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A esfinge sem segredo, Notas de estudo de Cultura

A ESFINGE SEM SEGREDO por Oscar Wilde

Tipologia: Notas de estudo

2011

Compartilhado em 22/09/2011

kamilasalgado
kamilasalgado 🇧🇷

4.5

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A ESFINGE SEM SEGREDO
por Oscar Wilde
UMA ÁGUA FORTE
Achava-me numa tarde sentado no terraço do Café Paz, contemplando o fausto e a
pobreza da vida parisiense, a meditar, enquanto bebericava o meu vermute, sobre o
estranho panorama de orgulho e miséria que desfilava diante de mim, quando ouvi
alguém pronunciar o meu nome. Voltei-me e dei com os olhos em Lord Murchison. Não
nos tínhamos tornado a ver desde que estivéramos juntos no colégio, havia isto uns dez
anos, de modo que me encheu de satisfação aquele encontro e apertamos as mãos
cordialmente. Tínhamos sido grandes amigos em Oxford. Gostaria dele imensamente. Era
tão bonito, tão comunicativo, tão cavalheiresco. Costumávamos dizer dele que seria o
melhor dos sujeitos, se não falasse sempre a verdade, mas acho que, na realidade, o
admirávamos mais justamente por causa da sua franqueza. Encontrei-o muito mudado.
Parecia inquieto, perturbado e em dúvida a respeito de alguma coisa. Senti que não podia
ser o cepticismo moderno, pois Murchison era um dos conservadores mais inabaláveis e
acreditava no Pentateuco com a mesma firmeza com que acreditava na Câmara dos Pares.
De modo que conclui que havia alguma mulher naquilo e perguntei-lhe se ainda não se
havia casado.
- Não compreendo as mulheres bastante bem - respondeu.
- Meu caro Geraldo - disse -, as mulheres estão feitas para serem amadas e não para
serem compreendidas.
- Não posso amar sem ter confiança absoluta - replicou.
- Creio que há um mistério na sua vida, Geraldo - exclamei. - Conte-me isso.
- Vamos dar um passeio de carro - respondeu. - Há gente demais aqui. Esse carro
amarelo, não. Um de qualquer outra cor... aquele ali, verde escuro serve.
Dentro de poucos minutos estávamos a descer a trote o bulevar na direção da
Madalena.
- Para onde vamos? - perguntei.
- Oh! para onde você quiser! - respondeu. - Para o restaurante do Bosque.
Jantaremos ali e contar-me-á tudo a respeito da sua vida.
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A ESFINGE SEM SEGREDO

por Oscar Wilde

UMA ÁGUA FORTE

Achava-me numa tarde sentado no terraço do Café Paz, contemplando o fausto e a pobreza da vida parisiense, a meditar, enquanto bebericava o meu vermute, sobre o estranho panorama de orgulho e miséria que desfilava diante de mim, quando ouvi alguém pronunciar o meu nome. Voltei-me e dei com os olhos em Lord Murchison. Não nos tínhamos tornado a ver desde que estivéramos juntos no colégio, havia isto uns dez anos, de modo que me encheu de satisfação aquele encontro e apertamos as mãos cordialmente. Tínhamos sido grandes amigos em Oxford. Gostaria dele imensamente. Era tão bonito, tão comunicativo, tão cavalheiresco. Costumávamos dizer dele que seria o melhor dos sujeitos, se não falasse sempre a verdade, mas acho que, na realidade, o admirávamos mais justamente por causa da sua franqueza. Encontrei-o muito mudado. Parecia inquieto, perturbado e em dúvida a respeito de alguma coisa. Senti que não podia ser o cepticismo moderno, pois Murchison era um dos conservadores mais inabaláveis e acreditava no Pentateuco com a mesma firmeza com que acreditava na Câmara dos Pares. De modo que conclui que havia alguma mulher naquilo e perguntei-lhe se ainda não se havia casado.

  • Não compreendo as mulheres bastante bem - respondeu.
  • Meu caro Geraldo - disse -, as mulheres estão feitas para serem amadas e não para serem compreendidas.
  • Não posso amar sem ter confiança absoluta - replicou.
  • Creio que há um mistério na sua vida, Geraldo - exclamei. - Conte-me isso.
  • Vamos dar um passeio de carro - respondeu. - Há gente demais aqui. Esse carro amarelo, não. Um de qualquer outra cor... aquele ali, verde escuro serve.

Dentro de poucos minutos estávamos a descer a trote o bulevar na direção da Madalena.

  • Para onde vamos? - perguntei.
  • Oh! para onde você quiser! - respondeu. - Para o restaurante do Bosque. Jantaremos ali e contar-me-á tudo a respeito da sua vida.
  • Primeiro quero que você me conte a sua. Revele-me o seu mistério.

Tirou do bolso uma pequena carteira de marroquim com fecho de prata e entregou- me. Abri-a. Dentro havia a fotografia de uma mulher. Era alta e esbelta e de aspecto singular com grandes olhos misteriosos e cabelos soltos. Parecia uma clairvoyante ( 1 ) e achava-se envolta em ricas peles.

  • Qual é a sua opinião a respeito desse rosto - perguntou ele. - Inspira confiança?

Examinei o retrato atentamente. Parecia-me o rosto de alguém que guarda um segredo, mas o que não podia dizer era se o segredo fosse bom ou mau. Aquela beleza parecia feita de muitos mistérios reunidos, uma beleza, de fato, mais psicológica do que plástica, e o ligeiro sorriso que lhe flutuava nos lábios era demasiado subtil para ter realmente encanto.

  • Bem - exclamou ele, impaciente - que me diz?
  • É a Gioconda em vestes de luto - respondi. - Conte-me tudo quanto a ela se refere.
  • Agora não; depois do jantar - disse ele e começou a conversar a respeito de outras coisas.

Quando o empregado trouxe o nosso café e os cigarros, lembrei a Geraldo a sua promessa. Ele levantou-se da sua cadeira, caminhou duas ou três vezes acima e abaixo na sala e, deixando-se cair numa cadeira de braços, contou-me a seguinte história:

  • Uma tarde, aí pelas cinco horas, descia eu pela Rua Bond. Havia uma terrível aglomeração de veículos e o tráfego quase parado. Perto do passeio estava parado um carrinho fechado, amarelo, que, por esse ou aquele motivo, atraiu a minha atenção. Ao passar ao seu lado, vi surgir dele, a olhar para fora, o rosto que lhe mostrei ainda há pouco. Fascinou-me imediatamente. Fiquei a noite inteira a pensar nele e o dia seguinte também. Subi e desci várias vezes por entre aquela maldita confusão, lançando um olhar perscrutador para dentro de todo carro, à espera do carro fechado amarelo. Mas não pude descobrir ma belle inconnue ( 2 ) e afinal comecei a pensar que era ela apenas um sonho. Cerca de uma semana depois, estava a jantar com Madame de Rastail. O jantar estava marcado para as oito horas, mas às oito e meia ainda nos achávamos à espera na sala de visitas. Por fim o criado abriu a porta e anunciou Lady Alroy. Era a mulher que eu estivera a procurar. Entrou muito devagar, parecendo um raio de lua cercado de renda cinzenta, e, para intenso deleite meu, pediram-me que a conduzisse à sala de jantar. Depois de nos sentarmos, observei-lhe com a maior inocência:

«Creio que já a vi, há algum tempo, na Rua Bond, Lady Alroy».

Ela ficou muito pálida e disse-me, em voz baixa:

«Por favor, não fale tão alto. Podem ouvi-lo».

Piccadilly e, para atalhar, meti-me por uma enfiada de becos miseráveis. De repente avistei à minha frente Lady Alroy, com um espesso véu e caminhando muito apressada. Ao chegar à derradeira casa da rua, subiu os degraus, tirou do bolso uma chave, abriu a porta e entrou. «Aqui está o mistério», disse a mim mesmo e apressei-me em examinar a casa. Parecia uma espécie de prédio de aluguer. No degrau da porta estava caído o lenço dela. Apanhei-o e meti-o no bolso. Depois comecei a refletir no que devia fazer. Cheguei à conclusão de que não tinha o direito de espioná-la. Tomei um carro e segui para o clube. Às seis horas fui visitá-la. Estava sentada num sofá, em traje de chá, um tecido prateado, preso por uns broches de certas estranhas pedras lunares que sempre usava. Era de uma beleza perfeita.

«Alegra-me tanto vê-lo - disse. - Não saí hoje durante o dia».

Olhei para ela, estupefato e tirando o lenço do meu bolso, entreguei-lhe.

«Deixou cair isto esta tarde, Lady Alroy, na Rua Cumnor» - disse eu, calmamente.

Ela olhou para mim, aterrorizada, mas não fez o menor gesto para pegar no lenço.

«Que estava a fazer ali?» - perguntei.

«Que direito tem o senhor de fazer-me perguntas?» - replicou.

«O direito de um homem que a ama» - respondi-lhe. - «Vim aqui para pedi-la em casamento».

Ocultou o rosto nas mãos e desfez-se em pranto.

«Tem de responder-me» - continuei.

Ela ergueu-se e, fitando-me o rosto, disse:

«Lorde Murchison, nada tenho a dizer-lhe».

«Foi encontrar alguém» - exclamei. - «É esse o seu mistério».

Ela ficou terrivelmente pálida e disse:

«Não fui encontrar ninguém».

«Não pode dizer a verdade?» - exclamei.

«Já a disse» - replicou ela.

Eu estava a enlouquecer, alucinado. Não sei o que disse, mas foram coisas terríveis. Por fim, saí à pressa da casa. Escreveu-me uma carta no dia seguinte. Devolvi-lhe, intacta

e parti para a Noruega, em companhia de Alan Colville. Um mês depois regressei e a primeira coisa que vi no Morning Post foi a notícia da morte de Lady Alroy. Apanhara um resfriado na Ópera e morrera, dentro de cinco dias, de congestão pulmonar. Fechei- me em casa e não quis ver ninguém. Tinha-a amado tanto, tinha-a amado tão loucamente! Meu Deus! Quanto amara eu aquela mulher!

  • E você, foi àquela rua, àquela casa? - perguntei.
  • Sim - respondeu.
  • Um dia, fui à Rua Cumnor. Não podia deixar de fazê-lo. Vivia torturado pela dúvida. Bati à porta e uma mulher de aspecto respeitável abriu-a para mim. Perguntei-lhe se havia quartos para alugar.

«Bem, meu senhor - respondeu ela - as salas podem ser alugadas, mas há três meses que não tenho visto a senhora e como os alugueres estão-se a acumular, o senhor poderá alugá-las».

«É esta a senhora?» - perguntei, mostrando-lhe a fotografia.

«É ela, sim, com toda certeza» - exclamou a mulher. - «E quando estará de volta, meu senhor?»

«Morreu» - respondi.

«Oh! meu senhor, não diga!» - disse a mulher. - «Era a minha melhor inquilina. Pagava-me três guinéus por semana simplesmente para vir sentar-se nesta minha sala de vez em quando».

«Encontrava-se com alguém aqui?» - perguntei, mas a mulher garantiu-me que tal não ocorria, que ela sempre vinha sozinha e não via ninguém.

«Mas afinal que fazia ela aqui?» - exclamei.

«Ficava simplesmente sentada na sala, meu senhor, lendo livros e às vezes tomava chá» - respondeu a mulher.

Não sabia o que dizer, de modo que lhe dei um soberano e saí. Agora, que pensa que significava tudo aquilo? Não acredita que a mulher estivesse a dizer a verdade?

  • Acredito.
  • Então por que ia Lady Alroy ali?
  • Meu caro Geraldo - respondi - Lady Alroy era simplesmente uma mulher com a mania do mistério. Alugava aqueles quartos somente pelo prazer de ir ali, de véu descido

Notas:

1 vidente 2 Minha bela desconhecida

Versão para Acrobat Reader por Marcelo C. Barbão

Abril de 2002

Permitida a distribuição

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