

(^4) Se refere ao período de tempo antes de Pedro Álvares Cabral, navegador português, dito o descobridor do Brasil.

sua utilização teve um papel de destaque no desenvolvimento das atividades cíclicas por eles praticadas. Os índios observavam os movimentos aparentes do Sol para determinar, o meio dia solar, os pontos cardeais e as estações do ano utilizando o Gnômon , que consiste de uma haste cravada verticalmente no solo, da qual se observa a sombra projetada pelo Sol, sobre um terreno horizontal. Ele é um dos mais simples e antigos instrumentos de Astronomia, sendo chamado de Kuaray Ra’anga , em guarani e Cuaracy Raangaba , em tupi antigo. (AFONSO, 2009, p. 2). Contemplado das latitudes médias, o Sol exibe um movimento diário, desenhando um arco que se inicia na alvorada a Leste e termina no crepúsculo, a Oeste (FARIA, 1987, p. 57). Os fenômenos de aparecimento ou desaparecimento do Sol, ou seja, as posições do nascer (aurora) e do pôr-do-sol (ocaso), nos dia de início de verão e de inverno (solstícios^5 ). Para os índios eram pontos de retorno dos astros para o ponto cardeal Leste (equinócios^6 ) e obviamente muito importantes para fornecer o calendário solar indígena. O dia do início de cada estação do ano era obtido através da observação da aurora ou do acaso, sempre de um mesmo lugar fixo.

Figura 3: Trajetória do Sol nos dias do solstício e equinócio. Fonte: LIMA e MOREIRA, 2005, p.12. Devido à complexidade de seu pensamento religioso os índios brasileiros guardavam a maioria de seus antigos conhecimentos astronômicos em seu folclore. Segundo algumas lendas indígenas o Sol sendo um deus de adoração permaneceu com o domínio do dia dando calor, e a sua alternância com a Lua é que possibilitou a vida na Terra.

(^5) Época em que o Sol no seu movimento aparente na esfera celeste atinge o seu maior afastamento do equador. (^6) Instante em que o Sol, no seu movimento anual aparente, corta o equador celeste. Nessa data do ano ocorre a igualdade de duração entre o dia e a noite sobre toda a Terra.

assim como o Sol a Lua era visto com um astro de grande poder e subordinado ao deus maior. Paradoxalmente, embora a Lua seja muitas vezes um Sol decaído, embora incida muito menos sobre a Terra que o Sol, atribuem-se a ela muito mais influências e poderes. Até o poder de engravidar as incautas que urinam à noite voltadas para ela! (VERDET, 1987, p.60). Algumas das diversas tradições indígenas a respeito da Lua chegaram até nossos dias por meio de um conjunto de lendas e mitos transmitidos de geração em geração. Os índios se baseavam nas crenças de que as forças da natureza, tais com os eclipses lunares, eram simbolismo de deuses. Eles portanto, recorriam às lendas e a seus deuses que tudo explicavam e por isso, adoravam entidades sobrenaturais que pareciam possuir o poder sobre os fenômenos naturais. Desta maneira foi pelo qual a Lua passou a ser idolatrada como um deus para os nativos. E como consequência destes processos folclóricos, uma série de superstições foram acrescentadas nas lendárias histórias indígenas, com o objetivo de justificar tudo aquilo que não era explicado racionalmente. É interessante sabermos que os povos indígenas pré-cabralinos dominavam um vasto conhecimento empírico em vários segmentos e a observação da Lua teve uma enorme contribuição em suas vidas.

2.1.3. O planeta Vênus e as estrelas

“Conhecida popularmente como estrela d'Alva, quando nasce na madrugada antes do Sol. Na mitologia grega é chamada de Afrodite, deusa do amor. Na mitologia romana a deusa correspondente é Vênus.” (ESCOLA, 2010). O planeta Vênus^7 é o astro que mais se caracteriza no céu depois do Sol e da Lua, é conhecido desde os tempos mais remotos. Ao anoitecer, quando aparece no céu o planeta Vênus é um dos astros mais brilhante, só não mais que a Lua. Os indígenas brasileiros pré-cabralinos costumavam direcionar o seu olhar para o espaço ilimitado, percebendo que havia algumas estrelas com brilhos mais intensos e cores bem diferentes. Nas pinturas indígenas gravadas em rochas, por exemplo, as estrelas com maior intensidade de luz eram representadas em tamanhos maiores do que às demais. Eles pensaram por muitas vezes que os planetas fossem estrelas muito brilhantes e em geral, os chamavam de estrela grande. Vênus era um planeta muito observado pelos índios brasileiros sendo utilizado principalmente para a orientação, por ser visto antes do nascer ou logo após o pôr-do-sol, sempre próximo ao Sol (AFONSO, 2010). Eles imaginavam que a associação das aparições

(^7) Vênus é o segundo planeta em ordem de afastamento do Sol, com órbita situada entre Mercúrio e a Terra. É o planeta mais próximo da Terra, da qual dista entre 39 e 260 milhões de quilômetros, e o mais brilhante objeto do céu depois do Sol e da Lua, atingindo a magnitude visual de -4,4 na oposição. (MOURÃO, 1987, p. 836).

matutinas e vespertina deste planeta constituía-se de dois astros bem diferentes: A estrela matutina chamada de Dalva e a estrela vespertina chamada de Vésper. De forma geral, os indígenas brasileiros acreditavam que a aparição de Vênus era um sinal de boas profecias, um início de esperança, principalmente quando atingia sua intensa luminosidade em alguns dias do ano.

2.1.4. As constelações dos índios brasileiros

“O céu, como envoltório do mundo e espaço onde brilham os astros, não preocupa muito os camponeses nem os marinheiros. Enquanto o Sol, as estrelas e os meteoros suscitam uma literatura abundante, sendo objeto de superstições e observações variadas, a curiosidade popular parece não se estender à abóbada celeste”. (VERDET, 1987, p.25). As constelações formam figuras imaginárias, criadas para reunir grupos de estrelas aparentemente próximas, visíveis a olho nu, tendo em vista nomear cada uma delas era tarefa difícil (AFONSO, 2006, p. 52). O céu estrelado foi talvez a primeira atividade exploratória dos índios brasileiros conforme apresenta algumas inscrições rupestres datadas antes do descobrimento do Brasil. Neste passado recente (levando em consideração as civilizações mais antigas), o céu era observado pelos indígenas como sinônimo de medo e admiração, espanto e respeito, provocando profundo sentimento de adoração. Os astros eram considerados como verdadeiras divindades e o céu sagrado servia de morada aos deuses. Olhando para o céu em noites extremamente escuras, os índios pré-cabralinos inventaram figuras imaginárias de seres lendários e de animais pertencente à fauna brasileira. Cada tribo tinha as suas próprias constelações que serviam como calendário, para lembrar épocas do ano e explicar fenômenos naturais que ocorriam a sua volta. Mais que um simples depósito de mitos e lendas, as figuras desenhadas no céu ajudavam os indígenas em suas atividades agrícolas, na sua localização geográfica, até mesmo em suas navegações. Não diferentemente das demais civilizações ocidentais, as principais constelações indígenas brasileiras estavam localizadas na Via-Láctea e portanto, eram constituídas pela união de estrelas e pelas manchas claras e escuras que atravessavam o céu noturno, sendo para eles as mais fáceis de imaginar. No Brasil, a arte rupestre dos índios pré-cabralinos são as principais fontes de estudos e as mais importantes que conseguiram explicar as antigas constelações indígenas. Em enormes paredes de pedra, tribos esculpiam, há mais de quinhentos anos, todas as constelações da esfera celeste.