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Gil Vicente 1, Exercícios de Teatro

entre a data de 1502, com a sua primeira peça, Auto da Visitação ou Monólogo do Vaqueiro, e a de 1536, Floresta de Enganos. Apesar de viver na corte, ...

Tipologia: Exercícios

2023

Compartilhado em 17/01/2023

Nazareth85
Nazareth85 🇵🇹

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Gil Vicente 1
O teatro pré-vicentino
Considera-se geralmente Gil Vicente (1465?-1536) como o criador do género dramático
na Literatura Portuguesa. Todavia, ele baseou-se numa tradição anterior a que deu, na
verdade, dignidade literária. Consideraremos, pois, como fontes vicentinas
os esboços teatrais da Idade Média
o teatro castelhano representado principalmente por Juan del Encina e outros poetas
salmantinos
O teatro medieval
1 - Teatro religioso e popular
Constituído pelos autos e mistérios representando passos da vida dos Santos ou dos
Evangelhos, ou ainda cenas simbólicas propostas à meditação dos fiéis, em que
frequentemente era apresentado o conflito entre o Bem e o Mal; estas representações tinham
intuitos piedosos e litúrgicos e eram efectuadas dentro das igrejas e, mais tarde, nos adros.
Não possuímos estes textos escritos, mas sabemos da sua existência através de:
tradições observáveis em aldeias isoladas;
existência de cartas pastorais proibindo essas representações, primeiro dentro das
igrejas e depois noutros recintos sagrados;
comparação com os fenómenos francês e castelhano, representando estatutos culturais
idênticos.
2 - Teatro profano e palaciano
Constituído pelos arremedilhos, momos e entremezes; os primeiros eram representações
mimadas (herança provável da actividade dos bobos e jograis); os entremezes eram
representações alegóricas de cunho aristocrático, em que as figuras simbólicas eram
portadoras de legendas alusivas ao seu significado. A designação provém do facto de se
representarem principalmente durante os banquetes.
Sabemos da sua existência:
pela descrição do cronista Rui de Pina das bodas do príncipe D. Afonso, em que é
descrito um entremez;
por algumas alusões contidas no Cancioneiro Geral.
O teatro castelhano
Juan del Encina era um poeta pastoril, tendo escrito todas as suas obras sobre pastores,
relacionando-os com temas da piedade cristã (autos e mistérios religiosos). Utilizou uma
linguagem especial - o sayaguez, língua convencional, forjada pelo poeta e baseada nos
diferentes falares do oriente peninsular, para tentar reproduzir o ambiente rústico em que se
moviam os seus pastores.
Biografia de Gil Vicente
Nasceu por volta de 1465, em Guimarães ou na Beira. Morreu cerca de 1536. Viveu na
corte de D. Manuel sob a protecção da rainha D. Leonor, viúva de D. João II. Viveu ainda no
reinado de D. João III. Presume-se que tenha estudado em Salamanca. Inscreve-se a sua obra
entre a data de 1502, com a sua primeira peça, Auto da Visitação ou Monólogo do Vaqueiro,
e a de 1536, Floresta de Enganos. Apesar de viver na corte, Gil Vicente foi um poeta popular,
pelas suas raízes e pelo conteúdo da sua obra, embora convivente com os conceitos
clássico-humanísticos do universo mental que se formava.
Segundo a classificação tradicional, que reproduz a que seguiu Luís Vicente, seu filho,
na primeira edição da obra completa em 1562, as suas peças são constituídas por Autos e
Mistérios (obras de devoção), Farsas, Comédias e Tragicomédias. Outros critérios
1 In Apontamentos de Literatura Portuguesa, Maria Leonor Carvalhão Buesco, pp.57-64
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Gil Vicente^1

O teatro pré-vicentino Considera-se geralmente Gil Vicente (1465?-1536) como o criador do género dramático na Literatura Portuguesa. Todavia, ele baseou-se numa tradição anterior a que deu, na verdade, dignidade literária. Consideraremos, pois, como fontes vicentinas

  • os esboços teatrais da Idade Média
  • o teatro castelhano representado principalmente por Juan del Encina e outros poetas salmantinos O teatro medieval 1 - Teatro religioso e popular Constituído pelos autos e mistérios representando passos da vida dos Santos ou dos Evangelhos, ou ainda cenas simbólicas propostas à meditação dos fiéis, em que frequentemente era apresentado o conflito entre o Bem e o Mal; estas representações tinham intuitos piedosos e litúrgicos e eram efectuadas dentro das igrejas e, mais tarde, nos adros. Não possuímos estes textos escritos, mas sabemos da sua existência através de:
  • tradições observáveis em aldeias isoladas;
  • existência de cartas pastorais proibindo essas representações, primeiro dentro das igrejas e depois noutros recintos sagrados;
  • comparação com os fenómenos francês e castelhano, representando estatutos culturais idênticos. 2 - Teatro profano e palaciano Constituído pelos arremedilhos, momos e entremezes ; os primeiros eram representações mimadas (herança provável da actividade dos bobos e jograis); os entremezes eram representações alegóricas de cunho aristocrático, em que as figuras simbólicas eram portadoras de legendas alusivas ao seu significado. A designação provém do facto de se representarem principalmente durante os banquetes. Sabemos da sua existência:
  • pela descrição do cronista Rui de Pina das bodas do príncipe D. Afonso, em que é descrito um entremez;
  • por algumas alusões contidas no Cancioneiro Geral. O teatro castelhano Juan del Encina era um poeta pastoril, tendo escrito todas as suas obras sobre pastores, relacionando-os com temas da piedade cristã (autos e mistérios religiosos). Utilizou uma linguagem especial - o sayaguez , língua convencional, forjada pelo poeta e baseada nos diferentes falares do oriente peninsular, para tentar reproduzir o ambiente rústico em que se moviam os seus pastores.

Biografia de Gil Vicente Nasceu por volta de 1465, em Guimarães ou na Beira. Morreu cerca de 1536. Viveu na corte de D. Manuel sob a protecção da rainha D. Leonor, viúva de D. João II. Viveu ainda no reinado de D. João III. Presume-se que tenha estudado em Salamanca. Inscreve-se a sua obra entre a data de 1502, com a sua primeira peça, Auto da Visitação ou Monólogo do Vaqueiro, e a de 1536, Floresta de Enganos. Apesar de viver na corte, Gil Vicente foi um poeta popular, pelas suas raízes e pelo conteúdo da sua obra, embora convivente com os conceitos clássico-humanísticos do universo mental que se formava. Segundo a classificação tradicional, que reproduz a que seguiu Luís Vicente, seu filho, na primeira edição da obra completa em 1562, as suas peças são constituídas por Autos e Mistérios ( obras de devoção ), Farsas , Comédias e Tragicomédias. Outros critérios

(^1) In Apontamentos de Literatura Portuguesa, Maria Leonor Carvalhão Buesco, pp.57-

classificativos têm sido propostos, permitindo distinguir vários tipos de alegoria que muitas vezes se encontra combinada com os processos satíricos característicos da farsa. É o caso, por exemplo, dos três Autos das Barcas em que encontramos uma alegoria de fundo (o Bem e o Mal, representadas pelas duas Barcas), a que se sobrepõe um desfile de personagens moldados à maneira da farsa. Divisão e evolução do teatro vicentino Autos e Mistérios Partindo do teatro religioso e popular da Idade Média e dos temas pastoris utilizados por Encina, Gil Vicente constrói a primeira fase da sua obra - a fase pastoril. Depois de se libertar dessas influências iniciais, cria uma obra notável pela originalidade e variedade de temas e processos, evidenciando:

. imaginação brilhante; . observação aguda, nomeadamente no perfil psicológico dos personagens; . severidade moral servida por um espírito satírico profundamente contundente, tornando-se um crítico social e fazendo das suas peças um verdadeiro “teatro de costumes”. A fase pastoril de Gil Vicente iniciou-se com o Monólogo do Vaqueiro (1502), peça de circunstância em que o autor transpusera para um plano profano o tema religioso da adoração dos pastores. Escrita em Castelhano - sayaguez - em homenagem à rainha D. Maria, mulher de D. Manuel -, Gil Vicente é autor, actor e encenador. A pedido de D. Leonor, viúva de D. João II apresenta o seu primeiro auto pastoril, não já sob a forma de monólogo, mas introduzindo vários personagens e diálogo: Auto Pastoril Castelhano. A fala dos pastores constitui uma linguagem híbrida, em que as expressões pitorescas, regionais e populares, de qualquer rincão provinciano, tentam reproduzir um ambiente rústico. Esse processo é semelhante ao sayaguez dos pastores de Encina e caracteriza a linguagem rústica de Gil Vicente. Farsa ou teatro burlesco A procura constante de novos temas, formas e processos, leva Gil Vicente ao abandono do género pastoril como único. A partir de 1509, com o Auto da Índia, começa a cultivar predominantemente a farsa que com mais nitidez revela o poder criador, o espírito de observação, a finura da sátira, a severidade da crítica. As farsas reproduzem geralmente o ambiente burguês da época; e surgem-nos os tipos característicos da obra vicentina que, se por um lado recriam a época e o ambiente - a sociedade quinhentista com todos os seus vícios e ambições -, por outro lado se elevam à universalidade de tipos humanos. Parece haver uma evolução da personagem ao tipo e deste ao arquétipo. Uma das riquezas da obra de Gil Vicente consiste na variedade e na realidade conseguida através da perfeita adaptação entre linguagem e personagem : as ciganas, os mouros, os judeus, os negros, franceses, italianos, rústicos, cortesãos, crianças, cada qual utilizou um falar próprio e característico. É nas farsas que a sátira vicentina analisa a sociedade portuguesa: surgem-nos os frades corruptos, as mulheres adúlteras, os maridos enganados, as alcoviteiras, os magistrados venais, os funcionários subornados ou incompetentes, as moças frívolas e preguiçosas, as mães desejosas de casar as filhas... É neste aspecto que se manifesta uma tendência mais forte para a análise Comédias e tragicomédias Dos entremezes palacianos herdaram as suas comédias e tragicomédias alguns dos temas e processos. À medida que Gil Vicente se sentia mais exercitado e experiente, lançava-se na elaboração de peças de carácter palaciano, destinadas, em parte, à distracção da Corte. Denominam-se geralmente comédias as de entrecho cavaleiresco ou novelesco. As tragicomédias são constituídas por peças de carácter eminentemente aristocrático e alegórico, de tom frequentemente laudatório, e entretecidas, por vezes, de episódios fundamentados numa intenção de crítica filosófica da sociedade, ou de verdadeiros episódios