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Rei Lear - Shakespeare, Notas de estudo de Literatura

Rei Lear - Shakespeare

Tipologia: Notas de estudo

Antes de 2010

Compartilhado em 23/09/2010

izabele-caroline-rodrigues-gomes-4
izabele-caroline-rodrigues-gomes-4 🇧🇷

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REI LEAR
William Shakespeare
ÍNDICE
ATO I
Cena I
Cena II
Cena III
Cena IV
Cena V
ATO II
Rei Lear
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REI LEAR

William Shakespeare

ÍNDICE

ATO I

Cena I

Cena II

Cena III

Cena IV

Cena V

ATO II

Cena I

Cena II

Cena III

Cena IV

ATO III

Cena I

Cena II

Cena III

Cena IV

Cena V

Cena VI

Cena VII

ATO IV

Cena I

Cena II

Cena III

Cena IV

Cena V

Cena VI

curiosidade não saberá decidir-se por nenhuma delas.

KENT - Este rapaz é vosso filho, milorde?

GLOSTER - Sua educação, senhor, esteve a meu cargo. Tantas vezes corei de confessá-lo, que presentemente já me encontro calejado.

KENT - Não posso compreender-vos.

GLOSTER - Mas a mãe deste mancebo o compreendia perfeitamente, senhor; tanto assim, que ficou com o ventre arredondado com um filho que arranjou para seu berço, antes de conseguir um marido para o seu leito. Percebeis alguma falta nisso?

KENT - Não posso desejar que a falta não houvesse sido cometida, à vista da graça de suas conseqüências.

GLOSTER - Mas possuo um filho legítimo, senhor, coisa de um ano mais velho do que este, que nem por isso tenho em mais alta estima. É verdade que este peralta veio ao mundo com certo descoco, antes de ser chamado; mas também é verdade que sua mãe era muito linda. Foi gerado na folia, sendo me agora preciso reconhecer o bastardo. Conheceis este gentil-homem, Edmundo?

EDMUNDO - Não, milorde.

GLOSTER - É o milorde de Kent; de agora em diante lembra-te dele como de honrado amigo meu.

EDMUNDO - Ao dispor de Vossa Senhoria.

KENT - Desejo amar-vos e peço que me ensejeis oportunidades de conhecer-vos mais de perto.

EDMUNDO - Esforçar-me-ei por merecê-lo, senhor.

GLOSTER - Esteve fora nove anos e precisará sair de novo. O rei vem vindo. (Fanfarra. Entram Lear, Cornualha, Albânia, Goneril, Regane, Cordélia e séqüito.)

LEAR - Gloster, fazei entrar na sala os nobres da França e da Burgúndia.

GLOSTER - Neste instante, meu soberano. (Saem Gloster e Edmundo.)

LEAR - Enquanto isso, mostrar pretendo nossos desígnios mais recônditos. Um mapa! Ficai sabendo, assim, que dividimos nosso reino em três partes, sendo nossa firme intenção livrar-nos, na velhice, dos cuidados, bem como dos negócios, para confiá-los a mais jovens forças, e, assim, nos arrastarmos para a morte, de qualquer fardo isento. Nosso filho de Cornualha, assim como vós, Albânia, filho também não menos caro, temos o propósito certo, neste instante, de declarar publicamente o dote de nossas filhas, para que a discórdia futura fique obviada desde agora. Os príncipes da França e da Burgúndia, grandes rivais no amor de nossa filha mais nova, em nossa corte já fizeram sua parada longa e apaixonada. Ora aguardam resposta. Minhas filhas - já que neste momento nos despimos do governo, não só, dos territórios e cuidados do Estado - ora dizei-me qual de vós mais amor nos tem deveras, porque alargar possamos nossa dádiva onde contende a natureza e o mérito. Fale primeiro Goneril, a nossa filha mais velha.

GONERIL - Senhor, amo-vos mais do que as palavras poderão exprimir, mais ternamente do que a visão,

o espaço, a liberdade, muito mais do que tudo que é prezado, raro ou valioso, tanto quanto a vida com saúde, beleza, honras e graça, como jamais amou filha nenhuma ou pai se viu amado; é amor que torna pobre o alento e o discurso balbuciante. Amo-vos para além de todo extremo.

CORDÉLIA (à parte) - Cordélia que fará? Ama e se cala.

LEAR - Todo este trecho aqui, de uma a outra linha, com suas matas e campinas ricas, com rios caudalosos e seus prados de larga bordadura, te pertencem. De tua prole e de Albânia, como posse perpétua vai ficar. Que diz agora nossa segunda filha, a queridíssima Regane, esposa de Cornualha? Fala.

REGANE - De igual metal que minha irmã sou feita e pelo preço dela me avalio. No imo peito descubro que ela soube dar expressão ao meu amor sincero. Mas ficou muito aquém, pois inimiga me declaro de quantas alegrias se contenham na mui preciosa esfera dos sentidos tão-só. Achei minha única felicidade na afeição de Vossa mui querida Grandeza.

CORDÉLIA (à parte) - Então, coitada de Cordélia! Contudo, nem por isso, pois estou certa de que meu afeto mais rico é do que a língua.

LEAR - Que para ti e os teus fique de herança permanente este terço avantajado do nosso belo reino, em rendas, graças e extensão não menor em nenhum ponto do que o que em sorte coube a Goneril. Nossa alegria, agora, conquanto a última, não a menor, e cujo afeto jovem os vinhedos da França e o branco leite da Burgúndia disputam: que podeis dizer-nos para um terço mais opimo virdes a obter do que os das vossas manas? Falai.

CORDÉLIA - Meu senhor, nada.

LEAR - Nada?

CORDÉLIA - Nada.

LEAR - De nada sairá nada. Novamente dizei alguma coisa.

CORDÉLIA - Oh desditosa! Trazer não posso o coração à boca. Amo a Vossa Grandeza como o dever me impõe, nem mais nem menos.

LEAR - Que é isso, Cordélia? Concertai um pouco vossas palavras, para não deitardes a perder vossa dita.

CORDÉLIA - Meu bondoso senhor, vós me gerastes, educastes e me amastes, pagando eu todos esses benefícios qual fora de justiça: com obediência e amor vos honro sempre extremamente. Por que têm maridos minhas irmãs, se dizem que vos amam sobre todas as coisas? Se algum dia vier a casar, há de seguir o dono do meu dever apenas a metade de meu amor, metade dos cuidados e das obrigações. Certeza é nunca vir a casar-me como as duas manas, para amar a meu pai por esse modo. LEAR - Do coração te veio o que disseste?

CORDÉLIA - Sim, meu senhor.

LEAR - Tão jovem e tão áspera?

CORDÉLIA - Tão jovem, meu senhor, e verdadeira.

LEAR - Então vai ser teu dote só a tua veracidade. Pois pela sagrada irradiação do sol, pelos mistérios de

LEAR - Ouve-me, biltre! Por teu dever de vassalagem, ouve-me! Já que tentaste provocar a quebra de nosso voto - o que jamais fizemos - e com teimoso orgulho te meteste entre nossa sentença e nosso trono

  • o que não pode suportar a nossa natureza, nem menos nosso posto - de pé nosso poder, toma tua paga: cinco dias te damos, porque possas contra os males do mundo premunir-te; ao sexto voltarás o dorso odioso a todo o nosso reino; e se no décimo esse corpo banido for achado dentro de nossas terras, esse instante será tua morte. Já daqui! Por Júpiter, não haverá revogação agora.

KENT - Adeus, rei. Declarar quero a verdade: o exílio é aqui, e longe, a liberdade. (A Cordélia.) Possam os deuses te amparar, menina, cujo pensar com o bom discurso afina. (A Regane e Goneríl.) Que por bons atos sejam confirmados vossos largos discursos e empolados. - Kent, assim, se despede dos presentes e a novas terras leva os pés dolentes. (Sai.) (Fanfarra. Volta Gloster com França, Burgúndia e pessoas do séqüito.)

GLOSTER - Senhor, França e Burgúndia estão presentes.

LEAR - Milorde de Burgúndia, primeiramente a vós nos dirigimos, que sois rival, com este soberano, na corte à nossa filha. Qual o mínimo que exigis como dote e em cuja falta desistis do pedido?

BURGÚNDIA - Muito nobre majestade, não peço nada acima do que já ofereceu Vossa Grandeza, que menos não dará.

LEAR - Nobre Burgúndia, quando cara nos era, nós a tínhamos nesse preço; mas ora baixou muito. Senhor, ali está ela. Se algum traço dessa coisinha de nenhum realce ou até mesmo ela toda, redobrada de nosso desfavor, sem mais acréscimo, pode do agrado ser de Vossa Graça: ela aqui está; pertence-vos.

BURGÚNDIA - Ignoro que responder.

LEAR - Quereis, com as faltas todas que lhe são próprias, sem nenhum amigo, adotada por nosso recente ódio, com toda nossa maldição por dote, expulsada por nosso juramento, levá-la ou recusá-la?

BURGÚNDIA - Real senhor, perdão; mas nessas condições, é claro, ninguém faz uma escolha.

LEAR - Então deixai-a, senhor; porque vos assevero, em nome do poder que me criou, que toda a sua fortuna é o que vos disse. (A França.) Vós, potente soberano, de vosso amor não quero tão longe me afastar, que almeje ver-vos unido a quem odeio. Assim, suplico-vos desviar vossa afeição para um objeto mais digno do que a mísera criatura que a natureza quase se envergonha de declarar por sua.

FRANÇA - É muito estranho que aquela que, até há pouco, era a mais rara jóia de vosso afeto, o tema excelso de vossos elogios, vosso bálsamo na velhice, a melhor, a mais querida, pudesse cometer assim, de pronto, um crime tão monstruoso que desmanche tantas pregas da graça. Com certeza mui contrário à natura foi seu crime, e muito a deturpou, se vosso afeto tão notório não é o que antes era. Acreditar tal coisa a seu respeito, só com o auxílio da fé, pois, sem milagre, a isso a razão jamais me levaria.

CORDÉLIA - Suplico entanto a Vossa Majestade - pois careço dessa arte lisa e untuosa de falar em contrário ao próprio intento, pois o que fazer quero já realizo, mesmo antes de falar - que deixeis claro não ter sido nenhum vício infamante, velhacaria alguma, ato impudico, nem qualquer passo menos

decoroso que de vosso favor e vossa graça me privou neste instante, mas apenas a carência daquilo que me deixa mais rica ainda: o olhar adulador e língua que não ter muito me alegra muito embora essa falta seja a causa de me fazer perder vossa amizade.

LEAR - Melhor te fora nunca ter nascido, do que deixares de agradar-me agora.

FRANÇA - Então, foi isso apenas? Uma certa lentidão natural, que, muitas vezes, deixa de relatar a própria história do que fazer pretende? Que dizeis, milorde de Burgúndia, desta noiva? O amor não é amor, quando se mescla de considerações que muito aberram da meta principal. Ficais com ela?

BURGÚNDIA - Dai-lhe, real Lear, unicamente a parte que havíeis prometido, e, neste instante, tomo Cordélia pela mão e a faço Duqueza de Burgúndia.

LEAR - Nada; sou firme; fiz um juramento.

BURGÚNDIA - Muito me pesa, então, que após haverdes perdido o pai, também percais o esposo.

CORDÉLIA - Seja a paz com Burgúndia! Já que havia em seu amor intuitos de riquezas, não serei sua esposa.

FRANÇA - Linda Cordélia, pobre, ainda és mais rica; mais procurada, ainda, no abandono, e mais amada, quando desprezada: de ti, dessas virtudes, apodero-me neste momento. Seja, assim, legítimo apanhar o que foi jogado fora. Que estranho, ó deuses! que um glacial desprezo o respeito me inflame e deixe preso! Deserdando tua filha, ó rei! deste ansa para rainha eu a fazer da França. Nenhum dos duques da Burgúndia aquosa a noiva minha levará preciosa. Cordélia, adeus lhes dize, cruéis embora; perdes aqui, para ganhar lá fora.

LEAR - França, leva-a contigo; é tua; nós tal filha já não temos, não, e após o que houve ela perdeu, por mais que faça, nosso amor, nossa bênção, nossa graça. Vamos, nobre Burgúndia. (Fanfarras. Saem Lear, Burgúndia, Cornualha, Albânia, Gloster e séqüito.)

FRANÇA - Dizei adeus agora a vossas manas.

CORDÉLIA - Jóias de nosso pai, com olhos úmidos Cordélia ora vos deixa. Eu vos conheço, mas como irmã não quero dar o nome verdadeiro de vossas faltas todas. Cuidai de nosso pai; entrego-o a vossos peitos que os próprios méritos proclamam. No entanto, ai! se em sua graça eu me encontrasse, talvez melhor asilo lhe mostrasse. Assim, adeus para ambas.

REGANE - Não queirais ensinar nossos deveres.

GONERIL - Procurai agradar vosso marido que como esmola vos pegou da sorte. Revelastes caráter obstinado; digna, portanto, sois do vosso fado.

CORDÉLIA - O tempo há de mostrar quem tem malícia, que a vergonha é o castigo da estultícia. Passai bem.

FRANÇA - Vamos, linda Cordélia. (Saem França e Cordélia.)

GONERIL - Mana, não é pouco o que tenho a dizer sobre um assunto que nos toca muito de perto. Creio que nosso pai vai partir esta noite.

EDMUNDO - Nada, milorde.

GLOSTER - Nada? Que necessidade havia, então, de enfiá-lo tão depressa no bolso? O que em si mesmo é nada, não tem necessidade de ser escondido desse modo. Deixai-me ver! Vamos! Se for mesmo nada, não precisarei de óculos.

EDMUNDO - Peço-vos, senhor, que me perdoeis; é uma carta de meu irmão, que eu ainda não li até ao fim; mas pelo que pude ver assim por cima, penso que seu conteúdo é impróprio para vossa vista.

GLOSTER - Dai-me essa carta, senhor!

EDMUNDO - Farei mal tanto em recusá-la com em dar-vo-la. Seu conteúdo, pelo que pude alcançar, é censurável.

GLOSTER - Quero vê-la; quero vê-la.

EDMUNDO - Quero crer, como justificativa de meu irmão, que ele escreveu apenas com o intuito de provar ou confirmar minha virtude.

GLOSTER - "Nossas instituições e o respeito à velhice tornam o mundo amargo para os nossos melhores anos, privam-nos dos bens até que nossa caduquice não se possa aproveitar deles. Começo a ver uma escravidão inútil e presunçosa na opressão da tirania envelhecida, que governa não porque tenha poder, mas por ser tolerada. Procurai-me, para que eu possa expandir-me a esse respeito. Se nosso pai dormisse até que eu o despertasse, gozaríeis para sempre da metade das rendas dele e seríeis o bem-amado de vosso irmão Edgar." - Hum! Conspiração! "Se dormisse até que eu o despertasse, gozaríeis da metade das rendas dele." - Meu filho Edgar teve mão para escrever isto? coração e cérebro para concebê-lo? Como te veio isto ter às mãos? Quem te trouxe esta carta?

EDMUNDO - Não foi trazida, senhor, e nisso é que consiste toda a treta; foi jogada pela janela de meu quarto.

GLOSTER - Reconheceis a letra de vosso irmão?

EDMUNDO - Se o assunto fosse bom, milorde, eu iria jurar que a letra é dele; mas quando o considero mais de perto, quero crer que não seja.

GLOSTER - É dele, sim.

EDMUNDO - A mão é dele, milorde; mas espero que o coração não esteja no conteúdo.

GLOSTER - Antes, ele nunca vos sondou a esse respeito?

EDMUNDO - Nunca, milorde; mas por várias vezes já o ouvi asseverar que quando os filhos atingem a idade adulta e os pais começam a declinar, o pai deveria tornar-se como que pupilo do filho, ficando seus bens sob a direção deste.

GLOSTER - Oh celerado! celerado! A mesma coisa que ele diz na carta! Celerado execrável! Celerado desnaturado, odioso, bestial! Pior do que bestial! Vai buscá-lo imediatamente. Vou prendê-lo. Abominável celerado! Onde está ele?

EDMUNDO - Ao certo não sei, milorde. Se concordardes em sustar vossa indignação contra meu irmão,

até que possais tirar dele melhores testemunhos de suas intenções, seguireis por um caminho certo; ao passo que se procederdes com violência e vos enganardes quanto aos seus planos, abrireis em vossa honra uma grande brecha e destruireis o próprio coração de sua obediência. Atrevo-me a apostar a vida em como ele escreveu isso tudo apenas para pôr à prova a afeição que eu voto a Vossa Honra, sem qualquer intenção maldosa.

GLOSTER - Pensais desse modo?

EDMUNDO - Se Vossa Honra concordar, eu vos colocarei em um lugar de onde possais ouvir-nos conversar a esse respeito, vindo desta arte a convencer-vos pelo próprio testemunho dos ouvidos, e isso sem delongas, ainda esta tarde.

GLOSTER - Não é possível que ele seja tão monstruoso...

EDMUNDO - De forma alguma; tenho certeza.

GLOSTER - ... com relação a seu próprio pai, que lhe dedica amor tão terno e desinteressado... Céu e terra! Edmundo, ide procurá-lo; sondai-o, por obséquio; arranjai tudo de acordo com vossa sabedoria. Daria todos os meus haveres para poder alcançar plena certeza a esse respeito.

EDMUNDO - Vou procurá-lo, senhor, neste momento; farei tudo do melhor modo possível e vos porei a par do que houver.

GLOSTER - Esses últimos eclipses do sol e da lua não nos anunciam nada bom. Muito embora a ciência da natureza possa explicá-los desta ou daquela maneira, a própria natureza se sente chicoteada pelos efeitos que se lhes seguem. O amor esfria, a amizade desaparece, os irmãos se desavêm; nas cidades, tumultos; nos campos, discórdias; nos palácios, traições, rompendo-se os laços entre filhos e pais. Esse meu filho desnaturado confirma aqueles sinais: é filho contra pai. O rei se afasta da trilha da natureza: é pai contra filho. Já vimos o melhor de nosso tempo: maquinações, imposturas, traições e toda sorte de desordens ruinosas nos acompanham sem sossego até à sepultura. Vai buscar-me esse celerado, Edmundo; nada terás a perder. Procede com cautela. E o nobre e magnânimo Kent, banido! Seu crime, a honestidade! É muito estranho! (Sai.)

EDMUNDO - Essa é a maravilhosa tolice do mundo: quando as coisas não nos correm bem - muitas vezes por culpa de nossos próprios excessos - pomos a culpa de nossos desastres no sol, na lua e nas estrelas, como se fôssemos celerados por necessidade, tolos por compulsão celeste, velhacos, ladrões e traidores pelo predomínio das esferas; bêbedos, mentirosos e adúlteros, pela obediência forçosa a influências planetárias, sendo toda nossa ruindade atribuída a influência divina... Ótima escapatória para o homem, esse mestre da devassidão, responsabilizar as estrelas por sua natureza de bode. Meu pai se juntou a minha mãe sob a cauda do Dragão e minha natividade se deu sob a Grande Ursa: de onde se segue que eu tenho de ser violento e lascivo. Pelo pé de Deus! Eu teria sido o que sou, ainda que a mais virginal estrela do firmamento houvesse piscado por ocasião de minha bastardização. Edgar... (Entra Edgar.) Pronto! Ei-lo que chega, tal qual a catástrofe na velha comédia. Minha deixa é "Melancolia pérfida", com um suspiro como os de Tom de Bedlam. Oh! Esses eclipses pressagiam as desordens que vemos. Fá, sol, lá, mi!

EDGAR - Olá, mano Edmundo! Que graves meditações são essas?

Cena III

Um quarto no palácio do duque de Albânia. Entram Goneril e seu intendente Osvaldo.

GONERIL - Meu pai bateu no gentil-homem, por ter este ralhado com o bobo dele?

OSVALDO - Sim, minha senhora.

GONERIL - Dia e noite me ofende. Não se passa nenhuma hora sem que ele não fuzile com qualquer grosseria, que a nós todos traz somente discórdia. Não o suporto; turbulentos estão seus cavaleiros e a censurar-nos ele próprio vive por dá cá aquela palha. Não pretendo falar com ele, quando vier da caça. Dizei que estou doente; e, se cumprirdes com certa negligência algum serviço, estará bem; responderei por tudo.

OSVALDO - Ei-lo, senhora; ouço o barulho, dele. (Ouve-se toque de trompa.)

GONERIL - Mostrai a negligência que quiserdes, vós e os outros de casa, pois desejo que me venha falar a esse respeito. Se não gostar, então que se transfira para a casa da mana, cujo modo de pensar, estou certa, está de acordo com o meu, em não querer ser governada. Velho caduco, a pretender o mando sobre o que já doou! Por minha vida, os velhos tontos são de novo crianças; com ralhos, só, precisam ser tratados. Lembrai-vos do que eu disse.

OSVALDO - Sim, senhora.

GONERIL - E lançai frio olhar para seus homens. Pouco importa o que vier; avisai todos. Quero achar nisso tudo algum pretexto para poder falar. Sem mais delongas, escreverei à mana, para que ela faça como eu. Prepara logo a ceia. (Saem.)

Cena IV

Uma sala no mesmo. Entra Kent disfarçado.

KENT - Se eu puder conseguir uma outra fala que torne a minha estranha, é bem possível que minha boa empresa a alcançar venha o êxito pleno pelo qual as próprias feições desfigurei. Banido Kent, se ora servir puderes lá mesmo de onde há pouco foste expulso, pode se dar que o mestre a que tanto amas te encontre serviçal. (Toque de trompa. Entram Lear, cavaleiros e séqüito.)

LEAR - Não me façam esperar nem um segundo pelo jantar. Vai logo aprontá-lo. (Sai o criado.) Então, quem és tu?

KENT - Um homem, senhor.

LEAR - Qual é a tua profissão? Que pretendes de nós?

KENT - Minha profissão é não ser menos do que pareço; servir fielmente a quem confiar em mim; amar quem for honesto; conversar com quem for sábio e falar pouco; temer a justiça; brigar quando não houver outro jeito, e não comer peixe.

LEAR - Quem és tu?

KENT - Um tipo de coração honesto e tão pobre quanto o rei.

LEAR - Se como súdito és tão pobre quanto ele como rei, és, realmente, paupérrimo. Que desejas?

KENT - Serviço.

LEAR - A quem queres servir?

KENT - A vós.

LEAR - Conheces-me, companheiro?

KENT - Não, senhor; mas revelais algo em vossa postura, que me leva a vos chamar de mestre.

LEAR - E que coisa é essa?

KENT - Autoridade.

LEAR - Que serviços podes prestar?

KENT - Sei guardar um segredo honesto, montar a cavalo, correr, estropiar uma história interessante, dizer grosseiramente uma mensagem fácil. Tudo o que um homem ordinário pode fazer, eu também posso, sendo o melhor em mim a diligência.

LEAR - Que idade tens?

KENT - Não sou tão jovem, senhor, para amar uma mulher por causa de seu canto, nem tão velho para me apaixonar por ela sem motivo: tenho quarenta e oito anos na carcunda.

LEAR - Segue-me; irás servir-me. Se depois do jantar não me pareceres pior, não nos separaremos muito logo. O jantar, olá! Onde está o meu rapaz? O meu bobo? - Vós, aí: ide chamar o meu bobo. (Sai um criado.) (Entra Osvaldo.) Vós aí, maroto: onde está minha filha?

OSVALDO - Se o permitis... (Sai.)

LEAR - Que foi que disse aquele tipo? Chamai-me aqui esse rústico. (Sai um cavaleiro.) Onde está o meu bobo, eh! Só parece que o mundo está dormindo. Então, onde está esse mastim? (Volta o cavaleiro.)

CAVALEIRO - Ele disse, milorde, que vossa filha não está passando bem.

LEAR - Por que motivo aquele escravo não voltou, quando o chamei?

CAVALEIRO - Senhor, ele me respondeu redondamente que não queria voltar.

LEAR - Não queria?

(Oferece o gorro a Kent.)

LEAR - Então, meu belo peralta, que estás fazendo?

BOBO - Amigo, farias bem em aceitar o meu gorro.

KENT - Por quê, bobo?

BOBO - Por teres tomado o partido de quem já caiu no desagrado. É assim; se não puderes sorrir do lado do vento, em pouco tempo apanharás resfriado. Toma; fica como meu gorro. Ora vê, este sujeito baniu duas de suas filhas e fez um grande favor à terceira, contra a própria vontade dela. Se vais segui-lo, precisarás usar o meu gorro. Então, meu tio? Quisera ter dois gorros e duas filhas.

LEAR - Por quê, menino?

BOBO - Se eu chegasse a lhes dar todos os meus haveres, me reservaria os gorros. Este aqui me pertence; pede outro a tuas filhas.

LEAR - Toma cuidado com a chibata, maroto!

BOBO - A verdade é um cachorro que se mete na casinha e precisa ser chibateada para sair, enquanto a senhora galga pode ficar a feder junto do fogo.

LEAR - Pestilência amarga para mim!

BOBO (a Kent) - Amigo, vou ensinar-te um discurso.

LEAR - Ouçamo-lo.

BOBO - Toma nota, tio: Não esbanjes teu estado; embora o saibas, calado; não andes, sejas levado; no aprender, muito cuidado; guarda sempre o mor bocado; deixa as mulheres e o vinho; não te metas com o vizinho, porque em uma e outra dezena terás mais uma vintena.

KENT - Isso tudo e nada é a mesma coisa, bobo.

BOBO - Então é como discurso de advogado sem salário. Destes-me nada por ele. Tio, poderíeis fazer algum uso de nada?

LEAR - Não, menino; nada pode ser feito de nada.

BOBO - (a Kent) - Por obséquio, dize-lhe a quanto monta a renda de suas terras; ele não acredita num bobo.

LEAR - Um bobo amargo.

BOBO - Saberás dizer, meu rapaz, que diferença há entre um bobo amargo e um bobo doce?

LEAR - Não, menino; ensina-ma.

BOBO - Quem o conselho te deu de doar todas as tuas terras põe aqui ao lado meu, e o dele toma; não erras: verás logo, lado a lado, o doce bobo e o amargoso; um aqui, sarapintado, o outro aí mesmo, achacoso.

LEAR - Com isso queres dizer que eu sou bobo, menino?

BOBO - Já abriste mão de todos os outros títulos; esse é o único que te veio do berço.

KENT - Milorde, o que ele disse não é inteiramente destituído de senso. BOBO - Não, por minha fé; os senhores e os grandes não permitirão que eu fique sozinho; se eu obtiver o monopólio, eles hão de querer sua parte, e as senhoras também; não deixarão que toda a loucura fique comigo; virão arrebatar-me um pedaço. Tio, dá-me um ovo, que te darei duas coroas.

LEAR - Que espécie de coroas?

BOBO - Ora, depois de haver cortado o ovo em duas partes e comido o seu conteúdo, as duas coroas do ovo. Quando partiste pelo meio a tua coroa e deste as duas metades, carregas-te o burro às costas através do atoleiro. Não tinhas espírito em tua coroa calva, quando fizeste presente da de ouro. Se eu falar sobre isso como costumo, que seja chicoteado o primeiro que me compreender. Nunca os lobos passaram tanto apuro. O sábio é tolo e fraco; a mente não podendo usar no escuro, vive como macaco.

LEAR - Desde quando ficaste tão amigo de canções, maroto?

BOBO - Ora, tio, desde que de tuas filhas fizeste tuas mães. Porque desde que lhes entregaste a vergasta e desceste os calções, elas choram de alegria; de tristeza eu rio e canto, por ver um rei na folia mas na cabeça, nem tanto. Tio, por obséquio, arranja um mestre-escola que ensine teu bobo a mentir. Desejara muito aprender a mentir.

LEAR - Se mentires, maroto, serás açoitado.

BOBO - Não posso compreender que tu e tuas filhas sejais aparentados; elas me açoitam por eu dizer a verdade, enquanto tu pretendes fazer o mesmo no caso de eu mentir, sem contarmos que algumas vezes tenho sido açoitado por estar quieto. Quisera ser tudo neste mundo, menos bobo, mas não desejo ser o que és, tio; dos dois lados raspaste o espírito, sem deixar nada no meio. Aí vem vindo uma das raspadoras. (Entra Goneril.)

LEAR - Então, filha? Por que esse diadema carrancudo? Ultimamente só parece que andais sempre de sobrecenho fechado.

BOBO - Tu eras um belo tipo, quando não precisavas preocupar-te com as suas carrancas; agora és um zero sem número. Presentemente, sou mais do que tu; sou um bobo, ao passo que tu és nada. (A Goneril.) Pois não, pois não! Vou segurar a língua, que é o que vossa fisionomia me está ordenando, muito embora nada houvésseis dito. Mum, mum! Quem não guardou mel nenhum, tem de viver em jejum. Ali está uma ervilha sem grão. (Apontando para Lear.)

GONERIL - Não somente, senhor, o vosso bobo, que se permite muitas liberdades, como outros cavaleiros insolentes de vosso séqüito, a cada hora brigam e suscitam questões, fazendo arruaças de todo intoleráveis. Pois, senhor, pensei que, pondo-vos a par do fato, acharia remédio; mas começo, realmente, a me temer, pelo que há pouco dissestes e fizestes, que esse abuso apoio encontra em vós, tomando alento em vossa tolerância. Se for isso, não deixará de ser punida a falta nem de velar os meios de defesa que, ao bem-estar de todos só visando, poderá ofender-vos por maneira que, em outras conexões, fora

amargoso. Ó Lear! Ó Lear! (Batendo na testa.) Bate agora a esta porta, que a loucura deixou entrar e o teu tão caro juízo permitiu que saísse. Vamos, vamos, minha gente!

ALBÂNIA - Senhor, sou inocente, como não sei também qual o motivo que vos deixou colérico.

LEAR - É possível, meu senhor. Natureza, agora me ouve! Deusa querida, atende-me! Suspende teus desígnios, se acaso pretendias deixar fecunda agora esta criatura; ao ventre lança-lhe a esterilidade, ressequidos lhe deixa os órgãos todos da procriação, não permitindo nunca que lhe nasça do corpo desprezível uma criança que a possa honrar um dia. Se tiver de procriar, que tenha um filho feito só de malícia, porque viva para um desnaturado e pervertido tormento lhe ser sempre. Que lhe faça muitas rugas nascer na fronte jovem e, com ardentes lágrimas, profundos sulcos lhe abra nas faces; que compense com chacotas e riso os sofrimentos e cuidados maternos, para que ela possa ver como dói mais fundamente que o dente da serpente a filha ingrata. Fora daqui! Partamos!

ALBÂNIA - Deuses do alto, que adoramos, que é que houve?

GONERIL - Não vos seja preocupação saberdes o motivo. Que seus caprichos tenham livre o campo que sua caduquice lhes confere. (Volta Lear.)

LEAR - Como! Cinqüenta dos meus homens, postos de lado, de uma vez, em quinze dias?

ALBÂNIA - Que aconteceu, senhor?

LEAR - Já vou contar-te. (A Goneril.) Vida e morte! Envergonha-me que tenhas poder para abalar dessa maneira minha virilidade e que estas lágrimas escaldantes, que à força se me escapam, te façam parecer condigna delas. Caiam em ti nevoeiros e rajadas. Que as feridas profundas da paterna maldição os sentidos te corroam. Velhos olhos e tontos, se chorardes novamente essa causa, hei de arrancar-vos para ao barro atirar-vos e, com as gotas que estiverdes perdendo, amolecê-lo. Chegamos a este ponto? Pois que seja! Outra filha me resta, estando eu certo de que ela é para mim bondosa e afável. Quando vier a saber o que fizeste, há de com as próprias unhas arranhar-te essas feições de lobo. Então, a forma me verás reassumir que ora presumes perdida para sempre. É o que te digo. (Saem Lear, Kent e o séqüito.)

GONERIL - Ouvistes tudo?

ALBÂNIA - Goneril, não posso ser tão parcial, embora vos estime...

GONERIL - Por obséquio, é o bastante. Olá! Osvaldo! (Ao bobo.) Vós, senhor, mais velhaco do que bobo, segui vosso patrão.

BOBO - Tio Lear! Tio Lear! Espera aí e leva o bobo contigo! Se uma raposa eu pegasse com sua filha repace e o couro dela tirasse... De gorro assim sobre a face, seria o bobo da classe. (Sai.)

GONERIL - Esse homem tem razão: cem cavaleiros! Fora boa política, em verdade, deixá-lo com cem

homens que, por nada, qualquer queixa, capricho ou fantasia, armas à caduquice lhe dariam, ficando dependendo nossas vidas só de sua mercê. Olá, Osvaldo!

ALBÂNIA - Vosso medo é excessivo.

GONERIL - É mais seguro do que confiar demais. E preferível o obstáculo afastar de que me temo, a temer ser pegada de surpresa. Conheço-o muito bem; já por escrito comuniquei à mana o que ele disse. Se ela o aceitar com todos os seus homens depois de eu ter mostrado... (Entra Osvaldo.) Então, Osvaldo, já escrevestes a carta para a mana?

OSVALDO - Sim, escrevi, senhora.

GONERIL - Levai convosco alguns dos nossos homens e parti a cavalo. Dai-lhe plenas informações de tudo o que receio, acrescentando o que quiserdes, para reforçar o recado. Parti logo, e, assim, voltai depressa. (Sai Osvaldo.) Não, milorde, essa brandura que mostrais, leitosa, conquanto eu não censure, permiti-me que vos diga, porém: mais censurado sois por falta de senso do que mesmo louvado por bondoso em demasia.

ALBÂNIA - Não sei até onde vosso olhar alcança, mas temo que estragueis a boa usança.

GONERIL - Então...

ALBÂNIA - Bem, bem; os fatos o dirão. (Saem.)

Cena V

Pátio diante do mesmo. Entram Lear, Kent e o bobo.

LEAR - Parti na frente, para Gloster, com estas cartas. Não conteis a minha filha do que sabeis senão o que ela vos perguntar com relação ao assunto da carta. Se não fordes muito diligente no recado, chegarei lá primeiro.

KENT - Não dormirei, senhor, enquanto não tiver entregue vossa carta. (Sai.)

BOBO - Se o homem tivesse o cérebro no calcanhar, não correria o risco de apanhar frieira?

LEAR - Correria, pequeno. BOBO - Então peço-te que fiques alegre, porque o teu espírito não irá andar de chinelas.

LEAR - Ah, ah, ah!

BOBO - Vais ver como tua outra filha te trata bem, porque embora ela se pareça tanto com esta aqui como uma maçã silvestre com uma maçã comum, posso dizer o que posso dizer.

LEAR - Que é que podes dizer, pequeno? BOBO - Que ela te vai ser de gosto tão idêntico ao gosto desta como o de duas maçãs silvestres. Saberás dar-me a razão de termos o nariz no meio do rosto?

LEAR - Não.