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de Graciliano Ramos: de Caetés a Vidas Secas, passando ... passagem da ficção à realidade, atingindo o ápice no livro ... RESUMO DE VIDAS SECAS.
Tipologia: Notas de aula
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2.1 Romances: Caetés – 1933 São Bernardo – 1934 Angústia – 1936 Vidas Secas – 1938
2.2 Memórias: Infância – 1945 Memórias do Cárcere – 1953 Viagem – 1954 Linhas Tortas – 1962
2.3 Conto: Insônia – 1947
2.4 Infantil: Histórias de Alexandre – 1944 Dois dedos – 1945 Histórias incompletas – 1946
2.5 Crônicas: Viventes das Alagoas – 1962
Graciliano situa-se no polo oposto do popu lis mo de autores que exploram a vitalidade do homem sim ples na busca do pitoresco e do melodramático. Sua op ção é pelo despojamento, pelo tenso e profundo. Sua modernidade pouco deve aos modernistas e às modas literárias, perante as quais foi visto como inatual e conservador. É hoje considerado por grande parte da crítica nosso melhor romancista moderno. E mais, é tido como o autor que levou ao limite o clima de tensão presente nas relações homem/meio natural, homem/meio social.
Representa, em termos de romance moderno brasi- leiro, o ponto mais alto da tensão entre o eu do es cri tor e a sociedade que o formou. Cada perso na gem projeta as faces angulosas da opressão e da dor, cada obra é uma ruptura. Escrevendo sobre o signo dialético por exce- lência do conflito, Graciliano compôs uma série de romances cuja descontinuidade é sintoma de um espí ri - to pronto à indagação, à fratura, ao problema. Isso explica a disparida de da linguagem. Cada romance é um questionamento novo, que propõe uma linguagem ade- qua da.
(Alfredo Bosi)
A tensão surge num crescente na cronologia das obras de Graciliano Ramos: de Caetés a Vidas Secas , passando por São Bernardo e Angústia. Acentua-se ainda mais na passagem da ficção à realidade, atingindo o ápice no livro em que relata suas experiências na cadeia: o plano pessoal é ultrapassado para retratar o Brasil num importante momento histórico, quando a convivência ho mem / meio social se torna impossível. Graciliano Ramos é o autor de enredos que envolvem a seca, o latifúndio, o drama dos retirantes, a caatinga, a cidade. Suas personagens são seres oprimidos moldados pelo meio – Luís da Silva, pela cidade; Paulo Honório e Fabiano, pelo sertão. E, dentro das estruturas vigentes, não há nada a fazer a não ser aceitar a força do inevitável. Daí Rolando Morel Pinto, em brilhante tese sobre o autor, afirmar que as construções de Graciliano Ramos acabam sempre em palavras de sentido negativo e, principalmen- te, na palavra inútil :
Parece que, dentro da posição pessimista e negativis- ta do autor, segundo a qual as pessoas nunca fazem o que desejam, mas o que as circunstâncias impõem, gestos, intenções, desejos e esforços, tudo se torna inútil.
A única saída seria mudar as estruturas e o sistema que geram Paulo Honório em sua ambição, o burguês Julião Tavares e os prepotentes soldados amarelos, estes últimos, símbolos da ditadura Vargas. A morte é um tema recorrente em Graciliano. Seus heróis são sempre problemáticos, levados a um final trágico e irreversível, uma vez que não aceitam o mundo, nem os outros, nem a si mesmos. Os traços mais característicos do estilo de Graciliano Ramos são: em uma linguagem enxuta, rigorosa e precisa, a economia vocabular, a palavra incisiva, que “corta como faca”, a preferência dada aos nomes de coisas, o uso restrito do adjetivo e a sintaxe clássica, que o aproxima de Machado de Assis e o distancia do “à vontade” dos modernistas e dos outros regionalistas.
Em Vidas Secas , único romance em 3.ª pessoa do autor, a opressão dos seres humanos moldados pelo sertão leva o leitor a uma sondagem moral do homem reduzido a uma condição subumana. O drama dos retirantes castigados pela seca reduz o ser humano à situação de homem-bicho. Sua visão crítica das relações sociais expri- me a dura e amarga realidade do homem nordestino, hos- tilizado pelo ambiente e em constante luta pela sobrevi- vência, daí serem considerados viventes que têm ape nas uma coisa a defender: a vida.
Vidas Secas pertence a um gênero intermediário entre romance e livro de contos. Os treze capítulos e cenas independentes se ligam num círculo sem princípio nem fim, o que marca o “Romance Desmontável”, segundo Rubem Braga. Essa circularidade assinala que a tragédia da seca — o drama do nordestino infeliz — é um ciclo repeti tivo e sem solução. Vale lembrar que Graciliano publicou os capítulos como contos e o primeiro foi Baleia : mais tarde, reuniu todos os contos sob o título Vidas Secas. O próprio autor explica a gênese do livro: ... no co- meço de 1937 utilizei num conto a lembrança de um ca - chorro sacrificado na Maniçoba, interior de Pernambuco, há muitos anos. Transformei o velho Pedro Ferro, meu avô, no vaqueiro Fabiano; minha avó tomou a figura de Sinha Vitória, meus primos pequenos, machos e fêmeas, reduzi ram-se a dois meninos... Habituei-me tanto a eles que resolvi aproveitá-los de novo. Escrevi “Sinha Vitória”. De pois apareceu “Cadeia”. Aí me veio a ideia de juntar as cinco personagens numa novela miúda – um casal, duas crianças e uma cachorra, todos brutos. Vidas Secas virou filme pelas mãos do cineasta Nélson Pereira dos Santos, em 1953, e ganhou vários prê- mios mais pelo enredo contestatório do que pela técnica cinematográfica.
O primeiro capítulo, Mudança , apresenta a história da retirada de uma família — Fabiano, Sinha Vitória, Menino mais Velho, Menino mais Novo, Baleia — que, depois de uma viagem penosa, quase mortos de fome e sede, encontram um sítio todo estragado, fixando residência ali. Nesse capítulo, temos a descrição da terra árida e do sofrimento da família. As personagens não se comunicam; apenas duas vezes o pai, irritado com o menino mais velho, xinga-o. Essa falta de diálogos permanece por todo o livro, como também a intenção de não dar nome às crianças, para caracterizar a vida mesquinha e sem senti- do em que vivem os retirantes, que são inconscientes de sua situação, embora, ainda nesse primeiro capítulo, Fabiano e Vitória sonhem com uma vida melhor:
Sinha Vitória, queimando o assento no chão, as mãos cruzadas segurando os joelhos ossudos, pensava em aconte cimentos antigos que não se relacionavam: fes tas de casamento, vaquejadas, novenas, tudo numa confusão.
Adiante é Fabiano quem sonha:
Sinha Vitória vestiria uma saia larga de ramagens. A cara murcha de Sinha Vitória remoçaria, as nádegas bam-
bas de Sinha Vitória engrossariam, a roupa encarnada de Sinha Vitória provocaria a inveja das outras caboclas.... — e ele, Fabiano, seria o vaqueiro, para bem dizer seria o dono daquele mundo... Os meninos se espojariam na terra fofa do chiqueiro das cabras. Chocalhos tilintariam pelos arredores. A caatinga ficaria verde.
Fabiano , segundo capítulo, é um vaqueiro, filho e neto de vaqueiros, cujos filhos também querem ser vaqueiros. Embrutecido pelo meio, ainda é capaz de analisar a si próprio, tendo consciência de que mal sabe falar e chega à conclusão de que não passa de um bicho. Percebe também que não é bem um homem, mas apenas um caboclo guardando coi sas dos outros e sonhando um futuro diferente para os filhos que seriam felizes quando a seca acabasse. Certa ocasião, Fabiano vai à feira da cidade fazer compras e, apesar de estar sempre desconfiado de que os outros que riam roubar-lhe nas contas, aceita o convite do Soldado Amarelo para jogar trinta e um. O vaqueiro perde o jogo e, quando sai da sala, o soldado vai atrás e provoca- o por ter se retirado sem dar satisfações. Fabiano profere um palavrão, ofendendo a mãe do soldado, e é preso. Em Cadeia (terceiro capítulo), Fabiano é maltratado e, sem entender o que se passa, preocupa-se com a mulher e os filhos que estavam esperando por ele e pelas compras. Ao fim do capítulo, temo-lo ciente de sua condição de homem vencido e, pior ainda, sem ilusões com relação à vida de seus filhos:
Sinha Vitória dormia mal na cama de varas. Os meni- nos eram uns brutos, como o pai. Quando crescessem, guardariam as reses dum patrão invisível, seriam pisados, maltratados, machucados por um soldado amarelo.
No quarto capítulo, encontram-se os sonhos de Sinhá Vitória : possuir uma cama de couro como a do seu Tomás da bolandeira porque a cama em que ela e o marido dormem é muito dura. Pensa em vender as galinhas para poder realizar o sonho, porém, a raposa vem e come-lhe as aves mais gordas. Os filhos do casal, Menino mais Novo e Menino mais Velho, respectivamente quinto e sexto capítulos, têm ideias diferenciadas. O primeiro deseja ser como o pai, forte e vaqueiro. Tenta imitá-lo montando num bode, no entanto cai no meio da lama e atura a gozação do irmão mais velho, temendo ainda a possibilidade da surra. Já o segundo revela uma curiosidade em relação ao significado das palavras, principalmente o termo inferno que nin- guém é capaz de explicar-lhe, e ainda apanha da mãe por ser insolente. Então, refugia-se no mundo dos sonhos e no carinho de Baleia, a única “pessoa” que o compreende verdadeiramente.
Os termos sublinhados no trecho acima, de Vidas Secas , indicam que, para Fabiano, a) as opressões da vida não eram invencíveis, já que seu ódio ou sua paciência, alternando-se, permi- tiam-lhe enfrentá-las de modo que lhe fosse mais conveniente. b) tudo era motivo de indignação, uma vez que seu pensamento confuso não distinguia entre os verda- deiros inimigos e os possíveis aliados. c) os diferentes antagonismos se misturavam e con- fundiam-se em sua limitada capacidade de análise, o que lhe impedia qualquer reação obje tiva. d) nada era especialmente revoltante, porque ele ava- liava com acerto as forças de seus oponentes e acabava adotando uma posição fatalista. e) a vida dos retirantes na caatinga era uma lição de inconformismo, porém nada faziam contra as vicissitudes do clima que estará sempre a castigá- los.
Não era propriamente conversa: eram frases soltas, espaçadas, com repetições e incongruências. Às vezes uma interjeição gutural dava energia ao discurso ambíguo.
O fato de as personagens centrais de Vidas Secas se expressarem conforme indicam os fragmentos acima levou Graciliano Ramos, nesse romance, a a) ocupar-se com cenas basicamente descritivas, co - mo um criador que não tem a opção dos diálogos, tampouco acesso ao pensamento informe de suas criaturas. b) compor um conjunto de episódios isolados, des- considerando a cronologia ou qualquer outro cri- tério de encadeamento das ações. c) elaborar seu próprio estilo num registro imitativo, num discurso entrecortado e vago, que inutilmente procura a expressão das ações. d) adotar formas de discurso indireto livre toda vez que desejou traduzir o pensamento nebuloso e fragmentário de suas personagens. e) criar um narrador que, desvinculado dos desejos e sentimentos das personagens, busca interpretá-las a partir de seus gestos ou expressões faciais.
Texto para os testes 3 e 4.
RETIRANTES
A vida na fazenda se tornara difícil. Sinha Vitória benzia-se tremendo, manejava o rosário, mexia os beiços rezando rezas desesperadas. Encolhido no banco de copiar, Fabiano espiava a catinga amarela, onde as folhas secas se pulverizavam, trituradas pelos redemoinhos, e os garranchos se torciam, negros, torrados. No céu azul as últimas arribações tinham desaparecido. Pouco a pouco os bichos se finavam, devorados pelo carrapato. E Fabiano resistia, pe- dindo a Deus um milagre. Mas quando a fazenda se despovoou, viu que tudo estava perdido, combinou a viagem com a mulher, matou o bezerro morrinhento que possuíam, salgou a carne, largou-se com a família, sem se despedir do amo. Não poderia nunca liquidar aquela dívida exagerada. Só lhe restava jogar-se no mundo, como negro fugido. (Graciliano Ramos, Vidas Secas )
1) As expressões sublinhadas evidenciam o esgota- mento – ou antes a saturação – de Fabiano perante as adversidades com que se deparava, fossem essas adversidades oriundas das dificuldades climáticas (a seca) ou de sua condição socioeconômica, com - ponente das inúmeras injustiças de que era vítima. Problemas de distintas naturezas molestavam-no como se fosse tudo uma coisa só. E, sem poder distinguir um problema do outro, Fabiano mostra- se incapaz de buscar uma solução objetiva para os problemas que o afligem. Resposta: C
2) Em Vidas Secas , o autor vale-se do discurso indi - reto livre sempre que deseja reproduzir as falas de suas personagens nos termos em que teriam sido proferidas, evidenciando-se, assim, a fragilidade e o caráter fragmentário que caracterizam o precá - rio domínio da linguagem por parte de Fabiano e sua família. Resposta: D
3) A alternativa e destoa completamente do teor do texto, como se comprova nas seguintes passagens: “Encolhido no banco de copiar, Fabiano espiava a catinga amarela...”, “E Fabiano resistia, pedindo a Deus um milagre”, “...quando a fazenda se despovoou, viu que tudo estava perdido”, “Não
poderia nunca liquidar aquela dívida exagerada. Só lhe restava jogar-se no mundo, como negro fugido”. Por essas passagens, nota-se que Fabiano se sente impotente e foge das adversidades. Resposta: E
4) Há aliteração – repetição de fonemas idênticos ou parecidos – em “mexia oS beiÇoS RE Z AnDo RE Z A S DeSeSperaDaS. Observe-se a repetição dos fonemas /z/, /s/, /rr/, /d/ etc. Resposta: A
5) Vidas Secas insere-se no chamado romance de 30, por ocupar-se de tema de denúncia social, no filão regionalista. Porém não há na obra “experimen- talismos linguísticos”, muito menos aqueles da fase heroica do Modernismo (de 1922 a 1930). Resposta: C
6) A linguagem empregada por Graciliano Ramos em Vidas Secas é concisa, direta, lapidar, não podendo ser chamada de “linguagem extremamente difícil”. Essa concisão da linguagem não impede, porém, que haja momentos de profundo lirismo na obra, como ocorre na passagem em que se narra a morte da cachorra Baleia. Resposta: D