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Análise da Televisão: Conhecimento, Hegemonia e Prazer, Notas de estudo de Administração Empresarial

Este documento aborda a importância da televisão na sociedade e sua influência sobre o conhecimento, hegemonia e prazer. O autor discute a natureza da televisão como meio de comunicação e sua capacidade de transmitir informações e entretenimento, além de analisar o papel da família na recepção da mensagem televisiva. O texto também explora as contradições e potencialidades ocultas na televisão, e a possibilidade de outros espaços sociais redefinirem o espaço televisivo.

Tipologia: Notas de estudo

2013

Compartilhado em 04/11/2013

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Picapal_amarelo 🇧🇷

4.6

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atua através do procedimento analógico;
contenta-se em formar raciocínios não definitivos, não conclusivos;
é a consciência da intuição, das sensações.
A consciência indicial
procura formar algum tipo de juízo;
é uma consciência de constatação;
só revela aquilo que já foi revelado (que já é conhecido).
A consciência simbólica
é interessada na investigação do objeto;
produz as convenções, as normas;
pretende conhecer causas;
é lógica, quer saber a razão.
Pondera o autor em relação à consciência icônica que
“esse modo de conhecimento, baseado da intuição e na empatia (isto é, não
sentir o objeto, mas sentir como o objeto, penetrar no objeto e sentí-lo por dentro),
freqüentemente é aquele que leva às verdadeiras e significativas descobertas, embora não
se possa demonstrá-lo. Grande parte das descobertas feitas pelo homem (senão todas),
incluindo as científicas deve-se à prática de uma consciência desse tipo, ou a uma prática
que contém em ampla escala esse tipo de consciência (Coelho, 1981:67)”.
A respeito da consciência indicial, considera que a pessoa que recebe o signo
indicial
“deve praticar certo ato, deve despender alguma energia no processo de
recepção do signo. A recepção do signo indicial implica um certo esforço, físico ou mental.
Sforço que se caracteriza no ato de seguir na direção apontada (Coelho, 1981:68)”.
A televisão, o espaço dos “signos”, por excelência, lida ao mesmo tempo com
os três tipos de signos aqui destacados. Com o ícone e com o símbolo explicitamente,
através das imagens que leva ao ar e da linguagem falada nela presente. Com o índice,
implicitamente, numa operação menos visível, como a análise de um caso pode elucidar.
Antes de passarmos a esta análise de um programa de TV, não é possível
desconsiderar um atributo do pólo destinatário que tem colocado estudiosos do
problema da telecomunicação industrial em posições diametralmente opostas.
Trata-se da questão do prazer, do gosto, sempre presente mo ato de assistir à
TV, ato voluntário e generalizado, identificado com o lazer.
Numa tentativa de reunir os diferentes tipos de programação apresentados na
TV (bem como por toda a indústria Cultural) em categorias, que nos permitam melhor
desvendar a natureza do seu papel na vida social, pode-se afirmar que ela trabalha
basicamente com “informação” e “entretenimento”.
Segundo Miranda (1978:117), “o que tipifica a cultura de massa não é a
indústria das informações e sim a indústria do lazer”. Pondera que o recurso ao lazer
9e ao prazer dele decorrente) como forma de aliviar as tensões do cotidiano e recuperar
as energias é recurso secularmente utilizado pela humanidade.
Considera, a seguir, que nos dias atuais a industrialização proporciona
enorme quantidade de lazer, acompanhado de sua valorização social e da apresentação
dessa expansão como se fosse uma conquista da humanidade.
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Baixe Análise da Televisão: Conhecimento, Hegemonia e Prazer e outras Notas de estudo em PDF para Administração Empresarial, somente na Docsity!

 atua através do procedimento analógico;  contenta-se em formar raciocínios não definitivos, não conclusivos;

 é a consciência da intuição, das sensações. A consciência indicial  procura formar algum tipo de juízo;

 é uma consciência de constatação;  só revela aquilo que já foi revelado (que já é conhecido). A consciência simbólica

 é interessada na investigação do objeto;  produz as convenções, as normas;

 pretende conhecer causas;

 é lógica, quer saber a razão. Pondera o autor em relação à consciência icônica que

“esse modo de conhecimento, baseado da intuição e na empatia (isto é, não sentir o objeto, mas sentir como o objeto, penetrar no objeto e sentí-lo por dentro), freqüentemente é aquele que leva às verdadeiras e significativas descobertas, embora não se possa demonstrá-lo. Grande parte das descobertas feitas pelo homem (senão todas), incluindo as científicas deve-se à prática de uma consciência desse tipo, ou a uma prática que contém em ampla escala esse tipo de consciência (Coelho, 1981:67)”.

A respeito da consciência indicial, considera que a pessoa que recebe o signo indicial

“deve praticar certo ato, deve despender alguma energia no processo de recepção do signo. A recepção do signo indicial implica um certo esforço, físico ou mental. Sforço que se caracteriza no ato de seguir na direção apontada (Coelho, 1981:68)”.

A televisão, o espaço dos “signos”, por excelência, lida ao mesmo tempo com os três tipos de signos aqui destacados. Com o ícone e com o símbolo explicitamente, através das imagens que leva ao ar e da linguagem falada nela presente. Com o índice, implicitamente, numa operação menos visível, como a análise de um caso pode elucidar.

Antes de passarmos a esta análise de um programa de TV, não é possível desconsiderar um atributo do pólo destinatário que tem colocado estudiosos do problema da telecomunicação industrial em posições diametralmente opostas.

Trata-se da questão do prazer, do gosto, sempre presente mo ato de assistir à TV, ato voluntário e generalizado, identificado com o lazer.

Numa tentativa de reunir os diferentes tipos de programação apresentados na TV (bem como por toda a indústria Cultural) em categorias, que nos permitam melhor desvendar a natureza do seu papel na vida social, pode-se afirmar que ela trabalha basicamente com “informação” e “entretenimento”.

Segundo Miranda (1978:117), “o que tipifica a cultura de massa não é a indústria das informações e sim a indústria do lazer”. Pondera que o recurso ao lazer 9e ao prazer dele decorrente) como forma de aliviar as tensões do cotidiano e recuperar as energias é recurso secularmente utilizado pela humanidade.

Considera, a seguir, que nos dias atuais a industrialização proporciona enorme quantidade de lazer, acompanhado de sua valorização social e da apresentação dessa expansão como se fosse uma conquista da humanidade.

Acredita que toda essa oferta tenha por finalidade “fazer derivar as insatisfações e ocultar a inexistência ou morosidade de conquistas sociais concretas” (Miranda, 1978:162).

E afirma de maneira conclusiva: “o que é novíssimo é propor a substituição do ato de amor constituído pelo esforço de construir uma sociedade mais capaz de satisfazer as aspirações humanas pelo ato masturbatório de obter satisfação individual por esforço mínimo de imaginação em um pseudo-universo isolado”.

Tantas afirmações, tantas as questões suscitadas. Por que tal expansão da oferta de um recurso aliviador de tensões e recuperador de energias não seria de alta importância social e uma conquista da humanidade e da era tecnológica?

Por que não seria m recurso salutar na manutenção do equilíbrio psíquico e social do ser humano e conseqüentemente na manutenção em bom estado da sua capacidade de construir cultura, de significar-se (ainda que nos limites da historicidade de suas relações sociais) e de poder assumir-se produto e produtor da história?

O ato de amor, de construir uma sociedade mais capaz de satisfazer as aspirações humanas, que requer esforço (enorme esforço) não se reduz a penas e sacrifícios. Sua significação gera prazer, muito prazer. Suas lides, porém, produzem cansaço. Enorme cansaço!

Por que colocar, então, como antagônicos ou excludentes os esforços de construção de uma sociedade mais justa com as oportunidades oferecidas pela sociedade que se quer transformar?

Esforço/cansaço e lazer/prazer/recuperação das energias não seriam em vez de situações antagônicas, situações complementares?

Finalmente, quem é que propõe a substituição de uma situação pela outra? Não seria a própria indústria Cultural, de cujo produto o conflito subjacente às formas de produção da sociedade capitalista emerge (no caso da informação) ou é representado 9 no caso do lazer), ainda segundo a análise de Miranda?

A propósito da mesma questão do prazer, aponta-nos Coelho (1981) que “é muito comum ler uma crítica que exige seriedade e engajamento da TV ou do rádio, ao invés de diversão, esquecer totalmente essa exigência quando por exemplo se trata de um filme de Fellini”.

Comenta a seguir que tudo se permite quando se trata da “cultura de elite”, não ocorrendo o mesmo quando se trata das demais culturas, tidas como inferiores. Destas, exige-se seriedade. Chega em seguida à questão central em toda essa argumentação. Comenta com ironia: “a massa é ignorante e portanto não pode perder tempo com prazer; temos, nós, de torná-la culta, através da seriedade”(Coelho, 1981).

Com isso nos remete: ao conceito de massa como \sinônimo de aglomerado de indivíduos amorfos e passivos com o qual não nos identificamos e nem tampouco Miranda (1978); evidencia a “substituição do esforço construtor pela derivação das insatisfações vis lazer/prazer”, afirmada por Miranda como uma discriminação criada pela cultura de elite; alerta para a relação mecânica TV-receptor que fica igualmente suposta de maneira implícita naquela crítica.

Reafirma a importância da saúde psicossocial, destacando a função do prazer nesse processo. Alerta para o equívoco contido nas críticas anteriores que necessita ser superado a fim de que se possa colocar a Indústria Cultural a serviço da sociedade.

10)Apresentador apresenta três comissários de bordo em homenagem ao dia do comissário; 11)Uma senhora acompanhada de sua filha pede a volta do marido; 12)Mãe solteira procura uma solução para seu caso, pois não pode trabalhar com o bebê. A temática aliada à ordem estabelecida projetava ao longo de toda a duração do programa a ideologia dominante.

Oferecia informações: Legais e Religiosas no primeiro quadro, além dos valores urbanos que colocava à disposição da garota, em choque com os da mãe, tradicionais; Político-administrativas, nos quadros em que se entrevistavam autoridades; Profissionais, como no quadro dos comissários de bordo.

O apresentador, com seu programa, coloca-se como o guardião das leis, das normas. Quem era o povo que estava presente, como convidado?

Representantes das camadas subalternas, em sua maioria, e alguns representantes do poder (ou presentes como convidados ou trazidos à presença, pelas referências que a eles se fazem).

Não se trata da oportunidade do encontro e do diálogo entre as partes presentes. Entre o povo e os representantes do poder, o apresentador e os seus assessores, a equipe da televisão. E o senhor Hilton Franco e sua equipe dirigindo-se à “essa gente de casa humilde”, analisando e julgando a partir de sua ótica, os casos apresentados, dando-lhes suas soluções; aos portadores deles, às reprimendas ou os elogios.

Através do programa televisivo focalizado, dados em grande quantidade sob diferentes assuntos foram ao ar; porém em cada um deles apenas um aspecto ou sentido singular era considerado sem se cuidar de sua compreensão mais ampla.

Assim, a TV cumpre outras funções, além de incentivar o consumo, todas reificantes, como: narcotizante, dando ênfase ao divertimento, camuflando realidades intoleráveis, oferecendo oportunidades de escapismo; de reforço das normas estabelecidas; a de simplificar os produtos que apresenta de modo a suscitar uma atitude passiva do consumidor; de assumir uma atitude paternalista, dirigindo o consumo; de promover a deturpação do gosto popular.

Trata-se, em princípio de um processo alienador. Lazarsfels e Merton afirmam: “A extensão da influência que os MCM têm exercido sobre a platéia deriva não só do que é dito, porém, mais significativamente, do que não é dito. Pois estes meios não apenas continuam a afirmar o status quo, mas, na medida, deixam de levantar questões essenciais sobre a estrutura da sociedade.”

Que foi que não ficou dito no programa analisado? Os aspectos essenciais dos problemas ali tratados, que trariam para a reflexão pontos cruciais da nossa organização social, como; questões de previdência social, do menor abandonado, da segurança, do desemprego como um dos aspectos da crise maior vivida pelo país.

Assim foi, nos quadros que tratavam da família. Os múltiplos aspectos que configuravam a cena da avó com a netinha e refletiam a situação econômica do país na época ficaram reduzidos à situação singular do “cupim no pé da máquina de costura da senhora”.

O fato de a avó idosa ainda tem de ficar curvada sobre a máquina para garantir o sustento próprio e o de sua família sequer é mencionado. Pelo contrário, o

seu esforço é enfatizado e comove profundamente todos os presentes. A produção sabe disso, e o apresentador explora esse aspecto para mobilizar pessoas a consertar o pé da máquina da vovó, chegando mesmo a conseguir a doação de uma máquina com motor.

No caso da senhor separada do marido, nenhum dados dos tantos oferecidos por ela de sua vida sofrida (sofrimento na mão do marido, perda do pai que suicidou-se e perda do lar) é considerado. Trata-se mais uma vez de um caso fatal: a doença dos nervos.

O problema da mãe solitária é apresentado a partir do gato de ela não ter voltado para a família que a criavam quando já num orfanato, se arrependera dessa ação. O fato de ela ter sido criança abandonada e sofrer experiência ruim no orfanato são desconsiderados.

A sedução da garotinha pelo rapaz da cidade grande é focaliza através da posição singular da mãe que quer que esta se case, quando a menina não mais deseja fazê-lo. O problema passa a ser o preconceito e a intransigência da mãe.

O choque de valores vivido pelas pessoas no processo de migração interna não é objeto de cogitação. A origem cultural de mãe e filha, procedentes do interior de Pernambuco, a pouca idade da jovem, possibilitando mudança mais rápida de valores e modos de vida, pela aculturação menos completa ao meio de origem, passam despercebidas.

O próprio problema da crise brasileira ficou reduzido à questão do tamanho da organização que se administra.

Pela utilização da linguagem verbal, interpõe-se entre o telespectador e a imagem da realidade representada uma mediação. Alerta-nos Coelho para o fato de ter-se:

“No máximo do objeto algumas ‘qualidades indicativas’ que eventualmente revelam alguma propriedade deste objeto, dando ao receptor a impressão de conhecê-lo através disso - quando na verdade essa propriedade é quase sempre acidental, superficial”.

A imagem, o ícone, é importante na comunicação porque atraente, envolvente, arrebatadora das atenções. É preciso entretanto, cercá-la, de tal modo que ela arrebate e fascine os espectadores no sentido do funcionamento do sistema, qualquer que seja a localização social deles. No sentido de conquistar pessoas para agirem de tal forma, que o sistema funcione enquanto tal.

É principalmente através da fala que o processo de sedução do poder comunicador da imagem é reduzido para as dimensões permitidas.

Como o “conhecimento do símbolo não implica o conhecimento da coisa representada de tal como ela é”, a linguagem oral do apresentador, no caso do programa analisado, encaminha a atenção do telespectador para as “qualidades indicativas” da realidade representada pelas imagens e solicita as ações dos telespectadores na direção apontada.

O grande acompanhamento da questão apresentada pelo primeiro quadro (mocinha seduzida) se faz através do tratamento de duas “qualidades” da realidade representada: o aspecto legal e o aspecto religioso, ficando absolutamente de lado a questão social ( a grande questão social): as migrações internas e o choque de valores rural-urbanos, que explicam a realidade representada.

O esforço físico ou mental suscitado pelo índice e despendido pelo telespectador se consubstancia nos chamados telefônicos.

Assim é no caso do discurso de exaltação à colaboração de cada um de nós com o presidente, para resolver o problema da crise vivida pelo país. Esta é abordada através de uma “qualidade” da realidade representada: os aspectos administrativos

Ainda o aspecto da “emoção” é o considerado no caso da senhora que se apresenta com a filha, pretendendo voltar com o marido. Quando o apresentador pergunta ao advogado do programa como vê a questão, recebe a resposta: “Essa senhora ainda não me emocionou”- ficando patente que é a qualidade melo-dramática da realidade apresentada a importante mola mobilizadora, acionada pelo programa.

A quem fala o apresentador? Fala a um público de casa. Por isso fala de tal maneira como se fosse mais um elemento da casa que o recebe, da família que girou o botãozinho da TV.

Fala da maneira simples, natural, interpelando quem o ouve sem precisar ouvir a resposta de volta, pois ele mesmo a dá.

“A imagem que interpela diretamente o telespectador, à maneira de uma comunicação real, precisa apoiar-se num campo de significação que absorva ou englobe totalmente o “interlocutor”. No caso do vídeo, não é a imagem em sua autonomia que engloba o receptor (...) mas o espaço televisivo enquanto campo de significação.

O espaço televisivo é radicalmente diferente de qualquer outro meio de expressão(...)

Do ponto de vista físico ou tipográfico, o espaço da TV compreende duas pequenas cenas: a primeira, o lugar varrido pelo feixe eletrônico das câmeras; a segunda, a família. Do ponto de vista topológico, isto é, das configurações ou das posições formais das partes do discurso, o espaço televisivo abrange o da família, na medida em que o redefine como uma espécie de geratriz semântica para as suas mensagens.”

A função fática da fala do apresentador encaminha ou dirige o telespectador em relação ao ícone. Com isso o receptor guarda a “devida distância” da realidade, cuja revelação o signo imagem é capaz de fazer.

“A intervenção direta efetuada pelo apresentador é o elemento fático mais visível da televisão. A familiaridade instaurada por seu rosto, em atitude de conversa íntimas, de bate-papo, naturaliza a apresentação do mundo pelas imagens (vale frisar: apresentar, mostrar ou apontar o mundo é o específico da “arte” televisiva) e estabelece o contato com o telespectador.” (Sodré, 1981:62)

Tudo isso fica claro no programa focalizado, em vários momentos. No seu decorrer, personagens procedentes das mais variadas origens sociais estiveram presentes: autoridades (diretor do Trânsito e secretário de Obras da cidade do Rio de Janeiro), profissionais de diferentes estratos sociais (comissários de bordo, empregada doméstica. Guarda de trânsito), pessoas das camadas baixas da população em busca de auxílio e proteção (a avó, a moça seduzida e sua mãe, a senhora separada do marido).

A todos o apresentador dirige-se de maneira informal, em tom de bate-papo, à maneira de reunião numa sala de visita em casa de família.

O espaço “familiar” é reiteradamente reforçado. Quando fala de colaborações recebidas no terceiro quadro, afirma: “No setor médico, temos as dificuldades do hospital Mário Kroeep, que apresentamos aqui. Nossa reunião de família sensibilizou a comunidade e os resultados estão sendo ótimos”.

Foi nesse mesmo o discurso utilizado no quadro em que pede a colaboração dos brasileiros com o presidente, no quadro da mocinha seduzida, no quadro da senhora que emoldurara o retrato do pais, no quadro da senhora separada do marido, no quadro da mãe solteira. Em todos, a invocação e o enaltecimento explícito da família, acontecendo dentro de um espaço simuladamente familiar.

Como bem lembra Sodré:

“Na TV, para simular contato íntimo com o espectador, a função fática tem de se apoiar na família como grupo - receptor necessário. É bom esclarecer: o que importa não é

este ou aquele membro da família em particular (a mãe, por exemplo), mas a família como idéia, em seu caráter de instituição onde predominam relações primárias do tipo cara a cara (terminologia de Cooley) e princípios morais específicos”.

É principalmente no primeiro quadro apresentado no programa que fica nítido o fato de que é a família como idéia, e não como e enquanto grupo social vivendo as vicissitudes da situação familiar, o que importa à TV. Para dar andamento ao caso da menina seduzida, recorre-se a uma mãe qualquer, ali presente.

Trata-se de D. Celeste, uma senhora do auditório cuja imagem faz lembrar a idade da mãe da menina em questão. Ela é consultada como e enquanto mãe sobre o caso e se manifesta da seguinte forma: “Como mãe, acho que a menina não deve se casar. Solteira poderá ter ainda um bom casamento”. D. Celeste representa “a família” enquanto instituição falando sobre o caso.

Tradicionalmente reforçadora da instituição familiar, a igreja se faz presente através do telefonema do padre Estevam Bittencourt e do conselho que dá: “O casamento contra a vontade e nulo”. O importante - diz à mocinha - é que você tenha uma fé real. Todos os caminhos levam a Deus, desde que sejam caminhos de amizade e de paz.

Dentro do recurso à família enquanto espaço institucional capaz de potencializar a função fática da fala do apresentador, outras características devem completar o aspecto de credibilidade que ele deve provocar no receptor.

“A figura do que interpela tem que ser suficientemente familiar e descontraída para permitir uma relação de identificação com camadas heterogêneas do público. A telegenia vai consistir na qualidade de integração da imagem no ambiente das relações familiares ou íntimas dos telespectadores”.

Assim é o Sr. Hílton Franco. Aparência de um quarentão, traje estereotipado, descontraído, alegre, movimenta-se facilmente entre os entrevistados das mais diferentes procedências, flexibilidade viabilizada pela imagem montada de pessoa bem-educada, bem-intencionada, séria. É a telegenia a serviço do sistema social.

Em conseqüência desta análise orientada pela questão da “fragmentação” atribuída à TV, é possível identificar o meio televisivo como hegemonia das camadas dominantes e recurso alienador, portanto.

A análise que se impõe a partir daqui aparentemente impedirá ultrapassar essa compreensão provisória; na verdade revelará a impossibilidade de consolidação de tal afirmação.

Se de um lado a linguagem oral é utilizada como um redutor da potencialidade do ícone, transformando-o em índice, de outro, a potencialidade da imagem é reforçada pela sua intensa repetição, deixando em aberto amplo campo de significação a ser explorado.

Dos doze quadros apresentados ao longo desse programa, aparentemente diferentes e sem nada ter que ver um com o outro, na realidade o que se mostra são cenas do sistema social em funcionamento. Tal constância repetitiva encerra um caráter revelador.

Feitos de modo a mobilizar o telespectador de cada para os problemas apresentados, solicita-lhes colaboração para a solução das dificuldades em causa.

O público responde ao apelo, aparentemente localizando no apresentador o ‘grande salvador”, “o viabilizador das soluções de tão pungentes problemas”. “Tinha que ter um Hilton Franco neste mundo”, diz emocionada D. Gilda ao telefone, oferecendo à vovó uma máquina com o motor e acrescentando: “O Brasil precisa de uma porção de Hilton Franco de verdade!”

uma foto, uma estátua, um desenho. Convém mesmo lembrar que o desenho está presente até nas esculturas primitivas.

Antes do aparecimento da TV, o acesso se restringia aos ícones elaborados pelo próprio grupo e ao alcance de todos, enquanto ícones impressos ou filmados alcançavam apenas aquelas pessoas que também tinham acesso aos símbolos adquiridos na escola. Isso porque tanto o filme como os impressos, em nossa sociedade, em alguma medida requerem, para a sua compreensão, o domínio da leitura^5.

Com o aparecimento da TV, duas coisas acontecem:

 o universo de ícones do telespectador é violentamente ampliado para além do seu universo de experiência de vida, para além da delimitação que a sua localização sócio-econômico-cultural impõem;

 a ampliação do acesso aos ícones foi de tal ordem que dificilmente se encontram pessoas de uma dada sociedade excluídas dele. Ora, “um ícone não exige familiaridade da pessoa que o recebe com o objeto representado; sem ter visto antes um objeto significado numa foto, uma pessoa receptora do ícone pode conhecê-lo ou reconhecê-lo. (...) Isto leva a ver o ícone como o signo capaz de propor o novo, como o signo que revela (Coelho, 1981:63)”.

A revelação própria da consciência simbólica e socialmente reservada a ela passa, a partir do fenômeno da TV, a ser possibilidade de todos pela potencialidade que o signo utilizado pelo meio encerra.

A formação e o desenvolvimento da consciência simbólica (que investiga o motivo, que busca o sentido) á amplamente mobilizada pela consciência icônica (intuitiva, elaborada de juízos não-definitivos).

A oportunidade reveladora embutida no ícone televisivo, ampliando o conhecimento do telespectador para além das experiências de vida oferecidas pelo seu próprio meio sociocultural, significa a possibilidade de democratização do conhecimento.

A possibilidade de revelação começa a escapar do âmbito e do controle das consciências simbólicas. Nesse ponto reside possivelmente a preocupação das mesmas e o grande potencial da TV.

O discurso do meio realiza a alquimia da transformação de ícones. Porém as imagens lá estão registradas, em toda a sua pujança. Concretizam, de certo modo, a realidade que representam.

A concretização parcial realizada pela indicialização da imagem aponta para uma qualidade indicativa do produto oferecido, apenas, sem entrar no todo do objeto. Apóia-se nas imagens televisivas construídas a cada dia de maneira mais sedutora.

Lembra-nos Da Távola (1984:150) que enquanto a televisão massageia a empatia, o livro massageia a razão. Porém não é só o livro que o faz. Nada mais provocante para a razão do que a própria vida.

O telespectador que se orienta para o consumo pela TV acaba também fazendo, a partir do uso do produto que adquire, outras constatações não apontadas pelo meio de comunicação. Os quadros da vida, apresentados apenas do ângulo emocional, quando vividos no cotidiano do telespectador, são apreendidos em dimensões maiores, que vão além da emocional. Para ilustrar essa afirmação, basta que se atente para a série de entrevistas com prisioneiros da Casa de Detenção de São Paulo, feitas em 83 por uma repórter da TV Globo, a mesma que fez a reportagem sobre os menores abandonados da Praça da Sé. A visão do problema apresentado por eles, ainda que expressa numa linguagem simples, não é emocional, mas social e diria mesmo econômica.

(^5) A difusão de filmes nacionais é pequena e a erradicação de problemas de som que dificultam a compreensão é recente.

Em outras palavras, a TV reduz a imagem a índice; o mesmo não ocorre com as imagens da realidade vivida pelos telespectadores. Ao contrário do que acontece com elas na TV, são agigantadas na dependência das dificuldades que oferecem a cada um de nós.

Desse desencontro entre a “imagem televisiva” e “imagem real”, da contradição entre elas, é que a revelação pode se fazer.

Temos explicações suficientes para afirmar que as conclusões que atribuem à TV um papel alienante não são apenas provisórias, mas precárias.

Desconsideram elas:  as contradições que o meio TV encerra;

 o papel transformador que as contradições vêm desempenhando ao longo da história da cultura ocidental;  o potencial revelador do signo imagnético, que permanece, a despeito da indicialização feita pela TV;

 a ampliação do universo do receptor para muito além dos limites do seu meio sociocultural imediato, proporcionado pela TV;  a importância do prazer na mobilização do telespectador para a ação;

 a capacidade do receptor de significar a sua realidade de pensar sobre ela e de compará-la àquela apresentada pela TV;  a dimensão do ato de ver televisão, que não se resume nele próprio, mas começa antes dele e acaba depois dele, no meio social do telespectador;  a possibilidade de exploração do potencial revelador da linguagem televisiva. Considerar que esses aspectos implica, para nós, uma conclusão necessária; é preciso aprender a ler o texto televisivo.

A TV invade o mundo particular de cada pessoa qualquer que seja a localização social a partir da qual é consumida, apontando para realidades que podemos até não ignorar, mas das quais podemos estar cautelosamente afastados pelos padrões, modos de vida, ocupações da classe social a que pertencemos.

Como se trata de um meio arrebatador e envolvente, coloca-nos diante de questões das quais achávamo-nos resguardados pelas distâncias sociais, de maneira muito mais tocante do que aquela que o conhecimento teórico propicia.

Dessa maneira, a TV vem ameaçando fronteiras. As classes oprimidas são impiedosamente colocadas diante da fartura e da opulência inacessível das classes privilegiadas; estas, além de expostas às misérias do mundo cão em suas confortáveis habitações, são compelidas a sentir na pele o processo indicial, que não ignoravam antes, mas com o qual não se defrontavam necessariamente e pelo qual o processo de alienação se propaga.

Desse desconforto maior que o visualizar uma situação de fato propicia, mais do que o pensar e/ou ler sobre ela, o processo de busca as superação dessa realidade pode ser acelerado.

Assim como o TV redefine o espaço familiar, transformando-o numa geratriz semântica para suas mensagens, também existe a possibilidade de outros espaços sociais redefinirem o espaço televisivo, transformando-se eles próprios numa geratriz semântica para a compreensão da mensagem televisiva, rompendo a barreira indicial e mergulhando na mensagem icônica, na mensagem velada.