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Este documento discute as diferentes interpretações sobre a catarse na tragédia, conforme a obra de aristóteles e seus comentaristas, como vicenzo maggi, piccolomini, bernays, golden e halliwell. A catarse está relacionada às emoções, à música e à mimese, e sua compreensão é prazerosa. Além disso, é um processo de aprendizagem e clarificação das emoções.
Tipologia: Notas de estudo
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Depois de um percurso como o que fizemos, um histórico em linhas gerais dos usos da catarse em autores anteriores a Aristóteles e em sua obra, da mimese, noção central da obra, das emoções e do prazer, devemos agora nos perguntar se tal percurso torna mais claro o que seja a catarse na tragédia. Anteriormente ficamos sabendo que remonta ao Renascimento europeu o início da publicação das edições comentadas da Poética e, com esse fato, inicia-se também a longa história das diversas formas de compreender as emoções e o prazer trágicos e, consequentemente, as soluções propostas para a presença da noção de catarse na definição do capítulo seis. Passemos em revista algumas delas, mesmo sabendo não ser possível uma análise extensiva de todas as soluções propostas, mas apenas um quadro histórico geral e a discussão com algumas soluções mais destacadas pelos comentadores e tradutores da Poética com os quais tratamos aqui.^1 No século XVI, por exemplo, autores, como Bartolomeu Lombardi, entenderam que a catarse não indicava apenas uma remoção ou expurgação do temor e da piedade da alma humana, mas a remoção de outras perturbações, remoção que implicaria ainda as virtudes: por exemplo, se a cólera fosse removida, ela seria substituída pela mansidão, emoção contrária e preferível ao estado colérico. Já Vicenzo Maggi, que viveu no mesmo século que Lombardi, notava que a tragédia, além das emoções de temor e piedade, implicava também prazer, como indicariam as demais definições da tragédia na Poética. Para ele, o “prazer próprio” () da tragédia seria uma das finalidades do poeta, embora a trama trágica tivesse como finalidade última a expurgação de
(^1) Para esse quadro histórico que apresentaremos a seguir, nos utilizamos do “Apêndice I” de V. G. Yebra, presente em sua tradução da Poética de Aristóteles pela Gredos.
perturbações da alma, mediante piedade e temor, e dessa forma o poeta exortaria os homens à virtude.^2 Outro autor, do mesmo período, a sugerir uma solução para a questão, foi Ludovico Castelvetro, para quem Aristóteles entendia que o prazer seria a finalidade da poesia, já que a purificação e a expulsão do espanto e da piedade da alma humana seria o próprio prazer. Ele também considerava que a purgação das emoções da tragédia se dava por meio das próprias emoções de medo e piedade. Agnolo Segni, por sua vez, estendeu sua interpretação dessa passagem a toda poesia. Segundo ele, a finalidade última da poesia seria purgar de nossa alma os afetos e as paixões nocivas que nos afligem. Já Alessandro Piccolomini observava que essa purgação dos afetos, por meio do temor e da piedade, tranquilizava o espírito, assim como moderava as esperanças e as alegrias humanas. Essa moderação não se aplicava, para Piccolomini, apenas às citadas emoções da definição da tragédia, ela poderia ser estendida às demais emoções: como a dor, a cólera, a inveja.^3 Claro que Piccolomini considera aqui a falta de precisão do grego no texto aristotélico, no caso de se saber a quais emoções a catarse se referiria, se ao medo e piedade ou se a todas as emoções desse tipo, a saber, dolorosas. Não apenas em sua interpretação vemos esse problema – isto é, quais emoções estão envolvidas na catarse – , mas também a dúvida sobre o que provoca o processo catártico, além da dúvida da natureza do prazer típico de uma tragédia e sua relação com as emoções dolorosas. No século XVII, Pierre Corneille, entendia que a piedade é a emoção que sentimos quando vemos o sofrimento de alguém que passou por algum revés na vida, sem, contudo, merecê-lo. A piedade nos levaria a sentir medo, porque tememos a possibilidade de também cairmos em alguma desgraça; o temor indicaria o desejo de evitar a situação trágica. Já John Milton considerava que o poema trágico seria o mais sério, o mais moral e o mais proveitoso de todos os tipos de poemas, porquanto, através do medo e da piedade, a tragédia teria o poder de moderar as emoções ou de reduzi-las à justa medida. Assim, ela produziria deleite naquele que lê ou vê a imitação de tais ações. Milton ainda observava que a poesia trágica para Aristóteles agiria de modo semelhante à medicina, quando
(^2) Cf.. V. G. Yebra, “Apêndice I” In Aristóteles Poética. p. 352-353.
(^3) Id. ibid ., p. 356-361.
interpretação da catarse das considerações morais de seus predecessores, especialmente as de Lessing, que ele cita textualmente em seu artigo, hoje clássico, sobre o efeito da tragédia em Aristóteles. Para Bernays, a catarse à qual Aristóteles alude não apresenta nem sentido moral nem sentido religioso, embora tais acepções sejam bem comuns na época do filósofo. O significado de em Poética 6 tem para ele o sentido proveniente da medicina, acepção também comum na época, além de claramente presente nos escritos biológicos de Aristóteles. Segundo Bernays, Aristóteles teria mesmo dado um sentido “estético” para a experiência da tragédia, em que pese o anacronismo do conceito de estética aplicado aos pensadores gregos.^9 Importante na tese de Bernays é que sua interpretação centra-se na distinção entre e , na qual ele toma a variante – na expressão final do capítulo seis da Poética em que a catarse é mencionada – , como indicativa de uma emoção fortemente sentida, e por isso causadora de distúrbio psicológico,^10 e não como indicativa do tipo de sentimentos que todos podemos experienciar, pois, para tanto, a seu ver, Aristóteles deveria ter escrito e não . Já dissemos que uma distinção entre estes dois termos não foi feita por Aristóteles, mas por alguns de seus comentadores com base nas ocorrências dos termos indicadas pelo Index de Bonitz, e é uma distinção legítima de ser feita. Outro detalhe observado por Bernays na expressão aristotélica foi entender o genitivo (de tais tipos) como equivalente de para não deixar indeterminado a quais emoções Aristóteles estaria se referindo, e assim, no entender de Bernays, ele estaria se dirigindo apenas a e e não a outras emoções de mesma natureza, a saber, dolorosas. Para Bernays, as emoções de piedade e temor da tragédia são afecções mentais crônicas, que são removidas ou purgadas quando se está diante do amedrontador e do piedoso, purgação necessária especialmente aos cronicamente afetados pelas emoções. Assim entendida, a tragédia é de ação que provoca o temor a e piedade no leitor
(^9) Sobre o uso do termo estética nesse contexto do pensamento aristotélico, retornaremos mais à frente. Ao que parece, segundo o dicionário de M. G. Liddell & R. Scott, Epicuro e Filodemo teriam difundido essa interpretação de relacionada à medicina na antiguidade tardia. Numa passagem de suas Confissões , Agostinho parece ter-se referido à Poética aristotélica, na observação que faz sobre as emoções dolorosas despertadas pelo teatro. Cf. Confissões III 2. (^10) Cf. J. Bernays, op. cit ., p. 162.
ou no espectador; e o processo catártico purga tais emoções e, como um tratamento homeopático, vai aliviando a sensação dolorosa da emoção provocando, ao fim, prazer.^11 Bernays toma como base de sua interpretação da catarse da tragédia o que ele entende como o papel catártico da música na Política : se a música alivia as pessoas de certas emoções e causa um prazer sadio ou inocente, a tragédia faz algo semelhante.^12 Sua leitura ficou conhecida como “interpretação ou leitura psicopatológica” das emoções, por compreender a como um processo que alivia aquele que é patologicamente afetado pelas emoções, purgando-as. Segundo Bernays, este seria o sentido de na Poética ; ela aliviaria o espectador ou leitor das fortes dores provocadas pelas emoções de medo e piedade suscitadas pelo drama trágico. O êxito da interpretação de Bernays deve-se, provavelmente, ao que antes apontamos: o fato de ser o sentido medicinal muito comum e presente nos tratados biológicos de Aristóteles, e em uma interpretação da Política bem coordenada com a Poética. Várias foram as objeções a Bernays, o que não é incomum em se tratando da catarse na Poética , pois estamos lidando com uma verdadeira querela.^13
(^11) Bernays sugeriu até correções nos manuscritos, e uma delas foi acolhida por R. Kassel em sua tradução da Poética , no trecho da definição da tragédia no capítulo seis: no lugar transmitida pelos manuscritos. Tal correção intentou evidenciar que a definição do capítulo seis recapitulava pontos anteriormente considerados, especialmente nos capítulos 1, 2 e 3. Cf. J. Bernays, loc. cit ., p. 162. A edição de Kassel é o texto estabelecido utilizado pela maioria das edições contemporâneas da Poética , como as de D. W. Lucas; também é o texto estabelecido mais traduzido: as traduções de Eudoro de Sousa e Gerald Else, por exemplo, se baseiam nela. Já Dupont-Roc e Lallot rejeitam a correção de Bernays. Cf. op. cit ., p. 186. (^12) Cf. Política 1342 a1011.
(^13) Algums críticos reconheceram e acolheram boa parte dos resultados da pesquisa de Bernays sobre a questão, mas não a tese como um todo. Foi o caso de, por exemplo, S. H. Butcher em sua edição crítica e comentada da Poética , que contesta Bernays, lembrando que a catarse da tragédia não expressa apenas um fato psicológico ou patológico, mas “um princípio de arte”. Cf. S. H. Butcher, Aristotle´s Theory of Poetry and Fine Art. 4. ed. New York: Dover, 1951. p. 253. O sentido ou a metáfora médica presente na Política em 1342 a10-11 e mantida em 1342 b14-15, não é argumento suficiente, de acordo com Butcher, para termos certeza de que a acepção médica se mantenha na Poética ; a expressão grega (uma certa catarse) presente no último trecho citado da Política atestaria textualmente que não se trataria da mesma noção de catarse, embora a expressão possa, por outro lado, atestar a metáfora médica e foi em cima dessa expressão que Bernays procurou reforçar seu argumento. Mesmo assim, Butcher pensa que Bernays não esteja autorizado a transferir o sentido da Política à Poética. Cf. Id. Ibid ., p. 255. Outro que criticou Bernays, apesar de reconhecer o refinamento do argumento desse, foi Gerald Else, cuja objeção principal recai sobre o acentuado sentido patológico da terapêutica do drama trágico. Else lembra que em nenhum lugar da Poética Aristóteles está se dirigindo a pessoas cronicamente afetadas pelas emoções, mas a ouvintes com sentimentos e estados mentais normais. Cf. Gerald. F. Else, Plato and Aristotle on Poetry. Ed. P. Burian. London: Chapel Hill, 1986. p.
expõe, o prazer em inferir e aprender o que o manifesta.^16 No caso de Poética 6, no qual o meio mimético é a tragédia, os acontecimentos por ela apresentados nos levariam à piedade e ao medo e compreenderíamos a universalidade de tais emoções na existência humana, e tal compreensão seria de natureza filosófica.^17 A , no entender dele, faria parte de todo o processo mimético da tragédia que, ao suscitar temor e piedade, provocaria a clarificação dessas emoções. Essa clarificação das emoções é prazerosa porque implica uma certa aprendizagem, e Golden recorda que para Aristóteles o aprender é uma atividade que implica prazer. Lembremos que as emoções são afecções ligadas à ação e que elas apresentam cognição, de acordo com o que vimos na análise precedente (item 6). Na Ética a Nicômaco , o medo é mesmo considerado uma emoção que provoca deliberação, visto pensarmos em como agir diante de um perigo iminente.^18 Quanto à tragédia, o contexto poético descrito por Aristóteles é literário e por isso Golden não acha possível que os significados médico-terapêutico e moral sejam aplicados aqui convenientemente. O público, ao assistir ou ler uma tragédia em particular, sente piedade e temor, e passa à compreensão da natureza universal de tais emoções na existência humana.^19
(^16) Cf. L. Golden, “Katharsis”. In Aristotle on Tragic and Comic Mimesis. p. 19.
(^17) Golden define como o que “representa o momento de insight , que surge da iluminação intelectual, espiritual e emocional da audiência, representando para Aristóteles tanto o objetivo essencial, quanto o prazer embutidos na arte mimética.” Cf. “Introduction”. In op. cit. , p. 2. Tradução para o português de Elaine Valente Ferreira (In A katharsis como clarificação intelectual na Poética de Aristóteles. Dissertação de Mestrado em Filosofia. Rio de Janeiro: CTCH/PUC,
A tese de Golden tem o mérito de reavaliar o capítulo quatro da Poética que, em geral, era considerado digressivo. Golden também associa à mimese o prazer cognitivo, que, como vimos anteriormente, é o prazer mimético por excelência. Mas lembremos que o prazer da tragédia implica não um conhecimento da universalidade das emoções, como Golden pensa; antes esse prazer não é exclusivo da compreensão das emoções, ele implica a cognição total do poema trágico, o que nos permite falar de cognição de piedade e temor, mas cremos que não nos moldes de Golden.^20 Pelo que vimos sobre o prazer ligado à mimese trágica, Aristóteles não está falando especificamente de um prazer em compreender a natureza universal das emoções para a vida humana, mas tal prazer liga-se à compreensão de toda a trama, dos fatos que causam as emoções dolorosas e o que é central, parece-nos, é a compreensão da seriedade da ação que a tragédia mimetiza. Mais recentemente, Stephen Halliwell, em artigo publicado em francês,^21 procurou fazer uma reconstrução da noção de catarse, reavaliando alguns pontos considerados por seus antecessores, mas criticando alguns exageros que a seu ver a tradição interpretativa cometeu, como o excesso de confiança que alguns
não significa „clarificação intelectual‟. Significa „clarificação‟ – e acontece que, segundo Platão, toda clarificação é uma questão intelectual. Podemos atribuir a Aristóteles uma concepção mais generosa das maneiras pelas quais chegamos a conhecer nós mesmos. Antes de tudo, a clarificação, para ele, pode certamente acontecer por meio de reações emocionais, como diz a definição. […] à medida que assistimos um personagem trágico, com freqüência não é o intelecto, mas sim a própria reação emocional que nos leva a entender quais são nossos valores. As emoções podem por vezes desencaminhar e distorcer o juízo; Aristóteles está ciente disso. Mas podem também, como ocorreu no caso de Creonte, dar-nos acesso a um nível mais verdadeiro e profundo de nós mesmos, a valores e compromissos que estiveram ocultos sob a ambição ou racionalização defensiva.” Cf. M. Nussbaum, op. cit. , p. 342. (^20) Para uma crítica ao ponto de vista de Golden ver, por exemplo, Jonathan Lear, “Katharsis”. In. RORTY, A. O. (ed), op. cit. , p. 315-340; e Maria del Carmen Trueba Atienza, “A interpretação intelectualista da catarse. Uma discussão crítica”. In DUARTE, Rodrigo (org. et al.), op. cit. , p. 42-
Por ser um instrumento que impossibilita a expressão do , o é censurado pelo filósofo e considerado um instrumento mais orgiástico () que ético (), ou apenas orgiástico e de nenum modo ético. Mesmo assim, Aristóteles permite o uso do , mas esse uso é condizente quando o objetivo do espetáculo () é mais de produção de uma catarse () do que de uma aprendizagem ().^24 Um pouco mais adiante na obra, Aristóteles se referirá ao uso catártico da música, como um uso não educativo. Lembremos que ainda nesse passo da Política , o filósofo diz estar usando o termo catarse de maneira simples (), e que ele será explicado de maneira mais clara () em um tratado sobre poética.^25 Halliwell observa que, em uma passagem anterior, Aristóteles se pergunta sobre se a música pode ter um efeito ético sobre a alma: “se ela exerce influência também sobre nosso caráter e sobre nossa alma”.^26 Tal influência da música em nosso caráter é, segundo Aristóteles, demonstrada pelos efeitos que certos tipos de música possuem, como os efeitos entusiasmantes das melodias de Olimpo. Halliwell recorda ainda que textualmente Aristóteles diz ser o entusiasmo “uma paixão de nossa psicologia ética” ( ).^27 Aristóteles faz, então, uma tripartição e dos três tipos de música dos quais ele trata – ética (), prática () e entusiástica () – apenas a ética é considerada por ele apropriada para a educação, embora todos os tipos de música provoquem emoções fortes como o medo, a piedade e o entusiasmo. No caso do entusiasmo, aquele que é tomado por esta emoção pode ser beneficiado ao escutar músicas sacras, já que é arrebatado por elas como se estivesse sob o efeito de um remédio ou medicamento e esse arrebatamento
(^24) Cf. Política 1341 a17-24.
(^25) Cf. Política 1341 b38-41.
(^26) Cf. Política 1340 a5-12. Cf. S. Halliwell, La psychologie morale de la catarsis , p. 501.
(^27) Cf. tradução de Halliwell em La psychologie morale de la catarsis , p. 501. Os tradudores portugueses da Política traduzem a passagem do seguinte modo: “o entusiasmo é uma afecção do caráter da alma” Cf. Política 1340 a9. Ainda de acordo com esses tradutores, Olimpo foi um “músico frígio do século VII a.C., a quem se atribui a invenção da harmonia, além de se ter especializado, segundo consta, na composição de melodias pungentes”. Cf. António C. Amaral e Carlos C. Gomes, Aristóteles. Política. Lisboa: Vega, 1998. nota 41, p. 650. As melodias de Olimpo eram executadas com o , como testemunhara Platão no Banquete 215c.
provoca uma espécie de catarse ().^28 Mas em todos que escutam uma apresentação musical, é possível supor que uma certa catarse () será produzida e, ainda, um alívio acompanhado de prazer ().^29 Halliwell, estendendo o que é dito sobre o ritmo para a melodia, compreende que a diferença entre as melodias () , e é de certa maneira uma diferença de , “a despeito do embaraço terminológico que isso poderia ocasionar”.^30 Ele relembra que o termo , assim como seus cognatos, tem sentido muito sutil em Aristóteles e diz que pode apresentar um sentido amplo e restrito não só em Política VIII, mas também na Poética , indicando nesta tanto a “expressão do caráter” (pelo personagem) quanto aquilo que especifica um tipo de tragédia ou de epopéia:
Escutar certas partes da música, nos termos de Política VIII, ou assistir a uma tragédia, não é evidentemente ético no sentido em que os espectadores ou os ouvintes exerceriam seu próprio caráter no sentido de uma deliberação prática ou de uma escolha. Mas é “ético” no segundo sentido, ou seja, no sentido em que isso tem relação de maneira significativa, e potencialmente influente, com os constituintes do êthos da audiência.^31
Halliwell pretende com isso dizer que o fato do ser mais () orgiástico que ético, não indica a negativa, da parte do estagirita, de que tal instrumento ofereça experiências musicais de maneira , mas que a natureza musical e emocional de tal instrumento “se presta antes de tudo a uma gama de emoções outras que aquelas que ele [Aristóteles] considera como convencionais e eticamente benéficas, para a educação dos jovens.”^32 Halliwell, então, faz raciocínio semelhante à passagem em que o filósofo comenta sobre o fato de certo
(^28) Cf. Política 1342 a8-11. Considerando aqui o da passagem como explicativo. Lembremos que está associada a (cura, tratamento). De acordo com Yates, na passagem atenua o termo médico. Cf. V. Yates, loc. cit ., p. 48. Também citado por C. W. Veloso, Depurando as interpretações da kátharsis na Poética de Aristóteles, nota 17, p. 17. (^29) Cf. Política 1342 a11-15. Lembremos que o alívio é prazeroso apenas acidentalmente. Cf. Ética a Nicômaco VII 15, 1154 b9-20. (^30) Cf. S. Halliwell, La psychologie morale de la catarsis , p. 502.
(^31) Cf. id. ibid.
(^32) Cf. S. Halliwell, La psychologie morale de la catarsis , p. 503. Halliwell lembra o valor comparativo de nessa passagem, partícula que Schadewaldt, entre outros, suprime. Id. ibid.
fortes aparecerem em ambas as obras ligadas à catarse reforça para Halliwell o paralelismo entre Poética e Política , em que pese as diferenças dos assuntos abordados. Outro aspecto notado por ele, que reforçaria tal paralelismo, é o fato de que tais tratamentos da catarse implicam a noção de prazer. Na Política , recorda Halliwell, a catarse provocada pela música faz parte de um processo que implica ao final (ou é acompanhado de) prazer. Podemos então conjecturar que a noção de se identifique ou, pelo menos, se aproxime da noção de prazer na Poética , devido à passagem da Política na qual Aristóteles aproxima certa de um alívio acompanhado de prazer? A resposta de Halliwell quanto à identificação de prazer e catarse é negativa,^37 conquanto isso tenha sido admitido por boa parte dos comentadores e tradutores contemporâneos da Poética , como Dupont-Roc e Lallot. Para Halliwell, devido ao fato de Aristóteles ter prometido um tratamento ulterior da noção de catarse, não devemos assimilar esta última à noção de prazer. Antes, tais noções, e outra que aparece juntamente a essas duas – alívio – , devem ser entendidas como componentes distintos, se bem que intrincados, de certa experiência que a mimese nos proporciona. Quanto à sensação de alívio, é importante lembrar que na Ética a Nicômaco (VII 15, 1154 b9-20) o alívio é prazeroso apenas acidentalmente. Halliwell chama a atenção para uma passagem da mesma obra (1171 a29-34), negligenciada, conforme seu entender, pela maioria dos comentadores, em que Aristóteles fala do alívio emocional que alguém, que passa por um momento de dor, sente, graças ao apoio dos amigos, e, mesmo lembrando que essa passagem não é segura quanto à natureza desse alívio, nota que tal sensação não pode ser de ordem acidental ou irracional, porque o
estado emocional [de alguém que sofre] é modificado graças à sua percepção consciente da compaixão dos seus amigos. Isso sustenta a possibilidade de que nesse caso da catarse musical e sobretudo trágica, um elemento de “alívio” mental não tem necessidade de ser dissociado do nível consciente, cognitivo, sobre o qual
(^37) Cf. S. Halliwell, La psychologie morale de la catarsis , p. 507: “Certos tradutores, seguramente compreenderam a conjunção kai (“e”) de maneira explicativa, fazendo do sintagma expressivo kouphizesthai meth’hèdonè um aposto da catarse: „numa espécie de catarse, ou seja, um alívio acompanhado de prazer‟”. Id. Ibid. A principal objeção de Halliwell a uma identificação entre catarse e prazer se deve à passagem em que Aristóteles promete um tratamento específico da catarse em outro lugar (1341 b38-40).
as emoções operam e no geral são experimentadas, mesmo se isso tem simultaneamente um substrato estritamente psicológico. As razões exatas de uma tal mudança intermediada pelo intelecto, serão muito diferentes, […] nos dois casos que constituem as reações às obras de arte miméticas e as reações dos desditosos à simpatia de seus amigos.^38
Bem, no tratamento que faz acerca do prazer na Ética a Nicômaco , que vimos mais acima, Aristóteles, especialmente nos capítulos 5 e 6 do livro X, afirma que o prazer próprio de uma atividade a intensifica; tornando, além disso, melhor e mais preciso seu exercício e, que esse prazer, assim como a dor, resulta da atividade ou a ela pertence, o que quer dizer, a ela intrínseco.^39 Para Halliwell, tais passagens mostram que não é possível a identificação entre prazer e catarse da tragédia, visto que, segundo seu entender, “o conceito aristotélico de um prazer próprio ou específico ( oikeia hèdonè ) é seguramente muito mais fundamental e se aplica a muitos mais casos que aquele da catarse. Cada atividade distinta tem seu prazer próprio; não é toda a atividade que admite a catarse.”^40 Portanto, segundo ele, a tragédia comporta os dois – catarse e prazer. Assim, Halliwell conclui que a catarse da tragédia, mesmo que inteiramente ligada ao prazer trágico, é algo que vem se somar a ele, mas não se identifica com ele. A catarse seria um fator a mais, fato que, conforme sua leitura, seria corroborado por Política VIII no caso da música, em que a catarse é entendida como um benefício, um proveito ().^41 Halliwell observa que o prazer pode ser também entendido como um proveito, mas, para ele, como o filósofo trata de ambos separadamente, isso evidenciaria sua distinção.^42 A leituras de tipo “patológico” da catarse, como a de Bernays e seguidores, Halliwell objeta dizendo que já em Platão a noção de “comporta de maneira inerente ao mesmo tempo a supressão de um excesso (ou de uma
(^38) Cf. S. Halliwell, La psychologie morale de la catarsis , p. 508. Ele relembra duas passagens em Geração dos animais 725 b9, 775 b13, que podem corroborar tal raciocínio e as passagens dos Problemata citadas por F. Susemihl & R. D. Hicks em sua tradução da Política de Aristóteles ( The Politics of Aristotle. Londres, 1894. p. 611). (^39) Cf. Ética a Nicômaco 1175 a30-36; 1175 b13-15; 1175 b21-2, respectivamente.
(^40) Cf. S. Halliwell, La psychologie morale de la catarsis , p. 511.
(^41) Cf. Política 1341 b36-38.
(^42) “Isso sugere que a catarse não é somente a transformação e a integração de emoções penosas na experiência agradável da arte mimética: é o benefício psicológico compreendido nessa transformação que é sua finalidade.” Cf. S. Halliwell, La psychologie morale de la catarsis , p. 511.
e a maneira de reagirmos a elas implicam as virtudes de caráter. Há, para Aristóteles, maneiras de reagirmos convenientemente diante de uma ou de outra experiência emotiva que a vida apresenta, e as disposições virtuosas que podemos desenvolver são hábitos estabelecidos a respeito das emoções.^46 Observando o capítulo seis da Poética , a mimese que a tragédia é se completa com a catarse. Halliwell acredita que o que quer que a catarse da tragédia seja, liga-se, de alguma maneira, ao do público; de acordo com sua interpretação, a catarse da tragédia seria um benefício psicológico obtido na integração entre as emoções dolorosas e a experiência prazerosa que a arte mimética nos proporciona.^47
Segundo o modelo aristotélico o total da tragédia, as reações do público – interpretadas de maneira normativa – podem ser colocadas em relação de maneira coerente com a estrutura da intriga que as suscita. Se a catarse representa um proveito psicológico que advém de fato da experiência da tragédia, ele deve advir ou ser provocado pelo conjunto da forma emocional dessa experiência. Reciprocamente, isso permite compreender mais facilmente que numa perspectiva aristotélica, o proveito da catarse pode operar simultaneamente em dois níveis: primeiro, aquela experiência emocional direta (que seria um exemplo daquilo que é experimentar as emoções corretamente em face de bons objetos etc.); segundo, como uma utilização de nossas capacidades emocionais que, como toda atividade psicológica, tem o poder de contribuir para o processo do hábito e do exercício éticos, processo fundamental da psicologia moral de Aristóteles.^48
Halliwell acrescenta ainda o fato de que a noção de catarse em Aristóteles devia fazer parte de sua resposta ao antigo debate grego “sobre o poder emocional da música e da poesia, entre outros o poder paradoxal que têm tais artes de oferecer ao espírito uma profunda satisfação pelo viés da descrição do sofrimento humano.”^49 Ele também recorda a tradição da cura, ou apaziguamento, das
(^46) Cf. Ética a Nicômaco 1104 b11-13, 1172 a20-21. “É porque as emoções são tão fundamentais para a estrutura psicológica da ética aristotélica que a educação pode estar presente, de maneira quase platônica, como consistindo essencialmente em fazer provar corretamente o prazer e a dor.” Cf. S. Halliwell, La psychologie morale de la catarsis , p. 512. (^47) Cf. S. Halliwell, id. ibid ., p. 511.
(^48) Cf. S. Halliwell, id. ibid ., p. 515. Segundo Halliwell, a palavra , presente na definição da tragédia do capítulo seis, deve ser entendida como designativa de um possessivo inteiro, não indicando o aspecto conclusivo do processo. Cf. S. Halliwell, La psychologie morale de la catarsis , p. 514. (^49) Cf. S. Halliwell, id. ibid ., p. 516.
emoções sentidas pelas almas através da música que tanto pitagóricos quanto a medicina hipocrática praticaram. Portanto, para Halliwell o noção de catarse para Aristóteles soma-se à noção de prazer; ela seria um efeito psicológico que as experiências, fortemente emocionais, da música e da poesia suscitavam no público grego. É curioso notar que, às vezes, Halliwell se expresse como muitos dos comentadores que critica, ao dizer que o efeito catártico seja um “ „proveito‟ que se soma à experiência total da tragédia e especialmente à conversão das emoções penosas em emoções agradáveis ”.^50 Essa consideração que destacamos lembra a postura de tradutores como Dupont-Roc e Lallot, ao falarem de uma “alquimia mimética” que transforma dor em prazer. A presença de emoções dolorosas e de prazer, por serem contrárias, não nos parece necessariamente exigir que uma noção seja transformada em outra por meio da experiência catártica. Claro que podemos conjecturar, seguindo Halliwell, que a catarse soma-se ao prazer, mas afirmarmos que ela é uma noção que converteria as emoções penosas em prazerosas implicaria uma definição de catarse que nós não temos.
(^50) Id. Ibid ., p. 514. Grifo nosso.