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LIVRO DE POESIAS DE MARINA COLASANTI COBRADO NO VESTIBULAR DA UERJ E EM OUTROS VESTIBULARES
Tipologia: Manuais, Projetos, Pesquisas
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Não perca as partes importantes!





























































































Enfiou a serpente na agulha. E começou a costurar.
Uma janela pintada para complementação arquitetônica da fachada. No peitoril dessa janela, ao lado de um vaso de gerânios também pintado, um gato vivo, desejando ser parte do conjunto, esforça-se para manter a imobilidade. Disposto a aniquilar a concorrência, o vaso de gerânios deixa cair uma folha.
Desejoso de querer bem, apaixonou-se por uma raposa. As raposas – sempre soubera disso – são criaturas encantadas que abrigam o espírito de uma mulher. Amou-a com devoção durante muitos anos, sem que a mulher oculta se desse a conhecer. Quando a raposa afinal morreu, a solidão sentou-se à mesa diante dele. Que, acostumado, continuou a se alimentar de carne crua.
Não se acha capaz para a vida este homem que, sozinho, joga xadrez com o computador. Como em tantas partidas anteriores, perdidas todas, não enfrenta apenas o adversário invisível, duela com uma dúvida. Vale mais:
Tinha só meia sombra. Nenhum espanto. Era apenas meio homem.
Andava sobre as mãos porque, como o cavalo do Barão de Munchausen, havia sido cortado ao meio. Não por uma bala de canhão, mas pela vida. Enrodilhados ao redor do braço levava ramos de hera com que emendaria a parte ausente quando a encontrasse. E palma a palma a buscava, embora suspeitando-a despedaçada.
como um capuz, tentando colocar o rosto lá onde ele deveria estar. Assim passa o dia. Ao anoitecer, sai. As pessoas se surpreendem vendo-o encapuzado. Mas não se dão conta, não exatamente. Confundem a fronha estampada com um lenço, o capuz de um abrigo. Um homem estranho não é coisa que chame a atenção nas ruas, sobretudo no escuro. Afastam-se, e seguem caminho. O homem volta na hora de dormir, tira a fronha da cabeça, enfia nela o travesseiro, já sem tantos cuidados. Aprendeu que não são necessários. E deita-se de bruços, com a cara metida sobre o rosto. Mas dali a pouco sente-se sufocar não sabe se pelas plumas de ganso ou por suas antigas feições e é obrigado a virar-se um pouco de lado. Na manhã seguinte, ao acordar, olha logo para a fronha. O rosto não está lá. Feliz, ansioso, corre ao espelho. O rosto voltou para o seu lugar. Ou melhor, quase para o seu lugar. Grudou um pouco de lado. Uma bochecha lhe cobre a orelha, a outra parece curta e, decididamente, o nariz não está centrado. O homem unta o rosto com creme, tenta fazê-lo deslizar, acertá-lo. O rosto não se move. Melhor que ontem, porém, pensa o homem. Enfia um boné abaixando a viseira, enrola uma echarpe alta no pescoço e vai trabalhar. Que friorento! pensam os colegas. Mas o dia acaba e o homem volta para casa. Em casa se estuda no espelho. O rosto continua deslocado para a direita. Ele tira o espelho do prego, o inclina para a esquerda e começa a dar-lhe pancadinhas com a mão, a batê-lo de leve contra a mesa. Golpe a golpe, o rosto desliza entre vidro e prata, se solta, se desloca. Quando finalmente o nariz está no centro, o homem pendura o espelho e se olha. Seu velho querido rosto está no lugar. Mas os olhos, talvez mais profundos que de costume, se perguntam como fazer para conservá-lo assim.
Porque o sono se recusa a emantá-lo na cama, um homem começa a contar carneiros. Do que se aproveita o lobo, para deslizar sorrateiro na cena e posicionar-se, boca aberta, do outro lado da cerca.
Em tempos que não tiveram registro por falta de escrita, os Citas foram assolados por densos bandos de águias que toldavam o sol e ameaçavam as crianças. Arco e flecha eram, além das lâminas, sua única arma. Só muitos séculos mais tarde desceram das terras do Norte. E os assírios, que primeiro relataram a presença daqueles bárbaros, nunca entenderam seu estranho costume de disparar setas para as nuvens.
Porque se amavam, abraçaram-se confundindo seus corpos. Quando, findo o amor, se separaram, ele afastou-se mancando um pouco porque, além do ventrículo esquerdo, havia assumido uma tíbia dela, ligeiramente mais curta que a sua própria. E ela se foi, mais alta do que quando o havia encontrado, mas apertando um pouco as pálpebras sobre os cristalinos antes dele, agora seus, e míopes.
De alto a baixo nas paredes da relojoaria, relógios. E cada um marca hora diferente. Assim prefere o velho relojoeiro. Para ele que vê o mundo de duas maneiras ao mesmo tempo – uma com o olho atacado pela catarata, outra com o olho agigantado pela lupa – a unicidade é inviável. Das horas, escolhe a que mais lhe convém.
Achou que não ficaria bem ter relações sexuais com ele no primeiro encontro. Teve antes.