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Capítuto | identidade e Trabalho: uma articulação indispensável Maria da Gráça Corrêa Jacques (UFRGS - R$) As mudanças que ora se processam no espaço organizacional, re- introduzem à importância conferida ao chamado fator humano e suas im- plicações sobre o processo produtivo. Embora já apontado por escolas de administração desde algumas décadas passadas, ressurge com outra abor- dagem, privilegiando, agora, a complexidade e a multiplicidade de dimen- sões consideradas. O componente subjetivo e sua relevância no cotidiano Iaboral enseja o aprofundamento de alguns temas , procurando fornecer subsídios para uma melhor compreensão e análise dos aspectos que lhe são pertinentes. Por outro tado, a crescente demanda por serviços de assistência à saúde e a constatação da relação entre os processos de saúde/doença da população e o cotidiano laboral, propõem o exame e a articulação entre a dimensão subjetiva e a dimensão objetiva representada pelo trabalho. Essa articulação pressupõe a reciprocidade e a interdependência entre essas dimensões e a interação entre os aspectos psicológicos e os aspectos estru- turais fundantes de um determinado contexto social. Com essa finalidade se inscreve a temática proposta, procurando fornecer fundamentos oriundos da chamada Psicologia Organizacional e do Trabalho que auxiliem a análise da relação homem/trabalho e suas implicações sobre o sistema produtivo e sobre o contexto sócio-econômico. Os temas identidade e trabalho têm em comum interpretações controvertidas de ordem conceitual, extensivas às suas origens etimológicas. O vocábulo identidade (do latim idem, o mesmo, a mesma) propõe uma noção de estabilidade que se contrapõe à processualidade e ao caráter de construção permanente que lhe são próprios. Sugere, ao mesmo tempo, o igual e o diferente, o permanente e o mutante, o individual e o coletivo. Sua tradição teórica se circunscreve, prioritariamente, no campo da Filo- sofia, revelando uma diversidade de posições em acordo com diferentes 21 princípios filosóficos nos quais se fundamenta. A tendência atual é de concebê-la como uma síntese lógica e ontológica e facultar às relações sociais papel de destaque na sua constituição. O termo trabalho propõe, também, uma associação controvertida relaciónada a sofrimennto e a transformação da natureza através da atividade humana (do latimiripatium, instrumento de tortura e instrumento agrícola de cultura de cereais). Os autores reconhecem uma dificuldade em definí-lo com precisão e sugerem o emprego de aproximações conceituais, ou seja, conceitos de trabalho distintos que não.o esgotam e nem são integráveis racionalmente entre si (Heller, 1989). A articulação entre identidade e trabalho vem de uma tradição que confere ao papel social expressividade na constituição da identidade. Dentro dessa tradição, incluem-se as referências do Interacionismo Simbó- lico através dos estudos de Goffman (1985) que representam um rompi- mento no costume de atribuir, somente ao indivíduo, enquanto autônomo e livre, a causalidade para as suas ações. Mais recentemente, Habermas €1990) propõe que a uma “identidade natural” se segue uma “identidade de papel”, que se constitui pela incorporação das unidades simbólicas mediadas pela socialização e, sobre essa, a “identidade do eu” a partir da integração dos papéis sociais através da igualdade e da diferença em relação aos outros. A importância e exaltação máximas conferidas ao trabalho na socie- dade ocidental concedem ao papel de trabalhador lugar de destaque entre os papéis sociais representativos do eu. Arendt (1981), referindo-se à importância do homo faber no mundo contemporâneo, assinala que ao tentar dizer “quem é”, a própria linguagem induz a dizer “o que alguém é”, reservando um lugar de destaque ao papel de trabalhador. Papel social ao qual se agregam outras qualificações exigidas pelo exercício laboral que se substantivam e se presentificam, constituindo-se em atributos definitórios do eu (atividade, força, bravura, honestidade, etc.) e inclusos na represen- tação do "eu sou trabalhador”. Costa (1989) registra, na sua prática psiquiá- trica em ambulatórios de saúde, a presença de transtornos psíquicos, denominados “doenças dos nervos” ou “crises nervosas”, intimamente associados com a trajetória e os percalços da vida laboral « com ameaças à identidade de trabalhador. O autor assinala que essa identidade, asso- ciada a outros atributos socialmente valorizados e julgados como constitutivos do ser humano pelo imaginário social, mostra-se à consciência do sujeito 2 bres, o exercício de atividades, no espaço público, de menor reconheci- mento social e de caráter prescindível. O exercício das atividades se substantivam e se presentificam, constituindo-se em qualificações ao ser trabalhador e em predicativos definitórios do eu (“engraxo sapatos, sou engraxate”). O ingresso no mundo concreto do trabalho confere valor social, reproduzindo o imaginário coletivo de valorização moral ao ser trabalhador. Permite a aquisição de qualificações como seriedade, obdiência, disciplinamento, etc., esperadas pelo espaço de trabalho oportunizado a determinadas camadas sociais que são agregadas 2 identidade de trabalha- dor e incorporadas 20 eu. Na vida adulta, a inserção no mundo concreto do trabalho aparece como segliência lógica de uma vida “adaptada” e “normal” e como atributo de valor em uma sociedade pautada pelo fator produtivo. Os diferentes espaços de trabalho oferecidos vão se constituir em oportunidades dife- renciadas para a aquisição de atributos qualificativos da identidade de trabalhador. São inúmeros os estudos que têm como tema a investigação de características identificatórias próprias da classe operária e/ou de de- terminadas categorias profissionais (Lopes, 1987; Campino, 1982; Sainsaulieu, 1988) e que apontam que o exercício de determinadas atividades e o convívio com determinadas relações sociais constituem “modos de ser”, qué qualificam os pares como iguais (mesmo facultando diferenças indi- viduais) e se expressam em comportamentos similares, modos de vestir e de falar, lugares frequentados, etc. São variadas essas qualificações e somente o acesso a esses estudos permite especificá-las. No entanto, todos apontam a sua presença como constitutivas da identidade, marcando as igualdades sem desconsiderar as diferenças individuais. Alguns autores (Camino, 1996) empregam o termo “identidade so- cial” (inspirados na terminologia de Tajfel) para se refirir à consciência de pertencer a determinado grupo social e à carga afetiva que essa pertença implica. Enquanto apresentada como um processo dialético, a identidade social facilita a incorporação de valores e normas do grupo social, implica em uma participação ativa do sujeito na construção da identidade grupal eafeta o contexto histórico onde ocorrem essas relações concretas. Por sua vez, as estruturas sociológicas influenciam as representações que os indi- víduos fazem de si, enquanto representações do eu. Alguns espaços de trabalho e/ou categorias profissionais, pelas suas especificidades próprias, 24 em geral associadas a prestígio ou desprestígio social, proporcionam atri- butos de qualificação e/ou desqualificação ao eu. Em alguns casos, à qualificação é de tal forma representativa desse eu que o prefixo ex é evocado para dar conta da identidade em determinadas circunstâncias, como a aposentadoria, por exemplo. Santos (1990) aponta a representação da aposentadoria como a perda do papel profissional, que passa a-ser um marco social (ser velho e suas significações), corporal (tendência a doenças) e psicológico (pers- pectiva de futuro). Os dados sobre a realidade brasileira indicam que essa é uma experiência muito característica de determinadas camadas sociais, visto que a grande maioria da população idosa continua como trabalha- dora, principalmente por necessidade de sobrevivência. Entre a população idosa, o conceito de trabalho que constitui a identidade de trabalhador se re-significa, visto os limites sociais impostos: trata-se agora de ser ativo (em contraposição ao não-ativo). Sob essa perspectiva são buscadas atividades, remuneradas ou não, preferentemente no espaço público para garantir o reconhecimento social. É o que oportuniza a experiência de sentir-se vivo, já que a sua ausência é associada à morte, à exclusão e à segregação (Jacques e colaboradores, 1995). Quando essas possibilidades não se concretizam, as lembranças de trabalho são evocadas como justificação de toda uma biografia e de reconhecimento social, como constata Bosi (1987). Quando um conjunto social se pauta por valores utilitários como no caso da sociedade contemporânea, a ausência de inserção nesse modelo e/ou em suas formas organizativas e relacionais representam experiências de sofrimento e repercutem na qualidade de vida de sua população. É sobre esse enfoque que a articulação entre identidade e trabalho se torna dispensável ou indispensável, conforme prioritária ou não a ênfase atribu- ída à qualidade de vida da população por uma determinada sociedade. Sob essa perspectiva, o desemprego, a aposentadoria, a inatividade, revelam uma dimensão subjetiva e uma repercussão social para além dos dados estatísticos e parâmetros econômicos. No momento em que a globalização da economia aponta para a necessidade de ir além da re-estruturação produtiva, incluindo programas de prevenção à preservação ecológica do planeta e à saúde de sua população, a associação identidade e trabalho se coloca enquanto associada ao sofrimento e a doença. A constatação de 25