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agronegocio - florestal1, Notas de estudo de Engenharia Florestal

Cartilha sobre o agronegócio florestal confeccionada pela ABEEF (associação brasileira dos estudantes de engenharia florestal)

Tipologia: Notas de estudo

2011

Compartilhado em 06/04/2011

clarissa-moraes-8
clarissa-moraes-8 🇧🇷

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C
ARTILHA DE
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EBATES
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E n g e n h a r i a F l o r e s t a l
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CA R T I L H A D E DE B A T E S

A s s o c i a ç ã o B r a s i l e i r a

d o s E s t u d a n t e s d e

A s s o c i a ç ã o B r a s i l e i r a d o s E s t u d a n t e s d e

EXPEDIENTE

Realização: Associação Brasileira dos Estudantes de Engenharia Florestal – ABEEF.

Descrição: Cartilha de subsídio aos debates sobre o Agronegócio Florestal.

Edição e diagramação : Coordenação Nacional – Gestão Piracicaba 2008/2009.

Revisão: Ana Paula C. Rezende, Cauê V. de Melo, Gabriel B. Martone, Iara Jaime, Ivan Zaros, Leandro J. de Oliveira, Raquel Izidoro, Otávio G. Ferrarini e Terena P. de Castro.

Apoio de publicação: SAAP / FASE (Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional) – www.fase.org.br

E-mail: [email protected]

Site: http://abeef.cjb.net/

Piracicaba-SP Março – 2009

A s s o c i a ç ã o B r a s i l e i r a d o s E s t u d a n t e s d e

Mudos

Muitos são os anéis que seus aniversários desenharam

em seu tronco. Estas árvores, estes gigantes cheios de anos,

levam séculos cravados no fundo da terra, e não podem fugir.

Indefesos diante das serras elétricas, rangem e caem. Em cada

derrubada o mundo vem abaixo; e a passarada fica sem casa.

Morrem assassinados os velhos estorvos. Em seu lugar, crescem

os jovens rentáveis. Os bosques nativos abrem espaço para os

bosques artificiais. A ordem, a ordem militar, a ordem industrial,

triunfa sobre o caos natural. Parecem soldados em fila,

os pinheiros e eucaliptos de exportação que marcham rumo

ao mercado internacional.

Fast food, fast wood: os bosques artificiais crescem num

instante e vendem-se num piscar de olhos. Fontes de divisas,

exemplos de desenvolvimento, símbolos de progresso, esses

criadouros de madeira ressecam a terra e arruínam os solos.

Neles, os pássaros não cantam.

As pessoas os chamam de bosques do silêncio.

Eduardo Galeano

A s s o c i a ç ã o B r a s i l e i r a d o s E s t u d a n t e s d e

Apresentação

Companheiros e companheiras,

Pensando no atual momento em que vivemos onde as questões ambientais estão pipocando em todos os setores da sociedade, nós da ABEEF apresentamos a vocês essa cartilha de debates que tem como foco de análise o Agronegócio Florestal. A idéia de abordar esse tema surgiu da necessidade identificada pela Associação de aprofundar mais o seu debate sobre esse assunto, uma vez que, direta ou indiretamente, é um tema que nos diz muito respeito, pois vai desde o ensino nas nossas universidades, a nossa atuação enquanto profissionais, que está completamente atrelada aos caminhos definidos pelo agronegócio, até as implicações sobre o destino do país nesse momento de crise do sistema capitalista. Desse modo buscamos trazer aqui um roteiro orientador de estudos e debates a serem realizados pelos grupos organizados de estudantes de Engenharia Florestal de todo o país, que fomente a necessidade de se entender com profundidade a realidade em que se insere o nosso curso. Assim essa cartilha traz inicialmente reflexões sobre nossa formação profissional , para que possamos perceber que nosso curso faz parte de um processo histórico que define o papel que um profissional da área deve ter nos dias de hoje, bem como o papel que a universidade vem cumprindo nesse mesmo sentido. Após esse momento, passamos para uma analise mais focada no agronegócio florestal e seu funcionamento. Dentro dessa analise, inicialmente abordaremos o modelo de produção utilizado nesse setor, os seus impactos socioambientais e sua falsa imagem sustentável; após isso passaremos a análise das indústrias do setor, de sua origem, seu funcionamento e do destino de sua produção; para por fim chegar às transnacionais, sua influência nas políticas e programas do governo, na mídia e nas universidades. Assim, após tecer toda a crítica em torno desse modelo, pretendemos trazer elementos sobre a agroecologia como a proposta alternativa que nossa Associação defende como contraponto a esse modelo de produção e, para além disso, como uma ferramenta importante dentro do processo de transformação social que acreditamos. Dessa maneira, não ficamos apenas na critica sem proposta, conseguimos definir um norte para essa caminhada que estamos fazendo. Por fim, vale ressaltar que essa cartilha não terá efeito positivo, se a proposta que aqui será apresentada não for incorporada e concretizada pelos grupos de estudantes de nossa Associação, pois ela é parte inicial do processo de formação e denúncia que pretendemos realizar. Então companheirada, essa cartilha precisa ganhar vida, e isso só será possível com o esforço conjunto de todos nós, que, comprometidos com a construção de um mundo sem exploradores e explorados, harmônico humano- ambientalmente, temos a tarefa de denunciar os problemas desse modelo e marcar a nossa posição diante da situação apresentada. Sabemos que para fazer luta com propriedade devemos ter claro contra o que estamos lutando, e para isso é necessário o estudo. Portanto, vamos lá. Façam um ótimo proveito dessa cartilha, esforcem-se para fazer ela ganhar vida.

Boa leitura, bom estudo e boa luta!!!

“Cinco siglos resistiendo, cinco siglos de coraje, manteniendo siempre la esencia; Y es esencia, y es semilla y esta dentro nuestro por siempre; Se hace vida con en sol, en la pachamama florece.”

A s s o c i a ç ã o B r a s i l e i r a d o s E s t u d a n t e s d e

Esse encontro vai trazer mais elementos sobre a indústria dentro do agronegócio florestal. O objetivo aqui é apresentar seu funcionamento, sua origem e o destino de sua produção. Para isso é interessante trazer dados das indústrias de celulose e madeira processada que revelam para onde vão os produtos florestais produzidos aqui no Brasil. A partir desses dados pretendemos debater sobre o papel que o Brasil cumpre dentro da divisão internacional do trabalho (o de exportador de commodities), e com isso demonstrar que o setor florestal brasileiro funciona para beneficiar uma minoria rica (em grande medida de países estrangeiros) enquanto volta às costas para os interesses do povo brasileiro.

  • 4º ENCONTRO: O Agronegócio Florestal – As empresas transnacionais no Brasil

O objetivo aqui é apresentar a lógica de funcionamento das transnacionais do agronegócio florestal, que vai desde a sua influencia nas políticas e programas do Estado, até sua influencia na mídia, que constrói a necessidade desenfreada do consumo, criminaliza os movimentos sociais e de resistência a essas empresas. Além disso, pretende-se trazer um breve histórico de como foi a entrada das principais transnacionais do setor aqui no Brasil, e por fim amarrar com a entrada dessas empresas nas universidades para defesa de seus interesses, e com isso ligar esse encontro ao primeiro encontro.

  • 5º ENCONTRO: Agroecologia como proposta

Por fim fecharemos os encontros apresentando a proposta que defendemos diante de toda a situação apresentada. A Agroecologia não será apresentada apenas como técnicas e práticas de produzir sustentavelmente, mas como uma ferramenta de fundamental importância no processo de transformação social. Uma agroecologia política, que busca a soberania alimentar e energética dos povos, que discute os valores humanistas e militantes e que por isso esta atrelada à disputa do modelo de sociedade e se consolida como alternativa.

No entanto, a idéia não é que esses encontros sejam simplesmente palestras sobre os temas, mas espaços construídos com base em metodologias participativas, que fujam do convencional da educação bancária (e para isso temos nossa cartilha de educação popular que nos ajuda muito nesse momento), e que seja fruto da criatividade dos grupos. Essa preocupação com a forma deve estar presente desde a divulgação dos encontros até sua realização, o que não significa que o conteúdo deva ser deixado de lado, muito pelo contrario, forma e conteúdo devem ser igualmente prioridades. O que temos que ter claro e afinado são os nossos objetivos com esses encontros (formação de grupo, aproximação de novos militantes, denúncia, disseminação do debate), e com isso o processo de consolidação desses pode se dar das mais diversas formas.

Dentro deste contexto, essa cartilha apresenta, para cada um desses temas, um breve texto elaborado pela Coordenação Nacional, que traz linhas gerais sobre o que queremos abranger em cada um dos encontros. Além disso, trazem referências de textos, livros, relatórios, pesquisas e filmes que se fazem necessário para o aprofundamento no tema e que podem auxiliar na construção de encontros mais dinâmicos e sólidos. No entanto, os grupos não devem ficar restritos ao que é apresentado nessa cartilha e devem buscar, de acordo com a realidade de cada escola e região, outros materiais que contribuam para a melhor efetivação desses estudos e encontros em cada uma das realidades.

Portanto, abaixo seguem as contribuições que damos ao debate sobre os assuntos a serem estudados, e as respectivas sugestões. Esperamos que auxilie nessa

A s s o c i a ç ã o B r a s i l e i r a d o s E s t u d a n t e s d e

caminhada que está por vir. Contamos com o trabalho de todos que a partir desse momento têm em mãos elementos que não são abertamente difundidos por aí. Vale lembrar a responsabilidade que temos a partir de agora, de dar mais um passo na construção do mundo que queremos.

Assim, fica selado o nosso compromisso!

“Vamos floresteiros, temos que por um pouco mais de força

Estamos todos juntos novamente

Floresta e Amazônia não se vendem, se defendem!!!”

A s s o c i a ç ã o B r a s i l e i r a d o s E s t u d a n t e s d e

aproximação com movimentos sociais, pode ser muito enriquecedor convidar algum militante, o pode trazer ao debate novos elementos e outra visão, que não a acadêmica, sobre o assunto.

Sugerimos ainda que alguns encontros possam ser pensados juntamente com os espaços de formação preparatórios para o nosso 39º CBEEF – Agronegócio/ecologia? A Engenharia Florestal optando por uma nova relação homem natureza (Julho, Botucatu-SP ) –, lembrando que o nosso Congresso será fruto desse nosso trabalho, com grande foco na nossa campanha, mas também abrangendo nossas demais bandeiras de luta.

Bom trabalho a todos os grupos!!!

A s s o c i a ç ã o B r a s i l e i r a d o s E s t u d a n t e s d e

Encontros

1º encontro: “A Universidade brasileira e o curso de

Engenharia Florestal”

Um pouco de história: O curso de Engenharia Florestal

Iremos começar nossos debates abordando o ensino da Engenharia Florestal no Brasil, tratando do momento histórico em que os primeiros cursos foram criados, e a quais demandas e interesses estes vieram a atender. Os primeiros cursos de Engenharia Florestal surgiram em um momento em que nosso país passava por profundas mudanças, por um processo acelerado de desenvolvimento decorrente do governo desenvolvimentista do então presidente Juscelino Kubitschek (JK). Tal política desenvolvimentista baseava-se no rápido crescimento da produção industrial e da infra-estrutura, com a participação ativa do Estado. Foram marcas desse período a construção de Brasília, a implantação da indústria automobilística e a expansão da indústria pesada. Podemos deduzir que para a concretização desse desenvolvimento fez-se necessários muitos investimentos estatais, incentivos fiscais e acima de tudo, demandou-se de recursos naturais. Destes, havia grande demanda por recursos madeireiros para as construções nas cidades, de estradas e ferrovias e para indústrias siderúrgicas e de papel celulose que estavam em franca expansão. Essa grande procura por madeira colocou a produção florestal e o suprimento de madeira no centro das atenções de profissionais e do governo brasileiro. A preocupação com uma possível escassez de madeira para o mercado interno, bem como para o mercado internacional, fez com que o governo adotasse, em meados de 1960, uma intensa política de incentivo fiscal para o reflorestamento. Nesta época já haviam sido realizadas as primeiras experiências de plantio de espécies arbóreas exóticas no Brasil, destacando os trabalhos de Edmundo Navarro Andrade, engenheiro agrônomo da Companhia Paulista de Estrada de Ferro, com espécies do gênero Eucalyptus. A partir dessas experiências foi possível constatar que o eucalipto poderia atender as necessidades de suprimento de madeira, por ser uma espécie de rápido crescimento e produzir madeira na qualidade desejada para os usos requisitados (como para mourões, dormentes, lenha, carvão, papel e celulose). Inicia-se, então, um amplo desenvolvimento e difusão do “reflorestamento” com eucalipto, ou seja, de plantios monoculturais (homogêneos) da espécie em larga escala no Brasil. Após o Golpe Militar de 1964, a política desenvolvimentista de JK passa a ter um novo impulso, que no campo se dá de maneira bem intensa em função da chamada Revolução Verde. Na política florestal, o governo militar (1964 – 1985) criou uma série de instrumentos, tais como grandes programas e ações políticas com massivos investimentos públicos, que até metade dos anos 1980, incentivou e financiou as grandes empresas florestais. Ainda, essas empresas privadas do setor florestal que foram gestadas com dinheiro público, eram quem detinham as áreas de produção de madeira, ou seja, extensas propriedades de terra com monoculturas de eucalipto. Todo esse processo que descrevemos até agora foi o contexto histórico que determinou a necessidade de um profissional especializado na área florestal, distinto dos profissionais de agrárias já existentes, como agrônomos e veterinários. Criam-se assim os primeiros cursos superiores de Engenharia Florestal no país na década de 60, segundo os moldes norte-americano e europeu, onde tais cursos existiam desde aproximadamente 1880.

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dinheiro – como “brinde” – a política neoliberal que deve ser aplicada em suas economias. Não é preciso dizer que a aplicação destas “recomendações” é condição fundamental para que os Estados recebam os empréstimos, funcionando na verdade como uma imposição. No que se refere à educação, com implantação da política neoliberal o Estado se desobriga do ensino superior que é transferido para a iniciativa privada. Desta forma, a educação é compreendida dentro da lógica do mercado, e logo, passa a ser uma mercadoria. É possível observar que a política neoliberal na educação, em particular no ensino superior, tem três grandes conseqüências: o processo de sucateamento das Universidades públicas, com o horizonte de sua privatização; a proliferação indiscriminada de instituições de ensino superior privadas, onde o lucro é mais importante que a educação; e a formação e o ensino nas Universidades balizados a partir de demandas e interesses do mercado. Nesse sentido, observa-se que desde o governo de Fernando Henrique Cardoso, as Universidades estão recebendo cada vez menos investimentos estatais (Gráfico 1*). Esse fato faz com que as Universidades procurem realizar, para angariar verbas, parcerias com empresas privadas, geralmente no âmbito das pesquisas.

Gráfico 1. Investimento do Estado na educação em relação ao PIB do respectivo ano, valor em porcentagem. Fonte: IBGE e STN*.

A partir dessas parcerias as empresas constroem laboratórios, bibliotecas e até mesmo salas de aulas nas Universidades públicas em um nítido movimento de substituição dos investimentos estatais pelos privados, que segue o caminho da privatização. Estes investimentos, no entanto, não são realizados de graça. É através deles e das parcerias nas pesquisas que as empresas – que em sua maioria são transnacionais – se infiltram na Universidade pública direcionando o ensino, a pesquisa e a produção de conhecimento para atender seus interesses. Ainda, é cada vez mais comum o caso de professores dessas Universidades envolvidos em pesquisas de transnacionais. Essas pesquisas muitas vezes são de propriedade das empresas e assim, seus resultados não podem ser divulgados para a sociedade, pois os contratos das parcerias apresentam cláusula de sigilo. Podemos então ver que estas utilizam da estrutura da Universidade (laboratórios, departamentos, etc...), de seus professores, funcionários e até estudantes, para produzir suas próprias pesquisas. Já aquelas Universidades que não conseguem realizar parcerias com a iniciativa privada passam por um processo de sucateamento. Com isso, cria-se uma distinção entre as Universidades públicas: as com inserção do capital privado e chamadas de Centros de Excelência e as sem relação com a iniciativa privada, que passam pelo processo de desestruturação e assim apresentam inúmeros problemas de infra- estrutura, no quadro de professores e de assistência estudantil.

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Essas relações promíscuas entre o privado e o público nas Universidades se dão também com as chamadas Fundações Privadas “de Apoio” às instituições de ensino superior. Criadas com o falso pretexto de auxiliar as Universidades, estas Fundações, na realidade, são organizações empresariais voltadas para o mercado e instituídas com a finalidade de obter ganhos para seus membros. Para isso, utilizam- se do espaço e do nome das Universidades na realização de cursos pagos (de especialização, pós-graduação) e venda de serviços, muitas vezes, à própria instituição “apoiada”. A atuação dessas fundações compromete a liberdade acadêmica, direcionando a formatação de cursos, currículos, pesquisas etc. para atender aos interesses do mercado em detrimento das demandas sociais. Além disso, estão envolvidas em inúmeros casos de corrupção e irregularidades, como no caso da Universidade de Brasília (UnB), em que o então reitor Timothy Mulholland desviava recursos públicos da Universidade e repassava às suas fundações de apoio. O fato, juntamente com a atuação decisiva do Movimento Estudantil da UnB, resultou na renúncia do reitor. Isso acontece claramente em muitas Escolas de Engenharia Florestal, onde estão presentes essas Fundações junto aos seus Departamentos. Na forma de institutos de pesquisa, estudos, investigações, etc, as fundações florestais, como dito anteriormente, inserem o curso de Engenharia Florestal nesta mesma lógica de continuar atendendo aos interesses e demandas do mercado. Acompanha todos esses acontecimentos o excepcional crescimento de Instituições de Ensino Superior Privado (IESP) , que procuram atender o grande número de jovens dispostos a freqüentar o ensino superior. É possível observar, na última década, a abertura indiscriminada dessas instituições em detrimento de investimentos nas instituições públicas. Isso se dá, contraditoriamente, através de investimentos (BNDES), incentivos fiscais e políticas do governo brasileiro. Políticas públicas, tais como o Pró-Uni, que possibilitam o acesso de jovens da classe média e pobre ao ensino superior, geram imensos lucros às IESP e substituem a obrigação do governo em oferecer ensino gratuito a todos. Para exemplificar, na década de 90 existiam 450 Instituições de Ensino Superior Privado. Já em 2003, o número dessas instituições saltou para 1500. Para isso, o Pró- Uni teve um papel fundamental, sendo uma das principais políticas que ajudaram o setor privado a crescer. Soma-se a esse panorama a metodologia de ensino utilizada nas Universidades, que é a da educação bancária. Nesta metodologia, a relação educador-educando se dá de maneira hierarquizada, em que o educador (professor), dono da verdade, deposita o seu “conhecimento” no educando, o aluno (sem luz). Procura-se, desta forma, eliminar qualquer forma de questionamento e reflexão sobre a situação da Universidade, bem como, de toda a sociedade em que vivemos, reforçando assim, a dominação do mercado. Finalizando este tópico e este encontro, fica claro o papel que a Universidade vem cumprindo em nossa sociedade atualmente, bem como o curso de Engenharia Florestal. No entanto, uma vez que temos o entendimento de que essa é a realidade encontrada nas universidades brasileiras, não devemos simplesmente condenar os cursos de Engenharia Florestal. Nossa sociedade necessita de um profissional, tal como o/a Engenheiro/a Florestal, que possuindo uma visão crítica de questões ambientais e sociais - e como estas se relacionam – possa dar respostas às necessidades de todo nosso povo. Assim, devemos construir uma nova perspectiva para a Engenharia Florestal, enquanto um curso que nos permita entender a realidade em que estamos inseridos, o funcionamento de nossa sociedade, para atuarmos no sentido de transformá-la.

A s s o c i a ç ã o B r a s i l e i r a d o s E s t u d a n t e s d e

2º encontro: “O Agronegócio Florestal: impactos da produção

florestal”

No século XV os países ibéricos se aventuravam pelos mares em busca de novas terras, e já com as primeiras âncoras baixadas no continente americano os navegadores se deslumbraram com as riquezas aqui presentes. Os minérios, principalmente prata e ouro, foram o incentivo inicial para enviarem cada vez mais navios na rota da América hispânica. Neste momento se concebia uma função destas colônias, o fornecimento de matéria prima às metrópoles. A primeira exploração no Brasil colonial foi de um produto florestal. A madeira do pau-brasil era utilizada em construções e extração de tinta para as fábricas de tecido de Portugal. Na ocasião a exploração da espécie a colocou em risco de extinção. Posteriormente, o plantio dos canaviais e a exploração de minérios foram responsáveis por fornecer exorbitantes quantidades de açúcar, ouro e diamante para a metrópole. Esta divisão internacional da produção coloca o Brasil, ao lado dos países latino- americanos, na função de produzir matéria prima e fornecer mão de obra barata, em prol do desenvolvimento das metrópoles. Não por acaso as “antigas” colônias hoje são denominadas de países em desenvolvimento e as metrópoles em países desenvolvidos. Para visualizarmos como esta estrutura internacional permanece até os dias de hoje, e que nós brasileiros pouco decidimos sobre o que produzir, onde produzir e como produzir, voltemos nosso estudo para o desenvolvimento da agricultura no nosso país. Historicamente o desenvolvimento da agricultura brasileira se inspirou no modelo industrial europeu de produção primária, que teve seu início no século XVIII, tendo como principal objetivo o aumento da escala de produção tanto nas propriedades já existentes, como também, a partir da exploração desordenada de novas áreas. Este modelo industrial imprimiu sobre o meio rural a lógica de uma fábrica, acabando com as integrações entre as diferentes culturas e promovendo a homogeneização das propriedades. Um grande marco desta transformação no campo se deu com a chamada Revolução Verde na década de 1970, quando um levante das entidades de ensino, extensão e pesquisa do país, reformularam suas linhas de ação, passando a privilegiar as áreas e disciplinas direta ou indiretamente envolvidas com a adaptação e validação do padrão agrícola que já se tornara convencional na América do Norte, Europa e Japão. Esse padrão foi consolidado sobre as seguintes linhas de atuação:

  1. Insumos químicos: utilizados com o objetivo de fornecer à planta uma situação de máxima produção, disponibilizando nutrientes sinteticamente elaborados e eliminado as “pragas” e “daninhas”, tidas como prejudiciais à produção. Os herbicidas são derivados de produtos desenvolvidos inicialmente como armas químicas, um exemplo é o “agente laranja”, que foi utilizado na década de 1960 na guerra do Vietnã como desfolhador, destruía as florestas onde os soldados vietnamitas se escondiam, possuía subprodutos extremamente cancerígenos que causaram diversas mortes no país. Na agricultura os compostos daquele veneno são aplicados até hoje para eliminar as plantas daninhas, como por exemplo, o agrotóxico Tordon. Os adubos sintéticos também derivaram das fábricas bélicas que após a segunda guerra mundial disfarçaram seu caráter e de produtoras de armas passaram a produzir fertilizantes.
  2. Mecanização: usado com o objetivo de aumentar o rendimento das atividades agrícolas antes realizadas manualmente ou com o uso de tração animal. Por ser empregada sem qualquer tipo de planejamento proporcionou um excedente de mão de

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obra no campo, acentuando a migração de camponeses para os grandes centros urbanos.

  1. Melhoramento genético: teve como objetivo a adaptação das plantas para as condições de alta produtividade (uso de insumos químicos sintéticos e preparo de solo pesado), sendo que com esse melhoramento muitas das características de rusticidade e qualidade nutricional se perderam nas culturas e nas sementes. Essa perda foi ocasionada pela restrição da diversidade genética realizada pelos programas de seleção que se focavam essencialmente na produtividade.
  2. Monoculturas em larga escala: também na lógica de transformar as propriedades rurais em fábricas, tem o objetivo de maximizar a produção em pólos agrícolas, reproduzindo a divisão internacional que vê no Brasil a função de ser o “seleiro do mundo”, fornecedor de produtos primários. Para tanto, se justificaria a existência de latifúndios, grandes extensões de terras concentrados na mão de pouco. Segundo o Atlas fundiário do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), 3% das propriedade rurais do Brasil são latifúndios, ou seja, possuem mais de mil hectares, e ocupam 56,7% das terras agricultáveis, enquanto 60% do alimento que chega à nossa mesa é proveniente da agricultura familiar.

As instituições públicas de assistência técnica rural ficaram incumbidas de impor o modelo sobre as propriedades, os agricultores eram vistos como atrasados, desprovidos de conhecimento, e assim como a igreja catequizou o índios a extensão rural brasileira impôs aos agricultores uma outra forma de se relacionarem com a terra e as plantas. Todas essas medidas constituem o pacote tecnológico da Revolução Verde, e foram amplamente difundidas no Brasil sob o discurso de sanar a fome no mundo. O curioso é que mais de 40 anos depois as linhas de ação permanecem traduzidas no Agronegócio, mas a situação parece não se modificar. O Brasil é o quarto maior em produção de alimentos e o segundo em desnutrição, com um terço da população abaixo da linha de pobreza. Segundo o relatório “O estado da insegurança alimentar no mundo 2008” (FAO), o número de pessoas com subnutrição no mundo em 1992 era de 841,9 milhões (15,3% da população mundial) e atualmente esse numero chega a 963 milhões de pessoas (14,2% da população mundial), porém, curiosamente, a produção de milho para o mesmo período aumentou 45%, o arroz 20% e a soja 97%. Assim, a agricultura moderna brasileira, tanto no campo quanto nas entidades de ensino, pesquisa e extensão, ainda carrega práticas que raramente respeitam o ambiente e o trabalhador que vive no campo. Dentre os problemas ambientais, a destruição das florestas, a erosão e contaminação dos recursos naturais e dos alimentos, tornaram-se conseqüências quase inerentes à produção agrícola, assim como os problemas sociais: a concentração da posse de terra e riquezas, êxodo rural desordenado, aumento do desemprego e assalariamento sazonal.

O Agronegócio Florestal

Voltemos nosso olhar para o setor florestal. A monocultura do eucalipto segue o modelo ditado pelo agronegócio descrito acima: grandes extensões de terras contribuindo para o aumento das desigualdades sociais, reflexo da concentração de terra nas mãos de uma minoria; uso de insumos químicos com alto potencial residual, poluindo o solo e lençóis freáticos; uso de programas de mecanização incoerentes com as regiões tropicais, e causadores de uma baixa empregabilidade; diminuição da diversidade por utilizarem uma única espécie, além da diminuição da diversidade genética, pelo uso de poucos clones. Por esses motivos é absurda a comparação deste modelo produtivo insustentável com uma Floresta, termo usado nas Universidades e pelas empresas como uma estratégia política de promover uma imagem a favor do deserto verde.

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Os índios lutavam por aquilo que lhes era de direito, a demarcação de 11. hectares que a empresa, com auxilio do governo militar, haviam lhes tomado. Em 2005, depois de uma longa e corrupta história, o Ministério Público Federal finalmente decidiu demarcar o território e a mídia, mais uma vez, não divulgou nada. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais no ano de 2008, na Amazônia Legal, em média 70 mil hectares foram desmatados por mês, totalizando 840 mil hectares no ano de 2008. Os estados responsáveis por quase a totalidade do desmatamento são Mato Grasso, Amazonas, Pará e Rondônia, e nas mesmas regiões onde estão localizados os principais focos de desmatamento também se localizam as principais empresas de produção de madeira serrada. No ano de 2005 a produção de madeira em toras de florestas naturais foi de 17,37 milhões de m³ (Sociedade Brasileira de Silvicultura), segundo o Greenpeace 80% desta madeira é de origem do desmatamento, portanto ilegal. Um dos principais líderes da organização dos seringueiros, Chico Mendes (1944- 1988), dedicou sua vida em defesa da floresta e dos povos tradicionais da Amazônia. Não se contentava em denunciar os fazendeiros que desmatavam a região de Xapuri (AC), militava em nome da “União dos Povos Floresta”. Exigia do Estado condições para que indígenas, seringueiro, castanheiros, pequenos pescadores, quebradeiras de coco babaçu e ribeirinhos pudessem manter seu modo de vida, com a premissa de que estes povos eram responsáveis pela preservação da floresta, ao contrario dos latifundiários que a desmatavam predatoriamente. Durante os últimos dez anos de sua vida, recebia diversas ameaças de morte, foi torturado em 1979 e enquadrado em processos jurídicos de “subversão” e da “Lei de segurança Nacional”, todos movidos pelos fazendeiros. Um dos seus legados foi a criação das Reservas Extrativistas, instrumento de reforma agrária e de preservação. Foi assassinado em dezembro de 1988 com um tiro de escopeta na porta dos fundos de sua casa. Meses depois os fazendeiros, mandantes do crime, Darcy Alves da Silva e Darly Alves da Silva foram condenados a 19 anos de prisão.

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SUGESTÕES PARA APROFUNDAMENTO:

Textos e artigos:

  • “Monocultura, técnica e poder”. Carlos Walter Porto-Gonçalves. Agência Brasil de Fato. 10/01/08.
  • “Sobre o conflito entre os índios e a Aracruz Celulose”. Informe-se Mais, Coletivo de apoio à causa indígena. 10/06.
  • “O discurso ecotecnocrata”. Maurício Torres. 20/03/2008. www.mst.org.br
  • “Queremos produzir alimentos”. Via Campesina
  • “Carta de Jacaraípe”. 4º Encontro Nacional da Rede Alerta Contra o Deserto Verde.
  • “Do crescimento à desconstrução da economia”. Enrique Leff. 25/08/
  • “A insustentabilidade da Revolução Verde”. José Maria G. Ferraz. Informativo Meio Ambiente e Agricultura, Embrapa Meio Ambiente. 1999.

Reportagens:

  • Luta entre índios e a Aracruz por terras no Espírito Santo durou décadas. Agência Brasil. 28/08/07.
  • Veracel é condenada a pagar R$ 20 milhões por desmatamento. Notícias do Ministério Público Federal. 10/07/08. www.noticis.pgr.mpf.gov.br

Vídeos:

  • “Cruzando o Deserto Verde”. Rede Alerta Contra o Deserto Verde (YouTube)
  • “Rompendo o Silêncio”. Via Campesina (YouTube)
  • “El Papel Del Sur”. Uruguai, 2006. (YouTube)

Monografia:

  • “Os impactos da monocultura do eucalipto nas comunidades rurais do entorno dos plantios” Grazianne A. S. Ramos. Lavras - MG, 2006.