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Tipologia: Notas de estudo
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Digitalização: Argo
Digitalização: Argo (apelido de "Deus")
SUMÁRIO
Introdução – 9
PRIMEIRA PARTE O cisma entre a ciência e a fé – 17 CAPÍTULO I: Do ateísmo à crença – 19 CAPÍTULO 2: A guerra das visões de mundo – 41
SEGUNDA PARTE As grandes questões da existência humana – 63 CAPÍTULO 3: As origens do universo – 65 CAPÍTULO 4: A vida na Terra: sobre micróbios e o homem – 91 CAPITULO 5: Decifrando o manual de instruções de Deus: as lições do genoma humano – 115
TERCEIRA PARTE Fé na ciência, fé em Deus – 149 CAPÍTULO 6: Gênesis, Galileu e Darwin – 151 CAPÍTULO 7: Alternativa I: Ateísmo e agnosticismo – 165 CAPÍTULO 8: Alternativa 2: Criacionismo – 177 CAPÍTULO 9: Alternativa 3: Design inteligente – 187 CAPÍTULO 10: Alternativa 4: BioLogos – 203 CAPÍTULO 11: Os que buscam a verdade – 217
Apêndice A prática moral da ciência e da medicina: Bioética – 239
Agradecimentos – 277
INTRODUÇÃO
Será que eu, um cientista rigorosamente treinado, fiquei desconcertado com uma referência religiosa tão espalhafatosa, feita pelo presidente dos Estados Unidos num momento como aquele? Fiquei tentado a mostrar-me irritado ou a olhar enver- gonhado para o chão? Não, nem um pouco. Na verdade, eu trabalhara com o redator do discurso do presidente naqueles dias de frenesi que precederam o evento, e fui enfático em meu apoio à inclusão desse parágrafo. Quando chegou o momento em que precisei acrescentar algumas palavras de minha auto- ria, fiz coro com esse sentimento: — É um dia feliz para o mundo. Para mim não há pretensão nenhuma, e chego mesmo a ficar pasmo ao perceber que apa- nhamos o primeiro traçado de nosso manual de instruções, an- teriormente conhecido apenas por Deus. O que se passava lá? Por que um presidente e um cientista, no comando do anúncio de um marco da Biologia e da Medici- na, se sentiram impelidos a evocar uma conexão com Deus? Não existe um antagonismo entre as visões de mundo científica e espiritual? Ambas não deveriam, ao menos, evitar aparecer lado a lado no Salão Leste? Quais os motivos para evocar Deus nesses dois discursos? Poesia? Hipocrisia? Uma tentati- va cínica de bajular as pessoas religiosas ou de desarmar as que talvez criticassem o estudo do genoma humano como se este reduzisse a humanidade a um maquinário? Não. Não para mim. Muito pelo contrário. Para mim, a experiência de mapear a seqüência do genoma humano e descobrir o mais notável de todos os textos foi, ao mesmo tempo, uma realização científica excepcionalmente bela e um momento de veneração. Muitos ficarão intrigados com esses sentimentos, presumindo que um cientista que trabalha com rigor não possa também a- creditar seriamente em um Deus. Este livro tem por objetivo dis- seminar esse conceito, argumentando que a crença em Deus
pode ser uma opção completamente racional e que os princípios da fé são, na verdade, complementares aos da ciência. Essa síntese potencial das visões de mundo científica e es- piritual, nos tempos modernos, é tida por muitos como impossí- vel, quase como a tentativa de obrigar os dois pólos de um ímã a permanecer juntos num mesmo ponto. Apesar dessa impres- são, várias pessoas nos Estados Unidos parecem interessadas em assimilar a validade de ambas as visões de mundo em seu cotidiano. Pesquisas recentes confirmam que 93% dos norte- americanos são adeptos de alguma forma de crença em Deus; entretanto, a maioria deles também dirige carros, utiliza eletrici- dade e presta atenção na previsão do tempo, aparentemente reconhecendo que a ciência que dá respaldo a tais fenômenos é, em geral, digna de crédito. E o que dizer da crença espiritual entre cientistas? Na ver- dade, ela é mais comum do que muitas pessoas imaginam. Em 1916, pesquisadores perguntaram a biólogos, físicos e mate- máticos se acreditavam em um Deus que se comunica ativa- mente com a humanidade e ao qual é possível fazer uma ora- ção, na esperança de receber uma resposta. Cerca de 40% de- les responderam que sim. Em 1997, o mesmo estudo foi repe- tido literalmente e, para surpresa dos pesquisadores, a porcen- tagem permanecia muito próxima da anterior. Quer dizer, então, que a "batalha" entre a ciência e a religião talvez não esteja tão claramente separada quanto parece? Infe- lizmente, a prova de uma harmonia potencial é, com freqüên- cia, ofuscada pelos pronunciamentos vociferados daqueles que ocupam os pólos do debate. Não há como negar: bombas são jogadas de ambos os lados. Por exemplo, para desacreditar, em sua essência, as convicções religiosas de 40% de seus co- legas, taxando-as como bobagens sentimentais, o evolucionista Richard Dawkins surgiu como destacado porta-voz do seguinte
clusões científicas como o valor da religião organizada, prefe- rindo se lançar as diversas formas de pensamento anticientífico ou a alguma forma vazia de espiritualidade, ou se entregar a uma simples apatia. Outras decidem aceitar ao mesmo tempo os valores da ciência e os do espírito, isolando, porém, essas porções de sua existência espiritual e material, a fim de evitar um desconforto causado por conflitos aparentes. Com base nessas premissas, o biólogo Stephen Jay Gould acreditava que ciência e fé deveriam ocupar "ofícios separados, e não sobre- postos". Contudo, esse tipo de posição também se mostra insa- tisfatório, levando a conflitos internos e destituindo as pessoas da oportunidade de adotar a ciência ou o espírito de um modo que as satisfaça totalmente. Eis aqui a pergunta central deste livro: nesta era moderna de cosmologia, evolução e genoma humano, será que ainda existe a possibilidade de uma harmonia satisfatória entre as visões de mundo científica e espiritual? Eu respondo com um sonoro sim! Em minha opinião, não há conflitos entre ser um cientista que age com severidade e uma pessoa que crê num Deus que tem interesse pessoal em cada um de nós. O domí- nio da ciência está em explorar a natureza. O domínio de Deus encontra-se no mundo espiritual, um campo que não é possível esquadrinhar com os instrumentos e a linguagem da ciência; deve ser examinado com o coração, com a mente e com a alma — e a mente deve encontrar uma forma de abar- car ambos os campos. Meu argumento é que tais perspectivas podem coexistir em qualquer indivíduo, e de modo que enriqueça e ilumine a expe- riência humana. A ciência é a única forma confiável para en- tender o mundo da natureza, e as ferramentas científicas, quando utilizadas de maneira adequada, podem gerar profun- dos discernimentos na existência material. A ciência, entretan-
to, é incapaz de responder a questões como: "Por que o uni- verso existe?"; "Qual o sentido da existência humana?"; "O que acontece após a morte?". Uma das necessidades mais fortes da humanidade é encontrar respostas para as questões mais profundas, e temos de apanhar todo o poder de ambas as perspectivas, a científica e a religiosa, para buscar a compreensão tanto daquilo que vemos como do que não vemos. Esta obra tem por objetivo explorar uma trilha rumo a uma integração sóbria e intelectualmente honesta dos dois pontos de vista. Considerar a gravidade de tais matérias pode ser perturba- dor. Todos nós já chegamos a uma determinada visão de mun- do, possamos ou não chamá-la assim. Ela nos auxilia a dar sentido ao mundo à nossa volta, fornece-nos uma estrutura éti- ca e conduz nossas decisões sobre o futuro. Quem quer que se ponha a mexer nessa visão de mundo não deve fazê-lo super- ficialmente. Um livro que se propõe desafiar algo tão funda- mental pode trazer mais desconforto do que alívio. No entanto, nós, seres humanos, aparentamos possuir um desejo arraigado por descobrir a verdade, mesmo que tal vontade seja facilmen- te abafada pelos detalhes da vida diária. Tais distrações com- binam-se a um desejo de evitar que levemos em conta nossa mortalidade; assim, os dias, as semanas, os meses ou até mesmo os anos passam, e não se dá nenhuma consideração séria às eternas dúvidas sobre a existência humana. Este livro é apenas um pequeno antídoto para tal desconforto, mas talvez forneça uma oportunidade para a auto-reflexão e para um de- sejo de olhar com mais profundidade. Antes de mais nada, preciso explicar como um cientista ge- nético tornou-se alguém que acredita em um Deus ilimitado pe- lo tempo e pelo espaço, que tem interesse pessoal nos seres humanos. Alguns irão supor que isso ocorreu em virtude de
PRIMEIRA PARTE
O cisma entre a ciência e a fé
CAPÍTULO I Do ateísmo à crença
vida não foram convencionais em vários aspectos. No entanto, como filho de pes- soas com opiniões próprias, tive uma cri- ação moderna bastante convencional em termos de fé — não era algo tão impor- tante. Cresci numa fazenda poeirenta no vale do rio Shenandoah, na Virgínia. Lá não havia água corrente nem outras comodi-
criar um estilo de vida simples sem o uso de máquinas agrícolas. Ao descobrir, poucos meses mais tarde, que aquilo não iria ali- mentar seus dois filhos adolescentes (e logo outro irmão e eu chegaríamos), meu pai arrumou um emprego de professor de teatro em um colégio local feminino. Convocou atores da cidade e, com as estudantes do colégio e comerciantes da região, des- cobriu que a produção de peças era bastante divertida. Aten- dendo a reclamações por causa do período extenso e cansativo em que não havia apresentações durante o verão, meu pai e mi- nha mãe fundaram um teatro de verão em um pequeno bosque de carvalhos acima da nossa casa de fazenda. Mais de cinqüen- ta anos depois, o Oak Grove Theater [Teatro do Bosque de Car- valhos] mantém-se ininterrupta e deliciosamente na ativa. Nessa mistura de beleza campestre, trabalho árduo de fazenda, teatro de verão e música, eu nasci e amadureci. Caçula de quatro irmãos, não experimentei tantas dificuldades que já não fossem conhecidas de meus pais. Cresci com um sentimento de que pre- cisava ter responsabilidade por meu comportamento e minhas es- colhas, porque ninguém iria aparecer para cuidar disso por mim. Minha mãe foi minha professora. Minha e de meus irmãos mais velhos. Aqueles primeiros anos deram-me um presente i- nestimável: o prazer do aprendizado. Apesar de minha mãe não ter uma agenda organizada de aulas nem planejar lições de ca- sa, tinha uma percepção incrível para identificar tópicos que dei- xavam uma mente jovem intrigada, persistindo neles com grande intensidade até um ponto natural de interrupção e, em seguida, mudava para algo novo e igualmente empolgante. Aprender nunca era algo que você fazia por obrigação, e sim porque ado- rava. A fé não era parte importante de minha infância. Eu tinha uma vaga consciência do conceito de Deus, mas minhas intera- ções com Ele limitavam-se a momentos infantis e ocasionais de troca, com relação a alguma coisa que eu queria que Ele fizesse
por mim. Lembro-me, por exemplo, de ter feito um contrato com Deus (aos 9 anos de idade, mais ou menos): se Ele evitasse a chuva durante uma apresentação de teatro que envolvia também uma festa com música em um sábado à noite, coisa que me dei- xava bastante entusiasmado, prometeria jamais fumar um cigar- ro. Lógico que a chuva não caiu e eu nunca adquiri o hábito. A- nos antes, quando tinha 5 anos, meus pais decidiram que eu e meu terceiro irmão deveríamos participar do coral de meninos da igreja episcopal local. Fizeram questão de frisar que seria uma maneira genial de aprender música, mas que a Teologia não de- veria ser levada tão a sério. Segui essas instruções, aprendendo a grande beleza da harmonia e do contraponto musical, deixan- do, porém, que os conceitos teológicos pregados no púlpito pas- sassem por mim sem deixar nenhum resíduo identificável. Quando eu tinha 10 anos, nós nos mudamos para a cidade a fim de ficar com minha avó doente, e passei a freqüentar a esco- la pública. Aos 14, tive meus olhos abertos para os métodos ma- ravilhosamente estimulantes e poderosos da ciência. Inspirado por um professor de Química carismático, que podia escrever in- formações na lousa com as duas mãos simultaneamente, des- cobri a satisfação intensa do caráter organizado do universo. O fato de toda a matéria ser constituída de átomos e moléculas que obedeciam a princípios matemáticos mostrou-se uma reve- lação inesperada, e a capacidade de utilizar os instrumentos da ciência para fazer novas descobertas sobre a natureza arreba- tou-me de uma só vez, como algo do qual eu queria fazer parte. Com o entusiasmo de um recém-convertido, decidi que minha meta na vida seria tornar-me um químico. Não importava que eu soubesse relativamente pouco sobre as outras ciências, parecia que esse primeiro namorico de infância ia mudar minha vida. Meus contatos com a Biologia, porém, me deixavam total- mente insensível. Para minha mente adolescente, pelo menos,
cias. Muitos, porém, acham simplesmente que estão em posição cômoda, a qual lhes permite evitar pensar em argumentos consi- derados desconfortáveis para ambos os lados. Na verdade, mi- nha declaração "não sei" podia ser mais bem traduzida como "não quero saber". Na posição de um jovem que crescia em um mundo repleto de tentações, era conveniente ignorar a necessi- dade de prestar contas a qualquer autoridade espiritual. Eu exer- cia um tipo de pensamento e comportamento denominado, pelo famoso acadêmico e escritor C. S. Lewis, "cegueira voluntária". Depois de formado, ingressei em um programa de doutorado em Físico-química da Universidade de Yale, buscando a ele- gância da Matemática que, a princípio, havia me levado a esse ramo da ciência. Minha vida intelectual encontrava-se imersa em mecânica quântica e equações diferenciais de segundo grau, e meus heróis eram os gigantes da Física — Albert Eins- tein, Niels Bohr, Werner Heisenberg e Paul Dirac. Aos poucos me convencia de que tudo no universo podia ser explicado com base em equações e princípios da Física. Li a biografia de Albert Einstein e descobri que, apesar de sua sólida posição sionista após a Segunda Guerra Mundial, ele não acreditava em lave, o Deus dos judeus. Isso apenas reforçou minha conclusão de que nenhum cientista pensante poderia cogitar seriamente a possibi- lidade de Deus sem cometer um tipo de suicídio intelectual. E assim, aos poucos, passei de agnóstico para ateu. Sentia- me bastante à vontade desafiando as crenças espirituais de qualquer um que as mencionasse em minha presença, e defi- nia esses pontos de vista como sentimentalismos e supersti- ções fora de moda. Dois anos nesse programa de doutorado, e meu plano de vida estruturado de forma tão estreita começou a se despeda- çar. Apesar dos prazeres diários de persistir em minha tese so- bre a mecânica da teoria quântica, comecei a ter dúvidas sobre
se conseguiria ganhar a vida seguindo aquele caminho. Apa- rentemente, a maioria dos avanços significativos da teoria quântica havia acontecido cinqüenta anos antes, e a maior par- te da minha carreira talvez fosse passar na aplicação de simpli- ficações e aproximações sucessivas descrevendo determina- das equações elegantes, porém insolúveis, só um tantinho mais fáceis de trabalhar. Falando de uma maneira mais prática, eu tinha a impressão de que seguiria um caminho inevitável: a vida de um professor universitário, apresentando intermináveis séries de palestras sobre termodinâmica e mecânica da estatís- tica para classes e mais classes de alunos que ficariam entedi- ados ou aterrorizados com tais matérias. Quase ao mesmo tempo, em um esforço para ampliar meus horizontes, inscrevi-me em um curso de Bioquímica, por fim in- vestigando as ciências da vida que havia evitado com tanto cuidado em épocas passadas. O curso era fabuloso. Os princí- pios do DNA, do RNA e da proteína, que nunca tinham se mos- trado evidentes para mim, foram-me apresentados em toda a sua glória digital de satisfação. A capacidade de colocar em prática rigorosos princípios intelectuais para compreender a Bi- ologia, algo que eu imaginava impossível, estava vindo a públi- co com estardalhaço mediante a revelação do código genético. Com o advento de novos métodos de emendar fragmentos dife- rentes de DNA à vontade (DNA recombinante), a possibilidade de aplicar todo esse conhecimento em benefício da humanida- de parecia bastante real. Eu estava estarrecido. A Biologia, afinal de contas, tem uma elegância matemática. A vida faz sentido. Nessa época, com apenas 22 anos, mas já casado e com uma filha brilhante e curiosa, estava me tornando uma pessoa mais sociável. Quando mais jovem, preferia, com freqüência, fi- car sozinho. Agora, a interação humana e o desejo de contribuir com algo para a humanidade pareciam mais importantes. Impul-