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Coriolano - Willian Shakespeare
Tipologia: Notas de estudo
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(Coriolanus)
PRIMEIRO CIDADÃO - Estais mesmo decididos a morrer, de preferência a passar fome?
TODOS - Estamos! Estamos!
PRIMEIRO CIDADÃO - Inicialmente, sabeis que Caio Márcio é o principal inimigo do povo.
TODOS - Sabemos! Sabemos!
PRIMEIRO CIDADÃO - Matemo-lo, portanto, e teremos trigo pelo preço que bem entendermos. Resolvido?
TODOS - A esse respeito, nem mais uma palavra. Passemos à ação. Vamos! Vamos!
SEGUNDO CIDADÃO - Uma palavra, bons cidadãos.
PRIMEIRO CIDADÃO - Somos tidos na conta de cidadãos pobres; só os patrícios é que são bons. O que deixa fartos os dirigentes bastaria para aliviar-nos. Se nos cedessem apenas as sobras deles, que ainda estivessem em boas condições, poderíamos imaginar que eles nos aliviavam humanamente. Mas acham que somos por demais caros. A magreza que nos aflige, retrato de nossa miséria, é como que o inventário minucioso da riqueza de todos eles. Para eles nosso sofrimento é lucro. Vinguemo-nos, portanto, com nossos bastões, antes de ficarmos reduzidos a ripas; pois os deuses sabem que o que me faz dizer isso é a fome de pão, não a sede de vingança.
SEGUNDO CIDADÃO - Quereis agir especialmente contra Caio Márcio?
PRIMEIRO CIDADÃO - Contra ele em primeiro lugar; é um verdadeiro cão para o povo.
SEGUNDO CIDADÃO - Já pensastes nos serviços que ele prestou ao país?
PRIMEIRO CIDADÃO - Perfeitamente, e com muito gosto lhe faria por isso boas referências; mas ele se apaga com o próprio orgulho.
SEGUNDO CIDADÃO - Ora! falai sem maldade.
PRIMEIRO CIDADÃO - É o que vos digo. O que ele fez de glorioso foi apenas para esse fim. Muito embora as pessoas de consciência delicada possam dizer com suficiência que ele fez tudo isso pela pátria, fê-lo para agradar a mãe e por causa do seu próprio orgulho, que, sem dúvida, vai de par com seu merecimento.
SEGUNDO CIDADÃO - Considerais vício nele o que é inerente à sua natureza. Pelo menos não podereis dizer que ele seja cúpido
PRIMEIRO CIDADÃO - Se não posso dizê-lo, nem por isso fico sem acusações contra ele. Tem defeitos de sobra, que cansaria enumerar. (Gritos ao longe.) Que gritos serão esses? O outro lado da cidade já se revoltou. E nós que fazemos aqui, a tagarelar? Ao Capitólio!
TODOS - Vamos! Vamos!
PRIMEIRO CIDADÃO - Silêncio! Quem vem aí?- (Entra Menênio Agripa.)
SEGUNDO CIDADÃO - É o digno Menênio Agripa. Sempre se mostrou amigo do povo.
PRIMEIRO CIDADÃO - É muito honesto. Quem nos dera que todos fossem como ele.
MENÊNIO - Que tendes, meus concidadãos, em mira? Para onde ides com paus e cachaporras?
Que se passa? Dizei-me, por obséquio.
PRIMEIRO CIDADÃO - Nossa causa não é desconhecida do senado; nestes quinze dias eles já farejaram o que pretendemos fazer e que vamos mostrar-lhes agora com os próprios fatos. Eles dizem que os suplicantes pobres têm fôlego comprido; mas hão de ver que nossos braços também são compridos.
MENÊNIO - Mestres, caros amigos, bons vizinhos, quereis arruinar-nos?
PRIMEIRO CIDADÃO - Isso não será possível, senhor; já estamos arruinados.
MENÊNIO - Acreditai-me, amigos: os patrícios têm por vós todos a mais caridosa solicitude. Com respeito a vossas necessidades e o que estais sofrendo com essa carestia, tanto vale bater no céu com todas essas armas, como jogá-las no romano Estado, que seguirá seu curso, arrebentando dez mil freios mais fortes do que quanta resistência pudésseis antepor-lhe. No que respeita à carestia - os deuses, não os patrícios, são seus causadores - remédio lhe virá de vossos joelhos, não dos braços. Oh céus! Fostes levados pela calamidade aonde maiores, ainda, vos esperam. Caluniastes os pilotos do Estado, que de todos vós cuidam como pais, sempre zelosos, enquanto os insultais como a inimigos.
PRIMEIRO CIDADÃO - Cuidam de nós? Muito certo, realmente! Nunca se incomodaram conosco; deixam-nos morrer de fome, enquanto seus celeiros estão abarrotados de trigo; promulgam editos sobre a usura, para favorecerem os onzeneiros; revogam diariamente dispositivos estabelecidos contra os ricos e promulgam todos os dias estatutos cada vez mais vexatórios, para encadear e oprimir o povo. Se as guerras não nos devorarem antes, eles o farão. É esse todo o amor que revelam a nosso respeito.
MENÊNIO - De duas uma: ou confessais que sois muito maldosos, ou tolos por demais. Vou relatar-vos uma fabula muito interessante. Decerto a conheceis; mas como serve muito bem a meus fins, vou arriscar-me a contá-la de novo.
PRIMEIRO CIDADÃO - Muito bem; vamos ouvi-la, senhor; mas não vades imaginar que podereis chasquear de nossa miséria com uma fabulazinha qualquer. Não tem importância; quando quiserdes podereis principiar.
MENÊNIO - Contra o estômago os membros se insurgiram certo dia, acusando-o de no meio do corpo colocar-se, preguiçoso sempre e inativo, e, como sorvedouro, absorver, insaciável, a comida, sem nunca contribuir com sua parte para o comum trabalho, enquanto os outros órgãos viam, andavam, refletiam, sentiam e falavam, contribuindo cada um, assim, com sua parte, para proverem às comuns necessidades e apetites do corpo. Respondeu-lhes o estômago... -
PRIMEIRO CIDADÃO - Ora bem, senhor: qual foi a resposta do estômago?
MENÊNIO - Vou dizer-vos, senhor. Com uma espécie de sorriso, que não se originava dos pulmões, um sorriso deste modo - pois, no final de contas, tanto posso dotar o estômago de fala como fazer que ele sorria - com um sorriso desdenhoso falou aos insurrectos, aos membros sediciosos que invejavam suas atividades absorventes, tal como ora fazeis, só por maldade, com nossos senadores, por não serem em tudo iguais a vós.
MÁRCIO - Quem vos desse palavras boas vos adularia de produzir engulhos. Que vos falta, cães ordinários, se não vos agrada nem a paz nem a guerra? Esta vos causa pavor; aquela vos aumenta a empáfia. Quem se fiasse de vós, na hora precisa, em vez de leões encontraria lebres; em lugar de raposas, simples patos. Não; mais seguros não vos mostrais nunca do que um carvão ardente sobre o gelo, ou saraiva no sol. Vossa virtude consiste em exaltar quem abatido se acha das próprias faltas, para, logo, malsinar a justiça. Quem se mostra merecedor de glória, de vosso ódio também se mostra. Tal como os desejos de certos doentes são vossos impulsos, que visam sobretudo quanto possa aumentar-lhes a doença. Quem depende de vossa graça nada com espadanas de chumbo e abate robles com gravetos. Enforcai-vos! Confiar em vós? Mudais de idéia a cada instante; achais que é nobre quem vosso ódio até há pouco merecia, e infame o que era vosso emblema máximo. Que aconteceu? Por que motivo em vários quarteirões da cidade gritais tanto contra o nobre senado que sob a égide dos deuses vos mantém sempre com medo, que, do contrário, vos devoraríeis uns aos Outros? - Dizei: que é que eles querem?
MENÊNIO - Trigo por preço que eles estipulem, pois acham que há bastante na cidade.
MÁRCIO - Vão todos se enforcar! Acham? Ao fogo! Ficam sentados e saber presumem quanto no Capitólio está passando: quem poderá subir, quem enriquece, quem declina; a facções diversas se unem, conjeturais alianças põem por terra, reforçam seus partidos e enfraquecem os que no desagrado lhes caíram, pondo-os abaixo dos sapatos rotos. Acham que há muito trigo? Se a nobreza pusesse a compaixão de lado e a espada deixasse que eu usasse, logo um monte faria de pedaços desses biltres, da altura desta lança.
MENÊNIO - Não; estes estão já persuadidos, pois embora lhes falte em grande escala qualquer discernimento, são covardes a mais não poder ser. Mas, por obséquio, que diz o outro magote?
MÁRCIO - Dispersaram-se. Que se enforquem! Disseram-se esfomeados. Sopravam certas máximas: que a fome rompe muralhas; ou que até cachorro precisa de alimentos; que comida foi feita para as bocas, e que os deuses não deram trigo apenas para os ricos. Com esses trapos é que fazem vento para suas lamúrias. Responderam-lhes, e tendo sido satisfeito numa das exigências - coisa perigosa, de arrebentar o próprio coração da generosidade e deixar pálido o poder mais altivo - logo os gorros a jogar para cima começaram, como se pretendessem espetá-los lá nos cornos da lua, arrefecendo de pronto a grande ardência.
MENÊNIO - E que vitória aí alcançaram?
MÁRCIO - A de terem cinco tribunos, por escolha livre deles, para defesa da sabedoria do populacho. Júnio Bruto é um deles, e Sicínio Veluto, e... os outros. - Bolas! - Como posso saber? Destelharia primeiro essa canalha Roma inteira, antes de obter de mim uma tal coisa. O tempo os deixará mais fortes, sobre dar nascimento a temas de mais peso, para novas revoltas.
MENÊNIO - É curioso!
MÁRCIO - Ide embora, fragmentos! Para casa! (Entra apressadamente um mensageiro.)
MENSAGEIRO - Onde está Caio Márcio?
MÁRCIO - Aqui. Que é que houve?
MENSAGEIRO - Senhor, a novidade é que esses volscos estão em armas.
MÁRCIO - Muito isso me alegra; assim, teremos oportunidade de ventilar um pouco as nossas sobras emboloradas. Vede, aí vêm vindo nossos graves anciões. (Entram Comínio, Tito Lárcio e outros senadores; Júnio Bruto e Sicínio Veludo.)
PRIMEIRO SENADOR - Márcio, é verdade quanto nos referistes não faz muito: que se haviam os volscos levantado.
MÁRCIO - É que eles têm um chefe, Tulo Aufídio, que vos dará trabalho. Tenho inveja, confesso-o, da nobreza que lhe é própria. Não fosse eu ser eu mesmo, desejara ser ele, tão-somente.
COMÍNIO - Já tivestes ocasião de com ele medir forças.
MÁRCIO - Se metade do mundo se encontrasse com a outra parte em luta, e ele estivesse do meu lado, eu passara para o imigo, só para o combater, só pelo orgulho de caçar esse leão.
PRIMEIRO SENADOR - Então, meu digno Márcio, servi sob a ordem de Comínio.
COMÍNIO - Assim o prometestes.
MÁRCIO - Sim, confirmo, senhor, minha promessa; sou constante. Tito Lárcio, hás de ver-me novamente atacar Tulo Aufídio. Como! Coxo? Vais ficar fora?
TITO - Não, meu Caio Márcio; antes firmar-me numa das muletas e combater com a outra, do que ver-me excluído dessa pugna.
MENÊNIO - Oh sangue nobre!
PRIMEIRO SENADOR - Ide conosco até ao Capitólio, onde os nossos melhores companheiros, tenho certeza, estão à nossa espera.
TITO (a Comínio) - Ide na frente. (A Márcio.) Acompanhai Comínio; seguiremos atrás. A precedência o mérito é que indica.
COMÍNIO - Nobre Márcio!
PRIMEIRO SENADOR (aos cidadãos) - A vossa casas recolhei-vos. Vamos!
MÁRCIO - Não; que nos sigam todos. Têm os volscos bastante trigo; levai esses ratos para roerem os celeiros deles. Dignos amotinados, vosso brio já começa a dar frutos. Vinde! Vinde! (Saem os senadores, Comínio, Márcio, Tito e Menênio; os cidadãos se dispersam.)
SICÍNTO - Há alguém, como este Márcio, tão soberbo?
BRUTO - Não há ninguém como ele.
SICÍNIO - Quando escolhidos fomos para o cargo de tribunos do povo...
BRUTO - Não notastes os olhos dele e os lábios?
SICÍNIO - Não; apenas seus sarcasmos.
BRUTO - Achando-se irritado, não teme criticar os próprios deuses.
AUFÍDIO - Oh! não o duvideis; falo com provas. Mais, ainda: uma parte de seus homens já está em marcha, e para nossas bandas. Deixo Vossas Nobrezas. Se eu e Caio Márcio nos encontrarmos, já fizemos o juramento de lutar sem pausa, até que um de nós dois fique por terra.
TODOS - Que os deuses vos assistam.
AUFÍDIO - E conservem Vossas Honras em paz.
PRIMEIRO SENADOR - Adeus.
SEGUNDO SENADOR - Adeus.
TODOS - Adeus. (Saem.)
Roma. Um quarto em casa de Márcio. Entram Volúmnia e Vergília; sentam-se em dois tambores e começam a costurar.
VOLÚMNIA - Cantai alguma coisa, filha, por obséquio, ou exprimi-vos por qualquer Outro modo prazenteiro. Se meu filho fosse meu marido, eu me mostraria mais alegre com essa ausência, em que ele ganha honra, do que com os abraços do leito nupcial com que ele me testemunhasse mais amor. Quando ele ainda era grácil de corpo e o único filho de minhas entranhas; quando sua adolescência, com a graça muito própria, atraía todos os olhares; quando qualquer outra mãe, ainda que instada durante um dia todo por um rei, não se teria privado de uma hora da satisfação de contemplá-lo: eu, considerando que o mais adequado adorno de sua beleza seria a glória e que ele valeria tanto como um quadro pendurado na parede, se aquela não o animasse, aprazia-me em mandá-lo procurar perigo onde pudesse encontrar a fama. Mandei-o para uma guerra cruel, de onde ele retornou com a fronte coroada de louros. Digo-te, filha, que não foi menor a minha alegria ao ouvir que havia dado à luz a um varão, do que ao saber pela primeira vez que ele se afirmara como homem.
VERGÍLIA - Mas se ele tivesse morrido nesse negócio, senhora: que aconteceria depois?
VOLÚMNIA - Depois, o meu filho ficaria sendo seu belo nome, que me teria dado posteridade. Permite que te confesse com sinceridade: se eu tivesse uma dúzia de filhos, todos iguais em meu amor, e nenhum menos caro do que o teu e o meu bom Márcio, preferira ver onze morrer nobremente por sua pátria a que um somente se fartasse numa inação cheia de volúpia. (Entra uma dama.)
DAMA - A senhora Valéria veio ver-vos.
VERGÍLIA - Dai-me licença para retirar-me.
VOLÚMNIA - Não; de jeito nenhum. Só me parece que ouço o tambor, daqui, de vosso esposo; vejo-o a puxar pelo cabelo Aufídio, fugindo dele os volscos como as crianças fogem dos ursos; vejo-o como bate com o pé no chão, assim, e como grita: "Poltrões, segui-me! Concebidos fostes no medo, embora em Roma ao mundo viésseis!" A fronte ensangüentada, então, limpando com a mão de malha, segue para diante, tal como o ceifador que recebera por tarefa segar toda a lavoura, se receber quiser o estipulado.
VERGÍLIA - A fronte ensangüentada! Oh não! Por Júpiter! Sangue, não!
VOLÚMNIA - Oh! calai-vos, minha tola. Sangue é adorno mais belo, para os homens, do que troféu dourado. O seio de Hécuba amamentando Heitor, mais agradável aparência não tinha do que a fronte do próprio Heitor, quando estilava sangue nos prélios contra os gregos. - A Valéria dize que ela é bem-vinda a nossa casa. (Sai a dama.)
VERGÍLIA - Que os céus amparem meu marido contra o terrível Aufídio!
VOLÚMNIA - Ele há de a fronte fazer vergar de Aufídio até aos joelhos, e o pescoço pisar-lhe. (Volta a dama com Valéria e um porteiro.)
VALÉRTA - Minhas senhoras, bom dia para ambas.
VOLÚMNIA - Querida senhora!
VERGÍLIA - Alegro-me por Vossa Graça.
VALÉRIA - Como estais passando? Ambas sois notoriamente caseiras. Que estáveis cosendo? Belo modelo, em verdade. Como está vosso filhinho?
VERGÍLIA - Fico muito agradecida a Vossa Graça: está passando bem, minha boa senhora.
VOLÚMNIA - Ele prefere ver espadas e ouvir tambor, a olhar para o mestre-escola.
VALÉRIA - Dou minha palavra em como é igualzinho ao pai. Iria jurar que é uma criança linda. Por minha fé, na quarta-feira eu o contemplei durante meia hora: tem uma fisionomia decidida. Vi-o correr empós de uma borboleta dourada; depois de a ter pegado, soltou-a de novo; depois, tornou a persegui-la por várias vezes, sempre a correr atrás dela, até tornar a apanhá-la. Por último, ou por ter ficado exasperado por ter caído, ou por outra razão qualquer, rangeu os dentes assim e a despedaçou. Oh! deveríeis ter visto como a deixou em pedacinhos!
VOLÚMNIA - Revela os mesmos caprichos do pai.
VALÉRIA - Realmente; é uma nobre criança.
VERGÍLIA - É muito esperto, minha senhora.
VALÉRTA - Vamos, ponde de lado essa costura; passareis comigo a tarde de hoje como donas de casa desocupadas.
VERGÍLIA - Não, minha boa senhora; hoje não porei os pés fora da porta.
VALÉRIA - Não poreis os pés fora da porta?
VOLÚMNIA - Sim, sim; ela o fará.
VERGÍLIA - Não, não, se mo permitirdes. Não transporei o umbral da casa enquanto meu senhor não voltar da guerra.
VOLÚMNIA - Ora! Encarcerais-vos por maneira absurda. Vamos; precisais ir visitar a boa senhora que teve criança.
LÁRCIO - Aceito.
MÁRCIO - Dize: encontrou o general os volscos?
MENSAGEIRO - Estão à vista, mas não se falaram.
LÁRCIO - O bom cavalo é meu.
MÁRCIO - Compro-o de volta.
LÁRCIO - Não o vendo nem o dou, mas vo-lo empresto por cinqüenta anos. Intimai Coríolos para parlamentar.
MÁRCIO - A que distância os dois corpos estão?
MENSAGEIRO - Há milha e meia.
MÁRCIO - Então é certo ouvirmos seus rebates e eles os nossos. Marte, ouve meu voto! Dá que possamos terminar logo isto, para, de espadas fumegantes, irmos auxiliar os amigos na campanha. Corneteiro, o sinal! (Toque para parlamentar. Sobre os muros aparecem dois senadores e vários cidadãos.) Dentro dos muros se encontra Tulo Aufídio?
PRIMEIRO SENADOR - Não; não temos na cidade ninguém que vos receie menos que ele, o que é menos do que nada. (Toque de tambor.) Ouvi! Nossos tambores os mancebos levam para o combate. Antes, decerto, derruirmos nossos muros, que ficarmos encurralados neles. Nossas portas, que julgais bem trancadas, estão presas apenas por caniços: por si mesmas hão de se escancarar. Ouvi ao longe! (Rebate longínquo.) É Tulo Aufídio. Ouvi de longe o estrago que ele faz, como fenda, em vosso exército.
MÁRCIO - Então já se atracaram.
LÁRCIO - Que esse estrondo nos sirva de lição. Escadas, eh! (Os volscos passam para o palco.)
MÁRCIO - Não nos temem, pois saem da cidade. Em frente ao coração ponde os escudos e combatei com corações mais duros do que os próprios escudos. Bravo Tito, para a frente. O desdém que eles demonstram ultrapassa de muito o que pensávamos. Suo de indignação. Meus companheiros, avançai! Tomarei por um dos volscos quem eu vir a recuar, e hei de mostrar-lhe se meu aço é cortante. (Alarma. Os romanos são repelidos até suas próprias trincheiras. Volta Márcio.)
MÁRCIO - Que os flagelos do sul sobre vós caiam! Sois o opróbrio de Roma, sois rebanho... Que as úlceras e as chagas vos emplastrem, para que vos torneis aborrecidos antes mesmo de terdes sido vistos, e cada um a infecção transmita aos outros, contra o vento, a uma milha de distância. Almas de pato com feitio de homens! Fugis de escravos. Até mesmo os monos os teriam batido. Pluto e inferno! Todos feridos por detrás! As costas rubras e as faces pálidas de medo febril, todos fugis! Voltai à carga, pelos fogos do céu! Caso contrário, deixarei o inimigo e farei guerra contra vós todos. Tende mais coragem! Vinde! Se persistirmos, a eles todos para as próprias esposas tocaremos, como conosco estão fazendo
agora para nossas trincheiras. (Novo rebate. Tornam a entrar os volscos e os romanos, sendo renovada a pugna. Os volscos se retiram para Coríolos, perseguindo-os Márcio até às portas da cidade.) Vede, as portas estão escancaradas; secundai-me. A sorte se abre para os que perseguem, não para os fugitivos. Vede tudo que eu fizer e segui-me. (Entra na cidade.)
PRIMEIRO SOLDADO - Que loucura! Não o acompanharei.
SEGUNDO SOLDADO - Nem eu, tampouco. (Fecham-se as portas da cidade.)
TERCEIRO SOLDADO - Ei-lo trancado.
TODOS - Está perdido, aposto. (O alarma continua.) (Volta Tito Lárcio.)
LÁRCIO - Que foi feito de Márcio?
TODOS - Morto, chefe, sem dúvida nenhuma.
PRIMEIRO SOLDADO - perseguindo bem rente aos calcanhares os fugintes, entrou com eles. Mas a porta, súbito, sobre ele se fechou. Está sozinho, para a toda cidade fazer frente.
LÁRCIO - Ó nobre companheiro! que insensível! sendo, faz mais do que o insensível gládio e firme se mantém onde este dobra! Estás abandonado, Caio Márcio. Uma pedra preciosa de teu porte não fora jóia de maior valia. Eras guerreiro em tudo condizente com os votos de Catão: não só com golpes rudes e violentos, mas também com a tua mirada pavorosa e as atroadoras pancadas de tua voz, os inimigos estremecer fazias, parecendo que tremia de febre o mundo todo. (Volta Márcio, coberto de sangue, perseguido pelos inimigos.)
PRIMEIRO SOLDADO - Olhai, senhor!
LÁRCIO - É Caio Márcio! Vamos libertá-lo ou, se não, morrer com ele. (Batem-se, entrando todos na cidade.)
Coríolos. Uma rua. Entram alguns romanos, com despojos.
PRIMEIRO ROMANO - Levo isto para Roma.
SEGUNDO ROMANO - E eu, isto aqui.
TERCEIRO ROMANO - Ora que peste! Parecia prata! (O tumulto prossegue ao longe.) (Entram Márcio e Tito Lárcio, com um corneteiro.)
MÁRCIO - Vede essa gente ativa, que avalia seu tempo pelas dracmas já, fendidas. Só colheres de chumbo, travesseiros, ferro velho, gibões como os carrascos com os próprios donos enterrar costumam...
MÁRCIO (dentro) - Cheguei tarde?
COMÍNIO - Não distingue o pastor com mais acerto entre o trovão e o rufo de tambores, como eu distingo a voz do grande Márcio entre outras mais humildes. (Entra Márcio.)
MÁRCIO - Cheguei tarde?
COMÍNIO - Sim, caso não tragais sangue inimigo como manto, mas próprio.
MÁRCIO -Num abraço como do meu noivado vos aperto de encontro ao coração tão jubiloso como no casamento, quando tochas para o leito de núpcias me levavam.
COMÍNIO - Flor dos guerreiros, que é de Tito Lárcio?
MÁRCIO - Está ocupado apenas com decretos, uns à morte condena, outros, a exílio; deste se compadece, a um outro ameaça, aceita o preço do resgate de outro, Coríolos conservando para Roma tal como dócil galgo na correia que à vontade afrouxamos.
COMÍNIO - Onde se acha o poltrão que me disse que vós tínheis recuado até às trincheiras? Onde se acha? Chamai-o aqui.
MÁRCIO - Deixai-o, pois vos disse, tão-somente, a verdade. Quanto a nossos cavalheiros, a plebe numerosa - a peste em todos! e vão ter tribunos! - nunca do gato correu tanto o rato, como eles de poltrões piores do que eles.
COMÍNIO - Teremos tempo para tais histórias? Onde está o inimigo? Sois senhores do campo? Se o não sois, por que parastes antes de sê-lo?
COMÍNIO - Márcio, não tivemos sorte no encontro e fomos obrigados a recuar até aqui, por estratégia.
MÁRCIO - Onde está o inimigo? Sabeis a ordem de suas tropas e onde dispuseram seus homens de confiança?
COMÍNIO - Penso, Márcio, que as tropas da vanguarda são de antíates, as de maior confiança, sob o mando de Aufídio, o próprio coração de suas mais gratas esperanças.
MÁRCIO - Pelos prélios em que já temos combatido juntos; pelo sangue que, juntos, derramamos; por nossos votos de amizade eterna, conjuro-vos a enviar-me sem demora ao encontro de Aufídio e seus antíates. Não deixeis escapar a conjuntura; mas, enchendo o ar de espadas e de lanças, aproveitemos a hora.
COMÍNIO - Muito embora preferisse vos ver num grato banho e, após, os membros reforçar com bálsamo, não ouso denegar vosso pedido: escolhei, pois, os que melhor vos podem auxiliar nessa empresa.
MÁRCIO - Os mais capazes são os de boa vontade. Assim, vos digo: se houver alguém aqui - fora pecado duvidá-lo - que tenha amor à tinta com que me vejo agora besuntado; que por sua pessoa menos tema do que por um mau nome, e considere que é preferível uma heróica morte à vida mal vivida; alguém que a pátria coloque muito acima de si mesmo: que esse valente - seja um só, ou muitos - agite o braço assim, para mostrar-nos sua disposição, e siga Márcio.
(Todos prorrompem em exclamações, agitam as espadas, carregam Márcio e jogam os bonés para o alto.) Oh, deixai-me! Pensais que eu seja espada? Se essas demonstrações forem sinceras, quem não valerá mais que quatro volscos? Não há entre vós outros quem não possa antepor um escudo ao grande Aufídio, tão duro quanto o dele. Muito embora a todos agradeça, um certo número, somente, escolher vou. Em qualquer outro recontro os mais terão a sua parte, conforme as circunstâncias o exigirem. Em frente, pois. E agora, bem depressa, quatro entre vós escolham para minha sortida os mais dispostos.
COMÍNTO - Ide, amigos, a lealdade provai de vosso gesto; conosco parte igual tereis em tudo. (Saem.)
As portas de Coríolos. Tito Lárcio, tendo posto sentinelas nas portas de Coríolos, sai da cidade com tambor e corneta, para ir ao encontro de Caio Márcio, acompanhado de um tenente, um destacamento de soldados e de um batedor.
LÁRCIO - Assim; guardai as portas; cumpri todas as minhas instruções. Enviai-me aquelas centúrias, se eu mandar pedir reforço.
TENENTE - Podeis ficar tranqüilo.
LÁRCIO - Entrai, fechando sobre nós vossas portas. Vamos, guia; conduze-nos ao campo dos romanos. (Saem.)
Um campo de batalha entre o acampamento dos romanos e dos volscos. Alarma. Entram por lados diferentes Márcio e Aufídio.
MÁRCIO - Só lutarei contigo, pois te odeio mais ainda que a um perjuro.
AUFÍDIO - Justamente como eu a teu respeito. Não possui a África uma serpente que eu odeie mais do que a tua glória insuportável. Firma o pé.
MÁRCIO - Como escravo do outro morra quem primeiro correr e que o condenem depois os imortais.
AUFÍDIO - Se eu fugir, Márcio, escorraça-me como a lebrezinha.
MÁRCIO - Há pouco menos de três horas, Tulo, sozinho combati em vossos muros. Fiz lá o que bem quis. Não é meu sangue que vês a revestir-me. Para tua vingança, pois, arma tua força ao máximo.
AUFÍDIO - Ainda que Heitor tu fosses, o flagelo de que se ufana vossa altiva raça, não poderias escapar-me agora. (Batem-se. Entram alguns volscos em socorro de Aufídio.) Serventes, não guerreiros, vosso auxílio amaldiçoado me cobriu de opróbrio! (Saem combatendo, perseguidos por Márcio.)
da vitória. Em testemunho disso, presenteio-o com meu nobre cavalo, conhecido no nosso acampamento, acompanhado de todos os pertences. De hoje em diante, por causa de seus feitos em Coríolos, será - com a aclamação de todo o exército - chamado Caio Márcio Coriolano! Possas usar o nome com nobreza.
TODOS - Caio Márcio Coriolano! (Fanfarra. Sons de trombetas e tambores.)
CORIOLANO - Vou lavar-me; depois de limpo o rosto, vereis se eu coro ou não. De qualquer forma, vos fico agradecido. De bom grado monto em vosso cavalo, prometendo trazer esse bonito sobrenome como penacho do elmo e enaltecê-lo quanto em mim estiver.
COMÍNIO - Agora vamos para as tendas; mas antes do descanso escreveremos para Roma sobre nosso grande sucesso. Tito Lárcio, tereis de retornar para Coríolos e nos mandar os cidadãos mais dignos com quem posamos conversar acerca dos nossos interesses e dos deles.
LÁRCIO - Assim farei, senhor.
CORIOLANO - Já começaram os deuses a zombar de mim. Havendo neste momento recusado dádivas principescas, forçado ora me vejo a pedir um favor ao general.
COMÍNIO - De antemão está feito. Que desejas?
CORIOLANO - De uma feita em Coríolos hospedei-me em casa de um pobre homem, que acolhida muito amiga me deu. Vi-o há momentos prisioneiro; gritou para o meu lado. Mas nesse instante descobri Aufídio, abafando-me a cólera a piedade. Requeiro-vos, assim, a liberdade de meu pobre hospedeiro.
COMÍNIO - Oh! bem pedido! Fosse ele o matador de um de meus filhos, livre seria como o próprio vento. Tito, soltai-o.
LÁRCIO - Márcio, e o nome dele?
CORIOLANO - Por Júpiter, esqueci! Estou cansado. Sinto a memória fraca. Não teremos vinho aqui perto?
COMÍNIO - Vinde a nossa tenda. Está secando o sangue em vosso rosto. É tempo de cuidarmos disso. Vamos. (Saem.)
O acampamento dos volscos. Fanfarra. Toque de corneta. Entra Tulo Aufídio, coberto de sangue, acompanhado de dois ou três soldados.
AUFÍDIO - Foi tomada a cidade!
PRIMEIRO SOLDADO - Vai ser restituída em vantajosas condições.
AUFÍDIO - Condições! Quisera ser romano, pois não posso, como volsco, ser tudo o que sou mesmo. Condições! Que tratado conter pode condições boas para uma das partes que à mercê está da outra? Cinco vezes, Márcio, lutei contigo, e cinco vezes fui derrotado, o que se dará sempre, quero crer, se medíssemos as forças o número de vezes que comemos. Oh! pelos elementos! Se de novo com ele me
encontrar barba com barba, meu será ou eu dele. Já não mostra meu ardor a lealdade costumeira. Antes, pensava em vir a dominá-lo em iguais condições de resistência: espada honrosa contra espada... Agora, se de novo o atacar, de qualquer jeito hei de vencê-lo: por astúcia ou força.
PRIMEIRO SOLDADO - Ele é o demônio.
AUFÍDIO - Muito mais ousado, mas menos astucioso. Envenenado meu valor se acha agora pela ofensa feita por ele. Só por causa dele fugirá de si mesmo. Nem santuário, nem sono, o estado de nudez, de doença, nenhum templo, nem mesmo o Capitólio, a hora do sacrifício, as santas preces dos sacerdotes, todos esses óbices antepostos à fúria, nada pode doravante antepor seus privilégios e usos embolorados contra o grande ódio que eu voto a Márcio. Vindo a achá-lo, seja na minha casa, sob a guarda de meu irmão, e até contra o direito sagrado que a todo hóspede devemos, no sangue de seu coração pretendo lavar a mão feroz. Ide à cidade saber que força há lá e que pessoas como reféns terão de ir para Roma.
PRIMEIRO SOLDADO - E vós, não vindes?
AUFÍDIO -Não; vou esperar-vos no bosque de ciprestes. For obséquio - fica no sul dos moinhos da cidade - ide contar-me como vai o mundo. Conforme os passos dele, hei de esforçar-me por apressar os meus.
PRIMEIRO SOLDADO - Pois não, senhor. (Saem.)
Roma. Uma praça pública. Entram Menênio, Sicínio e Bruto.
MENÊNIO - O áugur me disse que esta noite vamos ter notícias.
BRUTO - Boas ou más?
MENÊNLO - Pouco conformes aos votos do povo, pois ele não gosta de Márcio.
SICÍNIO - A natureza ensina os animais a conhecer os amigos.
MENÊNIO - For obséquio, a quem ama o lobo?
SICÍNIO - Ao cordeiro.
MENÊNIO - Sim, para devorá-lo, tal como os plebeus famintos desejariam fazer com Márcio.
BRUTO - É um cordeiro, com efeito, que bala como urso.
MENÊNIO - É um urso, com efeito, que vive como cordeiro. Ambos vós sois velhos; respondei ao que vos vou perguntar.
SICÍNIO E BRUTO - Perfeitamente, senhor.
MENÊNIO - De que enormidade é Márcio pobre, que não tenhais em abundância?