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Trabalho em Escolas Multisseriadas
Tipologia: Notas de estudo
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Armanda Coelho de Souza Lima^1 Maria do Rosário Souza Figueira^2
Resumo
O presente artigo traz reflexões a cerca do Trabalho Docente nas escolas do Campo especificamente nas classes multisseriadas. O objetivo é refletir sobre como se dá o trabalho do professor nessas classes haja vista que o mesmo enfrenta inúmeras dificuldades em desenvolver um trabalho de qualidade. A pesquisa se deu mediante a um estudo de caso com dois professores por meio de questionários diretos, onde constatamos a realidade vivenciada pelos professores e alunos das escolas do Campo, bem como as conquistas, anseios e desafios que lhes são impostos junto à comunidade. Os resultados da pesquisa indicam que sim o trabalho do professor nas classes multisseriada abrange um conjunto de atividades que se estendem para além da sala de aula, repercutindo sobre a identidade profissional e na qualidade de vida dos mesmos, fazendo-se necessário a busca constante de ações que garantam a valorização deste profissional em todos os aspectos.
Palavras-Chave: Educação do Campo; Classes Multisseriadas; Trabalho Docente.
Introdução
Refletir pedagogicamente sobre o jeito de educar ao se tratar da Educação do Campo é assumir uma identidade e o sentimento de pertencimento a uma Nação em que a diversidade se sobrepõe em todos os cantos deste país referenciando uma população multicultural, com modos de vida bem peculiares. Sabe-se que o universo da educação no meio rural é marcado por uma diversidade de escolas, sendo que se sobressaem as multisseriadas que na maioria das vezes são isoladas e possuem um único professor (a) para todas as séries, diferentes uma das outras, acarretando em muitos casos, o dobro do
(^1) Pedagoga pela Universidade da Amazônia - UNAMA, Supervisora Educacional nas escolas do Campo, Especializanda em Educação do Campo pelo Instituto Federal de Educação do Pará 2 – IFPA. Pedagoga pela Universidade da Amazônia – UNAMA ,Especialista em Psicopedagogia pelo Instituto de Teologia Aplicada a Educação – INTA, Técnica Educacional da SEMED-Juruti, Especializanda em Educação do Campo Pelo Instituto Federal de Educação do Pará – IFPA.
trabalho realizado pelo professor de uma série única. Segundo o Guia Referencial do Programa Escola Ativa (2009), as classes Muitisseriadas se caracterizam por reunir em um único espaço, um conjunto de séries do Ensino Fundamental. Esta característica de enturmação esta mais fortemente presente nas escolas do campo.
Sabemos que a história da classe Multisseriada das escolas do campo sempre foi sustentada por políticas compensatórias no que diz respeito a solucionar o acesso a escolarização de um número reduzido de crianças e jovens existentes no campo. Essas escolas são unidocentes, impondo aos professores uma sobrecarga de atividades além das condições adversas do trabalho realizado na sala de aula como merendeiro, servente, Psicólogo, enfermeiro, vigia escolar, diretor e na maioria das vezes, realizando o papel de pai/mãe. Tal situação é expressa em uma pesquisa realizada pelo GEPERUAZ/UFPA (Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação do Campo na Amazônia) (2005):
Muitos educadores (as) expressam insatisfação com relação a existência das classes multisseriadas pelo fato de não possuírem formação específica para trabalhar com uma turma diversificada em termos de idade e de aprendizagens, estabelecendo muitas comparações com as turmas seriadas, manifestando a expectativa que essas turmas se transformem em seriadas como alternativas para que o sucesso na aprendizagem se efetive. (GEPERUAZ 2005, p.46). Essa realidade revela que nas escolas do campo não aparece uma cultura docente, há uma solidão do educador (a) na realização de suas atividades. Sobre a Cultura Docente Arroyo (2006), afirma que tanto nas pequenas escolas localizadas no meio rural quanto nas escolas da cidade, a cultura docente que aparece é solitária, individualizada ou mesmo monodocente, expressa em discursos e atitudes que afirmam: “eu e minhas turmas, eu e minha disciplina” (ARROYO 2006, p.115).
Em vista das inúmeras dificuldades vivenciadas pelo profissional que atua nas classes multisseriadas a presente pesquisa tem o propósito de apresentar algumas reflexões sobre o trabalho docente nas escolas do Campo cuja perspectiva e desafios são constantes no que se refere às condições de trabalho a qual este profissional está submetido. Para isso, utilizamos a metodologia que está pautada em estratégias de uma pesquisa empírica qualitativa com aplicação de questionários abertos, onde tivemos a oportunidade de conhecer como se dá o trabalho docente nas classes multisseriadas. Como ressalta TEIXEIRA (2003), a abordagem qualitativa o social é visto como mundo
Embora os problemas da Educação não estejam localizados apenas no meio rural, neste a situação é mais grave, pois, além de não considerar a realidade socioambiental onde cada escola está inserida, esta foi tratada sistematicamente, pelo Poder Público, como resíduo, com políticas compensatórias, Programas e Projetos emergenciais, que muitas vezes ratificou o discurso da cidadania. Assim, a Educação do Campo nasceu com a mobilização dos Movimentos Sociais por uma política educacional para comunidades camponesas, com empenho das lutas dos Sem Terra pela implantação de escolas públicas nas áreas de Reforma Agrária, das lutas de resistência de inúmeras organizações e comunidades camponesas, com objetivo de não perder sua cultura, suas experiências de educação, suas comunidades, seu território e a própria identidade. Nesse sentido, é válido ressaltar que a educação para a população do meio rural, nunca tivera políticas específicas, o atendimento a educação se deu através de Campanhas, Projetos e/ou políticas compensatórias, sem levar em conta as formas de viver e conviver dos povos do Campo, que ao longo da história foram excluídos enquanto sujeitos do processo educativo. Em prol do direito universal à educação Caldart afirma:
[...] é preciso pensar também que tratar do direito universal à educação é mais do que tratar da presença de todas as pessoas na escola; é passar a olhar para o jeito de educar quem é o sujeito deste direito, de modo a construir uma qualidade de educação que forme as pessoas como sujeitos de direitos, capazes de fazer a luta permanente pela conquista. (SILVIA e PEREIRA apud Caldart, 2004, p.27) A partir de então, um importante marco dado pela LDB – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, 9394/96 define em seu Artigo 28, sobre as adaptações necessárias na oferta da Educação Básica para a população rural e fortalecida com outra importante conquista recente para o conjunto das organizações de trabalhadores (as) do campo, no âmbito da luta por Políticas Públicas, que foi a aprovação das “Diretrizes Operacionais para a Educação Básica nas Escolas do Campo” (Parecer nº36/2001 e Resolução 1/2002 do Conselho Nacional de Educação). Esse instrumento de luta, junto às ações de diversos Movimentos Sociais e Sindicais do Campo vem pressionando sua inclusão na agenda de alguns governos Municipais, Estaduais e também na esfera do governo Federal. A partir de então, a Educação do Campo foi incorporada ao documento das Diretrizes Operacionais para a Educação Básica nas Escolas do Campo. Segundo as Diretrizes, a identidade das escolas do campo é definida:
[...] pela sua vinculação às questões inerentes à sua realidade, ancorando-se na temporalidade de saberes próprios dos estudantes, na memória coletiva que sinaliza futuros, na rede de Ciências e Tecnologia disponível na sociedade, nos Movimentos Sociais em defesa de projetos que associem as soluções exigidas por essas questões à qualidade social da vida coletiva no país. (art. 2º, parágrafo único CNE/SEB, 2002). Dessa forma, as Diretrizes Operacionais para a Educação básica do Campo representam uma conquista no âmbito das Políticas Públicas, aprovadas pelo Artigo 28 da LDBEN e propõe medidas de adequação da escola à vida do campo. Podemos ressaltar que a mais recente conquista como Políticas Publicas no que diz respeito à educação voltada para a realidade dos Povos do campo é o PRONERA (Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária). O mesmo tem como foco central fortalecer o mundo rural como território de vida em suas mais diversas dimensões como: econômicas sociais, ambientais, políticas, culturais e éticas. Assim sendo, a escola jamais pode ajustar-se sozinha sem olhar o seu entorno, uma vez que a população do campo deve ser reconhecida e respeitada em suas particularidades por meio de políticas que valorize os sujeitos do campo em seu contexto, sua cultura e seus valores, sua maneira de ver e se relacionar com o tempo, a terra, o meio ambiente, seus modos de organizar a família, o trabalho e outras.
As classes multisseriadas: a realidade da educação do campo
Como sabemos, a Educação do Campo tanto no Estado do Pará como em outras regiões do Brasil, sempre foram situações que ficaram em segundo plano para a maioria dos governantes. Essa realidade se torna muito mais agravante quando se trata das classes multisseriadas que infelizmente ainda é uma constante no cenário educacional das regiões Norte e Nordeste. Com relação a essa situação Hage afirma:
No caso do Pará, nos deparamos com o segundo maior número de escolas multisseriadas do país. 8.675 escolas, perdendo somente para a Bahia, que tem 14.705 escolas. O mesmo se repete em relação às turmas multisseriadas, que totalizam 11.231 (HAGE, 2006; p.161). Diante das definições do Guia Referencial do Programa Escola Ativa (2009) as classes multisseriadas são caracterizadas como classes heterogêneas, ou melhor, onde se comportam em um único espaço varias séries de Ensino Infantil ao Ensino Fundamental I, o que caracteriza a enturmação presente nas escolas do campo. Diante disso, para muitos educadores que trabalham com essa realidade, a mesma é vista como sofrimento, problema, insatisfação, atraso e tantos outros adjetivos que ao longo do tempo vão se
conhecimentos, habilidades, sentimentos, valores e outros. De acordo com as reflexões da LDB, a mesma afirma que os indivíduos podem ser educados e a si tornar cidadãos e cidadãs na vida em família, no trabalho, na escola, nas organizações sociais, por meio de sua cultura. Enfatiza-se que a escola e os espaços extras escolares são um chão de aprendizagem para o exercício da cidadania, desse modo a educação está presente em todos os processos formais e informais.
Diante disso, percebeu-se que a Educação Rural não atendia as expectativas de educação que os povos do campo como sujeitos construtores de conhecimentos e de história, almejavam, visto que o que se tinha como modelo educacional baseava-se no ensino urbano o que contribuía apenas para camuflar o ensino do campo. Esta realidade perdurou e ainda perdura em muitas escolas do campo, uma vez que a maioria das secretarias estaduais e municipais não dispõe de proposta e políticas específicas para atender essas realidades..
A palavra Multisseriada segundo Arroyo (2004 p. 81), Multi = vários. Seriado = Séries; logo, se caracteriza por um conjunto de séries dentro de uma única sala tendo, segundo ele um caráter negativo para a visão seriada urbana. Dando a entender que a visão seriada urbana fosse referência de modelo para a educação e a Multisseriada fosse algo a ser destruída para um dia construir a escola seriada do campo.
Em face a essa realidade, existem inúmeros desafios que vão desde a infraestrutura, falta de planejamento por parte dos órgãos que gerenciam a educação em cada realidade, a desvalorização profissional, ausência de materiais didáticos pedagógicos, a distorção idade/série e outros que permeiam o trabalho docente nessas classes. Portanto trabalhar em turmas multisseriadas requer compromisso social do docente uma vez que o mesmo irá trabalhar com várias séries num mesmo espaço e tempo. Diante disso faz-se necessário com que o professor adéqüe sua metodologia, os conteúdos e sua forma de trabalho para que possa atender as necessidades dos educandos e de si próprio para que o processo pedagógico seja efetivado com base em uma realidade onde atuam sujeitos históricos que tem culturas, singulares, diferentes, mas não inferior dos demais sujeitos. A multisseriação não foge da lógica de seriação quanto à organização dos conteúdos, o planejamento, etc. A diferença está na prática do trabalho docente que ao invés de desenvolver o ensino e a aprendizagem para alunos de uma única turma, ele faz com várias turmas num mesmo espaço. No que se refere a
espacialidade, ter estudantes de diferentes idades e séries num mesmo espaço é bastante complexo para um profissional de educação que, não se sente estar preparado para enfrentar tamanho desafio. As escolas multisseriadas que são escolas públicas do campo possuem um conjunto de articulações pedagógicas que desencadeiam o processo de resistências educacionais do campo, entre eles os trabalhos dos docentes e a própria relação escola-comunidade que acontecem das mais diversas formas expressivas e desanimadas.
A respeito de Classes Multisseriadas:
Constituem-se na modalidade predominante de oferta do primeiro segmento do Ensino Fundamental no meio rural do Estado do Pará e da região amazônica […]. Elas se encontram ausentes dos debates e das reflexões sobre a educação rural no país e nem mesmo “existem” no conjunto de estatísticas que compõem o censo oficial. (GEPERUAZ, 2004). Em 2004, na segunda Conferência Nacional Por uma Educação do Campo , encontra-se na parte final do documento as seguintes denúncias no que se refere às escolas do campo: Falta de formação para o professor, falta de apoio às iniciativas de Renovação pedagógica, Falta de escolas no Campo para atender crianças e jovens, Falta de infra-estrutura nas escolas, Alto índice de crianças e jovens fora da escola, Currículos deslocados das necessidades e das questões do campo e dos interesses dos seus sujeitos. Sabe-se, porém que no decorrer desses anos muita coisa mudou. Mas o que se percebe é que ainda não se tem um Currículo específico capaz de atender as demandas particulares da população do campo. Muitas escolas ainda continuam funcionando em “Barracões Comunitários” funcionando em classes multisseriadas, sem uma infra- estrutura tanto para os alunos quanto para os professores. Nessa Conferência houve momentos para debater sobre as diferentes experiências realizadas pelos sujeitos que atuam na educação do campo, resultando numa preocupação de muitos jovens e crianças que apesar do avanço a respeito da educação do Campo, ainda permanecem fora das escolas devido a várias situações, mas dentre todas: a iniciativa para ajudar no sustento da casa.
O que se deve considerar é que a escola do campo constitui-se como um direito público educacional e, portanto, merece de atenção específica por parte do Estado, onde possa ser dadas condições para a população campesina não apenas de acesso, mas também a uma educação que valorize este ser de forma integral de modo a respeitar os
É necessário repensarmos a educação do campo nos múltiplos contextos na ela se apresenta na sociedade vigente. Se muito está se fazendo em termos de políticas públicas para a Educação do Campo, faz-se necessário buscar alternativas que contemple as condições de trabalho do docente. Estas condições dizem respeito, a uma política de valorização do magistério que contemple salários e formação inicial e continuada, estruturas físicas adequadas ao trabalho, com escolas que possuam os espaços necessários ao desenvolvimento de práticas pedagógicas que possa ser bem sucedidas. (REIS 2010, p.13). Muitos professores que hoje atuam nas escolas do Campo não receberam uma formação para lidar com as peculiaridades que se apresentam em cada lugar, muitos têm dificuldades de se inserirem em processos de formação continuada até mesmo devido às questões geográficas. Para muitos a formação em nível superior ainda é um sonho e para aqueles que já possuem é privilégio por conseguir driblar a dura realidade que os cercam. Em outros momentos, a este profissional é colocado muito mais do que ensinar. É ele em muitos casos o merendeiro, o professor, o faxineiro, o sujeito que deve apontar caminhos de melhoria para a comunidade. Como enfatiza Beltrame:
Os estudos sobre as escolas do campo revelam que, nesse contexto de contradições e desencontros políticos e administrativos, o professor (a) é o elo que permanece em meio às circunstâncias adversas. Apesar das dificuldades, ele /ela está lá. Sua presença solitária, isolada, revela a persistência e a tenacidade que caracteriza sua trajetória. Ele/ela e seus alunos sobrevivem em meio à precariedade, desenvolvendo um percurso de relações de saber e de reconhecimento mútuo (2009, p.3).
A docência, como aprendizagem da relação, está ligada a um profissional especial, um profissional do sentido, numa era em que aprender é conviver com a incerteza. Daí a necessidade de se refletir hoje sobre o novo papel do professor, sobre as novas exigências da profissão docente uma vez que este precisa lutar contra a exclusão social, ser articulador de grupos diversificados além de ser ele o organizador de sua própria aprendizagem e da aprendizagem de seus alunos. Como salienta Arroyo:
Problematizar-nos a nós mesmos pode ser um bom começo, sobretudo leva- se ou nos leva a desertar das imagens de professor que tanto amamos e odiamos. Que nos enclausuram, mais do que nos libertam. Por que somos professores (as). Somos não apenas exercemos a função docente. Carregamos angústias e sonhamos da escola para casa e de casa para a escola. Não damos conta de separar esses tempos porque ser professor (as) faz parte de nossa vida pessoal (ARROYO, 2000 p.27) Diante disso, o trabalho docente requer profissionais competentes e comprometidos com o trabalho que desenvolve, buscando sempre uma nova forma de atuação com base em novos conhecimentos adequando a função social e as novas
tecnologias que surgem no contexto educacional. Desse modo, diante da constante evolução em que as sociedades se encontram principalmente a tecnológica, há a necessidade de enquanto docentes irmos à busca de novos conhecimentos que possa contribuir com a prática docente. Sabe-se que o docente em seu trabalho obedece a regras e normas estabelecidas pelos Sistemas de Ensino. Dentro dessas normas existem os objetivos a serem atingidos, porém, vale lembrar que os professores não busca somente realizar objetivos, eles atuam também sobre um objeto. Esse objeto são os seres humanos individualizados e socializados ao mesmo tempo. As relações que eles estabelecem com seu objeto de trabalho, são, portanto, relações humanas, relações individuais, sociais, culturais e coletivas. Com relação à organização do trabalho docente podemos entender que o mesmo não se refere somente ao ensino, mas, que abre um leque de responsabilidades junto à escola, como nos aponta Silva, (apud REIS 2010, p.8). A função social do professor está posta nesta totalidade. Como uma prática social, a função docente articula-se com a nova sociabilidade do capital, mediante os papéis que ela cumpre, no sentido de transformar ou de legitimar as políticas educacionais em curso, demandadas pela nova ordem mundial. Essa função mantém uma relativa autonomia em relação à sociabilidade global, como uma particularidade desse todo social. Tomando-se a realidade como um todo estruturado, orgânico, em permanente transformação, pode-se dizer que a função docente é o todo num determinado momento, e por isso é concreta, um fato histórico, não uma abstração, da mesma forma que a nova sociabilidade capitalista é concreta, real, dialética. E também o professor. Seja para legitimar as políticas do mercado e fragmentação social, seja para desmistificá-las. Assim é a função docente, prática social histórica em permanente transformação. Assim, o trabalho docente nas escolas do campo merece de uma atenção específica para atender as peculiaridades de cada lugar, pois, em muitas realidades as escolas e professores são deixados a mercê das políticas educacionais que favoreçam a educação, que valorize os saberes existentes no campo.
3.1 A condição do trabalho docente no campo: relatos de experiências
A referida pesquisa apresenta de modo sucinto a trajetória do trabalho docente nas classes multisseriadas. De acordo com os questionamentos as falas reúnem a realidade que enfrentam os educadores no cotidiano das atividades educativas vivenciadas na escola multisseriada. A pesquisa deu-se através de entrevistas com 02 (dois) professores que serão identificados com iniciais maiúsculas fictícias.
Não há materiais suficientes como: didáticos, mesas carteiras. Temos nesse momento além de professores sermos verdadeiros artistas para utilizarmos de alguma maneira o que temos e darmos uma boa aula. (Professora J.V.2010) . Em face às dificuldades apresentadas vimos que a organização do tempo didático permanece principalmente por se depararem com crianças de várias séries e com diferentes necessidades de aprendizagens dividindo o mesmo espaço e a atenção deles .Com relação às dificuldades encontradas nas classes multisseriadas Hage afirma:
Em geral essas escolas são alocadas em prédios escolares depauperados, sem ventilação, sem banheiros e local para armazenamento e confecção da merenda escolar. Há situações que não existe o número de carteiras suficientes, o quadro de giz encontra-se danificado; e em muitos casos, essas escolas não possuem prédios próprios funcionando em prédios alugados, barracões de festa, igrejas ou mesmo em casas de professores e lideranças locais (2008, pag.01). Como vemos, o trabalho docente nas escolas do campo devem ser realizados de acordo com as particularidades local/regional com intuito de atender os saberes distintos de cada aluno.
Sobre o que representa as classes multisseradas para os professores que atuam, vejam as falas de alguns professores entrevistados:
Sérios problemas, por não ter uma disposição diretamente aos alunos que sentem dificuldades de aprender (Professor L.N.2010) Não sei dizer o que representa, quer dizer, colocar com as palavras o que representa. Para mim é um desafio, uma maneira de colocar em prática o que você aprendeu ou lembrar seus estágios quando estudou o Magistério. É uma conquista quando chega ao final do semestre e vê que quase todos os alunos conseguiram de algum modo aprender. Eu me sinto feliz porque com todas as dificuldades e desânimo eu consegui alcançar objetivos bons para mim e para os alunos. (Professora J.V.2010). Percebemos que trabalhar com classes multisseriadas não se limita apenas ao trabalho com várias séries, ao contrário, vai além, pois representa desafios a serem superados no dia-a- dia. Por outro lado, precisa-se de políticas adequadas para o campo que possa valorizar o trabalho do professor (a) que atua nestas classes. Diante de tantas dificuldades encontradas com relação ao trabalho desenvolvido pelos professores, percebe-se a gratidão deles quando seus alunos conseguem avançar, fazendo com que a escola alcance os objetivos propostos.
Como ressalta Hage & Barros em relação às classes multisseriadas:
As situações que vivenciam os sujeitos do campo para garantir o acesso e a qualidade da educação nas escolas multisseriadas, em grande medida estão diretamente relacionadas à política educacional e curricular das escolas do campo em seus municípios e regiões, situação que envolve fortes repercussões sobre o sucesso e o fracasso escolar desses sujeitos do campo, expresso nas taxas elevadas de distorção idade-série, de reprovação e de dificuldades de aprendizagem da leitura e escrita, comprometendo a qualidade do processo educacional ofertado por essas escolas. (2005, p.152) Diante do exposto, clamamos para que as Políticas públicas em prol da Educação do Campo possa se solidificar, ganhar espaço e forma para que o ensino do campo não seja mais ignorado, discriminado como um mal social. Precisamos fazer com que essa modalidade seja reconhecida pelos que nos representam em uma esfera maior e assim elaborar Leis que possam de fato fazer valer esse direito dos cidadãos campesinos.
Considerações Finais
Na realidade atual pelo qual passa a Educação do Campo, observa-se que o trabalho do professor que atua nesta realidade ainda enfrenta muitas dificuldades que precisam ser superadas sejam elas de cunho pessoal, profissional, didáticos ou administrativos. Nesse sentido, o docente que atua na escola do Campo precisa ser valorizado não apenas no sentido econômico, mas principalmente entendê-lo que se trata de um ser social total e que diariamente está ajudando a construir sujeitos transformadores e construtores de mudanças, capazes de influir na sua própria realidade e no meio social. Assim, é necessário que a este seja dado oportunidades para que ele possa mudar sua postura frente às inúmeras problemáticas encontradas nas escolas do campo. Diante disso é importante que o docente esteja em constante aperfeiçoamento mediante cursos de capacitação e formação continuada, superando assim as técnicas e estratégias do passado estando aberto a novas possibilidades de aprendizagens para melhoria e conquista de sua profissionalização. Identificamos nos depoimentos as angústias sentidas pelos professores que atuam em classes multisseriadas, as dificuldades de conduzir o processo didático pedagógico por assumirem justamente turmas heterogêneas bem como na elaboração do planejamento das atividades pedagógicas, e na elaboração de planos de ensino e estratégias de avaliação da aprendizagem diferenciadas para as diferentes séries presentes. Tais situações prejudicam todo o processo educacional, afetando a aprendizagem dos alunos assim
REIS, Maria Izabel Alves dos – As Reformas educacionais brasileiras e suas implicações para a escola e o trabalho docente: Breves reflexões sobre o trabalho docente nas escolas do campo. Disponível em: http//www.ead ifpa.edu.br. Acessado em: 15/06/10.
TEIXEIRA, Elizabeth. As Três Metodologias : Acadêmica da Ciência e da Pesquisa. 6. Ed. Belém: Unama, 2003.