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Famílias desavindas. 72. 7. Interminável invasão. 77. 8. Memórias da crise militar. 86. 9. Deus. 90. 10. Fenómenos de aviação.
Tipologia: Exercícios
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Três personagens transviadas
Escrevo num computador instalado num móvel polido que tem uma prateleira que se puxa. Muito vulgarizados, tais móveis podem encontrar-se em qualquer loja informática das grandes. Menciono este dado pessoal porque ele estabe- lece o cenário de desconfortáveis ocorrências, há pouco mais duma hora, aqui no meu escritório. Possuir um móvel des- tes não é coisa de que alguém se gabe, e eu preferiria ocultar o facto, se não fosse necessário confessá-lo. Estava a premir a tecla F11, quando um homenzinho magro, de fato escuro completo e chapéu fora de moda emer- giu atrás do teclado e começou a fazer esforços para se içar para o tampo superior, onde se agigantam monitor e impres- sora. Levantava os braços, numa gesticulação que me pare- ceu desesperada e dava grandes saltos, em cima da consola. Calçava sapatos ferrados que tiravam do plástico x sons fortes lembrando bicadas repetidas de catatua. Não foi esta a primeira vez que me vi assediado por per- sonagens. Acontecia-me, não raro, quando ia passear para o Jardim Constantino, depois do jantar, em certos plenilúnios. Saíam-me ao caminho por detrás das árvores e quase sempre eram mais altas e encorpadas do que eu. Algumas mostravam- -se pouco benignas e chegavam a maçar-me. Essa a razão por
que evito o Jardim Constantino e, quando tenho de passar por ali, sigo numa corrida e oculto a cara como posso. Nunca estou bem certo do plenilúnio. Agora, uma personagem de doze centímetros de altura, magrita, a saltar ao alcance dos meus dedos é que nunca me tinha acontecido. Alguma vez havia de ser a primeira. O que pensei logo foi «com este posso eu bem». Apesar de parecer bastante ginasticado, capaz daqueles pulos todos, não me deu para ter medo dum homenzinho que me cabia na palma da mão. E se ele estivesse armado? Pelo aspecto não parecia. Mas havia já outra personagem. À claridade do moni- tor, uma jovem loura, de blusa rosa e saia preta, passeava ao comprido pelo tampo do móvel, esfregando uma na outra as mãos ansiosas. Parecia estar muito preocupada. Usava bandós e calçava saltos altos. Podia estragar-me o verniz. Aproximei a cara. Tranquilizei-me. O peso dela não era bastante para que os saltos de agulha perfurassem a mobília. A mulherzinha não deu por mim. Continuava a andar, de um lado para o outro, fazendo soar, ao de leve, no móvel o tiquetique dos saltos. Ao debruçar-me, pareceu-me ouvir, muito sumidamente, uma vozinha angustiada: «Oh, Augusto, Augusto!» Mas não garanto. O homem, entretanto, conseguia pendurar-se no tampo, e depois de um esforço complicado de braços e cotovelo içava o corpo, com dificuldade. Demorou que tempos nisto. Sobre- veio a tentação de lhe dar uma ajuda com os dedos. Mas re- solvi não interferir. Se ele me desabasse sobre o teclado, então poria a mão debaixo, não fosse danificar-me algumas teclas ou ficar entalado entre elas. Seria um tanto ridículo aparecer na loja de informática a explicar que tinha um fulano espremido
Em circunstâncias difíceis como esta, não há nada como recorrer a um perito. Telefonei a um amigo, que é escritor. Atendeu maldisposto, porque foi acordado. É um escritor dos diurnos, nove às cinco. — Ouve, meu caro, desculpa lá, mas estão a aparecer-me personagens em volta do computador. O que é que eu faço? O meu amigo formulou muitas perguntas sábias. É um grande especialista de personagens. Se eram pesadas ou leves, grandes ou pequenas, silenciosas ou barulhentas, sentimen- tais ou secas. — Têm máscara? — inquiriu. — Não? Então são de grau in- ferior… Quando eu o informei de que eram pequenas e silenciosas, ele sugeriu-me com um tonzinho superior de quem enuncia uma evidência: — Agarra nas três e atira-as pela janela. — E se atinjo alguém? Estás a ver-me em tribunal por defe- nestrar personagens, com dano para os utentes da via pública? — Então, conduta do lixo com elas. — Não posso fazer uma coisa dessas, sempre são gente. Do lado de lá do telefone o meu amigo fez um ts de rabu- gice. Desconfio de que trata as personagens dele com uma certa dureza. É o que dá a experiência. — Escuta, não andas agora a escrever umas crónicas, uns comentários, ou lá o que é? Como é que ele sabia? Isto é uma cidade muito bem infor- mada. Admiti. — Então, faz o seguinte: aprisiona-as no texto.
Famílias desavindas
Por uma dessas alongadas ruas do Porto, que sobe que sobe e não se acaba, há-de encontrar-se um cruzamento alto, de esquinas de azulejo, janelas de guilhotina, telhados de ar- dósia em escama. Faltam razões para flanar por esta rua, banal e comprida, a não ser a curiosidade por um insólito dispositivo conhecido de poucos: os únicos semáforos do mundo movi- dos a pedal, sobreviventes a outros que ainda funcionavam na Guatemala, no início dos anos setenta. No dobrar do século xix, Gerard Letelessier, jovem enge- nheiro francês, fracassou em Paris e em Lisboa, antes de con- vencer um autarca do Porto de que inventara um semáforo moderno, operado a energia eléctrica, capaz de bem ordenar o trânsito de carroças de vinho, carros de bois e landós da so- ciedade. A autoridade gostou do projecto e das garrafas de Bordéus que o jovem engenheiro oferecia. Os semáforos esti- veram ensejados para a Ponte, mas, de proposta em proposta (sempre se tratava de uma implantação experimental), acaba- ram na infrequentada Rua Fernão Penteado, na intersecção com a travessa de João Roiz de Castel-Branco. O sistema é simples e, pode dizer-se com propriedade,
Acontece que, mesmo à esquina, um primeiro andar vem sendo habitado por uma família de médicos que dali faz con- sultório. Pouco antes da instalação dos semáforos a pedal, veio morar o doutor João Pedro Bekett, pai de filhos e médico sin- gular. Chegou de Coimbra com boa fama mas transbordava de espírito de missão. Andava pelas ruas a interpelar os transeun- tes: «Está doente? Não? Tem a certeza? E essas olheiras, hã? Venha daí que eu trato-o.» E nesta ânsia de convencer atraves- sava muitas vezes a rua. O semáforo complicava. Aproximou-se do Ramon e bradou, severo: «A mim, ninguém me diz quando devo atravessar uma rua. Sou um cidadão livre e desimpedido.» Ramon entristeceu. Não gostava que interferissem com o seu trabalho e, daí por diante, passou a dificultar a passagem ao doutor. Era caso para inimizade. E eis duas famílias desavindas. Felizmente, nunca coincidiram descendentes casadoiros. Piora sempre os resultados. Ao Dr. Pedro sucedeu o filho João, médico muito modesto. Informava sempre que o seu diagnóstico era provavelmente er- rado. Enganava-se, era um facto. Mas fazia questão de orientar os pacientes para um colega que desse uma segunda opinião. Herdou o ódio ao semáforo e passava grande parte do tempo à janela, a encandear Ximenez com um espelho colorido. Já entre o jovem médico Paulo e Asdrúbal quase se che- gou a vias de facto. O médico passava e rosnava «Sus, galego». E Asdrúbal, sem parar de dar ao pedal: « Xô, magarefe!» Uma tarde, Asdrúbal levantou mesmo a mão e o doutor encurvou- -se e enrijou o passo. Este Dr. Paulo era muito explicativo. Ouvia as queixas dos
doentes, com impaciência, e depois impunha silêncio e come- çava: — As doenças são provocadas por vírus ou por bactérias. No primeiro caso, chamam-se viróticas, no segundo, bacteria- nas. E estava horas nisto, até o doente adormecer. Colegas ma- liciosos sustentavam que ele praticava a terapia do sono. Mas a maioria dos doentes gostava de ouvir explicar. Alguns até fa- ziam perguntas. Após a consulta, muito à puridade, o Dr. Paulo pedia aos clientes que passassem pelo homem do semáforo e lhe dissessem: «Arrenego de ti, galego!» Isto foi assim com Asdrúbal e, mais recentemente, com Paco. Há dias, vinha do almoço o Dr. Paulo com uma trouxa-de- -ovos na mão, e já trazia entredentes o «arrenego!» com que insultaria o semaforeiro, quando aconteceu o acidente. Ao proceder a um roubo por esticão, um jovem que vinha de mota teve uns instantes de desequilíbrio, raspou por Paco e deixou- -o estendido no asfalto. Era grave. O Dr. Paulo largou ódios velhos, não quis saber de mais nada e dobrou-se para o sinis- trado: — Isto, em matéria de lesões, elas podem ser provocadas por três espécies de instrumentos: contundentes, cortantes, ou perfurantes. Uma ambulância levou o Paco antes que o doutor tivesse entrado no capítulo das «manchas de sangue». Enganar-se-ia quem dissesse que o semáforo ficou aban- donado. Uma figura de bata branca está todos os dias na- quela rua, do nascer ao pôr-do-Sol, a accionar o dispositivo, pedalando, pedalando, até à exaustão. É o Dr. Paulo cheio de