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Antônio e Cleópatra - Shakespeare
Tipologia: Notas de estudo
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DERCETAS, amigo de Antônio, DEMÉTRIO, amigo de Antônio, FILO, amigo de Antônio, MECENAS, amigo de César, AGRIPA, amigo de César, DOLABELA, amigo de César, PROCULEIO, amigo de César, TIREU, amigo de César, GALO, amigo de César, MENAS, amigo de Pompeu, MENÉCRATES, amigo de Pompeu, VARRIO, amigo de Pompeu, TAURO, tenente-general de César, CANÍDIO, tenente-general de Antônio, SÍLIO, oficial sob as ordens de Ventídio, EUFRÔNIO, embaixador de Antônio para César, ALEXAS, servidor de Cleópatra, MARDIAN, servidor de Cleópatra, SELEUCO, servidor de Cleópatra, DIOMEDES, servidor de Cleópatra, Um adivinho,
. Um bobo, . CLEÓPATRA, rainha do Egito, . OTÁVIA, irmã de César e esposa de Antônio, CHARMIAN, criada de Cleópatra, IRAS, criada de Cleópatra, Oficiais, soldados, mensageiros e gente de serviço,
Alexandria. Um quarto no palácio de Cleópatra Entram Demétrio e Filo.
FILO - Não! Passa da medida essa loucura do nosso general. Aqueles olhos altivos que brilhavam como Marte com seu arnês chapeado, dominando multidões de soldados em revista, ora se abaixam, ora se desviam do oficio e devoção que lhes são próprios, para uma fronte escura. Aquele grande coração, que na grita das batalhas monumentais fazia que saltassem, partidas, as fivelas da couraça, agora renegou o autodomínio, para tornar-se a ventarola e o fole que acalmar tenta o ardor de uma cigana. Vede onde eles vêm vindo! (Entram Antônio e Cleópatra, com os respectivos séquitos; eunucos a abanam.) ` Tomai nota, e observareis como um dos três pilares do mundo no palhaço de uma simples rameira se mudou. Examinai-os!
CLEÓPATRA - Se é amor, realmente, revelai-me quanto.
ANTÔNIO - Pobre é o amor que pode ser contado.
CLEÓPATRA - Vou pôr um marco, para o ponto extremo do amor assinalar.
ANTÔNIO - Fora preciso descobrir novos céus, uma outra terra. (Entra um ajudante.)
AJUDANTE - Novas de Roma, meu bondoso chefe.
ANTÔNIO - Que estais! Vamos lá: resume a história.
CLEÓPATRA - Não, Antônio! Ouvi tudo. Talvez Fúlvia se encontre estomagada, ou talvez ainda o César quase imberbe vos haja ordens mandado peremptórias: "Faze isto e aquilo; toma aquele reino, liberta este outro! Cumpre as minhas ordens, se não quiseres receber castigo."
ANTÔNIO - Como, querida?
CLEÓPATRA - Talvez? Não; é certo: não podereis ficar aqui mais tempo; César já vos enviou a demissão. Por isso, Antônio, ouvi: onde é que se acha a expressa ordem de Fúlvia... isto é, de César... de ambos? - Fazei entrar os mensageiros. - Tão certo como eu ser do Egito a rainha, Antônio, tu coraste. Esse teu sangue é a maior homenagem feita a César, se não for o tributo da vergonha que tuas faces pagam, quando a língua estrídula de Fúlvia te repreende. Olá! Os mensageiros!
ANTÔNIO - Que se afunde Roma no Tibre e de seus gonzos salte a gigantesca abóbada do império. Meu espaço é este aqui. Todos os remos são argila, mais nada; nossa terra cenagosa alimenta homens e brutos, indiferentemente. Com nobreza viver é proceder desta maneira, (Abraça-a.) quando se encontra um par tão ajustado, como se dá conosco. Desafio todo o mundo, sob pena de castigo, para vir convencer-se de que somos sem confronto possível.
CLEÓPATRA - Admirável falsidade! Por que casou com Fúlvia, se não lhe tinha amor? Quero a aparência manter da tola que não sou realmente; continuará Antônio sendo o mesmo.
ANTÔNIO - Mas amimado agora por Cleópatra. Mas, pelo amor do Amor e de seus brandos momentos, não gastemos nosso tempo com debates fastientos. Nossas vidas não contêm um minuto, um só, que deva passar sem nos deixar qualquer ventura. Qual é o divertimento desta noite?
CLEÓPATRA - Ouvi os embaixadores.
ANTÔNIO - Que rainha implicante, em que tudo assenta bem: repreender, rir, chorar, e em que se esforçam as paixões porque em ti se tornem belas e admiradas. Nenhum correio, salvo se vier de tua parte. Os dois, sozinhos, percorreremos hoje à noite as ruas, para observarmos como vive o povo. Vamos, minha rainha, que isso mesmo queríeis ontem. Não; ficai calada. (Saem Antônio e Cleópatra com seus séquitos.)
DEMÉTRIO - Como! Tão pouco caso faz Antônio de César a esse ponto!
FILO - Algumas vezes, senhor, isso se dá, quando ele deixa de ser Antônio e se desfaz um pouco daquela dignidade que devia sempre estar com Antônio.
DEMÉTRIO - Fico triste por ver que ele confirma os maldizentes da rua que sobre ele em Roma falam. Mas esperemos que amanhã revele mais digna compostura. Bom repouso. (Saem)
ADIVINHO - Já vistes e provastes melhor sorte do que a que vos espera.
CHARMIAN - Então, é que meus filhos ficarão sem nome. Mas, por obséquio: ao todo, quantos meninos e quantas meninas irei ter?
ADIVINHO - Um milhão, se cada um de vossos desejos tivesse ventre e pudesse ser fecundado.
CHARMIAN - Vai saindo, tolo! Mas enfim, por seres bruxo, te perdôo.
ALEXAS - Pensáveis que vossos anelos só eram conhecidos da roupa da cama?
CHARMIAN - Vamos! vamos! Contai agora a sorte de Iras.
ALEXAS - Nós todos queremos saber a nossa sorte.
ENOBARBO - A minha sorte, como a da maior parte da dos presentes, hoje à noite consistirá... em ir bêbedo para a cama.
IRAS - Quando mais não seja, haveis de descobrir castidade na palma desta mão.
CHARMIAN - Parece o Nilo, que, quando transborda, pressagia fome.
IRAS - Vai saindo, estouvada! Não entendes de vaticínios.
CHARMIAN - Ora essa! Se uma palma untuosa não for indício de fecundidade, não poderei coçar as orelhas. Por favor, predizei-lhe apenas uma morte vulgar.
ADIVINHO - Vossa sorte é igual à dela.
IRAS - Como assim? Como assim? Descei a particularidades.
ADIVINHO - Já disse o que tinha a dizer.
IRAS - Então não tenho nem uma polegada de sorte mais do que ela?
CHARMIAN - Bem; mas dando-se o caso de terdes mesmo uma só polegada de sorte mais do que eu, onde a iríeis procurar?
IRAS - Não haveria de ser no nariz do meu marido.
CHARMIAN - Possa o céu endireitar nossos pensamentos piores. Agora Alexas! A sorte dele! A sorte dele! Ó suave Ísis só te peço que o façais casar com uma mulher que não ande. E que ela venha a morrer, para dar lugar a outra pior, seguindo-se sempre à pior outra pior ainda, até que a pior de todas o acompanhe, rindo, à sepultura, cinqüenta vezes corno manso! Exalça-me esse voto, bondosa Ísis, ainda que me venhas a negar matéria de mais peso. Imploro-te, bondosa Ísis.
IRAS - Amém. Querida deusa, atende às orações do povo, por que assim como aperta o coração ver mal casado um belo rapaz, mata de tristeza ver um rústico sem cornos. Por isso, bondosa Ísis, sem ofender o decoro, dai-lhe a sorte que ele merece.
CHARMIAN - Amém.
ALEXAS - Ora vede! Se dependesse delas fazer-me cabrão, tornar-se-iam prostitutas, só para que isso
acontecesse.
ENOBARBO - Cuidado! Eis aí Antônio.
CHARMIAN - Não; é Cleópatra. (Entra Cleópatra)
CLEÓPATRA - Não vistes meu senhor?
ENOBARBO - Não o vi, senhora.
CLEÓPATRA - Aqui não se encontrava?
CHARMIAN - Não, senhora.
CLEÓPATRA - Estava bem disposto; mas, de súbito, uma idéia romana o deixou triste. Enobarbo!
ENOBARBO - Senhora?
CLEÓPATRA - Sai em busca dele e o traze até aqui. Onde está Alexas?
ALEXAS - Aqui, às vossas ordens. Eis meu amo. (Entra Antônio, com mensageiros e criados.)
CLEÓPATRA - Não desejamos vê-lo. Vem conosco. (Saem Cleópatra, Enobarbo, Alexas, Iras, Charmian, o adivinho e criados.)
MENSAGEIRO - Fúlvia, tua mulher, foi quem primeiro se pôs em campo.
ANTÔNIO - Contra o mano Lúcio?
MENSAGEIRO - Sim.Essa guerra, porém, terminou logo; a condição do tempo os fez amigos, a juntar-se levando-os contra César que, vitorioso no primeiro embate, da Itália os expulsou.
ANTÔNIO - Bem; que há de pior?
MENSAGEIRO - As más notícias infectado deixam quem tiver de contá-las.
ANTÔNIO - Só no caso de interessarem um covarde ou um tolo. Vamos, falai; o passado não tem força nenhuma sobre mim. É o que te digo. Quem me conta a verdade, embora a morte se ache no que disser, por mim é ouvido como se me adulasse.
MENSAGEIRO - Então, Labieno - eis a notícia amarga - desde o Eufrates com suas forças partas tomou a Ásia; seu estandarte vencedor levado foi da Síria até à Lídia e à Iônia, enquanto...
ANTÔNIO - Antônio, ias dizer...
MENSAGEIRO - Oh! meu senhor!
ANTÔNIO - Sê franco em teu falar; não atenues a linguagem do povo; chama Cleópatra como em Roma lhe chamam; fala dela no fraseado de Fúlvia e censurando-me todas as faltas com o atrevimento só próprio da verdade e da malícia. Oh! é certo: de nós brotam cizânias quando repousam nossos ventos céleres. Enumerar nosso defeitos vale tanto quanto mondá-los. Por enquanto, deixa-me só.
ENOBARBO - Senhor!
ANTÔNIO - Fúlvia morreu.
ENOBARBO - Fúlvia!
ANTÔNIO - Morta!
ENOBARBO - Neste caso, senhor, aprestai às divindades um sacrifício gratulatório. Quando aos deuses apraz tirar a mulher a algum marido, este descobre neles o alfaiate da terra, consolando-se com a idéia de que, quando as roupas velhas se tornam imprestáveis, não faltam membros para fazer outras mais novas. Se em todo o mundo não houvesse outra mulher além de Fúlvia, então, sim; teríeis, realmente, recebido um corte, o que seria de lamentar. Essa mágoa é coroada pelo consolo de que a vossa velha camisola de mulher dará nascimento a uma saia nova. Em verdade, as lágrimas que se contêm numa cebola, dariam para lavar essa tristeza.
ANTÔNIO - Os negócios de Estado que por ela eram sempre tratados, não permitem agora minha ausência.
ENOBARBO - E os negócios de que tratais aqui, só se conservam de pé por vossa causa, principalmente o de Cleópatra, que depende só e só de vossa permanência.
ANTÔNIO - Basta de brincadeiras. Comunica aos nossos oficiais o que intentamos. Vou me abrir com a rainha sobre as causas desta nossa partida, o assentimento dela esperando obter. Não só a morte de Fúlvia com sinais mais insistentes nos concita a isso mesmo: muitas cartas de Roma, de igual modo, de pessoas dedicadas reclamam nossa volta. Sexto Pompeu lançou um repto a César; todo o império do mar a ele obedece. Nosso povo inconstante - cujo afeto nunca ao homem de mérito se liga, senão depois que o mérito está morto - já começou a ver Pompeu, o grande, com suas dignidades, em seu filho que alto já se acha por estado e nome, mas mais ainda pelo gênio e sangue como o maior guerreiro se apresenta. Se a crescer continuar, os próprios flancos do mundo põe em risco. Muita coisa se acha incubada que, tal como os fios da crina do cavalo fabuloso, tem vida apenas, mas carece ainda do veneno da serpe. Nosso alvitre - dize a todos que estão sob as nossas ordens - ordena que partamos sem demora.
ENOBARBO - Assim farei. (Saem.)
O mesmo. Outro quarto. Entram Cleópatra Charmian, Iras e Alexas.
CLEÓPATRA - Onde está ele?
CHARMIAN - Não o vejo há tempo.
CLEÓPATRA - Vede onde está, que faz, quem o acompanha. Não vos mandei. Se virdes que está triste, dizei que estou dançando; se contente, que me vi atacada de mal súbito. Ide logo e voltai. (Sai Alexas.)
CHARMIAN - Senhora, creio que, se lhe dedicam amor sincero, em prática não pondes o que fora preciso para o mesmo alcançar dele.
CLEÓPATRA - Como fora preciso que fizesse?
CHARMIAN - Em tudo concordar com ele, nunca contrariá-lo.
CLEÓPATRA - Qual tola tu me ensinas o modo de perdê-lo.
CHARMIAN - Sede cauta; não o tenteis. Por vezes, muito cedo votamos ódio ao que nos causa medo. Mas aí vem Antônio. (Entra Antônio.)
CLEÓPATRA - Aborrecida me encontro e doente.
ANTÔNIO - Muito me entristece ter de comunicar-vos meu intento...
CLEÓPATRA - Ajuda-me a sair, querida Charmian; sinto que vou cair. Isto não pode continuar assim por muito tempo. A natureza não resiste a tanto.
ANTÔNIO - Agora, minha cara soberana...
CLEÓPATRA - Por obséquio, afastai-vos mais um pouco.
ANTÔNIO - Que aconteceu?
CLEÓPATRA - De vosso olhar deduzo que chegaram notícias lisonjeiras. Que diz vossa mulher? Podeis ir logo. Quem me dera que ela nunca vos tivesse deixado vir; e, sobretudo, nunca possa dizer que eu sou quem vos retenho. Em vós não mando; sois somente dela.
ANTÔNIO - Os deuses sabem muito bem...
CLEÓPATRA - Oh! nunca se viu uma rainha assim traída. Mas desde o início vi brotar a insídia.
ANTÔNIO - Cleópatra...
CLEÓPATRA - Como posso dar-vos crédito sobre me pertencerdes de verdade, embora vossas juras abalassem o alto trono de Jove, se perjuro com relação a Fúlvia vos mostrastes? Loucura rematada, ver-se presa nas malhas dessas juras só de boca, que se quebram por si, quando enunciadas!
ANTÔNIO - Rainha mui querida...
CLEÓPATRA - Nada, nada de apresentar desculpas para a viagem. Dizei adeus e parti logo. Quando para ficar pedíeis, era tempo somente de palavras; em partida não se falava; a eternidade tínhamos nos olhos e nos lábios; grã ventura das sobrancelhas sempre nos pendia. Não havia parcela em nós, por ínfima que fosse, que do céu não derivasse. E tudo ainda está no mesmo ponto, salvo se tu, o herói de mais destaque no mundo todo, te mudaste agora no maior mentiroso.
ANTÔNIO - Então, senhora?
CLEÓPATRA - Quisera ter as tuas polegadas; verias que há um coração no Egito.
ANTÔNIO - Escutai-me, rainha. A mais premente necessidade exige meus serviços noutro lugar, mas fica aqui convosco todo meu coração. Rebrilha ao longe nossa Itália com os gládios de seus filhos; junto ao porto de Roma já se encontra Sexto Pompeu. As forças balançadas de dois núcleos nativos alimentam
ANTÔNIO - Partamos logo. Nossa despedida desta maneira foge e permanece: aqui permanecendo, vais comigo; eu, fugindo de ti, fico contigo. Em caminho! (Saem.)
Roma. Um quarto em casa de César. Entram Otávio César, Lépido e criados.
CÉSAR - Lépido, podeis ver e, doravante, sabendo ficareis que não é vício próprio de César odiar o nosso grande competidor. De Alexandria são estas as notícias: ele pesca, bebe e consome as lâmpadas da noite em contínuas orgias; não se mostra mais viril do que Cleópatra, nem esta - viúva de Ptolomeu - efeminada também é mais do que é ele. Raramente dá audiência ou condescende em recordar-se de que ainda tem colegas. Nele vedes um indivíduo que os defeitos todos dos homens compendia.
LÉPIDO - A convencer-me não chego de que possa haver defeitos bastantes para obnubilar-lhe os traços nativos de bondade. Nele as faltas são como as manchas que no céu se vêem, no contraste das trevas mais terríveis, que ele mudar não pode, sendo força seguir-lhes o pendor.
CÉSAR - Sois indulgente por demais. Admitamos que não haja grande mal em no tálamo deitar-se de Ptolomeu, em dar um reino em troco de uma pilhéria, em se sentar ao lado de um escravo e beber com ele à roda, cambalear pelas ruas a desoras e trocar socos com qualquer labrego que fede a suor... Dizei-me que isso lhe orna - conquanto deva ser muito estranhável a natureza que não sai manchada de semelhantes atos. - Mas é certo que não se justifica dos defeitos, porque sobre nós pesa todo o fardo de sua leviandade. Se o ócio ele enche com a volúpia, terá de justar contas com a saciedade e a consumpção dos ossos. Mas malgastar o tempo que o desperta dos prazeres com toques de rebate, e que tão alto como a nós. lhe fala do dever a cumprir, é revelar-se merecedor de justa reprimenda, como criança de saber maduro que por fugaz prazer empenha todas as lições do passado e se rebela contra a própria razão. (Entra um mensageiro.)
LÉPIDO - Mais novidades.
MENSAGEIRO - Executadas foram tuas ordens, ó muito nobre César. De hora em hora novas receberás do que se passa lá por longe. Pompeu domina os mares, parecendo que é amado por aqueles que só temiam César. Para os portos os descontentes correm, comentando todos que ele sofreu grande injustiça.
CÉSAR - Fácil me fora tal coisa ter previsto. Ensina-nos a história desde o início do tempo que quem é, só e querido até chegar a ser, e que a pessoa que se acha no declínio e que não fora prezada enquanto digna era de sê-lo, grata se torna por estar ausente. Essa turba sem nome se assemelha aos sargaços que bóiam na corrente, sem direção nenhuma, servos sempre da variável maré e que com o próprio movimento se esfazem.
MENSAGEIRO - César, trago-te a nova de que Menas e Menécrates, corsos de alto valor, o mar obrigam a obedecer-lhes, que com muitas quilhas eles lavram, abrindo fundos sulcos. Feros assaltos dão por toda a Itália; os moradores da orla ficam pálidos só de pensar em tal; a mocidade valorosa se insurge. Nenhum barco pode sair do porto; sendo visto, tomado é incontinenti, pois só o nome de Pompeu pode mais do que sua própria campanha organizada.
CÉSAR - Antônio, deixa teus banquetes lascivos! Quando, há tempo, foste expulso de Módena por teres
morto Hirto e Pansa, cônsules, a fome seguiu-te os calcanhares. Mas lutaste com ela, muito embora sempre vida tivesses dissipada, revelando resistência maior que a de um selvagem. Urina de cavalo então bebeste e o charco cintilante que refugam os próprios animais. Não desdenhava teu paladar o mais azedo fruto das mais silvestres sebes. Como o cervo, quando a neve recobre todo o pasto, chegaste a roer das árvores a casca. Nos Alpes, dizem, de uma carne estranha te alimentaste que causava a muitos a morte só de ver. E todas essas privações - a lembrança delas a honra te açoita neste instante - suportaste-as como brioso soldado, de tal modo que nem murchas as faces te ficaram.
LÉPIDO - Dá pena.
CÉSAR - Que depressa o chame a Roma seu próprio brio, pois é mais que tempo de na campanha aparecermos juntos. Para esse fim reunamos o conselho. Lucra Pompeu com nossa ociosidade. LÉPIDO - Amanhã, César, poderei dizer-vos com segurança até que ponto chegam minhas forças de mar e terra para fazer face à presente situação.
CÉSAR - Até nos vermos, vou fazer o mesmo. Adeus.
LÉPIDO - Adeus, senhor. O que souberdes sobre as desordens que se dão lá fora, far-me-eis grande obséquio revelando-mas.
CÉSAR - Ficai tranqüilo, meu senhor, sobre isso; conheço meu dever. (Saem.)
Alexandria Um quarto no palácio. Entram Cleópatra, Charmian, Iras e Mardian.
CLEÓPATRA - Charmian!
CHARMIAN - Senhora?
CLEÓPATRA - Ah! Quero beber mandrágora.
CHARMIAN - Mandrágora, senhora? Para quê?
CLEÓPATRA - Para que possa passar dormindo toda a grande brecha de tempo em que está ausente o meu Antônio.
CHARMIAN - Pensais por demais nele.
CLEÓPATRA - Ele traiu-me!
CHARMIAN - Não penso assim, senhora.
CLEÓPATRA - Eunuco Mardian!
MARDIAN - Agora que deseja Vossa Alteza?
CLEÓPATRA - Não te ouvir cantar hoje. Não me agrada quanto os eunucos têm. É muito grande felicidade, sendo destituído, como és, do sexo, não fugirem nunca do Egito teus vadios pensamentos. Acaso tens desejos?
CHARMIAN - Oh! bravo César!
CLEÓPATRA - Que um outro grito desses te asfixie. Dize: Que bravo Antônio!
CHARMIAN - Grande César!
CLEÓPATRA - Por tais, ficarás com os dentes rubros, se novamente comparares César com esse homem único.
CHARMIAN - Com vosso perdão gracioso, mas estou cantando segundo vosso tom.
CLEÓPATRA - Oh inexperiência de minha mocidade, quando verde eu tinha o juízo e frio o sangue! Vamos: dá-me papel e tinta. Hei de mandar-lhe um mensageiro diário, embora venha a despovoar o Egito. (Saem.)
Messina. Um quarto em casa de Pompeu. Entram Pompeu, Menécrates e Menas.
POMPEU - Se os deuses poderosos forem justos, hão de amparar quem se mostrar mais justo.
MENÉCRATES - Como sabeis, digno Pompeu, demora não é recusa.
POMPEU - Enquanto suplicamos diante do trono deles, vai ficando mais fraca a causa por que lhes pedimos.
MENÉCRATES - Por nos desconhecermos, muitas vezes pedimos o que mal causar nos pode, o que as sábias potências nos denegam, visando ao nosso bem. Assim, lucramos em não ver nossos votos exalçados.
POMPEU - Hei de vencer. O povo me idolatra e o mar é meu. Em progressivo aumento minhas forças estão, prognosticando-me as esperanças que elas hão de em breve chegar à cheia máxima. No Egito Marco Antônio está à mesa, não pensando em lutar extramuros. Onde César obtém dinheiro, os corações alija. Lépido adula os dois, sendo por eles adulado também, porém não ama nenhum, pois só desprezo ambos lhe votam.
MENAS - Lépido e César já em campo se acham, à frente de uma força poderosa. POMPEU - Quem vos disse isso? É falsa essa notícia.
MENAS - De Sílvio a ouvi, senhor.
POMPEU - Está sonhando. Sei que eles dois em Roma agora se acham e a Antônio esperam. Que os encantos todos do amor, ardente Cleópatra, te deixem mais macios ainda os lábios murchos! Acrescenta a magia à formosura, e às duas a lascívia. O libertino deixa preso num campo de festejos, a mente lhe mantendo sempre em névoas. Despertem-lhe o apetite cozinheiros epicúreos, com molhos esquisitos, e que o sono e os festins lhe arrastem a honra até a apatia ele alcançar do Lete. (Entra Várrio.)
Então, Várrio, que é que há?
VÁRRIO - É inteiramente certo o que vou dizer. Em Roma espera-se Marco Antônio chegar a cada instante. O tempo desde o dia da partida dele do Egito dava para viagem mais longa ainda.
POMPEU - De bom grado ouvira notícias menos grave. Não pensava, Menas, que esse amoroso libertino chegasse a pôr o capacete para ingressar numa guerra tão mesquinha. Como guerreiro, ele sozinho pesa mais do dobro dos outros dois reunidos. Mas elevemos o conceito próprio, por ver que nossa espora teve força para arrancar dos braços da viúva do Egito a Marco Antônio, esse devasso que jamais se sacia.
MENAS - Não espero que Antônio e César a entender-se venham.A falecida esposa do primeiro ofendeu muito a César; o irmão dele também o combateu, embora eu pense que nisso Antônio não tivesse parte.
POMPEU - Não sei, Menas, não sei como as pequenas inimizades dão lugar às grandes. Não fosse termos de lutar com todos, bom fora que eles entre si brigassem, pois motivo não falta a nenhum deles para sacar da espada. Mas até onde poderá o medo que lhes inspiramos cimentar a cisão que entre eles houve e liga pôr em suas rixazinhas, não sei dizê-lo. Seja tudo como quiserem nossos deuses. Nossa vida vai depender, tão-só, desta partida. Menas, vamos! (Saem.)
Roma. Um quarto em casa de Lípido. Entram Enobarbo e Lépido.
LÉPIDO - Caro Enobarbo, é obra meritória, digna de vós, levar o vosso chefe a falar com bons modos.
ENOBARBO - Convencê-lo pretendo a responder como ele mesmo. Se César o irritar, que Antônio o mire sobranceiro e depois tão alto fale como o estrondo de Marte. Sim, por Júpiter, se eu fosse o portador da barba dele, hoje a não rasparia.
LÉPIDO - Não é tempo de briguinhas pessoais.
ENOBARBO - Não; qualquer tempo serve para os assuntos dele próprio.
LÉPIDO - Mas é preciso que os assuntos mínimos cedam lugar aos grandes.
ENOBARBO - Não, no caso de haverem sido aqueles os primeiros.
LÉPIDO - Em vós fala a paixão. Mas, por obséquio, não sopreis no borralho. Ali vem vindo o nobre Antônio. (Entram Antônio e Ventídio.)
ENOBARBO - E, mais adiante, César. (Entram César, Mecenas e Agripa.)
ANTÔNIO - Se fizermos aqui um bom acordo: contra os partos. Ouviste bem, Ventídio?
CÉSAR - Não sei, Mecenas; pergunta isso a Agripa.
LÉPIDO - Caros amigos, de importância máxima era o que nos uniu; não permitamos que uma ação secundária nos separe. O que estiver errado, com paciência deverá ser ouvido. Se elevarmos a voz para
só vos cabe dizer que eu não podia alterar coisa alguma.
CÉSAR - Enviei-vos cartas, quando em Alexandria vos acháveis, num rega-bofe eterno; mas puseste-las no bolso sem as ler e com sarcasmos despachastes da audiência o meu correio.
ANTÔNIO - Ele me surpreendeu sem ser chamado, quando três reis eu recebia à mesa. Faltava-me a disposição que eu tinha pela manhã. Mas logo no outro dia eu mesmo lhe falei, o que eqüivale a apresentar desculpas. Que esse tipo em nada influa em nossa divergência. Se de brigar tivermos, afastai-o de nossas dissensões.
CÉSAR - Não mantivestes o juramento feito, o de que nunca podereis acusar-me.
LÉPIDO - Mais brandura, César!
ANTÔNIO - Deixai-o, Lépido. Sagrada é a honra a que ele se refere e de que me presume carecente. Vamos, César: qual foi o juramento?
CÉSAR - De vir em meu auxílio com soldados e numerário, quando vos pedisse, o que me recusastes.
ANTÔNIO - Melhor fora dizer: negligenciei; e isso na fase em que horas venenosas me deixavam privado da consciência de mim mesmo. Quanto em mim estiver, quero mostrar-vos meu arrependimento; mas a minha honestidade diminuir não há de minha grandeza, como sem aquela não há de o meu poder mostrar-se nunca. É verdade que Fúlvia, para atrair-me do Egito, aqui fez guerra. Tendo eu sido disso a causa inocente, peço escusas até onde for possível, sem desdouro, a minha honra inclinar-se.
LÉPIDO - Nobre fala.
MECENAS - Se concordardes, não leveis avante tais recriminações, pois esquecê-las de todo lembrar fora que a presente necessidade inculca paz entre ambos.
LÉPIDO - Mui bem dito, Mecenas.
ENOBARBO - Ou então, no caso de cada um pedir, tão-somente, por empréstimo, o amor do outro, fareis a devolução devida logo que não mais ouvirdes falar de Pompeu. Tempo não vos há de faltar para disputas, quando não tiverdes outra coisa a fazer.
ANTÔNIO - Sois um soldado, apenas; ficai quieto.
ENOBARBO - Ia-me esquecendo de que a verdade não pode falar.
ANTÔNIO - Perturbais a conversa. Assim, calai-vos.
ENOBARBO - Então, que seja. Vossa pedra pensante.
CÉSAR - O que me desagrada em sua fala não é o assunto, mas o modo, apenas, de apresentá-lo. Assim, não é possível continuarmos amigos, quando temos maneira de viver tão diferente. Se eu conhecesse, ao menos, a cadeia que poderia conservar-nos juntos, de um pólo a outro iria procurá-la.
AGRIPA - César, dá-me licença.
CÉSAR - Fala, Agripa.
AGRIPA - Tens uma irmã do lado teu materno, a admirável Otávia. Não se encontra viúvo agora o
grande Marco Antônio?
CÉSAR - Não digais isso, Agripa, pois se Cleópatra vos ouvisse, teríeis merecido a pecha receber de temerário.
ANTÔNIO - Mas eu não sou casado, César. Vamos ouvir Agripa.
AGRIPA - Para em amizade perpétua vos manter, irmãos deixar-vos e os corações num laço indissolúvel vos trazer sempre, tome Antônio a Otávia por consorte. A beleza que lhe é própria pede para marido o melhor homem; seus dotes naturais e a graça inata falam melhor do que qualquer linguagem. Com esse casamento as pequeninas invejas que ora nos parecem grandes, e os grandes medos, que perigo inculcam, a nada se reduzem. As verdades parecerão história, ao passo que hoje meias histórias passam por verdades. O amor que ela vota a ambos, um para o outro há de atrair, enquanto vosso afeto para ela vos inclina. Mas perdoai-me quanto vos disse. É um plano meditado maduramente, não fugaz capricho.
ANTÔNIO - A isso que diz César?
CÉSAR - Nada, enquanto não se certificar até onde Antônio abalado se tenha com essa idéia.
ANTÔNIO - E que poder Agripa tem, no caso de eu lhe dizer: "Pois assim seja, Agripa!" para bom termo dar a esse projeto?
CÉSAR - Todo o poder de César e a influência deste junto de Otávia.
ANTÔNIO - Nunca eu possa levantar objeções, nem mesmo em sonhos contra uma idéia tão encantadora! Dá-me a mão; leva avante esse projeto gracioso e que, a partir deste momento, um coração de irmãos dirija os nossos sentimentos e nossos grandes planos.
CÉSAR - Eis minha mão. Mais ternamente nunca irmã nenhuma foi amada como a que ora vos entrego. Que ela viva para que o coração nos una e os remos, não vindo nunca mais a abandonar-nos nosso sincero amor.
LÉPIDO - Amém! Amém!
ANTÔNIO - Não pensei em sacar de novo a espada contra Pompeu, porque recentemente tem ele a meu respeito dado provas de estranha cortesia. Vou mandar-lhe meus agradecimentos, porque minha memória não padeça vitupério. Mas, logo após, pretendo desafiá-lo.
LÉPIDO - O tempo nos concita a procurarmos Pompeu se não quisermos que ele venha para nos dar combate.
ANTÔNIO - Onde está ele?
CÉSAR - Junto ao monte Miseno.
ANTÔNIO - Já são grandes suas forças de terra?
CÉSAR - Já são grandes e sempre em crescimento; mas das águas é senhor absoluto.
ANTÔNIO - A fama é essa. Se lhe houvesse falado! Há muita pressa. Antes, porém, de nos armarmos, vamos arrematar o assunto de que há pouco nos ocupamos.