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Iniciação no Candomblé, Manuais, Projetos, Pesquisas de Português (Gramática - Literatura)

Iniciação no culto do Candomblé na África.

Tipologia: Manuais, Projetos, Pesquisas

2020

Compartilhado em 12/02/2020

Agorenssi
Agorenssi 🇧🇷

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A Iniciação de Pierre Verger no Benin
Milton Guran - Fotógrafo e antropólogo, professor da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília, e pesquisador associado do
Centro de Estudos Afro-Asiáticos da Universidade Cândido Mendes.
Este texto tem como objetivo tão somente compartilhar informações obtidas através de
entrevistas com dois antigos colaboradores de Pierre Verger e da observação de uma
cerimônia em sua homenagem realizada em Saketé. Tanto as entrevistas quanto a cerimônia
tiveram lugar em abril de 1998, durante as filmagens de "Mensageiro entre dois mundos",
documentário sobre a vida de Verger, dirigido por Lula Buarque de Holanda, com a
participação de Gilberto Gil, no qual atuei como consultor e produtor para o Benin. Agradeço
a colaboração de Gerlaine Torres Martini, que muito enriqueceu este trabalho.
No dia 26 de abril de 1998, os adeptos de Xangô do
vilarejo de Saketé, no reino Yorubá de Kêtu, no Benin,
fizeram uma grande cerimônia em intenção do finado
Babalawo Pierre Fatumbi Verger, ali iniciado ao culto
daquele Orixá há mais de cinqüenta anos. Conhecida como
Idgo-Iranti
(o dia da lembrança), a cerimônia mobilizou
todo o vilarejo em três momentos distintos: o primeiro se
deu no terreiro mesmo em que Verger foi iniciado; o
segundo na praça principal, onde existe o grande templo
de Xangô; e o terceiro consistiu em uma procissão pelas ruas do vilarejo, conduzida pelo
chefe do culto a Xangô e seus Babalorixás e Iyalorixás, que exibiam um retrato do
homenageado. É somente depois desta cerimônia que se considera o Bàbáláwo realmente
morto.
Nestor Ogoulola, também Bàbáláwo e amigo de Pierre Verger por mais de cinqüenta anos,
explica que a
Idgo-Iranti
é bastante cara porque envolve muitas pessoas e muitas despesas.
A comunidade é pobre, e desde a morte de Verger esperava uma ocasião para cumprir suas
obrigações para com seu "filho" ilustre. A ocasião se apresentou somente em abril deste ano,
através da produção de um filme documentário sobre a vida e a obra de Pierre Fatumbi
Verger, falecido em fevereiro de 1996.
Feito o enterro simbólico de Pierre Verger, alguns dos seus antigos colaboradores
sentiram-se liberados para comentar o que foi o percurso iniciático do mais famoso Bàbáláwo
branco do Benin, e como trabalhava o pesquisador. É o caso de Nestor Ogoulola, que foi
intérprete e interlocutor de Verger desde o começo de sua trajetória na África, e de
Nordichao Bachalou, laboratorista e também intérprete na região de Abomey a partir de
1956.
"... Je Suis Revenu Fatumbi..."
Técnico em piscicultura formado na França, 62 anos, Nestor
Ogoulola vem de uma família tradicional de Babalaôs do vilarejo de
Pobè, no reino Kêtu, e foi, como dissemos, intérprete e interlocutor de
Verger durante quase todo o seu percurso no Benin. Conta Nestor
que, quando Verger quis se iniciar no Ifá, fez uma série de visitas aos
mais conceituados Babalaôs nagôs, que lhe recomendaram consultar o
decano dentre eles, Oloumari de Pobè. Este, como não falava francês,
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A I niciação de Pierre V erger no B enin

Milton Guran - Fotógrafo e antropólogo, professor da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília, e pesquisador associado do Centro de Estudos Afro-Asiáticos da Universidade Cândido Mendes. Este texto tem como objetivo tão somente compartilhar informações obtidas através de entrevistas com dois antigos colaboradores de Pierre Verger e da observação de uma cerimônia em sua homenagem realizada em Saketé. Tanto as entrevistas quanto a cerimônia tiveram lugar em abril de 1998, durante as filmagens de "Mensageiro entre dois mundos", documentário sobre a vida de Verger, dirigido por Lula Buarque de Holanda, com a participação de Gilberto Gil, no qual atuei como consultor e produtor para o Benin. Agradeço a colaboração de Gerlaine Torres Martini, que muito enriqueceu este trabalho. No dia 26 de abril de 1998, os adeptos de Xangô do vilarejo de Saketé, no reino Yorubá de Kêtu, no Benin, fizeram uma grande cerimônia em intenção do finado Babalawo Pierre Fatumbi Verger, ali iniciado ao culto daquele Orixá há mais de cinqüenta anos. Conhecida como Idgo-Iranti (o dia da lembrança), a cerimônia mobilizou todo o vilarejo em três momentos distintos: o primeiro se deu no terreiro mesmo em que Verger foi iniciado; o segundo na praça principal, onde existe o grande templo de Xangô ; e o terceiro consistiu em uma procissão pelas ruas do vilarejo, conduzida pelo chefe do culto a Xangô e seus Babalorixás e Iyalorixás, que exibiam um retrato do homenageado. É somente depois desta cerimônia que se considera o Bàbáláwo realmente morto. Nestor Ogoulola, também Bàbáláwo e amigo de Pierre Verger por mais de cinqüenta anos, explica que a Idgo-Iranti é bastante cara porque envolve muitas pessoas e muitas despesas. A comunidade é pobre, e desde a morte de Verger esperava uma ocasião para cumprir suas obrigações para com seu "filho" ilustre. A ocasião se apresentou somente em abril deste ano, através da produção de um filme documentário sobre a vida e a obra de Pierre Fatumbi Verger, falecido em fevereiro de 1996. Feito o enterro simbólico de Pierre Verger, alguns dos seus antigos colaboradores sentiram-se liberados para comentar o que foi o percurso iniciático do mais famoso Bàbáláwo branco do Benin, e como trabalhava o pesquisador. É o caso de Nestor Ogoulola, que foi intérprete e interlocutor de Verger desde o começo de sua trajetória na África, e de Nordichao Bachalou, laboratorista e também intérprete na região de Abomey a partir de

"... Je Suis Revenu Fatumbi..." Técnico em piscicultura formado na França, 62 anos, Nestor Ogoulola vem de uma família tradicional de Babalaôs do vilarejo de Pobè, no reino Kêtu, e foi, como dissemos, intérprete e interlocutor de Verger durante quase todo o seu percurso no Benin. Conta Nestor que, quando Verger quis se iniciar no Ifá, fez uma série de visitas aos mais conceituados Babalaôs nagôs, que lhe recomendaram consultar o decano dentre eles, Oloumari de Pobè. Este, como não falava francês,

tomou como intérprete o neto, ninguém mais que o próprio Nestor, na época um dos poucos alunos do grupo escolar. Ao conhecer as pretensões daquele europeu, o velho Bàbáláwo teria rido dele e perguntado "como um branco pode se interessar pelo Ifá se não existe nada disso na sua terra". Verger, segundo Nestor, teria então explicado que entre os europeus havia uma "ciência" chamada horóscopo, que permitia conhecer o passado, o presente e o futuro. Seu interesse era comparar a ciência dos brancos com o Ifá , ciência dos africanos. Consultado, o Ifá aceitou a postulação de Verger e determinou que ele fosse iniciado em Kêtu, pelo Bàbáláwo Oluwo Fakambi. Segundo o Ifá , o signo de cabeça de Verger era o Osètourakèlèbo, e ele devia ainda obrigação a Xangô , tendo que se iniciar também no culto desse Orixá, o que se deu mais tarde em Saketé. Confrontado à inevitável questão sobre a eficácia de um europeu na prática dos cultos tradicionais africanos, Nestor afirma que Pierre Fatumbi Verger foi o único europeu que conheceu realmente o "fundo da cabaça", onde são guardados os segredos da cultura africana. Para tanto ele foi iniciado nos segredos do Yamioséhunga, o "poder das mulheres", e teve sua cabeça lavada com as folhas Ewé Adjè, Ewé Ina, Aloukpaida, entre outras, durante a sua iniciação ao Ifá , o que lhe assegurou uma memória prodigiosa. Normalmente, a data e as circunstâncias da sua iniciação não são comentadas pelo Bàbáláwo. Não obstante, Verger se permitiu, já no fim da vida, algumas referências a essa questão. Tornou pública, por exemplo, a sua correspondência com Alfred Métraux, onde fala de Kêtu como o lugar para onde "foi Pierre Verger e voltou Fatumbi". Ao organizador desta publicação, Jean-Pierre Le Bouler, ele precisou ainda que se tornou "(...) Fatumbi em Kêtu no sábado 28 de maio de 1953 por volta de 10 horas da manhã", data essa que foi corrigida posteriormente como sendo no mês de março. Foi nesta ocasião que Verger fez a foto de seu iniciador nos segredos do Ifá , até hoje exposta na sala principal da casa de seus descendentes em Kêtu. Nestor explica que este momento em que o iniciado é "rebatizado" marca a sua aceitação. Após um período de aprendizado, ele é confirmado Bàbáláwo pela cerimônia do Kpori (ou Gbadou, em Fon). O Kpori é um objeto que contém o signo de Ifá que identifica o Bàbáláwo, aquilo que lhe permite se apresentar enquanto tal. A confirmação de Verger teria se dado, segundo Nestor, por volta de 1956. O aprendizado de um Bàbáláwo, como o que seguiu Verger, sempre segundo Nestor, compreende um período de reclusão no " couvent" – como são chamados os terreiros no Benin – depois que o postulante já aprendeu os signos básicos do Ifá. Neste período de reclusão, ele veste-se apenas com um pagne em torno dos rins (maneira de vestir-se que Verger guardou até os seus últimos dias) e só se relaciona com os Babalaôs, o chefe da iniciação, o adjunto deste e uma mulher, já na menopausa, encarregada entre outras coisas da preparação da comida do postulante. Entre a reclusão e a confirmação Verger instalou-se em uma pequena aldeia próxima a Kêtu, chamada Isedè. A casa onde ali morou ainda está de pé e é mostrada com orgulho pelos moradores. Os mais velhos dizem que Verger era aceito por todos por ser muito educado. Ele comia a comida da terra e conhecia as saudações de todos os Orixás, além de estar sempre disposto a conversar e a compartilhar os seus bens. Seu automóvel Citroën "Deux Cheveaux", equipamento raríssimo na colônia do Daomé de então, foi certamente a maior atração da aldeia na época e até hoje é lembrado com admiração.

A terceira e última parte da cerimônia consistiu em uma procissão, cujo nome é Iwodé- Sàngó , que partiu do " couvent" em Daanyogou e foi até a grande praça. Bàbá Sàngó Agboba e seus adeptos, que portavam o retrato de Verger foram seguidos por uma parcela significativa da população de Saketé nesta caminhada ritual que tem como objetivo tornar público de forma definitiva que Sàngówumi retirou-se do mundo dos vivos. Em princípio, informam os organizadores, a procissão deveria levar a prancha de madeira destinada à prática do Ifá , que teria sido comprada por Verger no dia de sua iniciação. Como esta se encontrava certamente na Bahia, eles se viram obrigados a usar um retrato do Bàbáláwo. No caso, uma reprodução de um auto-retrato que Verger havia dado de presente ao terreiro onde foi iniciado. Trata-se, aliás, da mesma foto que figura no frontispício do livro "Le Messager", a última e mais completa publicação de sua obra fotográfica feita sob a sua supervisão direta. É, portanto, a imagem que Verger escolheu para representar a si próprio, na qual figura com destaque um aparelho fotográfico. O Fotógrafo A partir dos anos cinqüenta, o trabalho fotográfico de Verger é quase que exclusivamente voltado para o campo religioso. Seu principal colaborador no Benin, nesta época, foi Nordichao Bachalou, que exerceu a dupla função de intérprete e de laboratorista. Nordichao Bachalou, 62 anos, se apresenta como historiador tradicional e fotógrafo documentarista, tendo sido formado em ambas as atividades por Pierre Verger. Ele pertence a um ramo da família real de Abomey, e muito jovem, indicado por relações de família, foi trabalhar no IFAN – Instituto Francês da África Negra. Em 1956 foi designado para auxiliar Verger, então pesquisador do Instituto. Uma de primeiras tarefas do jovem auxiliar foi se iniciar, juntamente com seu chefe, no culto de Tohosou no "couvent" Zomandonou, em Abomey. Esta iniciação era fundamental para que Verger tivesse acesso aos cultos Fon, e, como ele não falava a língua daomeana, a solução foi iniciar também o intérprete. Isto lhes permitiu trabalhar em todos os " couvents" do Benin sob a autoridade do Rei de Abomey. Nordichao foi também iniciado nos mistérios da fotografia, encarregando-se da revelação e ampliação dos filmes. Nesta época o trabalho era feito em um pequeno laboratório instalado nas dependências do IFAN junto ao Museu de Abomey. As condições eram bastante precárias, mas segundo nosso informante antes da sua chegada ainda era pior, pois não havia nem mesmo eletricidade. Ajudado por seu laboratorista de então, Azis Moustaphá, Verger ampliava suas fotos utilizando diretamente a luz do dia. O processo era o seguinte: um antigo aparelho fotográfico de fole de era colado a uma pequena janela de vidro, portando o negativo que era assim ampliado pela ação da luz do dia, projetando-se sobre o vidro. Do lado de dentro do laboratório, o papel fotográfico era colado ao vidro, sendo que as dimensões da imagem e o foco eram controlados pelo fole. Assim foram obtidas as ampliações que cercam Nodichao na foto que ilustra este texto, onde aparece com o aparelho fotográfico que servia de ampliador nas mãos. Mais tarde um novo laboratório foi construído, com luz elétrica, em uma espécie de apartamento onde Verger se hospedava nas dependências do IFAN de Abomey. Na época, Verger trabalhava em formato 35mm, com aparelhos Leica e Nikon, e utilizava filmes em rolo, que eram rebobinados para utilização em campo. O processo de revelação, conta Nordichao, era bastante artesanal. Mergulhava-se o filme no banho revelador, desenrolando- o da mão direita para a mão esquerda e vice versa, contando até 160, quando o filme era dado como revelado e passava para o banho interruptor e para o fixador.

Juntos, Verger e Nordichao percorreram todos os " couvents" de Abomey e também os da costa, de Badagry, na Nigéria, até o Togo. Muitas vezes o auxiliar, que seguia sempre Verger carregando seu equipamento, se viu impedido de entrar nos recintos mais protegidos dos " couvents". Verger entrava sozinho para fazer as fotos mais secretas. Estas, como de resto as outra fotos relativas aos cultos religiosos, nunca foram mostradas no Benin. Nordichao guarda como um tesouro uma coleção grande de fotos que foram dadas por Verger ao seu pai, mas são todas cenas da vida cotidiana ou de cerimônias públicas, de caráter folclórico. As fotos das cerimônias secretas, acredita Nordichao, "ou estão muito bem guardadas na Bahia ou então foram queimadas por Verger", o "pai do segredo", como também são chamados os Babalaôs. Milton Guran