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Uma Surpresa na Nave Espacial: O Cérebro da Consolidated, Manuais, Projetos, Pesquisas de Física

Neste texto, suspeita-se que a máquina de cálculo da consolidated, o superpensador, esteja apresentando problemas graves. Os personagens se preocupam com a possibilidade de erros e dilemas que podem causar danos graves. Susan calvin, a especialista em robótica, tenta manter a calma e guiar os outros para uma solução.

Tipologia: Manuais, Projetos, Pesquisas

Antes de 2010

Compartilhado em 03/12/2009

nilson-mendes-9
nilson-mendes-9 🇧🇷

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FUGA!
Isaac Asimov
Quando Susan Calvin voltou da Hiperbase, Alfred Lanning esperava por ela. O velho jamais
falava em sua própria idade, mas todos sabiam que já ultrapassara os setenta e cinco. Apesar disso,
continuava em pleno gozo de suas faculdades mentais e intelectuais; o fato de, afinal, ter
concordado em passar a Diretor-Emérito, deixando a Bogert a posição de Diretor-Executivo, não
impedia que comparecesse diariamente ao escritório.
– Em que ponto estão do Plano Hiperatômico? – quis saber ele.
– Não sei – respondeu ela, irritada. – Não perguntei.
Ora... Gostaria que se apressassem, porque se não o fizerem, a Consolidated pode
conseguir antes deles. E antes de nós também.
– Consolidated! Que têm eles a ver com isso? – Bem, não somos os únicos que fabricamos
máquinas que calculam. As nossas podem ser positrônicas, mas isto não significa que sejam
melhores. Robertson marcou uma grande reunião para amanhã, a fim de debater o assunto. Estava
apenas esperando que você regressasse.
.........................................................................................................................................
Robertson, da U. S. Robôs & Homens Mecânicos, filho do fundador da firma, virou o nariz
pontudo para o gerente-geral e seu pomo-de-adão pareceu pular quando ele disse: – Comece agora.
Vamos deixar tudo bem claro.
O gerente-geral obedeceu alegremente. O caso é o seguinte, chefe: um mês a
Consolidated Robots veio procurar-nos com uma proposta engraçada. Trouxeram cerca de cinco
toneladas de algarismos, equações e tudo o mais. Tratava-se de um problema e eles desejavam que
o Cérebro fornecesse a resposta. Os termos eram os seguintes...Começou a contar nos dedos
grossos: – Cem mil para nós se não houver solução para os problemas e formos capazes de explicar
que fatores estão faltando. Duzentos mil se houver uma solução. Mais os gastos de construção da
máquina em questão; mais vinte e cinco por cento de todos os lucros que venham a ser obtidos por
ela. O problema é referente à construção de um engenho interestelar...
Robertson franziu a testa e empertigou o corpo magro. Apesar de possuírem sua própria
máquina de calcular. Certo? É exatamente isto que me leva a achar que a proposta tem algo de
errado. Prossiga, agora, Levver.
Abe Levver, sentado na outra extremidade da mesa de conferências, ergueu a cabeça e
passou a mão pelo queixo mal barbeado, produzindo um leve som de atrito. Sorriu e disse: – Trata-
se do seguinte, senhor: a Consolidated tinha uma máquina pensante. Está quebrada.
– O quê? – exclamou Robertson, quase dando um pulo.
É isso mesmo: quebrada! Cabum! Ninguém sabe dizer por quê, mas conseguiu-se ouvir
algumas sugestões bem interessantes como, por exemplo, o fato de eles terem apresentado à
máquina o problema de construir um engenho interestelar com os mesmos dados e informações que
trouxeram para nós. O problema estragou a máquina. Virou sucata – só serve para o lixo.
– Está ouvindo, chefe? – interrompeu o gerente-geral, exultante. – Está ouvindo? Não há um
grupo de pesquisas industriais de alguma importância que não esteja procurando fabricar um
engenho interestelar, capaz de vencer os problemas do espaço; a Consolidated e a U. S. Robôs
lideram o campo, com seus super-cérebros robôs. Agora, que eles conseguiram quebrar o deles,
estamos sozinhos. Eis a motivação. Eles levarão no mínimo seis anos para construir outro
cérebro, e estarão perdidos a menos que consigam destruir o nosso, apresentando-lhe o mesmo
problema que estragou o deles.
O presidente da U. S. Robôs arregalou os olhos. – Ora, aqueles ratos sujos!...
Calma, chefe. Ainda mais interrompeu o gerente-geral, movendo o dedo em outra
direção. – Lanning, chegou sua vez!
O Dr. Alfred Lanning assistia a tudo com um leve desprezo – sua reação usual para com os
departamentos que recebiam remuneração muito superior: a divisão comercial e a divisão de
vendas. Franziu as sobrancelhas grisalhas e disse em tom seco: Do ponto de vista científico, a
situação – embora não esteja inteiramente clara – é suscetível de uma análise. A questão de viagens
interestelares sob as condições atuais da teoria física é...bem... um tanto vaga. Ainda é um campo
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FUGA!

Isaac Asimov Quando Susan Calvin voltou da Hiperbase, Alfred Lanning esperava por ela. O velho jamais falava em sua própria idade, mas todos sabiam que já ultrapassara os setenta e cinco. Apesar disso, continuava em pleno gozo de suas faculdades mentais e intelectuais; o fato de, afinal, ter concordado em passar a Diretor-Emérito, deixando a Bogert a posição de Diretor-Executivo, não impedia que comparecesse diariamente ao escritório.

  • Em que ponto estão do Plano Hiperatômico? – quis saber ele.
  • Não sei – respondeu ela, irritada. – Não perguntei.
  • Ora... Gostaria que se apressassem, porque se não o fizerem, a Consolidated pode conseguir antes deles. E antes de nós também.
  • Consolidated! Que têm eles a ver com isso? – Bem, não somos os únicos que fabricamos máquinas que calculam. As nossas podem ser positrônicas, mas isto não significa que sejam melhores. Robertson marcou uma grande reunião para amanhã, a fim de debater o assunto. Estava apenas esperando que você regressasse. ......................................................................................................................................... Robertson, da U. S. Robôs & Homens Mecânicos, filho do fundador da firma, virou o nariz pontudo para o gerente-geral e seu pomo-de-adão pareceu pular quando ele disse: – Comece agora. Vamos deixar tudo bem claro. O gerente-geral obedeceu alegremente. – O caso é o seguinte, chefe: há um mês a Consolidated Robots veio procurar-nos com uma proposta engraçada. Trouxeram cerca de cinco toneladas de algarismos, equações e tudo o mais. Tratava-se de um problema e eles desejavam que o Cérebro fornecesse a resposta. Os termos eram os seguintes...Começou a contar nos dedos grossos: – Cem mil para nós se não houver solução para os problemas e formos capazes de explicar que fatores estão faltando. Duzentos mil se houver uma solução. Mais os gastos de construção da máquina em questão; mais vinte e cinco por cento de todos os lucros que venham a ser obtidos por ela. O problema é referente à construção de um engenho interestelar... Robertson franziu a testa e empertigou o corpo magro. – Apesar de possuírem sua própria máquina de calcular. Certo? – É exatamente isto que me leva a achar que a proposta tem algo de errado. Prossiga, agora, Levver. Abe Levver, sentado na outra extremidade da mesa de conferências, ergueu a cabeça e passou a mão pelo queixo mal barbeado, produzindo um leve som de atrito. Sorriu e disse: – Trata- se do seguinte, senhor: a Consolidated tinha uma máquina pensante. Está quebrada.
  • O quê? – exclamou Robertson, quase dando um pulo.
  • É isso mesmo: quebrada! Cabum! Ninguém sabe dizer por quê, mas conseguiu-se ouvir algumas sugestões bem interessantes – como, por exemplo, o fato de eles terem apresentado à máquina o problema de construir um engenho interestelar com os mesmos dados e informações que trouxeram para nós. O problema estragou a máquina. Virou sucata – só serve para o lixo.
  • Está ouvindo, chefe? – interrompeu o gerente-geral, exultante. – Está ouvindo? Não há um só grupo de pesquisas industriais de alguma importância que não esteja procurando fabricar um engenho interestelar, capaz de vencer os problemas do espaço; a Consolidated e a U. S. Robôs lideram o campo, com seus super-cérebros robôs. Agora, que eles conseguiram quebrar o deles, estamos sozinhos. Eis aí a motivação. Eles levarão no mínimo seis anos para construir outro cérebro, e estarão perdidos – a menos que consigam destruir o nosso, apresentando-lhe o mesmo problema que estragou o deles. O presidente da U. S. Robôs arregalou os olhos. – Ora, aqueles ratos sujos!...
  • Calma, chefe. Ainda há mais – interrompeu o gerente-geral, movendo o dedo em outra direção. – Lanning, chegou sua vez! O Dr. Alfred Lanning assistia a tudo com um leve desprezo – sua reação usual para com os departamentos que recebiam remuneração muito superior: a divisão comercial e a divisão de vendas. Franziu as sobrancelhas grisalhas e disse em tom seco: – Do ponto de vista científico, a situação – embora não esteja inteiramente clara – é suscetível de uma análise. A questão de viagens interestelares sob as condições atuais da teoria física é...bem... um tanto vaga. Ainda é um campo

sujeito a erro, e as informações fornecidas pela Consolidated à sua máquina pensante – supondo que sejam as mesmas que nos apresentaram – estão igualmente sujeitas a erros. Nosso departamento de matemática analisou-as minuciosamente e parece-nos que a Consolidated incluiu tudo. O material que submeteram à nossa apreciação contém todos os desenvolvimentos conhecidos da teoria espacial de Franciacci e, aparentemente, todos os dados astrofísicos e eletrônicos pertinentes. É um bocado de coisas... Robertson, que acompanhava ansiosamente a explanação, interrompeu: – Demais para o Cérebro? Lanning sacudiu a cabeça em negativa, convicto do que dizia: – Não. Não há limites conhecidos para a capacidade do Cérebro. É algo diferente. Trata-se de uma questão de Leis da Robótica. Por exemplo: o Cérebro jamais poderia fornecer a solução para um problema que lhe fosse apresentado se tal solução envolvesse o perigo de morte ou ferimentos de seres humanos. No que lhe concerne, qualquer problema cuja única solução seja desse tipo é insolúvel. Se tal problema lhe fosse apresentado com a exigência urgente de ser solucionado, é possível que o Cérebro – que, afinal, é apenas um robô muito aperfeiçoado – ficasse em um dilema: não poderia responder e também não poderia recusar-se a responder. Algo assim deve ter acontecido com a máquina da Consolidated. Fez uma pausa, mas o gerente-geral insistiu: – Prossiga, Dr. Lanning. Repita a explicação que me forneceu. Lanning apertou os lábios e ergueu as sobrancelhas em direção à Dra. Susan Calvin que, pela primeira vez, levantou os olhos das mãos cuidadosamente entrelaçadas sobre a mesa.

  • A natureza da reação de um robô diante de um dilema é espantosa – começou ela, num tom de voz baixo e neutro. – A psicologia dos robôs está muito longe de ser perfeita. Na qualidade de especialista, posso assegurar-lhes isso. Entretanto, pode ser discutida em termos qualitativos, pois, apesar de todas as complicações introduzidas no cérebro positrônico de um robô, este é fabricado pelos homens e, portanto, construído de acordo com os valores humanos. – Ora, um ser humano apanhado ante uma impossibilidade muitas vezes reage por uma fuga à realidade: mergulha num mundo de ilusão, ou entrega-se à bebida; deixa-se dominar pela histeria, ou pula de uma ponte. Tudo se reduz à mesma coisa: uma recusa ou incapacidade de enfrentar francamente a situação. O mesmo acontece com os robôs. Um leve dilema causará desordens em metade de seus circuitos; um dilema sério queimará o cérebro positrônico de tal forma que não haverá possibilidade de recuperá- lo.
  • Compreendo – disse Robertson, que, na verdade, não compreendia. – Agora, o que há com as informações que a Consolidated nos apresentou?
  • Indubitavelmente, envolvem um problema de algum tipo proibido – respondeu a Dra. Calvin. Mas o Cérebro é consideravelmente diferente do robô da Consolidated.
  • Exatamente, chefe. Exatamente – interrompeu energicamente o gerente-geral. – Desejo que compreenda isto, pois é o ponto central de todas a questão. Os olhos de Susan Calvin brilharam por detrás das lentes e ela prosseguiu, paciente: – Compreenda, senhor: as máquinas da Consolidated – entre elas o Superpensador – são construídas sem personalidade. Como o senhor sabe, eles colocam ênfase no ponto de vista funcional. São obrigados a fazê-lo, pois somente a U. S. Robôs possui as patentes dos circuitos emocionais cerebrais. O Pensador da Consolidated é simplesmente uma máquina de calcular em grande escala, e qualquer dilema é capaz de arruiná-la instantaneamente.
  • Entretanto, a nossa máquina – o Cérebro – tem uma personalidade: a personalidade de uma criança. É um cérebro supremamente dedutivo, mas assemelha-se a um idiot savante. Na verdade, não chega a entender o que faz – limita-se a fazê-lo. E porque é realmente uma criança, é mais flexível. Pode-se dizer que, para ele, a vida não é tão séria. Após uma breve pausa, a robopsicóloga prosseguiu: – Eis o que vamos fazer. Dividimos todas as informações prestadas pela Consolidated em unidades lógicas. Apresentaremos tais unidades ao Cérebro, individual e cautelosamente. Quando o fator for inserido – o fator que dá origem ao dilema – a personalidade infantil do Cérebro hesitará. Seu senso de julgamento não está amadurecido. Haverá um intervalo perceptível antes que ele reconheça o dilema como tal. E nesse

trabalho de horas – durante as quais o equivalente a cerca de dezessete grossos volumes de dados matemáticos e físicos foram inseridos no Cérebro. A medida que o processo avançava, os cientistas franziam cada vez mais a testa. Lanning resmungava ferozmente entre dentes. Bogert começou a fitar as unhas; depois, passou a roê-las distraidamente. Afinal, quando a última grande pilha de fichas desapareceu, Susan Calvin, muito pálida, declarou: – Há algo errado. Lanning mal conseguiu replicar: – Não pode ser. Ele está...morto?

  • Cérebro? – chamou Susan Calvin, trêmula. – Está me ouvindo, Cérebro?
  • Hem? – foi a resposta, em tom distraído. – Está me chamando?
  • A solução...
  • Oh, isso! Posso fazer. Construirei uma nave inteirinha para vocês, com a maior facilidade
  • se me fornecerem robôs. Uma bela nave espacial. Levará dois meses, talvez.
  • Não houve... dificuldade?
  • Levou tempo para calcular – declarou o Cérebro. A Dra. Calvin recuou, ainda muito pálida. Gesticulou para que os outros se retirassem da sala. De volta a seu escritório, Susan Calvin declarou: – Não consigo compreender! As informações, do modo como foram fornecidas, devem envolver um dilema – provavelmente relacionado com morte. Se algo correu errado... Bogert replicou em voz baixa: – A máquina falou e fez sentido. Não pode ser um dilema. Mas a psicóloga retrucou com veemência: – Há dilemas e dilemas. Há diferentes formas de fuga. Suponhamos que o Cérebro tenha sido apenas levemente afetado; somente o bastante, digamos, para estar sofrendo da ilusão de que pode solucionar o problema, quando não pode. Ou suponhamos que esteja se equilibrando no limite de algo realmente sério, de modo que o menor abalo possa arruiná-lo.
  • Suponhamos que não exista dilema algum – disse Lanning. – Suponhamos que a máquina da Consolidated tenha quebrado com um problema diferente, ou por motivos puramente mecânicos.
  • Mas, mesmo assim, não podemos correr riscos – insistiu Susan Calvin. – Ouçam: de agora em diante, ninguém pode murmurar para o Cérebro. Assumirei o controle dele.
  • Muito bem – disse Lanning, suspirando. – Assuma. Enquanto isso, deixaremos o Cérebro construir a nave. E, caso ele consiga construí-la, precisaremos testá-la. Após refletir por alguns instantes, acrescentou: – Para testá-la, precisaremos de nossos melhores homens. .................................................................................................................................... Michael Donovan passou a mão pelo cabelo vermelho, procurando assentá-la com um gesto violento e demonstrando total indiferença pelo fato de a mecha revolta retornar imediatamente à posição anterior.
  • Chame o pessoal, agora, Greg – disse ele. – Afirmam que a nave está terminada. Nem sabem o que é, mas dizem que está terminada. Vamos, Greg. Pegue logo os controles.
  • Pare com isso, Mike – replicou Greg Powell, em tom cansado. Quando seu humorismo está bem fresco tem sabor de fruta passada; nesta atmosfera confinada está pior ainda.
  • Bem, escute – insistiu Donovan, tornando a passar a mão pelo cabelo. – Não estou tão preocupado com o nosso gênio de ferro fundido e sua nave de lata. Mas acontece que perdi minhas férias. É a monotonia! Aqui nada existe além de barbas brancas e números – o tipo errado de números. Bolas! Por que nos dão estas missões?
  • Porque não faremos falta, se nos perdermos – respondeu Powell suavemente. – Agora, acalme-se. O Dr. Lanning está vindo para cá. Lanning se aproximava, com as sobrancelhas grisalhas mais hirsutas do que nunca e o corpo idoso ainda empertigado e cheio de vida. Calado, subiu a rampa em companhia dos dois homens e passou com eles para o campo aberto, onde os robôs silenciosos, sem obedecer a um mestre humano, estavam construindo uma nave espacial. Tempo de verbo errado: tinham construído uma nave espacial! Lanning informou: – Os robôs pararam. Nenhum deles se moveu hoje.
  • Está terminada, então? – indagou Powell. – Tem certeza?
  • Ora, como posso dizer? – replicou Lanning, irritado, franzindo a testa até que as sobrancelhas quase lhe cobriram os olhos. – Parece terminada. Não há peças espalhadas e o interior está polido como um espelho.
  • Já esteve lá dentro?
  • Só entrei e saí. Não sou piloto espacial. Algum de vocês dois conhece algo da teoria dos motores? Donovan olhou para Powell. Este olhou para Donovan. Donovan respondeu: – Tenho minha licença, senhor. Mas a última vez que a li não vi qualquer menção a hipermotores ou navegação extra-espacial. Só falava, em tom de brincadeira, em três dimensões. Alfred Lanning ergueu os olhos com ar de reprovação e soltou um grunhido. Disse em tom gélido : – Bem, temos nossos técnicos em motores. Powell segurou-o pela manga quando ele começou a se afastar. – Senhor, ainda é proibido entrar na nave? O velho diretor hesitou e coçou o nariz. – Creio que não. Pelo menos para vocês dois. Donovan observou Lanning enquanto este se afastava e murmurou uma frase curta e expressiva em sua direção. Depois, virou-se para Powell.
  • Eu bem gostaria de dar a ele uma descrição literária de sua figura, Greg.
  • Acho melhor vir comigo, Mike. O interior da nave estava acabado – tão acabado quanto qualquer nave jamais poderia ser; bastava um olhar para o brilho esfuziante. Nenhum grumete do Sistema Solar seria capaz de produzir um polimento semelhante ao que os robôs haviam dado. As paredes eram como espelhos de prata polida, sem vestígios de impressões digitais. Não havia ângulos ou arestas; paredes, soalho e teta uniam-se em abaulados harmoniosos; no brilho frio e metálico das luzes ocultas, cada pessoa via-se cercada por seis imagens de si própria. O corredor principal era uma espécie de túnel estreito que passava por uma série de salas desprovidas de características que as distinguissem uma das outras.
  • Creio que a mobília é embutida nas paredes – comentou Powell. – Ou, talvez, não devamos sentar-nos ou dormir. Apenas na última sala, situada no nariz da nave, a monotonia foi quebrada. Uma janela curva, fechada com vidro à prova de reflexos, foi a primeira interrupção no metal; logo abaixo da janela, um único e grande mostrador, com o ponteiro repousando sobre o zero.
  • Olhe aquilo! – exclamou Donovan, apontando para a única palavra, que aparecia no centro da escala numerada. Dizia: Parsecs. O número à direita da escala circular graduada era “1.000.000”. Havia duas poltronas, pesadas, amplas, sem acolchoamento. Powell sentou-se cautelosamente e verificou que a poltrona era confortável, moldada às curvas do corpo.
  • Que acha disso? – indagou ele.
  • Sou capaz de apostar que o Cérebro está com febre alta – replicou Donovan. – Vamos cair fora daqui.
  • Tem certeza de que não quer dar uma espiada mais detalhada?
  • Já dei. Vim, vi e desisto! – declarou Donovan, cujo cabelo vermelho parecia a ponto de ficar em pé. – Vamos sair daqui, Greg. Pedi demissão há cinco segundos e estamos numa zona onde só é permitida a entrada de pessoal autorizado. Powell sorriu com satisfação e alisou o bigode. – Muito bem, Mike; trate de interromper o fluxo de adrenalina que está minando seu sangue. Confesso que também estava preocupado; mas já não estou.
  • Não está, hem? Como não está? Aumentou seu seguro de vida?
  • Mike, esta nave não pode voar.
  • Como sabe?
  • Ora, já visitamos a nave inteira, não é?
  • Parece que sim.
  • Pode crer em mim: já visitamos tudo. Você viu alguma sala de pilotagem, excetuando essa janela e aquele mostrador em parsecs. Viu algum controle?
  • Sim, Cérebro; é uma linda nave. Mas acha que eles terão alimento suficiente? Estarão confortáveis?
  • Há bastante comida.
  • Isto pode ser um choque para eles, Cérebro. Um tanto inesperado, compreende? O Cérebro ignorou o comentário. – Estarão bem – declarou. – Deve ser interessante para eles.
  • Interessante? Como assim?
  • Apenas interessante – disse o Cérebro, em tom de mistério.
  • Susan! – sussurrou Lanning, furioso. – Pergunte-lhe se há perigo de morte. Pergunte-lhe quais são os riscos. O rosto de Susan Calvin contorceu-se de raiva. – Cale a boca! Com voz trêmula, dirigiu-se ao Cérebro: – Podemos comunicar-nos com a nave, não podemos, Cérebro?
  • Oh, eles poderão ouvir você, se os chamar pelo rádio. Cuidei disso.
  • Obrigada. Isto é tudo, por enquanto. Chegando lá fora, Lanning explodiu : – Diabo! Susan, se a notícia se espalhar, estaremos todos arruinados. Precisamos trazer aqueles dois homens de volta. Por que não perguntou logo se havia risco de morte?
  • Porque é justamente isso que não posso mencionar! – replicou Susan Calvin, com a voz cansada, carregada de frustração. – Se houver um caso de dilema, é relacionado com a morte. Qualquer pergunta que trouxesse o assunto à baila de modo indevido poderia queimar completamente o Cérebro. De que nos adiantaria isso? Escute: ele disse que podemos comunicar- nos com a nave. Vamos falar com eles, descobrir a localização e trazê-los de volta. É bem provável que não possam usar os controles; o Cérebro deve estar guiando a nave por controle remoto. Vamos! Passou-se bastante tempo antes que Powell consegui-se recobrar-se. – Mike – disse ele, sentindo os lábios frios. – Sente alguma aceleração? Donovan parecia atordoado. – Hem?... Não... não. Então, o ruivo cerrou os punhos, saltou da poltrona e, empertigado, correu para o vidro frio e curvo da larga janela de observação. Nada – só estrelas.Virou-se.
  • Greg, eles devem ter dado partida na nave enquanto estávamos embarcados. Foi de propósito, Greg; combinaram com o robô um meio de obrigar-nos a testar a nave, caso estivéssemos dispostos a desistir.
  • De que está falando? – retrucou Powell. – De que adiantaria lançar-nos no espaço, se não sabemos pilotar o engenho? Como acha que podemos levá-la de volta? Nada disso. A nave decolou sozinha e sem qualquer aceleração aparente. Ergueu-se e começou a andar de um lado para outro. As paredes metálicas ecoavam o ruído de seus passos. Afinal, comentou: – Mike, é a situação mais confusa que já enfrentamos.
  • Isso é novidade para mim! – replicou Donovan, com sarcástica amargura. – Eu estava começando a me divertir, quando você veio me dizer isso. Powell ignorou o companheiro e comentou: – Não há aceleração – o que significa que esta nave funciona com base num princípio diferente de todos os conhecidos. – Pelo menos, diferente de todos os que conhecemos. – Diferente de todos os princípios conhecidos. Não há motores; nem controles manuais. Ou talvez os motores sejam embutidos nas paredes, o que lhes poderia explicar a grande espessura.
  • De que está falando? – quis saber Donovan.
  • Por que não escuta? Estou dizendo que o motor que impulsiona esta nave é embutido e, evidentemente, não possui controles manuais. A nave é manobrada por controle remoto.
  • Pelo Cérebro?
  • Por que não?
  • Então, acha que ficaremos por aqui até que o Cérebro resolva levar-nos de volta?
  • É possível. Se for o caso, vamos esperar tranqüilamente. O Cérebro é um robô. Não pode violar a Primeira Lei. Não pode causar mal a seres humanos.

Donovan sentou-se vagarosamente. – Acha mesmo isso? – perguntou, ajeitando meticulosamente o cabelo. – Pois ouça: esse assunto de viagens interestelares estragou o robô da Consolidated e os sabichões disseram que o motivo foi o fato de as viagens interestelares causarem a morte de seres humanos. Por que hei de confiar num robô? Ao que me consta, o nosso recebeu os mesmos dados que o outro. Powell puxava furiosamente o bigode. – Não finja que não conhece robótica, Mike. Antes que se torne fisicamente possível para um robô violar a Primeira Lei, é preciso quebrar tanta coisa que ele logo estaria transformado num monte de sucata. Deve haver uma explicação simples para o que está acontecendo.

  • Oh, claro, claro. Então, mande o mordomo acordar-me de manhã. Isto tudo é simples demais para que eu me dê ao trabalho de perturbar meu sono de beleza.
  • Afinal, Mike, de que está reclamando? Até o momento o Cérebro está cuidando de nós. O lugar é bem aquecido e iluminado. Há bastante oxigênio. Não houve choque de aceleração para desmanchar seu cabelo – se ele fosse o bastante macio para ser desmanchado.
  • É mesmo? Creio que você andou tomando lições, Greg. Não há outro meio de explicar por que motivo está tão calmo e alheio aos acontecimentos. O que vamos comer? O que temos para beber? Onde estamos? Como regressaremos à Terra? Em caso de acidente, qual a saída de emergência e onde estão os trajes espaciais? Não encontrei um banheiro, nem as comodidades que geralmente existem em banheiros! Claro; estão realmente cuidando de nós – e como! A voz que interrompeu a tirada de Donovan não pertencia a Powell. Na realidade, não tinha dono. Soou no ambiente, impessoal, quase petrificante.
  • GREGORY POWELL! MICHAEL DONOVAN! FAVOR INFORMAR SUA POSIÇÃO ATUAL. SE A NAVE RESPONDER AOS CONTROLES, FAVOR RETORNAR A BASE, GREGORY POWELL! MICHAEL DONOVAN!... A mensagem era mecânica, repetindo-se indefinidamente, interrompida a intervalos regulares. Donovan quis saber : – De onde vem ela?
  • Não sei – replicou Powell, num sussurro preocupado. – De onde vêm as luzes? De onde vem tudo o que existe aqui?
  • Como vamos responder? Eram obrigados a falar nos intervalos entre as repetições da mensagem. As paredes eram nuas – nuas, lisas, ininterruptas e curvas, inteiramente metálicas. Powell sugeriu: – Grite uma resposta. Foi o que fizeram. Gritaram alternadamente, e, depois, juntos: – Posição desconhecida! Nave descontrolada! Condição desesperada! Afinal, ficaram roucos. As frases curtas passaram a ser entrecortadas por imprecações enfáticas. Mas a voz fria e metálica vinda do nada continuava a repetir a mensagem inicial.
  • Não nos escutam – declarou Donovan, ofegante.
  • Não há aparelho emissor. Apenas um receptor. Calou-se, fitando o vácuo. Lentamente, o som da voz que repetia a mensagem foi diminuindo. Quando se reduziu apenas a um murmúrio, os dois companheiros tornaram a gritar, roucos. Finalmente, o interior da nave voltou a ficar em silêncio total. Após cerca de quinze minutos, Powell disse, desanimado: – Vamos percorrer a nave outra vez. Deve haver algo para comermos. Não havia muita esperança no tom de sua voz; era quase uma confissão de fracasso. Um tomou o corredor à direita e o outro à esquerda. Podiam acompanhar os movimentos um do outro por intermédio do ruído dos passos. Ocasionalmente, encontravam-se, olhavam-se silenciosamente e prosseguiam na busca. A busca de Powell cessou repentinamente. Então, ele ouviu a voz alegre de Donovan ecoar no corredor: – Ei, Greg! A nave tem encanamentos! Como não reparamos antes? Cinco minutos mais tarde, à custa de várias tentativas, ele conseguiu encontrar Powell. – Mesmo assim, não há chuveiros – comentou. Interrompeu-se em meio à frase. Engoliu em seco, exclamando : – Comida!

Duas horas mais tarde, Peter Bogert dizia ansiosamente: – Estou lhe dizendo, Lanning: é isso. O salto interestelar não é instantâneo – pelo menos, não enquanto a velocidade da luz for finita. A vida não pode existir...Matéria e energia, como tais, não podem existir no desvio do espaço. Não sei o que aconteceria – mas é isso. Foi o que estragou o robô da Consolidated. ........................................................................................................................................ Donovan sentiu-se abatido ao verificar. – Só cinco dias?

  • Só cinco dias. Tenho certeza. Donovan olhou em volta, aturdido. As estrelas vistas através do vidro eram familiares, mas decididamente indiferentes. As paredes da nave estavam frias ao toque; as luzes ocultas, que tornaram a acender-se, eram insensivelmente brilhantes; o ponteiro do mostrador continuava a apontar teimosamente para o zero. E Donovan não conseguia livrar-se do gosto de ervilhas que lhe ficara na boca. Declarou, devagar: – Preciso de um banho. Powell ergueu momentaneamente os olhos, replicando: – Eu também. Não precisa ficar tão preocupado. Mas, a menos que queira tomar banho de leite e ficar sem beber...
  • De qualquer forma, acabaremos ficando sem beber. Greg, quando chegará a tal viagem interestelar?
  • Como posso saber? Talvez continuemos apenas da mesma forma. Acabaremos chegando lá. Ao menos o pó de nossos esqueletos deverá chegar. Afinal, a nossa morte não é a causa do enguiço do Cérebro? Donovan virou-lhe as costas, replicando: – Estive pensando, Greg. Nossa situação é bem ruim. Não temos muito que fazer, exceto andarmos de um lado para outro, falando sozinhos. Você conhece bem aquelas histórias sobre homens perdidos no espaço. Ficam loucos muito antes de morrerem de fome. Não sei explicar, Greg, mas sinto uma coisa esquisita desde que as luzes se acenderam. Depois de uma pausa, a voz de Greg Powell, fina e baixinha, confirmou : – Eu também. O que sente? O ruivo voltou-se para encarar o companheiro. – Sinto-me esquisito, por dentro. É um latejar, com tudo muito tenso. Tenho dificuldade para respirar. Não consigo ficar parado.
  • Bem... Sente uma vibração?
  • Como assim?
  • Sente-se um minuto e escute com atenção. Não é possível ouvir, mas dá para sentir... como se algo estivesse vibrando em algum lugar e a vibração percorresse todas a nave e nós também...Ouça...
  • Sim... sim... Que acha que seja, Greg? Não supõe que somos nós?
  • Talvez sejamos – disse Powell, cofiando lentamente o bigode. – Mas talvez sejam os motores da nave. É possível que ela esteja em preparação.
  • Para quê?
  • Para o salto interestelar. Talvez esteja chegando – e só Deus sabe como será! Donovan refletiu um pouco. Depois, disse, violento: – Se assim for, que seja! Eu gostaria de poder lutar. É humilhante sermos forçados a esperar sentados! Cerca de uma hora mais tarde, Powell olhou para a mão pousada no braço da poltrona e disse com uma calma gélida: – Sinta a parede, Mike. Donovan obedeceu e declarou: – Posso senti-la vibrar, Greg. Até mesmo as estrelas pareciam pouco nítidas. De algum lugar, vinha a impressão de que uma possante máquina tomava impulso no interior das paredes, armazenando energia para um salto prodigioso, vibrando e ganhando potência nas escalas de força. Chegou subitamente, como a dor de uma punhalada. Powell enrijeceu-se, quase saltando da poltrona. Viu Donovan, mas sua vista se enevoou, enquanto o grito de Donovan morria em seus ouvidos. Algo se debatia dentro dele, lutando contra o espesso cobertor de gelo que ameaçava cobri-lo. Algo se libertou, rodopiando num mar de dor e de luzes faiscantes. E caiu......e rodopiou......e tombou para diante..no silêncio! Era a morte!

Era um mundo sem movimento e sensação. Um mundo de uma vaga consciência insensível; uma consciência de escuridão, silêncio e de uma luta desprovida de forma. Acima de tudo, uma consciência de eternidade. Ele era um branco fiapo de ego – frio e temeroso. Então, vieram as palavras, untuosas e sonoras, trovejando em torno dele numa espuma de som: – Seu caixão está desconfortável ultimamente? Por que não experimenta os caixões adaptáveis de Mórbido M. Cadáver? São desenhados cientificamente para adaptar-se às curvas do corpo e enriquecidos com vitamina B1. Para maior conforto, use os caixões Cadáver. Lembre-se: você...vai... ficar... morto... durante... muito... tempo! Não era exatamente um som; mas, de qualquer forma, sumiu-se num sussurro rouco e oleoso. O fiapo branco que poderia ter sido Powell debatia-se inutilmente nos eons insubstanciais de tempo que existiam à sua volta – e desmanchou-se quando o grito penetrante de cem milhões de fantasmas, de cem milhões de vozes de soprano ergueram-se numa aguda melodia: “Ficarei feliz quando você morrer, seu miserável!” “Ficarei feliz quando você morrer, seu miserável! Ficarei feliz... “ As vozes se ergueram num som violento, chegando a uma escala supersônica inaudível... O fiapo branco estremeceu com uma dor pulsante. Lutou, em silêncio... As vozes eram comuns – e muitas. Era uma multidão falando, uma multidão turbilhonante que passava através dele numa torrente rápida, deixando o eco de sílabas soltas atrás de si.

  • Por que te pegaram, rapaz? Pareces escangalhado...um fogo ardente, creio. Mas sofro de... cheguei ao Paraíso, mas o velho São Pedro... – Não... Tenho influência junto ao rapaz. Tive negócios com ele...
  • Ei, Sam, venha por aqui...
  • Arranjaste um advogado? Belzebu diz que...
  • Vamos, meu bom amigo? Tenho um encontro com Satã... E, acima de tudo aquilo, o ruído estentóreo original, que parecia mergulhar através da cena:
  • DEPRESSA! DEPRESSA! DEPRESSA! Sacudam os ossos e não nos façam esperar – há muitos mais esperando na fila. Tragam os certificados nas mãos e verifiquem se o carimbo de Pedro está estampado neles. Certifiquem-se de que estão no portão de entrada certo. Há bastante fogo para todos. Ei, você... VOCÊ AÍ! TOME SEU LUGAR NA FILA OU... O fiapo branco que era Powell recuou ante a voz que avançava, sentindo a ponta violenta do dedo ameaçador. De repente, tudo explodiu num arco-íris de som que deixou cair seus fragmentos num cérebro dolorido. Powell viu-se novamente na poltrona. Tremia. Os olhos de Donovan estavam arregalados, muito azuis. – Greg – sussurrou ele, quase num soluço. – Você esteve morto?
  • Eu... me senti morto. Powell não reconheceu sua própria voz. Donovan não conseguiu pôr-se de pé. – Estamos vivos, agora? Ou haverá mais?
  • Eu... me sinto vivo – disse Powell, cautelosamente, ainda muito rouco. – Você... ouviu alguma coisa, quando... esteve morto? Donovan fez uma pausa em seus esforços e, muito devagar, meneou afirmativamente a cabeça.
  • Você também ouviu?
  • Ouvi. Você ouviu algo sobre caixões... e mulheres cantando... e filas para entrar no Inferno? Ouviu? Donovan sacudiu a cabeça, negando. – Só uma voz.
  • Alta?
  • Não. Baixa; mas áspera como uma lixa. Era um sermão, sabe, a respeito do fogo do inferno. Descrevia as torturas de... bem, você sabe. Certa vez, ouvi um sermão assim – quase igual. Suava copiosamente. Perceberam luz solar através da janela. Ainda fraca, mas azul-esbranquiçada – e a bola brilhante que servia de fonte de luz não era o Velho Sol.

Lenta, dramaticamente, Powell e Donovan concluíram uma narrativa circunstanciada dos fatos. Susan Calvin quebrou o silêncio que se seguiu. Nos poucos dias que se haviam passado, ela recobrara sua calma gélida e um tanto ácida – mas ainda conservava um certo embaraço.

  • Estritamente falando, tudo foi culpa minha – declarou. – Logo que apresentamos o problema ao Cérebro – como eu espero que alguns dos presentes se recordem – esforcei-me para impressioná-lo com a importância de rejeitar qualquer item de informação capaz de criar um dilema. Ao fazê-lo, eu disse algo como: “Não se excite com a possibilidade de morte de seres humanos. Não nos importamos com isso. Basta rejeitar a ficha de informações e esquecê-la”.
  • Bem – disse Lanning. – E daí?
  • É óbvio. Quando tal item foi inserido nos cálculos que forneciam a equação que controla o comprimento do intervalo mínimo para o salto interestelar, significava a morte de seres humanos. Foi aí que a máquina da Consolidated ficou completamente estragada. Mas eu, conversando com o Cérebro, diminuíra a importância da morte – não inteiramente, pois a Primeira Lei jamais pode ser violada – mas o suficiente para que o Cérebro pudesse examinar a equação uma segunda vez. Foi o bastante para que ele verificasse que, uma vez ultrapassado o intervalo, os homens voltariam à vida
  • exatamente como a matéria e energia da nave voltariam a existir. Em outras palavras, a suposta “morte” seria um fenômeno estritamente temporário. Compreendem? Olhou em volta. Todos escutavam com atenção. Susan Calvin prosseguiu : – Assim sendo, o Cérebro aceitou o item, mas não sem um certo abalo. Mesmo com a morte sendo temporária e eu tendo diminuído sua importância, o item foi o bastante para abalá-lo de forma muito leve. Com a maior calma, explicou : – Ele desenvolveu um senso de humor – uma fuga; um método de escapar parcialmente à realidade. Passou a ser um brincalhão. Powell e Donovan ergueram-se simultaneamente. – O quê! – exclamou Powell. Donovan mostrou-se consideravelmente mais expressivo.
  • Foi isso mesmo – insistiu Susan Calvin. – O Cérebro cuidou de vocês, mantendo-os em segurança. Mas vocês não podiam dirigir a nave, porque não havia controles – a não ser para o Cérebro brincalhão. Podíamos falar-lhes pelo rádio, mas vocês não podiam responder. Dispunham de bastante comida – mas só ervilhas e leite. Então, vocês morreram, por assim dizer, e voltaram posteriormente à vida; mas o período de sua morte temporária foi tornado... bem... interessante. Eu gostaria de saber como ele conseguiu aquilo. Foi a brincadeira favorita do Cérebro, mas ele não teve más intenções.
  • Más intenções! – rosnou Donovan. – Oh, se aquele miserável tivesse um pescoço! Lanning ergueu a mão, impondo silêncio. – Muito bem. Foi uma grande confusão mas tudo terminou. E agora?
  • Bem – disse Bogert. – Obviamente, cabe-nos aperfeiçoar o engenho interestelar. Deve existir algum modo de contornar o intervalo do salto. Se houver, somos a única organização que ainda possui um super-robô em grande escala, de modo que seremos os únicos capazes de encontrar a solução. Então... a U.S. Robôs possuirá o segredo das viagens interestelares e a humanidade terá oportunidade para estabelecer um império galáctico.
  • E a Consolidated? – indagou Lanning.
  • Ei! – interrompeu subitamente Donovan. – Desejo fazer uma sugestão a respeito. Eles colocaram a U.S. Robôs numa encrenca dos diabos. Não foi uma encrenca tão grande quanto eles esperavam e tudo terminou bem, mas as intenções deles não eram das melhores. Greg e eu fomos os que mais sofreram com o assunto. – Muito bem. Eles queriam uma resposta: podem tê-la. Se lhes enviarmos a nave, com garantia, a U.S. Robôs pode receber os duzentos mil, mais os custos de construção. E se eles resolverem testar a nave... bem, deixemos que o Cérebro divirta-se um pouco mais, antes de ser trazido ao normal. Lanning declarou em tom grave : – Parece-me muito justo e adequado. Bogert acrescentou, distraído: – E estritamente de acordo com o contrato... FIM