










Estude fácil! Tem muito documento disponível na Docsity
Ganhe pontos ajudando outros esrudantes ou compre um plano Premium
Prepare-se para as provas
Estude fácil! Tem muito documento disponível na Docsity
Prepare-se para as provas com trabalhos de outros alunos como você, aqui na Docsity
Encontra documentos específicos para os exames da tua universidade
Prepare-se com as videoaulas e exercícios resolvidos criados a partir da grade da sua Universidade
Responda perguntas de provas passadas e avalie sua preparação.
Ganhe pontos para baixar
Ganhe pontos ajudando outros esrudantes ou compre um plano Premium
Artigo sobre métricas para avaliação da criatividade dos indivíduos
Tipologia: Trabalhos
1 / 18
Esta página não é visível na pré-visualização
Não perca as partes importantes!











Tatiana de Cassia NakanoI
A criatividade pode ser medida? Reflexões sobre métodos utilizados e questões envolvidas
A investigação da criatividade vem sendo, historicamente, marcada por questiona- mentos acerca da possibilidade de sua medida. Com o objetivo de discutir questões referentes à avaliação desse construto, seus benefícios, métodos mais comumente utilizados (formal, informal, qualitativo, quantitativo, objetivo e subjetivo), aspectos envolvidos (cognitivos, conativos, emocionais, ambientais, performance criativa) e instrumentos disponíveis no Brasil, o texto foi elaborado. Traz ainda algumas reco- mendações para a área. Apresenta argumentos que defendem a possibilidade de avaliar a criatividade de forma válida e precisa, por meio de diferentes métodos e técnicas, a fim de que seus vários componentes possam ser abrangidos, concluindo acerca da necessidade de que a avaliação seja vista como um processo, sujeito a influência dos padrões e valores culturais.
Palavras-chave: Aptidão; Pensamento divergente; Avaliação psicológica; Testes psicológicos.
Can creativity be measured? Reflections on methods used and issues involved
The investigation of creativity has been, historically, marked by questions about the possibility of its measurement. This paper was elaborated in order to discuss issues related to the evaluation of this construct, its benefits, methods (formal, informal, qualitative, quantitative, objective and subjective), and aspects involved (cogni- tive, conative, emotional, environmental, creative performance). The manuscript still brings some recommendations for the area. It presents arguments that support the possibility of creativity assessment in a valid and precise way, through different methods and techniques, so that its various components can be covered, concluding about the need for evaluation to be seen as a process, subject to the influence of cultural standards and values.
Keywords: Fitness; Divergent thinking; Psychological evaluation; Psychological tests.
¿Se puede medir la creatividad? Reflexiones sobre métodos utilizados y cuestiones implicadas
La investigación de la creatividad viene siendo históricamente marcada por cuestio- namientos acerca de la posibilidad de su medida. Con el objetivo de discutir cues- tiones referentes a la evaluación de ese constructo, sus beneficios, métodos más comúnmente utilizados (formal, informal, cualitativo, cuantitativo, objetivo y subje- tivo), aspectos involucrados (cognitivos, conativos, emocionales, ambientales, des- empeño creativo) e instrumentos disponibles en Brasil, el texto todavía trae algunas recomendaciones para el área. Se presentan argumentos que defienden la posibilidad de evaluar la creatividad de forma válida y precisa, por medio de diferentes métodos y técnicas, a fin de que sus diversos componentes puedan ser cubiertos, concluyendo acerca de la necesidad de que la evaluación sea vista como un proceso, sujeto la influencia de los patrones y valores culturales.
Palabras clave: Aptitud; Pensamiento divergente; Evaluación psicológica; Pruebas psicológicas.
Definida como “um processo de sentir deficiências em uma informação, formular hipó- teses ou adivinhações sobre estas deficiências, testar e revisar suas hipóteses, e, finalmente, comunicar os resultados encontrados” (Torrance, 1965, p. 8), a criativi- dade vem sendo, cada vez mais, valorizada nos diferentes contextos sociais. Diante dessa constatação, um questionamento se faz presente: por que avaliá-la? A resposta a essa questão envolve uma série de vantagens que vem sendo apresentadas na lite- ratura científica, embasadas, principalmente, na possibilidade de que alguns aspectos possam ser esclarecidos: em quais domínios ou áreas o indivíduo apresenta seu maior potencial?, qual é o nível de habilidade criativa que ele já tem desenvolvida?, baseadas nos resultados individuais, quais predições são possíveis de serem feitas acerca da produtividade desse sujeito?, quais seus pontos fortes e fracos para que ele alcance sua produtividade criativa?, qual tipo de programa de estimulação é mais apropriado para um indivíduo com esse perfil? (Treffinger, Schoonover, & Selby, 2013). Perante a relevância das informações que podem ser originadas a partir dessas respostas, uma série de investigações na temática tem apresentado, como foco, o interesse na pos- sibilidade de medirmos tal característica de maneira eficaz e segura (Lubart, 2007).
A retomada histórica do interesse por esse construto aponta para uma série de estu- dos voltados à investigação da criatividade. No entanto, perante a complexidade desse construto, o que se pode notar é que questionamentos acerca da possibilidade da sua avaliação ainda se fazem presentes na literatura. Embasados na subjetividade atribuída e na sua amplitude, pesquisadores têm debatido qual seria a forma mais adequada de avaliação, de modo que um consenso ainda não foi alcançado (Beghetto, Plucker & MaKinster, 2001; Cropley, 2000). Na tentativa de conhecer os limites das medidas, discussões recentes acerca dos métodos utilizados na sua avaliação se têm feito presentes, cujo foco principal se centra na necessidade de elaboração de indica- dores, critérios e instrumentos específicos e confiáveis (Nakano, & Wechsler, 2006), visando-se reduzir as desconfianças acerca da validade das medidas. É nesse ponto que o texto aqui apresentado se centra.
Um primeiro propósito a ser citado mostra-se voltado à investigação das concepções de professores, gestores e orientadores educacionais acerca dessa habilidade, com a finalidade de conhecer as definições que estes apresentam para o conceito, as dimensões que são percebidas como influenciadoras da criatividade, sua importância no contexto educacional, o reconhecimento de seu papel enquanto agente transfor- mador. Os resultados desse tipo de levantamento podem ser utilizados como base para o processo de implantação de programas voltados à estimulação e desenvolvi- mento da criatividade.
A avaliação de alunos, em termos qualitativos (o que entendem como criatividade, qual sua percepção sobre seu nível criativo, quais áreas apresentam maior interesse e/ou facilidade, aquelas que apresentam mais dificuldade ou que gostariam de ter a oportunidade de desenvolver, dentre outras questões), pode ser visualizada como uma oportunidade de elaborar um projeto de criatividade que contemple os interes- ses dos alunos e que seja particular àquele grupo.
Em termos quantitativos (partindo-se da utilização de instrumentos e testes especí- ficos para avaliar o nível de criatividade do sujeito, bem como o tipo de criatividade que este apresenta), a avaliação dos alunos volta-se ao propósito de que, melhor do que fazer julgamentos se um indivíduo é ou não criativo, decidindo sobre sua inclu- são ou exclusão de um programa de atendimento, os dados resultantes da avaliação da criatividade sejam utilizados no sentido de fornecer elementos essenciais para a tomada de decisão acerca das necessidades educacionais individuais e do grupo.
A avaliação de professores também pode ser conduzida, voltada principalmente à investigação da sua motivação para a formação em criatividade, à percepção de sua utilidade para sua vida profissional, compreensões que apresentam sobre o fenô- meno, seu nível de conhecimento acerca da possibilidade de desenvolvimento e esti- mulação criativa por meio de programas, conhecimento de técnicas e exercícios que favorecem a criatividade, dentre outros pontos. Tidos como elemento-chave para a inserção da criatividade dentro do currículo escolar, os dados provenientes da avalia- ção com tais profissionais podem fornecer grande auxílio.
No contexto organizacional e do trabalho, o interesse pela criatividade tem sido mar- cante e crescente, demonstrando a importância desse construto e seu impacto direto na organização (Spadari, & Nakano, 2015). A produção de novas ideias passa a ser valorizada pelas organizações, como forma de obter um valor diferencial (Almeida, Nogueira, Jesus & Mimoso, 2013), caracterizando-se como um ponto crucial para a inovação e o sucesso em longo prazo das companhias (Alencar, & Fleith, 2003), como capacitação para responder às exigências do mercado, dada sua possibilidade de atuar enquanto processo que pode gerar ganhos tanto para a empresa quanto para o funcionário (Nakano, Campos, Silva, & Pereira, 2011).
Perante os benefícios apontados, é considerável o número de publicações que apre- sentam propostas para a avaliação do processo, produto, pessoa e ambiente cria- tivo, tomados como elementos principais do construto (Isaksen, Firestien, Murdock, Puccio & Treffinger, 1994). Uma retomada dos métodos que vem sendo utilizados na avaliação da criatividade será feita a seguir, buscando indicar os aspectos envolvidos e os diferentes tipos utilizados.
Métodos e usos possíveis
Dentre as possibilidades de avaliar a criatividade, diferentes métodos podem ser cita- dos: formal x informal, qualitativo x quantitativo, objetivo x subjetivo (Lubart, 2007; Treffinger et al., 2013). A distinção entre eles será abordada a seguir.
Medidas de aspectos emocionais relacionados à criatividade Sobre as medidas de aspectos emocionais relacionados à criatividade, Lubart (2007) argumenta que, embora ainda pouco utilizadas na avaliação do fator emocional da criatividade, pesquisas têm sugerido sua importância e influência dos estados emo- cionais na avaliação do potencial criativo. Diante da tal constatação, uma tentativa mais recente de unir criatividade e emoção fez com que um novo domínio da cria- tividade surgisse: o conceito de criatividade emocional (Averill, 1999; Sundarara- jan, & Averill, 2007). Definida como a habilidade de experimentar e expressar uma combinação original, apropriada e autentica de emoções (Ivcevic, Brackett, & Mayer, 2007), a criatividade emocional teria, como foco, a investigação da riqueza, mis- tura e complexidade das experiências emocionais com ênfase nos elementos criati- vos divergentes e inesperados, relacionados aos sentimentos (Gutbezahl, & Averill, 1996; Mayer & Salovey, 1997). Usualmente avaliada por meio de:
Medidas de aspectos ambientais relacionados à criatividade As medidas de aspectos ambientais relacionados à criatividade baseiam-se na cons- tatação de que o desenvolvimento da criatividade seria facilitado pela presença de um ambiente favorável. Consequentemente, a avaliação do contexto de um indivíduo e de onde ele se desenvolveu, deveria permitir e/ou determinar de forma indireta, seu nível de criatividade (Lubart, 2007). Exemplos de instrumentos:
Medidas de performance criativa Voltadas à avaliação de produtos por especialistas ou de comparação de desempenho entre indivíduos, as medidas de performance criativa visam avaliar a criatividade em termos de utilidade, originalidade e relevância, tanto em termos quantitativos quanto qualitativos (David, Nakano, Morais, & Primi, 2011). Exemplos de medidas:
Dada a amplitude de possibilidades de medidas criativas, em termos de aspectos avaliados (cognitivos, conativos, emocionais, ambientais, performance), assim como em relação às suas características em termos de estruturação (formal x informal, qualitativo x quantitativo, objetivo x subjetivo), um levantamento dos instrumentos disponíveis para avaliação da criatividade no Brasil foi realizado. Ressalta-se que o número, ainda que inicialmente pareça grande (n = 23), é bastante inferior ao leque encontrado no contexto internacional. Puccio e Murdock (1999), por exemplo, ao revisarem a área, encontraram mais de 250 possibilidades, de forma que podemos concluir que a grande diversidade de instrumentos reflete, na realidade, a amplitude de seu conceito e as possibilidades de medição de diferentes aspectos, por meio de diferentes metodologias.
Instrumentos disponíveis no Brasil para avaliação da criatividade Dois tipos de instrumentos encontram-se em uso no Brasil: aqueles disponibilizados comercialmente para uso profissional, aprovados pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP), e outros que foram desenvolvidos pelos autores mas que ainda não se encon- tram nessa condição, seja pela necessidade de condução de mais estudos acerca das suas qualidades psicométricas, seja pela descontinuidade de seu estudo ou ainda pelo desinteresse dos autores em sua disponibilização comercial.
Para fins de classificação, os dois tipos serão listados a seguir, fornecendo-se o nome do instrumento, autor(es), aspectos avaliados e tipo de criatividade medida. Para isso, uma busca nas bases de dados SciELO e Pepsic foi realizada a partir da pala- vra-chave “criatividade”. Na primeira delas foram encontradas 162 publicações e, na segunda base, houve 100 retornos. Cada trabalho teve seu resumo lido a fim de identificar se algum instrumento foi utilizado sendo que, naqueles que não foi possí- vel identificar essa informação somente a partir do resumo, o trabalho completo foi acessado, buscando-se a informação no método dos estudos. Outros casos envolve- ram a duplicação dos resultados em ambas as bases de dados.
Atualmente, segundo a lista dos testes aprovados pelo CFP, existiriam, no Brasil, os seguintes testes aprovados para avaliação da criatividade: Avaliação da Criatividade por Figuras – Testes de Torrance, versão brasileira (Wechsler, 2004a), Avaliação da Criatividade por Palavras – Testes de Torrance, versão brasileira (Wechsler, 2004b), Escala de Estilos de Pensar e Criar (Wechsler, 2006) e Teste de Criatividade Figural Infantil (Nakano, Wechsler, & Primi, 2011). Todos apresentam evidências de validade, precisão e normatização para uso na população brasileira (constantes em seus res- pectivos manuais), sendo, os dois primeiros, adaptação de instrumentos internacio- nais e, os dois últimos, testes desenvolvidos no país.
A partir do Quadro 1 é possível verificar diferenças entre as finalidades e público-alvo, sendo os testes Avaliação da Criatividade por Figuras e Avaliação da Criatividade por Palavras mais comumente utilizados de forma conjunta nos estudos. Ambos se voltam à avaliação quantitativa da criatividade de estudantes do ensino médio e superior. O Teste de Criatividade Figural Infantil é o único disponível para avaliação quantitativa de crianças e adolescentes, estudantes de Ensino Fundamental. Por fim, a Escala de Estilos de Pensar e Criar envolve a avaliação qualitativa do construto ao possibilitar a classificação do estilo criativo de sujeitos com escolaridade a partir do
Quadro 2. Outros tipos de instrumentos para avaliação da criatividade desenvolvidos no Brasil Instrumento Autor(es) Tipo de atividade Aspectos avaliados Inventário de barreiras à criatividade pessoal
Alencar (1999)
70 itens relativos a distintas barreiras à criatividade, a serem respondidos dentro de uma escala Likert
Quatro fatores: Inibição/Timidez; Falta de Tempo/Oportunidade; Repressão Social; Falta de Motivação
Escala sobre clima para criatividade em sala de aula
Fleith, & Alencar (2005)
26 itens a serem respondidos dentro de uma escala Likert de 5 pontos
Três dimensões: Estímulo do Professor à Criatividade; Autopercepção do Alunos sobre Características Criativas; Motivação do Aluno para Aprendizagem Inventário de práticas docentes que favorecem a criatividade na educação superior
Alencar, & Fleith (2004)
38 itens a serem respondidos dentro de uma escala Likert de cinco pontos
Quatro fatores: Incentivo a novas ideias; Clima para expressão de ideias; Avaliação e metodologia de ensino; Interesse pela aprendizagem do aluno
Teste de Produção de Metáforas
Primi (2006)
12 frases a serem completadas por meio da produção de metáforas
Qualidade Metafórica e Flexibilidade Teste de criatividade em matemática
Gontijo (2007) 6 itens
Fluência matemática, Flexibilidade matemática e Originalidade matemática
Indicadores de condições para criatividade no ambiente de trabalho
Bruno-Faria, & Alencar (1998)
97 itens referentes a barreiras e estímulos à criatividade
Oito fatores relativos aos estímulos à criatividade: Ambiente físico adequado; Clima social favorável entre colegas de trabalho; Incentivo a ideias novas; Liberdade de ação; Atividades desafiantes; Salário e benefícios adequados; Ações da chefia e da organização em apoio a ideias novas; Disponibilidade de recursos materiais. Quatro fatores relativos às barreiras à criatividade no ambiente de trabalho: Bloqueio da chefia imediata; Excesso de serviços e escassez de tempo; Resistência a ideias novas; Problemas organizacionais
Estratégias para criar no trabalho
Moraes, & Lima (2009) 70 itens
Seis fatores: Pensamento Flexível; Imaginação e Introspecção; Controle Emocional; Leitura Inspiradora; Interação e Analogia; Autoeficácia Escala de Potencial Criativo Organizacional
Spadari (2014)
34 itens a serem respondidos dentro de uma escala Likert de cinco pontos
Dois fatores: Bloqueios e barreiras à criatividade; Atributos e características que favorecem a criatividade
Escala informatizada de características criativas
Silva (2018)
64 itens a serem respondidos dentro de uma escala Likert de cinco pontos
Oito fatores: Fluência/ Flexibilidade
sentam um número importante de estudos conduzidos, podendo-se citar o Inventá- rio de Barreiras à Criatividade Pessoal, Escala sobre Clima para criatividade em sala de aula, Inventário de Práticas docentes que favorecem a criatividade na educação superior e Teste de Criação de Metáforas; (2) instrumentos que apresentam somente uma única publicação, usualmente envolvendo o relato de sua construção, adaptação e/ou primeiros estudos de busca por suas qualidades psicométricas, não havendo seguimento nas investigações (por exemplo: Estratégias para criar no trabalho e Questionário de indicadores de clima para a criatividade); (3) novos instrumentos, em fase de desenvolvimento (Inventário de barreiras pessoais à expressão criativa, Escala de potencial criativo organizacional, Escala informatizada de características criativas, Escala de clima para criatividade em organizações empresariais).
Mais recentemente, um movimento de inclusão da avaliação da criatividade em bate- rias mais amplas também tem sido notado, sendo tal construto medido em conjunto com outros, usualmente cognitivos. A apresentação dessas baterias em desenvolvi- mento no Brasil é realizada no Quadro 3.
Verifica-se que três dessas baterias são compostas por testes de desempenho, envol- vendo a avaliação de habilidades cognitivas relacionadas à inteligência e criatividade, sendo esse o caso da BAAH/S, BAIC-A e BAIC-I. Somente um instrumento abrange as mesmas áreas, ampliando-as para outros elementos que compõem as altas habili- dades/superdotação, tais como liderança e motivação (EAAH/S-VP), diferenciando-se ainda pelo fato de ser uma medida subjetiva, realizada por meio de um julgamento externo, no caso, o professor.
Os resultados encontrados após retomada dos instrumentos brasileiros disponíveis apontam para duas constatações: a área da avaliação da criatividade tem apresen-
Continuação
Escala de Perfil Criativo Reis (2005)
72 itens compostos por adjetivos descritores da pessoa criativa, a serem respondidos dentro de uma escala Likert de 6 pontos
Cinco fatores: Ousadia; Tradicionalismo; Individualismo; Intuição; Prudência Escala de apoio e resistência a nova ideias
Bedani (2008)
18 itens a serem respondidos dentro do uma escala Likert de cinco pontos
Dois fatores: Ações da chefia e da organização em apoio a ideias novas; Resistência a ideias novas Checklist de barreiras à promoção da criatividade em sala de aula
Alencar, & Fleith (2008)
20 itens a serem respondidos com um X naqueles que fossem considerados como barreiras à promoção da criatividade do aluno
Não foi encontrado nenhum estudo de investigação da estrutura fatorial do instrumento
Questionário de indicadores de clima para a criatividade
Crespo (2004)
13 indicadores envolvendo motivação e comprometimento, dinamismo e energia, tempo para ideias, liberdade para criar, ludismo e humor, apoio às ideias, discussões e debates, ausência de conflito, confiança e franqueza, correr risco, suporte à inovação, salários e benefícios e tolerância às diferenças
Não foi encontrado nenhum estudo de investigação da estrutura fatorial do instrumento
Escala de Clima para Criatividade em Organizações Empresariais
Figueiredo (2017)
61 itens a serem respondidos dentro de uma escala Likert de 6 pontos
Sete fatores: Dinamismo e Motivação; Humor e Cooperação; Liberdade para criar; Ausência de conflitos; Suporte à inovação; Correr risco; Tolerância e Comunicação
existentes (quantitativa, qualitativa, formal, informal, dentre outras), a fim de que uma avaliação adequada seja feita, do aspecto criativo almejado, dados os múltiplos componentes desse construto (De la Torre, & Violant, 2006).
Recomenda-se, nesse sentido, que a escolha dos instrumentos deverá se dar de acordo com os objetivos buscados, considerando-se, principalmente, a quantidade de informação científica que já se obteve a partir de seu uso (notadamente a existên- cia de evidências de validade e precisão, que atestem que o instrumento consegue medir, de forma adequada e precisa, o construto alvo) (Puccio, & Murdock, 1999; Wechsler, & Nakano, 2002), assim como sua adequação à população-alvo. Deve-se ainda ter clareza que, ao se avaliar a criatividade, nenhuma medida, isoladamente, conseguirá cobrir todas as dimensões desse construto, de modo que os resultados devem ser restritos ao tipo de criatividade que o instrumento selecionado se propõe a avaliar ou ainda ampliados pelo uso de diferentes técnicas e/ou instrumentos.
Convém destacar que, dentre os desafios a serem enfrentados pela área da avalia- ção da criatividade, a lacuna em relação a alguns tipos de estudos, os quais ainda precisa de maior investimento por parte dos pesquisadores. Dentre eles, podem ser destacados: (1) os estudos do tipo longitudinal (que objetivem verificar o processo de desenvolvimento das pessoas criativas); (2) a importância de investigações com o objetivo de distinguir o conceito de criatividade de outros construtos, notadamente o conceito de inteligência (ainda não consensual entre os modelos teóricos e pes- quisadores); (3) a necessidade de desenvolvimento de estudos preditivos sobre a criatividade na vida real; (4) a ampliação dos aspectos medidos pelos instrumentos nacionalmente disponíveis para uso profissional (visto que os quatro existentes na lista do Satepsi se voltam somente à avaliação da pessoa criativa, não havendo, até o momento, instrumentos para avaliação do produto, processo e ambiente); (5) a investigação da criatividade ao longo do ciclo vital e em populações minoritárias (as quais, usualmente, não são contempladas nos estudos psicométricos encontrados nos manuais de testes).
Outras recomendações envolvem o reconhecimento de que uma série de fatores poderá influenciar os resultados obtidos por essa avaliação, os quais devem, neces- sariamente, serem relativizados, sendo importante destacar o método utilizado (téc- nicas e instrumentos), o foco a ser avaliado (pessoa criativa, processo, produto ou ambiente), quem está avaliando, quando e como esse processo é feito, a fim de que uma compreensão mais exata possa ser feita acerca da avaliação realizada. Assim, os dados devem ser utilizados na tentativa de compreender as características indi- viduais, interesses e necessidades, entendimento das forças e déficits individuais, evidenciando sua manifestação no momento atual, sob circunstâncias e condições particulares (Treffinger et al., 2013) e, portanto, sujeito a mudanças.
Do mesmo modo, sugere-se que outras variáveis deverão ser consideradas, tais como gênero, faixa etária e nível educacional, as quais também podem influenciar a criatividade. Consequentemente, a avaliação da criatividade deve ser vista tam- bém como um processo, sujeito a modificações provenientes das diferentes fases de desenvolvimento humano e aos padrões e valores culturais.
Considerações Finais
Ao se abordar a possibilidade de avaliar a criatividade e os diferentes métodos, téc- nicas e instrumentos disponíveis, cuidado deve ser tomado em relação ao fato de que, ao tentar medir um construto tão complexo, a criatividade acaba, muitas vezes, sendo erroneamente tomada como um domínio geral, passível de ser avaliado por meio de um único instrumento (Kim, 2011). Na opinião dessa autora, tal ideia gera-
ria, por si só, a crença de que, se o indivíduo não é criativo em uma área, provavel- mente não será em outras, de modo a desconsiderar a existência de evidências de que a criatividade seria composta por uma grande diversidade de domínios espe- cíficos, confirmada pelas baixas correlações encontradas entre diferentes medidas de criatividade (as quais restringem-se, muitas vezes, a um único tipo de item ou tarefa), podendo-se citar ainda seus diferentes tipos (verbal ou figurativa, por exem- plo), os quais podem capturar diferentes facetas da criatividade.
Por essa razão, a autora salienta que os instrumentos deveriam ser usados somente no sentido de afirmar a criatividade, nunca de desconsiderá-la, visto que a performance criativa em uma tarefa poderia não predizer a performance criativa em outra. Do mesmo modo, sobre esse ponto, Alencar, Fleith e Bruno-Faria (2010) ressaltam a importância de que o pesquisador tenha em mente o fato de que o construto criatividade é multidi- mensional e complexo, não devendo, por esse motivo, restringir a criatividade exclusiva- mente ao que está sendo avaliado pelos instrumentos, dada a importância de se incluir múltiplas fontes na avaliação de um indivíduo, não só as quantitativas.
Convém destacar que a seleção não sistemática do referencial teórico tomado como base pode ter exercido algum efeito tendencioso no texto, de modo que alguns métodos e técnicas difundidos na literatura científica, assim como opiniões contrá- rias à avaliação da criatividade podem não ter sido contempladas. Tal fato merece ser citado como uma das limitações do artigo. Do mesmo modo, como somente algumas bases de dados foram consultadas, as informações constantes nos levan- tamentos realizados, em relação aos estudos desenvolvidos com cada instrumento disponível comercialmente (Quadro 1), assim como a listagem dos existentes no Brasil (Quadro 2), pode não estar completa, de modo que outros estudos podem não terem sido contemplados ou ainda terem, os instrumentos, sofrido alterações em seus nomes durante a condução dos diferentes estudos e estarem, por tal motivo, duplicados na análise.
Estudos na temática ainda se mostram necessários, principalmente com a finalidade de contemplar áreas da criatividade ainda escassas (podendo-se citar, por exemplo, criatividade musical ou corporal), outros conceitos relativamente novos associados à criatividade (criatividade emocional, inteligência criativa e liderança criativa), assim como aqueles voltados à investigação da aplicação contextualizada da criatividade aos diferentes propósitos intelectuais, sociais e práticos.
Referências
Alencar, E. M. L. S. (1999). Barreiras à criatividade pessoal: desenvolvimento de um instrumento de medida. Psicologia Escolar e Educacional, 3 (2), 123-132. https://doi.org/10.1590/S1413-
Alencar, E. M. L. S., & Fleith, D. S. (2003). Barreiras à criatividade pessoal entre professores de distintos níveis de ensino. Psicologia Reflexão e Critica , 16 (1), 63-69. https://doi.org/10.1590/S0102-
Alencar, E. M. L. S., & Fleith, D. S. (2004). Inventário de práticas docentes que favorecem a criatividade no ensino superior. Psicologia Reflexão e Critica, 17 (1), 105-110. https://doi.org/10.1590/S0102-
Alencar, E. M. L. S., & Fleith, D. S. (2008). Barreiras à promoção da criatividade no ensino fundamental. Psicologia Teoria e Pesquisa , 24 (1), 59-65. https://doi.org/10.1590/S0102-
Gontijo, C. H. (2007). Relações entre criatividade, criatividade em matemática e motivação em matemática de alunos do ensino médio (Tese de Doutorado). Universidade de Brasília, Brasília, DF, Brasil.
Guilford, J. P. (1967). The nature of human inteligence. New York, NY: McGraw-Hill.
Gutbezahl, J., & Averill, J. R. (1996). Individual differences in emotional creativity as manifested in words and pictures. Creativity Research Journal, 9 (4), 327-337. https://doi.org/10.1207/s15326934crj0904_
Isaksen, S. G., Firestien, R. L., Murdock, M. C., Puccio, G. J., & Treffinger, D. L. (1994). The assessment of creativity. Buffalo, NY: Center for Creative Studies.
Ivcevic, Z., Brackett, M. A., & Mayer, J. D. (2007). Emotional intelligence and emotional creativity. Journal of Personality, 75 (2), 199-236. https://doi.org/10.1111/j.1467- 6494.2007.00437.x
Kim, K. H. (2011). The creativity crisis: The decrease in creative thinking scores on the Torrance Tests of Creative Thinking. Creativity Research Journal, 23 (4), 285-
Lubart, T. (2007). Psicologia da criatividade. Porto Alegre, RS: ArtMed.
Mayer, J. D., & Salovey, P. (1997). What is emotional intelligence? In P. Salovey, & D. Sluyter (Orgs.), Emotional development and emotional intelligence: implications for educators (pp. 3-31). New York, NY: Basic Books.
Moraes, M. M., & Lima, S. M. V. (2009). Estratégias para criar no trabalho: proposição teórica e validação psicométrica de medida. Paidéia, 19 (44), 367-377. https://doi. org/10.1590/S0103-863X
Morais, M. F., & Azevedo, I. (2008). Criatividade em contexto escolar: representações de professores dos ensino básico e secundário. In M. F. Morais, & S. Bahia (Orgs.), Criatividade: conceito, necessidades e intervenção (pp. 157-196). Braga: Psiquilibrios.
Nakano, T. C., Campos, C. R., Silva, T. F., & Pereira, E. K. G. (2011). Estilos de pensar e criar no contexto organizacional: Diferenças de acordo com o cargo profissional? Estudos Interdisciplinares em Psicologia, 2 (2) , 171-193.
Nakano, T. C., & Primi, R. (2012a). A estrutura fatorial do Teste de Criatividade Figural Infantil. Psicologia Teoria e Pesquisa , 28 (3), 275-283. https://doi.org/10.1590/ S0102-
Nakano, T. C., & Wechsler, S. M. (2006). Teste Brasileiro de Criatividade Figural: proposta de instrumento. Interamerican Journal of Psychology, 40 (1), 103-110.
Nakano, T. C., & Wechsler, S. M. (2012). Criatividade: definições, modelos e formas de avaliação. In C. S. Hutz (Org.), Avanços em avaliação psicológica e neuropsicológica de crianças e adolescentes II (pp.327-361). São Paulo, SP: Casa do Psicólogo.
Nakano, T. C., Wechsler, S. M., & Primi, R. (2011). Teste de Criatividade Figural Infantil. São Paulo: Vetor.
Primi, R. (2006). Teste de Criação de Metáforas: Critérios de pontuação e interpretação. Itatiba, SP: Universidade São Francisco.
Piirto, J. (2011). Creativity for 21st Century Skills. Boston, MA: Sense.
Puccio, G. J., & Murdock, M. C. (1999). Creativity assessment: Readings and resources. Buffalo, NY: Creative Education Foundation Press.
Reis, C. L. (2005). Escala de Perfil Criativo Profissional: Validade e precisão de instrumento (Tese de Doutorado não publicada). Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Campinas, SP, Brasil.
Silva, T.F. (2018). Escala informatizada de avaliação das características criativas: Construção de instrumento (Tese de Doutorado não publicada). Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Campinas, SP, Brasil.
Spadari, G. F. (2014). Construção de escala de potencial criativo organizacional (Dissertação de Mestrado). Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Campinas, SP, Brasil.
Spadari, G. F., & Nakano, T. C. (2015). Criatividade no contexto organizacional: Revisão de pesquisas. Revista Sul-Americana de Psicologia, 3 (2), 182-209.
Sundararajan, L., & Averill, J.R. (2007). Creativity in the everyday: culture, self and emotions. In R. Richards (Org.), Everyday creativity and new view of human nature: psychological, social and spiritual perspectives (pp. 195-220). Washington, DC: American Psychological Association.
Torrance, E. P. (1965). Rewarding creative behavior. New Jersey, NJ: Prentice Hall.
Torrance, E. P. (1966). Torrance tests of creative thinking. Lexington: Personnel.
Treffinger, D. J. (1995). School development, talent development, and creativity. Roeper Review , 18, 93-97.
Treffinger, D. J., Schoonover, P. F., & Selby, E. C. (2013). Educating for creativity & innovation. Waco, TX: Prufrock.
Wechsler, S. M. (2004a). Pensando criativamente com palavras: Testes de Torrance (versão brasileira). Campinas, SP: LAMP.
Wechsler, S.M. (2004b). Pensando criativamente com figuras: testes de Torrance (versão brasileira). Campinas: LAMP / Impressão Digital do Brasil.
Wechsler, S. M. (2006). Estilos de pensar e criar: Manual. Campinas, SP: IDB/LAMP.
Wechsler, S. M. (2009). Avaliação da criatividade: Possibilidades e desafios. In C. S. Hutz (Org.), Avanços e polêmicas em avaliação psicológica (pp.93-127). São Paulo, SP: Casa do Psicólogo.
Wechsler (2014a). Avaliação do potencial cognitivo e criativo de crianças e adultos: Projeto de pesquisa – construção da Bateria de Avaliação Intelectual e Criativa de Adultos (BAIC-A). Campinas: PUC-Campinas.