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UTOPIA - Primeiros Contos, Notas de estudo de Geografia

Primeiro livro do meu colega Eliomar Pupo, PRIMEIROS CONTOS seleciona sete pequenos contos sobre variados temas; que ora proporcionam situações cômicas e hilariantes, ora convidam o leitor a uma reflexão. Assim é que ?De Amizades e Pescarias?, é a divertida história do reencontro de velhos amigos, que finaliza com uma situação absurda. Já: ?Educação. O exemplo vem de cima!?, resume de forma cômica o velho dito popular: ?Faça o que digo, mas não o que faço?. ?Dia aziago? sintetiza os aconteciment

Tipologia: Notas de estudo

Antes de 2010

Compartilhado em 06/12/2009

renato-pereira-25
renato-pereira-25 🇧🇷

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ELIOMAR PUPO

UT UTOOPPIIAA

PRIMEIROS CONTOS

Dedico esta obra para:

sueli, minha esposa e maior incentivadora.

meus filhos Michele e Fábio, leitores críticos e insaciáveis.

meus amigos Renato e Luis Fernando.

todos os autores que, através de seus livros, fazem deste, um mundo melhor para se viver.

àqueles que, como eu,^ “não vivem” sem ler!

Sumário

  • Prefácio
  • De Amizades e Pescarias
  • Educação: o exemplo vem de cima
  • Dia aziago
  • Esperança
  • A lembrança
  • Só por milagre....................................................................
  • Utopia

PREFÁCIO

eitor voraz desde que aprendi as primeiras letras; sempre fui um apaixonado pelos livros. Comecei pelos antigos gibis: publicações com histórias de

faroeste, das lutas medievais, de homens com

superpoderes, etc., passando daí para os livros de

História, para os contos, romances, ficção e o que mais

me aparecesse pela frente.

Desde há muito, tinha como um dos objetivos de

vida escrever algo, mas as responsabilidades e correrias do dia-a-dia nunca permitiram; afinal não sou escritor, e

não vivendo da escrita precisava ganhar o meu pão de

outras maneiras.

Mas chegando à meia-idade, e com um pouco

mais de tempo disponível, resolvi me lançar nessa

L L

10 PREFÁCIO

empreitada, buscando dessa forma realizar meu antigo

sonho, mas principal e especialmente contribuir para o

estimulo à leitura das novas gerações. Ler é antes de

tudo, formar o cidadão crítico e esclarecido.

Com esse propósito, preparei este condensado

de contos que espero, seja bem recebido pelos que a ele tenham acesso. Desde já, desejo uma ótima leitura!

12 DE AMIZADES E PESCARIAS

Já ao dobrar a esquina encontrou o velho Nicolau, companheiro de muitos anos, amigão das pescarias no Tibagi, quando o rio ainda não era poluído e os lambaris só faltavam pular para dentro da caixa de isopor, de tanto que tinha.

Passaram a andar lado a lado, relembrando aquele tempo formidável. Ah! Que saudades sentiam quando se sentavam no barranco a beira do rio com um litro da boa cachaça de alambique que vinha do interior, produzida artesanalmente por um amigo comum.

Dos lambaris e da cachaça, passaram a falar dos bagres; nas noites em que acampavam e pernoitavam na beira do rio com as linhas armadas; certeza de sucesso na pesca. No outro dia pela madrugada, era só tirar as linhas e lá estavam oito ou dez bagres dos grandes, além de vez ou outra capturarem também alguma outra espécie de porte.

E os peixes assados então? Tirados do rio: depois de limpos e salgados; eram jogados sobre a grelha e em pouco tempo já se espalhava no ar aquele cheiro delicioso. Um aroma que os deixava famintos e loucos para tomar um trago, “limpando a goela” antes de saborear aqueles presentes da natureza.

Dos bagres, enveredaram para a comida que levavam ou faziam ao redor da fogueira. Como era gostosa aquela farofa de frango com café forte, coado no

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estilo tropeiro, onde se fervia a água sobre as brasas, inseria-se a medida padrão do pó negro e cheiroso, e em seguida se colocava um pedaço de tição dentro do bule, para que o pó abaixasse.

Mas um item que não podia faltar de jeito nenhum, era o pão! Caseiro; feito pela mulher do Nicolau. Que delícia! Macio, saboroso, sovado ao extremo. Sempre assado no ponto, nem de mais, nem de menos. Não havia panificadora no bairro, ou mesmo em toda a cidade que produzisse um pão como aquele. Qual era afinal o segredo daquela massa especial? Que mãos de fada tinha a mulher do “Nicola”!

O Nicolau ficou orgulhoso, por ver reconhecidas as qualidades de sua companheira de tantos anos. Perdera a conta de quanto pão ela já havia feito desde que casaram. No início, até vendiam para a vizinhança para ajudar na despesa doméstica. Depois, com o tempo: os filhos casados, e a aposentadoria dele, deixaram de vender. Ela então fazia só para o consumo dos dois.

Conversa vai, conversa vem, chegaram ao bar. Lá já estavam ao redor do balcão com umas cervejas abertas, o Chicão, o “Pintado” e o “Suruvi”; pescadores como eles, de final de semana, e que por “incrível coincidência”, conversavam animadamente sobre sua diversão predileta. Cada um contando uma façanha

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Seu Zé entrou para os fundos do boteco e voltou com um garrafão lacrado com rolha e cera de abelha derretida, e piscando para os demais foi dizendo:

Sendo domingo, e vocês todos velhos fregueses e amigos, hoje vão poder provar a melhor cachaça fabricada nesse país; vem do alambique do meu irmão lá nas Minas Gerais. E digo mais, não vou lhes cobrar nada por ela, podem tomar a vontade!

Aquelas palavras foram como uma chave que abrisse um cofre, cujo tesouro cobiçado e precioso só pudesse ser desfrutado por poucos. Em questão de décimos de segundos, o velho já abraçava o garrafão, e com o auxílio de um canivete enferrujado que trazia no bolso, iniciou a retirada do lacre.

Isso resolvido, ergueu o vasilhame por sobre o ombro direito e com a mão esquerda segurou um copo que o Seu Zé lhe passara, enchendo todos os seus 200 ml com um líquido amarelo, de odor característico, que o Nicolau olhava embevecido enquanto segurando o copo, depositou o garrafão sobre o balcão.

A turma toda acompanhava a peripécia do velho. Num piscar de olhos, ele engoliu toda a dose cavalar e foi na direção do copo de cerveja que agora já tinha baixado a espuma, secando em um só trago. Pegou novamente do garrafão e colocou mais um tanto da cachaça até o meio do copo, que engoliu sem engasgar-

16 DE AMIZADES E PESCARIAS

se e pediu ao Seu Zé que trouxesse um tira-gosto para eles; no que foi atendido com presteza.

O dono do boteco colocou em frente a eles, um generoso prato de azeitonas, queijo em cubinhos, lingüiça calabresa e ovos de codorna, tudo muito bem arrumado e decorado no capricho. E para dar mais gosto ao petisco, uma pequena lata de óleo de oliva acompanhava a bandeja. O papo rolava animado, eram “causos” e mais “causos” de pescarias espetaculares. Cada uma maior do que a outra.

O pessoal observava entre risinhos, o comportamento do velho. Ele tentava já há um bom tempo colocar um palito na azeitona, mas a danada escorregava, e ele como consolo partia para o queijo, a lingüiça, ou os ovos de codorna que eram mais fáceis de serem espetados. Não querendo demonstrar insegurança para os amigos – e eles fingiam se distrair com a conversa – volta e meia lá estava ele novamente tentando cutucar a danada da azeitona.

Chicão, amigo velho, e um de seus gozadores mais aguçados; depois de observar por um bom tempo as infrutíferas tentativas do velho; pegou um palito e espetou uma azeitona, colocando-a prazerosamente na boca.

Nicolau ao observar tal façanha, comentou num tom de voz que já se tornara pastoso:

18 DE AMIZADES E PESCARIAS

fósforos para acompanhar umas canções de sua própria autoria, que ele cantava com a língua enrolada. Antônio achou por bem acompanhar o velho até a casa dele, pois na situação em que se encontrava, não teria condições de se deslocar sozinho.

Apesar de “cachaceiro”, não era teimoso; na primeira vez que o amigo o convidou a ir embora, concordou, alegando que estava “meio tonto”. Aquela cachaça realmente estava mais forte que o costume. Não era a toa sua situação, pois só ele conseguira nada mais nada menos que consumir o equivalente a um litro de aguardente, sem contar as várias cervejas.

Amparado pelo amigo, ambos foram descendo em direção à casa que ficava no final daquela rua. Pelo trajeto, o velho embrulhando as palavras, comentava que o Antônio iria levar um pão fresquinho para comer com carne assada, pois quando saíra pela manhã, sua esposa ficara sovando a massa no capricho.

Chegaram. A esposa do Nicolau era uma velha senhora de descendência européia, de traços rudes, calejada da vida. Após tantos anos juntos, já sabia que quando o levavam em casa o único remédio era colocá- lo na cama, e deixar que dormisse até melhorar do porre. Foi o que fez; pediu ajuda ao Antônio e colocaram-no sobre ela, vestido mesmo como estava.

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Desculpando-se pela casa estar meio desarrumada, convidou o amigo de seu marido para chegarem até a cozinha, onde acabara de retirar os pães do forno, e gostaria que ele levasse um, pois o seu “velho” já havia lhe dito que o amigo gostava muito de seus pães.

Antônio, meio constrangido pela situação, disse que não queria incomodar, mas aceitaria de bom grado, pois realmente adorava seus pães. Então a velha lhe serviu um café numa xícara encardida que se encontrava sobre a pia suja e rodeada de moscas. Pediu que ele aguardasse uns minutos até o pão esfriar. Antônio, disfarçadamente correu o olho pelo ambiente e o que viu não foi muito animador: nas velhas paredes de madeira comidas por cupins e sob o teto, baratas passeavam displicentemente, como que acostumadas a circular à luz do dia. Sob o fogão à lenha, uma bacia de alumínio suja e amassada, além de furada em alguns lugares, denunciava a má conservação e o tempo de uso.

Ao receber o café, ele reparou que espalhadas pelas costas de ambas as mãos dela e em enorme quantidade, apareciam verrugas horrorosas e florescidas, de aspecto repugnante, e, além disso, sobre as mesmas grudavam-se ainda vestígios daquela massa do pão.