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Este documento discute as interações farmacológicas entre diferentes medicamentos, incluindo interações benéficas que aumentam a eficácia terapêutica e interações adversas que podem causar problemas terapêuticos. O texto também aborda a importância de estudar as interações farmacológicas para avaliar o risco/benefício de combinações específicas de medicamentos.
Tipologia: Resumos
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*Rogério Hoefler e Lenita Wannmacher****
A longevidade da população mundial é crescente. Com isso, observa- se aumento na incidência de doenças crônicas degenerativas e consequente incremento no uso de medicamentos (polifarmácia). O emprego concomi- tante de múltiplos fármacos torna-se comum e traz consigo risco elevado de interações entre medicamentos. Isso pode acarretar efeitos adversos, ou os efeitos terapêuticos dos fármacos associados podem ser alterados, com consequências graves para a saúde do paciente.^1 Por outro lado, as asso- ciações de fármacos podem trazer benefício terapêutico em situações específicas, quando há reforço da eficácia (analgésico não opioide + anal- gésico opioide), preservação do efeito de um dos fármacos associados (anes- tésico local + simpaticomimético) e re- dução da resistência microbiana (esque- ma tríplice com antituberculosos). Em qualquer circunstância é imprescindível o reconhecimento das eventuais interações existentes entre os medicamentos previamente prescritos aos pacientes (iniciando por anamnese acurada), para, fundamentalmente, controlar os riscos potenciais daí provenientes. Interações de medicamentos (IM) são eventos clínicos em que os efei- tos de um fármaco são alterados
pela presença de outro fármaco, alimento, bebida ou algum agente químico ambiental.^2 Quando dois medicamentos são administrados concomitantemente a um paciente, eles podem agir de forma independente ou interagir entre si, com aumento ou diminuição de efeito tera- pêutico ou tóxico de um ou de ambos.^2 O desfecho de uma IM pode ser perigoso quando promove aumento da toxicidade de um fármaco. Por exemplo, pacientes que fazem uso de varfarina podem ter sangramentos se passarem a usar ácido acetilsalicílico sem reduzir a dose do anticoagulante.^2 Algumas vezes, a interação reduz a eficácia de um fármaco, o que pode ser tão nocivo quanto a toxicidade. Por exemplo, tetraciclina sofre quelação por antiácidos e alimentos lácteos, sendo excretada nas fezes sem produzir o efeito antimicrobiano desejado.^2 As interações benéficas terapeu- ticamente aumentam a eficácia dos fármacos associados (p.ex.: associação de diuréticos a anti-hipertensivos) ou exercem efeito corretivo sobre a reação adversa consequente ao uso de um deles (p.ex.: diurético retentor de potássio corrige a hipopotassemia induzida por tiazidas).^2 Embora muitos estudos tenham mostrado que as associações de
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Rogério Hoefler F Faculdade de Medicina da Universidade de Sãoarmacêutico formado pela Universidade Católica de Santos Paulo. Membro da Comissão Técnica e Multidisciplinar de Atualização da Rename. Pós-graduado em Farmácia Hospitalar pelo Hospital das Clínicas da (Comare), da Comissão Técnica Executiva do Formulário Terapêutico Nacional (FTN) e da equipe Informação sobre Medicamentos (Cebrim), do Conselho Federal de Farmácia, Brasília, DF. técnica do Centro Brasileiro de ****Lenita Wannmacher* Professora de Farmacologia inativa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e da Universidade de Passo Fundo, RS. Mestra em Medicina pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Consultora em Farmacologia do Núcleo de Assistência Farmacêutica da Escola Nacional de Saúde Pública da FIOCRUZ, Rio de Janeiro. Membro do Comitê de Especialistas em Seleção e Uso de Medicamentos Essenciais da Organização Mundial da Saúde, Genebra.
fármacos podem causar interações clinicamente significantes, poucos examinaram seu impacto sobre saúde e bem-estar do paciente.^3 Um deles^4 comparou as informa- ções sobre IM que constavam em quatro compêndios internacionais. Foram identificadas e analisadas 1. interações graves para uma lista de 50 fármacos. O autor concluiu não haver consistência na inclusão e classificação das IM de maior significância, relativas aos 50 fármacos examinados. Isso pode refletir a falta de padronização da terminologia usada para classificar as IM e a carência de boas provas epidemiológicas para avaliar a relevância clínica das interações. Por isso é importante que os profissionais da saúde atentem para a frequência da ocorrência das IM e para o impacto que possam ter sobre a saúde dos pacientes.
Epidemiologia das interações de medicamentos Problemas terapêuticos prove- nientes de interações entre fármacos são significantes e associam-se de 0,6% a 4,8% das internações hospitalares.^5 Estudo transversal que envolveu a análise de 1.553 prescrições médicas dispensadas em três farmácias comuni- tárias identificou 10,5% de IM em todas as prescrições, sendo que 1,9% delas correspondiam a interações graves. O risco de interação aumentou com o número de fármacos prescritos. Os autores concluíram que os médicos, especialmente psiquiatras, cardiolo- gistas e neurologistas, deveriam ser mais atentos para evitar IM clinica- mente significantes.^6 Outro estudo transversal que incluiu 624 pacientes ambulatoriais, com mais de 50 anos de idade e síndrome de dor não maligna verificou que o número médio de analgésicos
não opioides prescritos por sete dias foi de 5,9 ± 2,5, e que cerca de 80% dos pacientes receberam prescrição de medicamentos com uma ou mais potenciais IM, das quais 3,8% deveriam ser evitadas. Associaram-se significan- temente a risco de IM o uso de cinco ou mais fármacos (OR ajustado: 4,34; CI 95%: 2,76–6,83), a idade do paciente a partir de 60 anos (OR ajustado: 1,66; CI 95%: 1,01–2,74) e a presença de doença cardiovascular (OR ajustado: 7,26; CI 95%: 4,61–11,44).^1 Em estudo realizado em três farmácias comunitárias na Croácia (n= 265 pacientes ambulatoriais hiperten- sos, com 65 anos ou mais e em uso de dois ou mais fármacos) identificaram-se 215 combinações de fármacos, adminis- tradas a 240 (90,6%) pacientes, com risco potencial de apresentar interações clinicamente relevantes. O número mé- dio de IM por paciente foi de quatro.^7 As IM causam 4,8% das hospi- pitalizações atribuídas a fármacos nos idosos. Na maioria dos casos, são equivocadamente diagnosticadas como deterioração clínica da doença básica, baixa adesão ao tratamento prescrito ou infecção.^1 Estudo transversal finlandês inves- tigou o potencial de IM em 1987 resi- dentes de clínicas geriátricas do país, os quais tinham idade média de 83,7 (± 7,7) anos e regularmente recebiam em média 7,9 (± 3,6) medicamentos por dia. Na população em estudo, 34,9% usavam pelo menos um medicamento potencialmente não apropriado , o que ocorria fundamentalmente com empre- go de psicotrópicos e polifarmácia (nove ou mais medicamentos por dia). De todos os participantes, 4,8% estavam suscetíveis a IM clinicamente relevan- tes, ocorrendo principalmente com diuréticos poupadores de potássio, carbamazepina e codeína.^8
Quadro 2 – Exemplos de interações farmacocinéticas^12
Processo Agente precipitante Agente afetado Mecanismo proposto Absorção Sais de alumínio, cálcio, magnésio e ferro Sais de ferro Sais de zinco Metoclopramida Rifampicina, ampicilina tetraciclina, sulfas, cefalotina e cefalexina
tetraciclina
micofenolato mofetila vitamina A paracetamol contraceptivos orais
quelação, diminuição da ação antimicrobiana
(não determinado) (não determinado) aceleração do esvaziamento gástrico alteração de flora e menor absorção, com falha na contracepção
Distribuição Ácido acetilsalicílico Sulfonamidas Epinefrina
naproxeno tolbutamida anestésicos locais
competição pelas proteínas plasmáticas vasoconstrição, preservação anestésica Biotransformação Barbitúricos Suco de pomelo ( grapefruit )
Carbamazepina Tabaco Alopurinol Dissulfiram
Metronidazol Isoniazida Cimetidina
Propofol Ciprofloxacino Nefazodona Rifampicina, rifabutina
varfarina, antidepressivos albendazol, antagonistas do cálcio, ciclosporina, hipolipemiantes, sildenafila benzodiazepínicos fenitoína teofilina azatioprina álcool etílico, metadona claritromicina álcool contraceptivos orais propranolol, quinidina, teofilina, fenobarbital, carbamazepina, varfarina imipramina, triptanas alfentanila glibenclamida, teofilina Loratadina varfarina, contraceptivos orais, ciclosporina, teofilina, glicocorticoides, cetoconazol, itraconazol, quinidina, nifedipino, midazolam, digoxina, digitoxina, verapamil, inibidores de protease, zidovudina
indução enzimática inibição enzimática
indução enzimática indução enzimática inibição enzimática metabolismo diminuído
metabolismo diminuído indução enzimática indução enzimática
retardo na depuração inibição enzimática inibição enzimática indução enzimática (para todos)
Continua
Muitas IM podem ser explicadas por alterações em enzimas biotrans- formadoras, presentes no fígado e em tecidos extra-hepáticos. Salientam-se as enzimas do citocromo hepático P (CYP), as quais são afetadas pela administração de muitos fármacos.^11 A coadministração de dois substratos da mesma enzima e a de um substrato com inibidor ou indutor enzimáticos envol- vem o risco de interação, podendo levar a aumento (toxicidade) ou redução (ineficácia terapêutica) das concen- trações plasmáticas dos fármacos coadministrados. Ajustes de doses podem então ser requeridos para evitar efeitos adversos ou falha terapêutica.^13 As alterações observadas em razão das interações farmacocinéticas ganham importância conforme a magnitude de aumento ou redução das concentrações sanguínea e tissular de um fármaco ou de seus metabolitos.^14 Ao se avaliar risco potencial, extensão e significância clínica de uma interação farmacocinética, é necessário considerar os fatores relacionados ao fármaco (potência, dose/concentração do inibidor/ indutor, índice terapêutico do substrato, extensão da biotrans- formação do substrato pela enzima afetada, presença de metabolitos ativos ou tóxicos) e ao paciente (predisposição genética, suscetibilidade a efeitos adversos, fatores epidemiológicos).^13 Em geral, uma interação fármaco- cinética clinicamente relevante pode ser
esperada quando um fármaco de baixo índice terapêutico é coadministrado com potente inibidor ou indutor de sua principal via de biotransformação. Em contraste, tendo a maioria dos fármacos muitas vias de biotransformação, a inibição de enzima de importância marginal na depuração total de um fármaco pode apresentar limitado efeito sobre sua biodisponibilidade. Nesse caso, o resultado da interação pode ser apenas aumento mínimo nas concentrações plasmáticas do fármaco afetado.^13 As interações farmacodinâmicas decorrem de efeito sinérgico ou anta- gônico entre fármacos coadministrados no sítio da atividade biológica (re- ceptor, enzima), envolvendo os meca- nismos pelos quais os efeitos desejados se processam e, assim, alterando a ação de um ou ambos os medicamentos. Um fármaco pode aumentar o efeito do agonista (sinergia) por estimu- lar a receptividade de seu receptor celular ou inibir enzimas que o inati- vam no local de ação. A diminuição de efeito (antagonismo) pode dever-se à competição pelo mesmo receptor, tendo o antagonista puro maior afinidade e nenhuma atividade intrínseca. Um exemplo de interação sinérgica no mecanismo de ação é o aumento do espectro bacteriano de trimetoprima e sulfametoxazol que atuam em etapas diferentes de mesma rota metabólica. Já o antagonismo ocorre no uso de
Processo Agente precipitante Agente afetado Mecanismo proposto
Excreção Bicarbonato de sódio
Diuréticos osmóticos Probenecida Tiazidas Inibidores da ECA
barbitúricos, ácido acetilsalicílico lítio penicilinas lítio lítio
aumento de excreção por alcalinização urinária aumento de excreção retardo na excreção redução de excreção aumento na reabsorção tubular
Continuação
Fármacos que atuam em sistema nervoso central Nos idosos são frequentes as comorbidades, dentre as quais se salienta a demência, à qual podem superajuntar-se depressão e agitação psicomotora. Na doença parkinso- niana, também é comum a coexistência de depressão. Estima-se que epilepsia ocorra em 1,8% a 2,0% dos idosos. Ao mesmo tempo, esses pacientes não estão isentos de morbidades como doenças cardiovasculares, distúrbios da coagulação, diabetes melito, dislipide- mias, osteoporose etc. Alguns exem- plos de interações são chamativos. Paciente com doença de Parkinson que recebe anticolinérgico (triexifenidil) e antidepressivo tricíclico (imipramina) pode desenvolver quadro psicótico atropínico (interação de efeito). Os fármacos usados no manejo da epilepsia são usuais indutores ou inibidores do metabolismo hepático, assim afetando outros medicamentos destinados ao controle das comor- bidades. Em estudo de coorte retros- pectivo, a exposição a fármacos antie- pilépticos gerou IM em 45,5% (4.406/9.682) dos pacientes. Fármacos cardiovasculares, hipolipemiantes e psi- cotrópicos foram os mais comumente coadministrados com antiepilépticos.^15 Os medicamentos ansiolíticos e sedativos também se potencializam, podendo levar a quedas e fraturas. Antidepressivos são utilizados no controle da depressão e de vários dos distúrbios de ansiedade. Inibidores seletivos de recaptação da serotonina (ISRS) têm capacidade de inibir as enzimas de metabolização hepática, interferindo com as concentrações plasmáticas de seus substratos.^5 Em razão do mecanismo de ação mais seletivo, esses antidepressivos apresen- tam risco relativamente baixo para IM
farmacodinâmicas. Porém, devido aos efeitos inibitórios sobre várias enzimas do sistema citocromo P450, podem induzir interações fármacocinéticas clinicamente relevantes.^13 Concentrações plasmáticas de antipsicóticos fenotiazínicos (clorpro- mazina, levomepromazina, perfena- zina e tioridazina), clotiapina e rispe- ridona podem ser aumentadas por inte- rações com fluoxetina, fluvoxamina, paroxetina ou sertralina que inibem as enzimas que biotransformam a maioria dos antipsicóticos. Antidepressivos são comumente empregados em asso- ciação com antipsicóticos.
Fármacos que atuam em sistema cardiovascular A hipertensão arterial pode coexistir com outras doenças, como artrite reumatoide, por exemplo. A administração simultânea de anti- hipertensivos (diuréticos, betabloquea- dores, inibidores da enzima de comversão de angiotensina – IECA) com anti-inflamatórios não esteroides (AINE) reverte o efeito anti-hiperten- sivo (interação de efeito). IECA não devem ser administrados simultanea- mente com suplemento de potássio, pois há risco de hiperpotassemia. Na prevenção primária e secundária de cardiopatia isquêmica se usam estatinas para o controle dos distúrbios lipídicos. Sinvastatina, lovas- tatina e atorvastatina são biotrans- formadas no fígado, principalmente pelas enzimas CYP3A4, e são suscetíveis a interações quando coadministradas com fármacos poten- cialmente inibidores desta enzima (interação fármacocinética). A elevação dos níveis de atorvastatina pode aumentar o risco de rabdomiólise.^16 O emprego simultâneo de agentes antitrombóticos visa aumentar sua
eficácia por meio da conjunção de diferentes mecanismos de ação. No en- tanto, esse procedimento pode acarretar interações, sendo aumento na incidên- cia de sangramento uma de suas conse- quências. Isso ocorre na associação de varfarina (anticoagulante) com ácido acetilsalicílico ou clopidogrel (antipla- quetários).^17 O uso prolongado de bai- xas doses de ácido acetilsalicílico, como antiagregante plaquetário, associado com AINE (ex.: ibuprofeno, naproxe- no, diclofenaco) aumenta o risco de efeitos adversos gastrintestinais e al- guns AINEs podem reduzir o efeito an- titrombótico do ácido acetilsalicílico.^18 Varfarina interage em elevada porcentagem (68–84%) com outros fármacos, suplementos dietéticos, alimentos e etanol. Por exemplo, o risco de sangramentos gastrintestinais graves entre pessoas expostas à interação entre
varfarina e AINE é cinco vezes maior do que em pessoas que usam apenas varfarina.^19 Interações potenciais ocorrem em cerca de dois terços dos usuários de cumarinas. As mais importantes delas envolvem fármacos comumente prescritos, como antibacterianos e AINE.^20 Há relatos consistentes de interações entre varfarina e certos fármacos comumente empregados, as quais podem ser vistas no Quadro 4. Em pacientes que estejam iniciando tratamento com varfarina, deve-se considerar o uso de alternativas com menor potencial para produzir interações com ela. Recomenda-se também a realização de testes de INR para ajuste de doses mais frequentes, durante as duas primeiras semanas do tratamento, ou a suspensão de uso de outros medicamentos.^2
Quadro 4 – Interações de anticoagulantes orais^2
Fonte: (GUS; FUCHS, 2010, com adaptações)
Probabilidade de ocorrência
Aumenta o efeito do coagulante Diminui o efeito do coagulante
Altamente provável Álcool (com doença hepática), amiodarona, cimetidina, clofibrato, eritromicina, fluconazol, isoniazida, metronidazol, omeprazol, fenilbutazona, piroxicam, propafenona, propranolol, trimetoprima/sulfametoxazol.
Barbituratos, carbamazepina, clordiazepóxido, colestiramina, griseofulvina, nafcilina, rifampicina, sucralfato, alimentos ricos em vitamina K (abacate e nutrição enteral)
Provável Paracetamol, andrógenos, ácido acetilsalicílico, ciprofloxacino, dissulfiram, itraconazol, quinidina, fenitoína, sinvastatina, tamoxifeno, tetraciclina, vacina da influenza
Dicloxacilina
obrigando a ajustes de doses de vários fármacos coadministrados.^27
Interações de medicamentos com alimentos A via preferencial escolhida para a administração de medicamentos é a oral, entre outras razões, por sua comodidade e segurança. Assim, é de importância fundamental conhecer os fármacos cuja velocidade de absorção e/ou quantidade absorvida podem ser afetadas na presença de alimentos. 28 Nesse caso, a interdição de alguns alimentos ou a definição de horário de administração longe da ingestão de alimentos são medidas cruciais. Fármacos, incluindo antimicrobianos, antiácidos e laxativos, podem, por sua vez, afetar a absorção de nutrientes. 9 A absorção dos nutrientes e de alguns fármacos ocorre por meca- nismos semelhantes e frequentemente competitivos e, portanto, apresentam como principal sítio de interação o trato gastrintestinal. 29 Alimentos atrasam o esvazia- mento gástrico e reduzem a absorção de muitos fármacos; a quantidade total absorvida de fármaco pode ser ou não reduzida. Contudo, alguns fármacos são preferencialmente administrados com alimento, seja para aumentar a absorção ou para diminuir o efeito irritante sobre o estômago. 2 Há muitos fármacos para os quais as interações com alimentos são inexistentes ou negligenciáveis. 28
Interações de medicamentos com plantas medicinais e fitoterápicos A popularidade do uso de fitoterápicos e plantas medicinais torna importante o entendimento das potenciais interações entre esses produtos e os fármacos prescritos. A ocorrência de interações com
fitoterápicos pode ser maior que as interações entre medicamentos, pois esses normalmente contêm substâncias químicas simples, enquanto quase todas as plantas (mesmo produtos contendo apenas uma planta) contêm misturas de substâncias farmacologicamente ativas. Em revisão sistemática^30 que avaliou publicações (relatos de casos, séries de casos e ensaios clínicos) sobre interações entre plantas medicinais e fármacos convencionais foram encontrados 108 casos de interações suspeitas, das quais 13% foram classificadas como “bem documen- tadas” e 18,5% como “possíveis” interações. Varfarina foi o fármaco mais comum (18 casos) e erva-de-são-joão, a planta mais comum (54 casos) nos relatos. Essa afeta a depuração de muitos fármacos, incluindo ciclos- porina, antidepressivos (predominan- temente ISRS), digoxina, indinavir e femprocumona. O mecanismo da interação é multifatorial. A planta parece induzir a atividade da enzima CYP3A4, embora os dados sejam conflitantes. Casos de síndrome serotoninérgica podem ocorrer, por exemplo, com a interação entre erva-de- são-joão e um ISRS. Há razoável documentação sobre interações entre anticoagulantes cumarínicos e a erva-de-são-joão, Panax ginseng e Ginkgo biloba. Contudo, a maioria dos casos relatados provável- mente é fruto de efeitos anticoagulantes aditivos e não de interações propria- mente ditas. Ginkgo biloba e alho interferem com a função plaquetária e estão associados com sangramentos, mesmo na ausência de varfarina ou outro anticoagulante. Em muitos casos, não há mecanis- mo plausível para explicar o fenômeno observado e a causalidade é incerta.
Interpretação e intervenção^2 É frequentemente difícil detectar uma IM, sobretudo pela variabilidade observada entre pacientes. Não se sabe muito sobre os fatores de predisposição e de proteção que determinam se uma interação ocorrerá ou não, por isso, na prática ainda é muito difícil predizer o que acontecerá quando um paciente individual fizer uso de dois fármacos que teoricamente interagem entre si. Uma solução prática para esse problema é selecionar fármaco com baixo potencial de interação (p. ex: substituição de cimetidina por outro antagonista H2). Contudo, se não houver alternativa, é possível adminis- trar medicamentos que interagem entre si sob cuidados apropriados. Se os efeitos são bem monitorados, muitas vezes a associação pode ser viabilizada pelo simples ajuste de doses. Muitas interações são dependentes de dose; nesses casos, a dose do fármaco indutor da interação poderá ser reduzida para que o efeito sobre o outro fármaco seja minimizado. Por exemplo, isoniazida aumenta as concentrações plasmáticas de fenitoína, particularmente nos indi- víduos que são acetiladores lentos de isoniazida, e as concentrações podem elevar-se até nível tóxico. Se a concen- tração sérica de fenitoína for monito- rada e a dose reduzida adequadamente, o anticonvulsivante poderá manter-se dentro da margem terapêutica. A incidência de reações adversas causadas por IM é desconhecida. Em muitas situações em que são administrados medicamentos que interagem entre si, os pacientes necessitam apenas de acompanhamento e conhecimento dos problemas potenciais causados pela interação. O médico deve estar informado sobre associações de medicamentos potencialmente perigosas e alertar o
paciente para que observe sinais e sintomas que denotem efeitos adversos. Pacientes idosos ou com múltiplas doenças, disfunção renal ou hepática, e aqueles que utilizam muitos medica- mentos simultâneos são os mais suscetí- veis às interações. Nesses, deve-se redobrar a atenção na indicação e seleção de medicamentos.
Orientações gerais Embora ocorram muitas interações entre medicamentos, somente uma pequena parte delas é clinicamente relevante. Tratamento com múltiplos medicamentos está associado com a ocorrência de IM, reações adversas, erros de medicação e aumento do risco de hospitalização, e muitos estudos sugerem que as IM podem ser a causa de até 3% de todas as admissões hospitalares. Habitualmente, quando é inevitável o uso de múltiplos medicamentos, os potenciais benefícios das associações devem ser cotejados com o risco da ocorrência de IM clinicamente relevantes, considerando a disponibilidade de alternativas. A verificação de prescrições, manual- mente ou com o auxílio de programas informatizados, permite melhorar significantemente a identificação de IM potencialmente perigosas. 6 O monitoramento das IM potenciais pode melhorar a qualidade do cuidado ao paciente. Médicos, bem como farmacêuticos, devem manter vigilância nos casos de potenciais IM, e tomar medidas apropriadas de ajustes da terapia conforme necessário. 6 Os profissionais de saúde devem estar atentos às informações sobre IM, ser capazes de descrever o resultado da potencial interação e sugerir interven- ções apropriadas. Também é responsa- bilidade dos profissionais de saúde aplicar a literatura disponível para uma
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Responsável pela Unidade Técnica de Medicamentos e Tecnologias OPAS: Christophe Rérat Diretor do Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos José Miguel do Nascimento Junior Coordenação da publicação: Karen Sarmento Costa – CGAFB/DAF/SCTIE/MS Elaboração: Rogério Hoefler e Lenita Wannmacher Projeto gráfico: Amilton Barreto Souza Apoio financeiro: MS – OPAS/OMS. Uso Racional de Medicamentos: Temas Selecionados: é uma publicação do Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos e da Unidade Técnica de Medicamentos e Tecnologias da Organização Pan-Americana da Saúde/ Organização Mundial da Saúde – Representação do Brasil
Editora MS Coordenação de Gestão Editorial SIA, trecho 4, lotes 540/610. CEP: 71200-040. Brasília – DF. Tels.: (61) 3233-1774 / 2020 Fax: (61) 3233- 9558 E-mail : [email protected] Home page : http://www.saude.gov.br/editora Equipe editorial: Normalização: Amanda Soares Moreira Revisão: Khamila Christine Pereira Silva e Mara Pamplona
Como estratégia de ampliação do conhecimento dos profissionais de saúde, a edição desse tema está disponível no módulo de Uso Racional de Medicamentos (URM) do HÓRUS – Sistema Nacional de Gestão da Assistência Farmacêutica, e tem como finalidade contribuir com a promoção do uso racional de medicamentos por meio de informações sobre o uso de medicamentos na atenção primária, vinculadas ao processo de prescrição, dispensação, administração e monitoramento que poderão ser acessadas pela equipe de saúde. Essas informações permitirão aos profissionais de saúde que lidam com medicamentos a adoção de conhecimentos sólidos e independentes e, por isso, confiáveis. Tais informações também poderão ser acessadas pelo usuário do medicamento por meio dos endereços eletrônicos – www.saude.gov.br/horus e www.opas.org.br/medicamentos, visando orientá-lo sobre uso, efeitos terapêuticos, riscos, cuidados e precauções em situações clínicas específicas.