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afetos celebrados, Notas de estudo de Urbanismo

artigo sobre uma peregrinação visual à respeito da criação de um ex-voto por ocasião Projeto Re(vi)vendo Êxodos/ Roteiro Missão Cruls

Tipologia: Notas de estudo

2012

Compartilhado em 24/04/2012

suyan-de-mattos-7
suyan-de-mattos-7 🇧🇷

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AFETOS CELEBRADOS
uma viagem contemporânea pelo mundo dos ex-votos.
Suyan Sant’Anna Baptista de Mattos
Faculdades Integradas da União Educacional do Planalto Central/FACIPLAC e
Secretaria da Educação/SEDF
Pós-doutorado em Artes - Universidade de Buenos Aires/UBA, doutorado em História da Arte,
Universidade Nacional Autônoma de México/UNAM, mestrado em Artes Visuais, Universidade
Nacional Autônoma de México/UNAM. Apresentou várias conferências e oficinas em congressos e
simpósios no Brasil, Argentina e México. Participou de várias exposições coletivas e individuais no
Brasil, México, Espanha, Argentina, Holanda e Hong Kong.
No ano passado, 2008, o “Projeto Re(vi)vendo Êxodos/ Roteiro Missão Cruls: Centenário de
Guimarães Rosa”1 convidou-me para ministrar uma oficina acompanhada por uma breve palestra a
respeito dos ex-votos na Igreja Nossa Senhora da Conceição, em Matosinhos, interior do estado de
Minas Gerais. O resultado deste convite provocou-me uma vontade de sentar e escrever a respeito
do que foi feito. Por meio de fotografias e vídeo registrei momentos líricos promovendo uma vontade
de exposição e divulgação.
Antes de seguir, é necessário conceituar o ex-voto. Conceito difícil, ainda mais hoje, com
tantas mudanças sociais, tecnológicas, econômicas, enfim, culturais. Ao longo desta dissertação, se
fará necessário pontuar o que é um ex-voto, pois ao ritmo acelerado de uma contemporaneidade,
este conceito sempre está em constante mudança, sempre agregando novos fatores.
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O Projeto Re(vi)vendo Êxodos tem como propósito a formação intelectual de professores, alunos do
Centro de Ensino Médio Setor Leste/SEDF e comunidade em geral a partir da teoria e prática de
identidade, patrimônio e meio ambiente. O Roteiro Missão Cruls objetiva-se a partir do estímulo,
articulação, integração e desenvolvimento das diversas modalidades do turismo por meio de
caminhadas, além de reviver o espírito de aventura da Missão liderada por Luiz Cruls como também
sedimentar as bases históricas do processo de mudança da capital para o centro do país.
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AFETOS CELEBRADOS

uma viagem contemporânea pelo mundo dos ex-votos.

Suyan Sant’Anna Baptista de Mattos

Faculdades Integradas da União Educacional do Planalto Central/FACIPLAC e

Secretaria da Educação/SEDF

Pós-doutorado em Artes - Universidade de Buenos Aires/UBA, doutorado em História da Arte, Universidade Nacional Autônoma de México/UNAM, mestrado em Artes Visuais, Universidade Nacional Autônoma de México/UNAM. Apresentou várias conferências e oficinas em congressos e simpósios no Brasil, Argentina e México. Participou de várias exposições coletivas e individuais no Brasil, México, Espanha, Argentina, Holanda e Hong Kong.

No ano passado, 2008, o “Projeto Re(vi)vendo Êxodos/ Roteiro Missão Cruls: Centenário de Guimarães Rosa”^1 convidou-me para ministrar uma oficina acompanhada por uma breve palestra a

respeito dos ex-votos na Igreja Nossa Senhora da Conceição, em Matosinhos, interior do estado de Minas Gerais. O resultado deste convite provocou-me uma vontade de sentar e escrever a respeito do que foi feito. Por meio de fotografias e vídeo registrei momentos líricos promovendo uma vontade de exposição e divulgação.

Antes de seguir, é necessário conceituar o ex-voto. Conceito difícil, ainda mais hoje, com tantas mudanças sociais, tecnológicas, econômicas, enfim, culturais. Ao longo desta dissertação, se fará necessário pontuar o que é um ex-voto, pois ao ritmo acelerado de uma contemporaneidade, este conceito sempre está em constante mudança, sempre agregando novos fatores.

(^1) O Projeto Re(vi)vendo Êxodos tem como propósito a formação intelectual de professores, alunos do Centro de Ensino Médio Setor Leste/SEDF e comunidade em geral a partir da teoria e prática deidentidade, patrimônio e meio ambiente. O Roteiro Missão Cruls objetiva-se a partir do estímulo, articulação, integração e desenvolvimento das diversas modalidades do turismo por meio de caminhadas, além de reviver o espírito de aventura da Missão liderada por Luiz Cruls como tambémsedimentar as bases históricas do processo de mudança da capital para o centro do país.

O ex-voto é uma oferenda de testemunho público de agradecimento feita a santos de particular devoção por ter recebido uma graça ou um milagre. Suas representações acontecem de várias formas: iconográfica (pintura ou fotografia), escultórica, inscrições em tábuas, mármores ou outro material considerado nobre.

Com o tema elegido, ex-voto, fui a busca de material tanto material como imaterial: a busca de uma religiosidade presente numa cultura considerada múltipla e diversa.

Percebe que a produção dos ex-votos mudaram, tanto na literatura como no suporte apresentado, como testemunha Juliana Barreto Farias. Antes, tínhamos os “fazedores de carta”, profissionais que documentavam as histórias para os pagadores de promessas. Podemos afirmar que os ex-votos foram e continuam efêmeros, seguimos afirmando que eles são advindos de um cotidiano atual e ao serem colocados na sala de milagre, eles se transformam, passam a pertencer a outro mundo e passam a ter outro significado, pois são descolados do seu contexto (muletas, óculos, roupas, sapatos, etc).

Os pedidos variam conforme a necessidade do humano e do espírito, desde evitar uma ameaça de morte, curar uma doença, evitar perigos, transformando estas ações em milagres que salvam. Alcançado o desejo, registra-se por meio de legenda a narrativa do milagre e a identificação do agraciado e do agraciador, bens pessoais, elementos simbólicos como velas e flores, cruzes usadas em peregrinações; enfim, uma propriedade de elementos materiais com apreço pessoal, poético e simbólico.

Atualmente, a prática do ex-voto diminuiu muito por questões ligadas tanto a tecnologia como a religiosidade. Com o advento da fotografia e do ex-voto de cera semi-industrializada, desapareceu a preocupação de apresentar uma obra estética. O ex-voto perdeu em valor artístico, mas não deixou de ter um grande significado como forma de expressão da religiosidade, fé e esperança de uma sociedade conhecida como crente em seus santos e na concretização dos seus pedidos.

Por conta da presença do uso e fabrico do ex-votos numa classe menos economicamente favorecida, podemos nos ater que muitos dos ex-votos podem se apresentar numa forma artística, por conta da incapacidade do devoto contratar alguém para faze-lo ou mesmo comprá-lo.

Objetivo da oficina/palestra e concretização do ex-voto tapete/manto: experienciar o sagrado em sitios profanos, vivenciar o sublime. A arte se firma como espaço sagrado por constituir-se força capaz de mover afetos, pela perenidade que confere a produções e pensamentos humanos, e, especialmente, pela potência estética e poética em múltiplas re-significações que inúmeras vezes, ao estreitar a distância que nos separa do sublime, reaproxima-nos de nós.

A finalização do trabalho tapete/manto se enche de visualidade, é uma assemblage na sala de milagre. Objeto plástico que alcança a fé, modo de ver e se relacionar com o que é sagrado e próprio a cada ser, produto da própria experiência de cada aluno, de cada membro da sociedade de Matosinhos. O saber fazer, o fabricar une pensamentos diferentes, pois são pessoas diferentes, são pessoas do urbano se encontrando com o local, unidas na costura.

O tapete/manto produzido pelos alunos da Caminhada lança um debate sobre a prática da religiosidade popular que vem se intensificando na contemporaneidade, seja para glorificá-la, ressaltando o seu caráter libertador, seja para exorcizá-la como pouco ortodoxa, do ponto de vista teológico, ou alienada sob outros prismas.

Algumas tendências tratam as manifestações populares como processos ligados ao religioso independentes das relações sociais nas quais estão inseridas. E o fabricar deste tapete/manto induziu a um “festar”, ligado ao mundo da graça e do milagre, pois foi almejado o pedido. Remeto o ex-voto a questão do simbólico e o seu fazer também, pois ele é lido, escrito e interpretado num mundo em que a percepção visual e táctil precisam explicar a comunicação do crente e do divino. Já que a própria expressão "sala de milagres" conduz o pensamento a "promessas".

Como a disposição dos objetos colocados na sala de milagre segue uma organização necessária aos seus devotos. Necessitei também de organizar a nossa sala de milagre: pendurei o nosso tapete/manto na parede de frente a entrada, possibilitando que o visitante possa desfrutar daquela visão produzida por eles mesmos, confirmando uma representatividade do ambiente e de seus elementos plásticos. O nosso ex-voto define-se como objeto matéria participando como testemunha ao desejo do outro que aqui é a caminhada do Projeto Re(vi)vendo Êxodos.

O nosso ex-voto foi colocado em local público e com acesso coletivo, a Igreja Nossa Senhora

da Conceição, em Matosinhos/MG e apresenta uma série de formas testemunhais: os alunos/ comunidade/devotos entrelaçaram o tecido poeticamente, constituindo num só tempo, o universal e o particular. São tesouras, agulhas, cianinhas, rendas conduzindo imagens sagradas e profanas, já que unindo a este universo, foi costurado bilhetes, cartas, cartões no tapete/manto. É a materialidade da produção artística contemporânea. São retalhos de histórias individuais cozendo o silêncio do saber fazer, em alinhavos de fé, eternizando uma oração plástica que é o ex-voto/tapete/manto.

O homem tem necessidade de fazer uso de símbolos ou signos para expressar o que for necessário no seu espaço de vivência A partir dos dados de Eco, pode-se remeter ao ex-voto a questão sígnica e simbólica. Isso implica a noção de documento-testemunho, pois a semiologia permite ler, desvendar o aspecto signológico dos objetos. Assim, o ex-voto‚ nas formas escrita, artística – em bi e tridimensão do documento –, enfim uma infinidade de "coisas" (objetos) passíveis de serem lidas e interpretadas, um mundo em que a percepção visual e táctil reserva para a codificação-explicação da comunicação entre o crente e a divindade.

A disposição que demos ao nosso ex-voto, tapete/manto, foi calculada para que o público ao entrar na igreja pude-se vê-lo em sua plenitude e que representasse o ambiente como um lugar sagrado e de constante movimento, já que a segunda proposta da oficina/palestra era o cumprimento da continuação da fabrição do tapete/manto, ex-voto.

O nosso ex-voto, tapete/manto, transforma também em um registro social, um testemunho histórico. Passa a ter um caráter comunicativo. É claro o poder simbólico que traz em sua forma, em sua textura, em sua essência perpetua um caráter signíco proporcionado por uma dialética do fazer. Assim, proponho que analizem este tapete/manto como uma pesquisa cultural, respaldado em histórias de fé e religiosidade, não necessariamente a católica.

Tapete/manto produzido pela comunidade de Morrinhos junto com os estudantes do Centro de Ensino Médio Setor Leste por ocasião do projeto Re(vi)vendo Êxodos / Roteiro Missão Cruls: Centenário de Guimarães Rosa.

DERRIDA, Jacques. A Farmácia de Platão. Trad. Rogério da Costa. São Paulo: Iluminuras, 2005.

ECO, Umberto. O Signo. Lisboa: Progresso, 1977.

ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano. Trad. Rogério Fernandes. São Paulo. Ed Martins Fontes,

FARNESE DE ANDRADE. A Grande Alegria. In: Farnese Objetos. São Paulo: Cosac naify, 2005.

FOUCAULT, Michel. História da loucura na idade clássica. São Paulo: Perspectiva, 1978.

FISHER, Ernst. A necessidade da arte. 8 ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1976. 253 p.

GOMES, Alair O. Os Espaços do Sonho. In: Revista Cultura – Ano 2 – nº 7 julho a setembro de 1972.

Milagres do cotidiano ”de Guilherme Pereira das Neves, “ A fé não costuma falhar ”de Juliana Barreto Farias e “ Tradição reinventada ”de Luís Américo Silva Bonfim in Revista História da Biblioteca Nacional, ano 4, no. 41, 02/2009.

LANGER, Suzanne. Filosofia em nova chave. São Paulo: Perspectiva, 1071.

LE GOFF, Jacques e Nora, Pierre. História: novas Abordagens. Rio de Janeiro: Francisco Alves,

SCARANO, Julita. Fé e Milagre, São Paulo, EDUSP/FAPESP, 2004.

TODOROV, Tzvetan. Semiologia e Lingüística. Petrópolis. Vozes. 1971.