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TEXTO COMPLEMENTAR SOBRE JERONIMO DE ALBUQUERQUE
Tipologia: Manuais, Projetos, Pesquisas
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Armando de Senna Bittencourt, Marcello José Gomes Loureiro & Renato Jorge Paranhos Restier Junior
Vice-Almirante (EN-Refo), graduado em Ciências Navais pela Escola Naval, em Engenharia Naval pela Universi- dade de São Paulo e mestre em Arquitetura Naval pela Universidade de Londres. É autor de diversos artigos pu- blicados em livros sobre História. Atualmente é sócio do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil e sócio correspondente de institutos de História no exterior. É o Diretor do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha e Vice-Presidente do Comitê Internacional dos Museus e das Coleções de Armas e de História Militar (ICOMAM) e do Conselho Internacional de Museus (ICOM).
Doutorando e mestre pelo Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGHIS-UFRJ). Concluiu os Cursos de Especialização em História Militar Brasileira (UNIRIO) e em História do Brasil (UFF); é bacharel e licenciado em História (UERJ) e bacharel pela Escola Naval, com habilitação em Administração.
Historiador e mestre em História Política pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Primeiro-Tenente do Quadro Técnico Temporário da Marinha, Encarregado da Divisão de Pesquisas Históricas da Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha. Sócio Honorário do Instituto de Geografia e História Mili- tar do Brasil – IGHMB – e pesquisador associado do Laboratório de Estudos das Diferenças e Desigualdades Sociais – LEDDES/UERJ.
O braço invicto vejo com que amansa A dura cerviz bárbara insolente, Instruindo na Fé, dando esperança Do bem que sempre dura e é presente; Eu vejo c`o rigor da tesa lança Acossar o Francês, impaciente De lhe ver alcançar uma vitória Tão capaz e tão digna de memória.^1
Resumo
Este artigo analisa a trajetória de Jerônimo de Albuquerque, que comandou uma força naval contra os franceses que se instalaram no Mara- nhão em 1612, liderados por Daniel de La Touche, Senhor de La Ravardière.
PALAvRAS-ChAvE: Jerônimo de Albuquerque, conquista do norte, Antigo Regime
AbstRAct
This paper analyzes the history of Jerônimo de Albuquerque, who commanded a naval force against the French who occupied Maranhão in 1612, led by Daniel de La Touche, Lord of La Ravardière.
KEywoRDS: Jerônimo de Albuquerque, conquest of the north, Ancién Regime
(^1) Cf. TEIXEIRA, Bento. Prosopopeia , estrofe XXVIII, 1601. Bento Teixeira é considerado o primeiro escritor barroco da língua portuguesa.
esposa. Foi apelidado de “Adão Pernambuca- no”, por sua notável contribuição para a ele- vada frequência do sobrenome Albuquerque no País.^3 Ao que parece, contudo, Jerônimo de Albuquerque não recebeu do rei as re- compensas pretendidas.^4 Dos muitos filhos de Jerônimo de Albu- querque, o Jerônimo, filho da índia e neto do morubixaba Arcoverde, foi o que mais se des- tacou. Nos dois primeiros séculos do Brasil Colônia, ser criado por uma índia tupi podia ser muito vantajoso sob alguns aspectos. Seus hábitos de higiene eram mais adequa- dos para o clima tropical; o idioma mais fala- do na terra era o tupi; e a alimentação indíge- na, em geral, mais sadia do que a portuguesa. Ele combateu índios hostis e franceses invasores, liderando naturais da terra e portugueses. Falava fluentemente o tupi, sua língua de infância, e o português, 5 compreendendo claramente as duas cul- turas; era alguém, portanto, capaz de co- nectar mundos distintos. 6 “O mameluco Jerônimo de Albuquerque, devidamen- te perfilhado, filho da princesinha índia , como se dizia de Maria Arcoverde, foi daqueles que se aportuguesaram com- pletamente, ao menos nos fatos públicos da vida”. 7 A experiência inicial, ele obteve acompanhando seu pai nos combates, principalmente contra índios inimigos. Por determinação paterna, casou-se com Felipa de Melo. Os tupis se organizavam em sociedades guerreiras e havia frequente conflito entre as tribos, acumulando ofensas mútuas ao lon- go do tempo, que exigiam vinganças. Muitas vezes, também, uma disputa interna fazia
Estes versos de Bento Teixeira, escritos em 1601, apresentam dois enormes desa- fios aos portugueses que iniciavam a ocu- pação e conquista do Norte do futuro Brasil na virada do século XVI para o XVII. Primei- ro, era preciso “amansar” a população indí- gena, “bárbara e insolente”, a partir de sua cristianização. Em segundo lugar, fazia-se necessário “acossar o francês”, “com o rigor da tesa lança”, expulsando-o da região. Para realização dessas duas tarefas, o envolvi- mento dos pioneiros da família Albuquerque foi fundamental. Um de seus membros mais notórios foi Jerônimo de Albuquerque (1548-1618), que depois juntou Maranhão a seu sobrenome. Nascido no Brasil, era filho do português de mesmo nome e da índia tupi batizada como Maria do Espírito Santo Arcoverde. Seu pai, também Jerônimo de Albuquer- que, chegou ao Brasil em 1535, com a irmã, que era a esposa de Duarte Coelho, o dona- tário da capitania de Pernambuco. Auxiliou o cunhado, enquanto ele estabelecia as ba- ses de sua propriedade, fundando Igaraçu e Olinda. Substituiu-o depois de sua morte, em 1554, como capitão-mor, até a chegada de seu sobrinho, o segundo donatário. Aju- dou, mais tarde, o terceiro donatário ainda no período difícil do início da ocupação de novas terras. Permaneceu o resto de sua vida no Brasil. Na prática, podia se autode- nominar um dos conquistadores da terra, o que lhe trazia prestígio no Novo Mundo. 2 Faleceu em 1593, deixando dezenas de filhos com índias e com a portuguesa com quem se casou 25 anos depois de chegar ao Brasil, e que veio de Portugal para ser sua
(^2) FRAGOSO, João; ALMEIDA, Carla; SAMPAIO, Carlos. Conquistadores e negociantes. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. (^3) Bento Teixeira, sobre este ponto, assim escreveu: “Deste, como de Tronco florescente,/ Nascerão muitos ramos, que esperança/ Prometerão a todos geralmente/ De nos berços do Sol pregar a lança”. Cf. Prosopopeia , estrofe XXXIV, 1601. (^4) É o que se infere quando são observados estes versos de Teixeira: “Mas, quando virem que do Rei potente/ O pai por seus serviços não alcança/ O galardão devido e glória digna,/ Ficarão nos alpendres da Piscina”. Em seguida, Bento Teixeira culpa a sorte por isso: “Ó sorte tão cruel, como mudável,/ Por que usurpas aos bons o seu direito?/ Escolhes sempre o mais abominável,/ Reprovas e abominas o perfeito,/ O menos digno fazes agradável,/ O agradável mais, menos aceito./ Ó frágil, inconstante, quebradiça,/ Roubadora dos bens e da justiça!”. Cf. Proso- popeia , estrofes XXXIV e XXXV, 1601. (^5) Consta que havia pessoas nascidas no Brasil que não dominavam o idioma português, como no caso do bandei- rante Domingos Jorge Velho, que destruiu o Quilombo dos Palmares. (^6) Sobre os mediadores dessa época, consultar: GRENDI Edoardo. Polanyi. Dall’antropologia alla microanalisi storica. Milão: Etas Libri, 1978, p. 127-165; LIMA, Henrique Espada. A micro-história italiana: escalas, indícios e singulari- dades. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006, p. 187-199, sobretudo p. 196. (^7) Cf. VAINFAS, Ronaldo (Org.), Dicionário do Brasil Colonial (1500-1808) , Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p. 325
Enquanto isso, no ano de 1594, Jacques Riffault comandou uma expedição que ru- mou para o Maranhão. Já ambientado com a navegação no Norte do Brasil, por ter par- ticipado da tentativa francesa de ocupação do Rio Grande do Norte, além de ter trafica- do a leste do Rio Amazonas, estabelecendo, inclusive, boas relações com as lideranças indígenas, “orientou seus compatriotas para a criação de um estabelecimento duradouro no Maranhão”.^11 Riffault associou-se a um gentil-homem de Saint-Maure de Touraine, Charles des Vaux, que explorou a ilha ain- da em 1594, retornando anos depois para a França onde divulgou as possibilidades de instalação de uma colônia no Maranhão e destacou as relações pacíficas com os ín- dios, receptivos à evangelização. Os relatos de Charles des Vaux entu- siasmaram o monarca francês Henrique IV, que ordenou a Daniel de La Touche, Se- nhor de La Ravardière, 12 que acompanhas- se uma expedição de reconhecimento do Maranhão. 13 Ao retornar, La Ravardière encontrou a França nas mãos da Regente Maria de Médice, pois o rei fora assassi- nado em 14 de maio de 1610. 14 Procurou, então, persuadir a não entusiasmada re- gente, pelo empreendimento colonial. Ar- gumentou que os franceses mantinham há muitos anos relações amistosas com os tupinambás e que a região constituía “[...] um ponto estratégico à abertura para o mar das Antilhas, permitindo interceptar os navios carregados de metais preciosos em regresso à Espanha”. 15 Para completar os recursos financeiros necessários à nova expedição para o Bra- sil, La Ravardière buscou auxílio em outras fontes, visto que a regente não se mostrou muito disposta para “[...] empenhar-se tão a fundo quanto seu esposo admitira fazê-
lo, subvencionando a expedição”. 16 La Ra- vardière conseguiu a adesão de François de Razilly, gentil-homem da Câmara do Rei, cuja família mantinha alianças com a famí- lia do futuro Cardeal Richelieu. 17 O projeto ganhou a confiança de uma sociedade de ricos armadores de navios, normandos li- derados por Nicolas de Harlay, Senhor de Sancy, Barão de Molle e de Gros-bois. 18 Par- tiram, então, com três navios de Cancale, na Bretanha, em 19 de março de 1612, che- gando ao Brasil em 18 de julho do mesmo ano. O Régent era comandado por François de Razilly, e nele se encontravam La Ravar- dière e des Vaux, além do índio Yacopo, que retornava ao Brasil após ter sido apresenta- do à rainha; o La Charlotte era comandado por Harlay de Sancy; e, por último, o Saint- Anne , comandado por Isaac de Razylli, ir- mão de François de Razylli. A expedição foi acompanhada por um grupo de missioná- rios capuchinhos, entre eles os padres Ivo dEvreux e Claude DAbbeville, que mais tarde escreveram sobre o Brasil. Quando chegaram ao Maranhão, lá já se encontra- vam cerca de 400 franceses, bem como em- barcações oriundas do Hâvre e de Dieppe. 19 A primeira iniciativa foi a construção de um forte batizado de São Luís. Havia a intenção de se estabelecerem definitivamente e co- meçaram, em seguida, a construir casas, armazéns e a trabalhar a terra para as plan- tações. Essa colônia ficou conhecida como a França Equinocial. Em dezembro de 1612, François de Razylli e o Padre Claude D’Abbeville suspenderam do Maranhão para a França em busca de mais recursos para o processo de coloniza- ção. Entretanto, o entusiasmo demonstrado pelos “cortesãos, comanditários e religiosos não é inteiramente compartilhado pela Rai- nha Maria [...]”.^20 Razylli tinha consciência
(^11) Cf. BONICHON, Philippe; e GUEDES, Max Justo. “A França Equinocial”. In. História Naval Brasileira , primeiro volume, tomo I. Rio de Janeiro: Serviço de Documentação Geral da Marinha, 1975, p. 528. (^12) La Ravardière era um experiente navegador que, inclusive, participou de explorações na costa da Guiana em 1604. (^13) DAHER, Andréa. O Brasil francês : singularidades da França Equinocial, 1612-1615. Trad. Albert Stückenbruck. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007, p. 48. (^14) Luís XIII não havia atingido a maioridade quando Henrique IV foi assassinado. (^15) Cf. Ibidem, p. 50. (^16) Cf. BONICHON & GUEDES, op. cit, p. 531. (^17) Idem. (^18) DAHER, op. cit., p. 52. (^19) Ibidem, p. 56. (^20) Cf. Ibidem, p. 60.
Armando de Senna Bittencourt, Marcello José Gomes Loureiro & Renato Jorge Paranhos Restier Junior
da pressão dos defensores de uma aliança da França com a Espanha e das negocia- ções em curso para o casamento de Luís XIII com a infanta espanhola Ana D’Áustria, que poderiam gerar grandes dificuldades para a manutenção da França Equinocial. De fato, os recursos adquiridos para a segunda expe- dição, que partiu na Páscoa de 1614, origina- ram-se principalmente da iniciativa privada e não do apoio prestado pela monarquia. Desde o ano de 1608 havia por parte do Governador-Geral do Brasil Diogo de Mene- zes grande preocupação com as atividades francesas no Maranhão. O Rei Felipe III (Feli- pe II, em Portugal) ordenou que Diogo de Me- nezes enviasse informações sobre os acon- tecimentos naquela região. Este despachou Martim Soares Moreno ao Ceará, que com- bateu um patacho francês que estava apor- tando em Mucuripe (atual porto do Ceará)^21 e, mais tarde, em seu retorno àquela região, fundou um presídio (forte) chamado Nossa Senhora do Amparo. Em 1613, Felipe III enviou para o Brasil um novo governador, Gaspar de Souza, com ordens para tomar providências contra os franceses do Maranhão. Gaspar de Souza se transferiu para Olinda, onde estaria mais próximo do que se denomina atualmen- te de “Teatro de Operações”. Rapidamente Gaspar de Souza iniciou as ações para combater os franceses no Norte do Brasil, enviando uma expedição para “[…] o reconhecimento do Teatro de Operações e o conhecimento do inimigo”.^22 Para coman- dar a expedição, foi designado Jerônimo de Albuquerque, o “experimentado nas cousas do sertão e dos Índios”, que se tornou o pri- meiro nascido no Brasil a comandar uma força naval, em missão tipicamente militar, em 1613, na América portuguesa.^23 Tal expe- dição foi formada por aproximadamente cem homens e uma flotilha composta de três ou quatro navios.^24 Esses navios eram denomi- nados “caravelões”, designação genérica de um tipo de navio que era construído na costa do Brasil de então. É possível que fossem se-
melhantes a grandes saveiros, embarcações típicas existentes na Bahia, que ainda são construídos muito artesanalmente, sem de- senhos, obedecendo a métodos e unidades de medida, de certa forma semelhantes aos empregados pelos construtores navais por- tugueses para caravelas, naus e galeões do século XVI e XVII. Jerônimo de Albuquerque partiu de Reci- fe em junho de 1613, junto com seu filho, An- tônio de Albuquerque,^25 que comandava uma companhia de 50 homens. Ao passar pelo Ceará, tomou a seu serviço o Capitão Mar- tins Soares Moreno. Fundearam no Rio Ca- mocin, escolhido como base das operações. Albuquerque ordenou que Martim Soares, com 25 homens e sete indígenas, efetuasse reconhecimento na região. Martim Soares efetuou o reconhecimento e destruiu alguns redutos franceses, mas não pôde regressar ao Camocin para apresentar os resultados a Jerônimo de Albuquerque em função das condições adversas de navegação. Dirigiu-se para as Antilhas e depois para a Espanha, chegando a Sevilha em 24 de abril de 1614. Sem o regresso de Martim Soares Mo- reno, Albuquerque retirou-se de Camocin, por considerar a aguada ruim e foi para o Buraco de Tartaruga, ou Jericoacoara, fun- dando uma pequena fortificação, Nossa Se- nhora do Rosário. Em função da escassez de alimentos, retornou para Pernambuco por terra, ordenando que os navios também re- gressassem para aquela capitania. Manteve o forte guarnecido com 40 soldados coman- dados por seu sobrinho, Gregório Cardoso de Albuquerque. Em 25 de maio, chegou a Recife, como seu adjunto, Diogo de Campos Moreno, tio de Martim Soares Moreno, com aproximada- mente cem homens, para se unir a Jerônimo de Albuquerque. Em Olinda, em 22 de junho, Gaspar de Souza entregou a Jerônimo de Albuquerque um regimento^26 nomeando-o para “Capitão da Conquista e Descobrimento das terras
(^21) CALMON, op. cit., p. 36. (^22) Cf. BONICHON, & GUEDES, op. cit., p. 557. (^23) Cf. “Jornada do Maranhão”. In. História Naval Brasileira , op. cit., p. 557. (^24) BONICHON & GUEDES, op. cit, p. 557, falam de até três navios; contudo, segundo Pedro Calmon, Jerônimo de Albuquerque teve a seu comando quatro navios. Ver CALMON, op. cit., p. 37. (^25) SALVADOR, Frei Vicente do. História do Brasil : 1500-1627, op. cit_._ , p. 338. (^26) BONICHON & GUEDES, op. cit., p. 560.
Armando de Senna Bittencourt, Marcello José Gomes Loureiro & Renato Jorge Paranhos Restier Junior
Equinocial, logo os reforços para a empresa francesa no Brasil não foram enviados a La Ravardière. A trégua não foi aceita pelo Rei Felipe III, que ordenou nova campanha con- tra os franceses, cujo comando passou para o então Capitão-Mor de Pernambuco Alexan- dre de Moura. Durante o período de tréguas, Jerônimo de Albuquerque passou para a Ilha do Maranhão e fundou o Fortim de São José de Itapari.^36 Os franceses capitularam em no- vembro de 1615, conforme a descrição da historiadora Andréa Daher:
Em 1o^ de novembro, antes do término da trégua de um ano, uma armada de nove navios comanda- dos pelo capitão português Ale- xandre de Moura cerca os france- ses na ‘grande ilha’, enquanto as forças comandadas por Jerônimo de Albuquerque se dirigem, no dia seguinte, para o Forte de São Luís, onde La Ravardière acaba renden- do-se sem resistência.^37
As vitórias sobre os franceses no Mara- nhão fizeram com que Jerônimo de Albu- querque fosse reconhecido pelo reino como capitão-mor da conquista daquela capitania.^38 Graças às iniciativas de homens como Jerônimo de Albuquerque, a monarquia po- dia se viabilizar em suas conquistas. Afinal, esses homens, dispersos em intrincadas redes imperiais, eram capazes de movimen- tar redes que traziam substância à política
ultramarina.^39 O rei se representava graças à lealdade desses homens – por isso dependia deles –, que transformavam política em ação governativa. Frequentemente adaptavam as ordens régias às realidades locais, de acordo com os seus interesses e os de suas redes. Por isso, o renomado historiador inglês John Elliott afirmou que a autoridade real era “fil- trada, mediada e dispersada”.^40 Ocupado o Maranhão, Francisco Caldeira Castelo Branco recebeu ordens para se es- tabelecer na região da foz do Rio Amazonas, fundando o Forte do Presépio , de onde se ori- ginou a cidade de Belém. Isso completou a ocupação da costa Norte pelos portugueses, sempre projetando o Poder Militar por meio de forças navais. Jerônimo de Albuquerque obteve o auxí- lio de índios, antes um obstáculo à presença lusa na região Norte, em favor da coroa. O “brasileiro”, em uma ação pioneira, coman- dou uma força naval e teve participação rele- vante na expulsão de invasores franceses. A partir da aplicação do Poder Naval, foi capaz de assegurar aos portugueses o domínio do Norte do futuro Brasil, permitindo que essa área fosse incorporada à atual configuração do Território Brasileiro. O mérito da conquis- ta e da vitória “tão digna de memória” sobre os invasores fez com que Jerônimo de Albu- querque acrescentasse em seu sobrenome “Maranhão”, vinculando sua própria identi- dade à terra que, “a custa do seu sangue e fazendas”, defendeu.^41
(^36) VIANNA, op. cit., p. 138. (^37) Cf. DAHER, op. cit., p. 73. (^38) FRAGOSO, João Luís & GOUVEIA, Maria de Fátima Silva. “Monarquia pluricontinental e repúblicas: algumas reflexões sobre a América lusa nos séculos XVI-XVIII”. In. Revista Tempo , no^ 27, 2009, p. 62. (^39) FRAGOSO, João; BICALHO, M. Fernanda Baptista & GOUVÊA, M. de Fátima. “Uma leitura do Brasil Colonial. Bases da materialidade e da governabilidade no Império” in Penélope , n o^ 23, 2000, p. 67-88, especialmente p. 81-83. A noção de um Império em rede, acima exposta, obteve suas considerações mais paradigmáticas nos escritos de Luís Filipe Thomaz acerca da estrutura política e administrativa do Estado da Índia, cf. THOMAZ, Luís F. De Ceuta a Timor. Lisboa: Difel, 1994, p. 210; Cf. “Da Colônia ao Império: um percurso historiográfico”, in SOUZA, L. FURTADO, Júnia & BICALHO, Maria Fernanda. O Governo dos Povos. São Paulo: Alameda, 2009, p. 96. A perspectiva recebeu também interessantes considerações em CASALILLA, Bartolome Yun. “Entre el imperio colonial y la monarquía compuesta. Élites y territorios en la Monarquía Hispánica (ss. XVI y XVII)”, in CASALILLA, Bartolome Yun (dir). Las Redes del Imperio. Élites sociales en la articulación de la Monarquía Hispánica, 1492-1714. Madri: Universidad Pablo de Olavide, 2009, p. 11-94. (^40) Cf. ELLIOTT, J. H. “A Espanha e a América nos Séculos XVI e XVII” in BETHELL, Leslie (org.). História da América Latina Colonial, Vol I. 2a^ Ed. 2a^ Reimpressão. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo; Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão, 2004, p. 283-337, citação na p. 299. (^41) Faleceu aos 70 anos de idade, no ano de 1618, depois de ter ocupado cargos de prestígio na administração local, conforme VAINFAS, op. cit., p. 325; e HELIDACY, Maria Muniz Corrêa. “Antigo regime, império português e govern- ança no Maranhão e Grão-Pará”. Mneme : revista de humanidades. Caicó: Universidade Federal do Rio Grande do Norte, v. 9, no^ 24, set/out, 2008, p. 1-16.