Docsity
Docsity

Prepare-se para as provas
Prepare-se para as provas

Estude fácil! Tem muito documento disponível na Docsity


Ganhe pontos para baixar
Ganhe pontos para baixar

Ganhe pontos ajudando outros esrudantes ou compre um plano Premium


Guias e Dicas
Guias e Dicas


Livro Fonta - Cap4, Manuais, Projetos, Pesquisas de Agronomia

Livro Fonta - Cap3

Tipologia: Manuais, Projetos, Pesquisas

2015

Compartilhado em 02/01/2015

mateus-valdir-muller-6
mateus-valdir-muller-6 🇧🇷

4.6

(179)

591 documentos

1 / 18

Toggle sidebar

Esta página não é visível na pré-visualização

Não perca as partes importantes!

bg1
79
4
Capítulo
Cereais de Inverno de Duplo
Propósito - Estabelecimento
e Manejo de Cereais de
Duplo Propósito
Renato Serena Fontaneli, Henrique Pereira dos Santos,
Osmar Rodrigues e João Leonardo Fernades Pires
A região Sul do Brasil, mais especificamente o Centro-Sul do
Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, caracteriza-se
por apresentar similaridades edafoclimáticas e de exigênci-
as ambientais para os cereais de inverno, que resultam na
indicação freqüente de espécies e cultivares que se adaptam
aos três estados (DEL DUCA et al., 2000). Apesar das pecu-
liaridades específicas a cada estado ou região, existe seme-
lhança nas demandas que abrangem os locais citados aci-
ma. De acordo com Rodrigues et al. (1998), excluindo as ter-
ras de arroz irrigado, haveria, no mínimo, quatro milhões de
hectares disponíveis no inverno com aptidão agrícola somente
pf3
pf4
pf5
pf8
pf9
pfa
pfd
pfe
pff
pf12

Pré-visualização parcial do texto

Baixe Livro Fonta - Cap4 e outras Manuais, Projetos, Pesquisas em PDF para Agronomia, somente na Docsity!

Capítulo 4

Cereais de Inverno de Duplo

Propósito - Estabelecimento

e Manejo de Cereais de

Duplo Propósito

Renato Serena Fontaneli, Henrique Pereira dos Santos, Osmar Rodrigues e João Leonardo Fernades Pires

A região Sul do Brasil, mais especificamente o Centro-Sul do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, caracteriza-se por apresentar similaridades edafoclimáticas e de exigênci- as ambientais para os cereais de inverno, que resultam na indicação freqüente de espécies e cultivares que se adaptam aos três estados (DEL DUCA et al., 2000). Apesar das pecu- liaridades específicas a cada estado ou região, existe seme- lhança nas demandas que abrangem os locais citados aci- ma. De acordo com Rodrigues et al. (1998), excluindo as ter- ras de arroz irrigado, haveria, no mínimo, quatro milhões de hectares disponíveis no inverno com aptidão agrícola somente

80 ILPF - Integração Lavoura-Pecuária-FlorestaILPF - Integração Lavoura-Pecuária-FlorestaILPF - Integração Lavoura-Pecuária-FlorestaILPF - Integração Lavoura-Pecuária-FlorestaILPF - Integração Lavoura-Pecuária-Floresta

no Rio Grande do Sul, o que representa considerável ociosi- dade de terra e de infra-estrutura, com reflexos negativos na economia e acarretando perdas de renda.

Na região Sul do Brasil em que se cultivam soja e milho, no verão, há períodos, de um a três meses, durante os quais o solo fica exposto a perdas por erosão, antes da semeadura das culturas de inverno, especialmente quando se adota o preparo convencional de solo (DEL DUCA et al., 2000). Com a adoção crescente do sistema plantio direto (SPD), essa área vem sendo cultivada com culturas de cobertura de solo, como a ervilhaca, o nabo-forrageiro e, principalmente, a aveia preta, a qual apresenta a maior área cultivada na região pro- dutora de cereais de inverno. O SPD exige adoção de um conjunto de práticas de rotação de culturas, manutenção do solo com cobertura vegetal permanente, revolvimento de solo restrito à linha de semeadura e adoção do processo colher- semear.

A aveia é cultivada no outono/inverno no sul do Brasil para a produção de grãos e forragem, e é uma das alternativas para suprir as deficiências das pastagens nativas que são com- postas basicamente por espécies estivais, que apresentam reduzido valor nutritivo no final do verão, agravado pela ocor- rência de geadas (FONTANELI & PIOVEZAN, 1991). Enquanto nas áreas tradicionais de pecuária há falta de alimentação para os bovinos nos meses de inverno, nas áreas de lavoura sob plantio direto há disponibilidade de forragem de elevado valor nutritivo no mesmo período (DEL DUCA et al., 2000). Com isso, tem aumentado o interesse pela terminação de bovinos, bem como tem sido intensificada a produção de lei- te, principalmente no norte do RS, oeste de SC e sudoeste

82 ILPF - Integração Lavoura-Pecuária-FlorestaILPF - Integração Lavoura-Pecuária-FlorestaILPF - Integração Lavoura-Pecuária-FlorestaILPF - Integração Lavoura-Pecuária-FlorestaILPF - Integração Lavoura-Pecuária-Floresta

BARTMEYER, 2006) são freqüentes na literatura.

Na Embrapa Trigo, desde a década de 1970, vem sendo de- senvolvidos trabalhos, com cereais de inverno, principalmente com a cultura de trigo, para serem utilizadas como espécie destinada à fornecer forragem verde no período de carência alimentar e, ainda, produzir grãos (DEL DUCA & FONTANELI, 1995). Desta maneira, esse material poderá ser semeado para o pastejo, para a produção de grãos ou para duplo pro- pósito, ou seja, para o pastejo (um ou dois ciclos de pastejo rotacionado) e para colheita de grãos do rebrote.

O trigo como cultura de duplo propósito tem sido usado em diversos países, como U.S.A, Austrália, Uruguai e Argentina, como alternativa econômica em sistemas de produção agrí- cola. Epplin et al. (2006) analisando e comparando o retorno líquido de cultivo de trigo grão e trigo em duplo propósito em duas épocas de semeadura no período de 1980-1999, no estado de Oklahoma/USA, observaram maiores retornos do cultivo de trigo grão em quatro safras, enquanto o trigo em duplo propósito gerou maior retorno líquido em 16 safras. A estimativa de média de retorno líquido de trigo somente para grão foi de US$148/ha, enquanto nos dois sistemas de trigo duplo propósito, os valores foram de U$175/ha (semeado em 20 de setembro) e US$168/ha (semeado em 1 de setembro), como é no hemisfério norte, corresponde, aproximadamente ao mês de março nas nossas condições.

Os cereais de inverno de duplo propósito juntamente com outras gramíneas e leguminosas forrageiras de inverno po- dem ser sobressemeadas em pastagens naturais ou em

gramíneas perenes de estação quente rizomatosas e/ou

estoloníferas durante o outono para aumentar a produção de forragem especiamente no RS e SC. FONTANELI &

JACQUES (1991) obtiveram aumento de disponibilidade de massa seca e de proteína bruta com a introdução de espéci-

es de estação fria em pastagens nativas. Além disso, as forrageiras anuais de inverno melhoram a distribuição de

forragem e o valor nutritivo da dieta para ruminantes podendo beneficiar sistemas de produção animal em regiões tempe-

radas ou subtropicais a exemplo do obtido por Fontaneli et al. (1999) na Flórida, USA.

No Sul do Brasil, tem sido observado que trigo de duplo pro- pósito após ser pastejado produz rendimento de grãos simi-

lar ou mais elevado do que não pastejado, em virtude de vári-

os fatores como maior afilhamento, renovada área foliar, re- dução de porte e, em geral, menor acamamento, permitindo maior contribuição fotossintética ao desenvolvimento da planta

(DEL DUCA et al., 2001). Desta maneira, as plantas de trigo

tendem a se ajustar após o pastoreio (adaptação fenotípica) antes do período crítico do alongamento dos entre-nós.

Neste capítulo serão destacados aspectos importantes rela- cionados ao manejo de cereais de inverno de duplo propósito

(trigo, aveia branca, triticale, cevada e centeio), que vão des-

de a semeadura dos mesmos, atentando-se para os tratos culturais, o manejo no pastoreio, experimentos para aperfei- çoamento das tecnologias agronômicas, bem como algumas

análises econômicas.

Quando semear os cereais de inverno

de duplo propósito

Os cereais de inverno de duplo propósito, podem ser semea- dos no outono, antecipadamente à época preferencial de cada espécie, em sua região (REUNIÃO, 2005a, 2005b; COMIS- SÃO..., 2006). O trigo de duplo propósito, que possui o sub- período da emergência ao espigamento longo, deve ser seme- ado em época anterior à indicada para cultivares de ciclo preco- ce. Isso, por sua vez, é válido para os demais cereais de inver- no de duplo propósito. Indica-se antecipar a semedura em 20 dias antes da época para cada município para cultivares de tri- go semi-tardias, como a BRS Figueira, primeira cultivar ofertada no mercado brasileiro pela Embrapa Trigo (DEL DUCA et al.,

  1. e BRS Umbu, enquanto as cultivares tardias como BRS Tarumã e BRS 277 deve-se antecipar em 40 dias da época indicada para as cultivares precoces, indicadas exclusivamen- te para a colheita de grãos (REUNIÃO, 2005a, 2005b). Assim, as espécies de cereais de inverno de duplo propósito podem evitar perdas de solo e de nutrientes e contribuir para a sustentabilidade do sistema plantio direto, ao propiciar cobertu- ra vegetal permanente após as culturas de verão (DEL DUCA et al., 1997). Além disso, o uso de cereais de inverno de duplo propósito, pode favorecer a integração lavoura-pecuária. No caso do trigo, especificamente, essas cultivares são caracterizadas pelo ciclo tardio-precoce (TP), por apresentarem os sub-perío- dos da semeadura ao espigamento longo e espigamento- maturação curto. Com isso, reduz-se o risco de que o sub- período do espigamento a antese (crítico quanto à suscetibilidade à geadas) ocorra na época do ano de temperatura mais baixa, condição favorável a ocorrência de geada (Fig. 16). Nessas

86 ILPF - Integração Lavoura-Pecuária-FlorestaILPF - Integração Lavoura-Pecuária-FlorestaILPF - Integração Lavoura-Pecuária-FlorestaILPF - Integração Lavoura-Pecuária-FlorestaILPF - Integração Lavoura-Pecuária-Floresta

condições, em Passo Fundo, RS, Castro e Ponta Grossa no Paraná, trigo pode ser pastejado por um período até superior a 60 dias, do final do mês de maio ao início de agosto, na maioria dos anos. Em regiões mais quentes, como a das Missões do Rio Grande do Sul e oeste de Santa Catarina, pode ser inferior, cerca de 45 dias e, em regiões mais frias, como os Campos de Cima da Serra e Planalto Catarinense, pode aproximar-se de três meses de pastejo. Esse período de utilização é propiciado pela genética, cultivares de ciclo mais longo, especialmente o subperíodo vegetativo mais longo, como as cultivares BRS Tarumã e BRS 277, pelo rebrote induzido pelo corte com maior perfilhamento e, pelo maior aporte de adubos nitrogenados, pois indica-se 30 kg N/ha após cada ciclo de pastejo.

Fig. 16. Representação esquemática de trigo tardio precoce (TP) que pode ser usado em duplo propósito e sua época de semeadura (S) em relação ao trigo precoce (P) e ao estresse causado por geadas.

88 ILPF - Integração Lavoura-Pecuária-FlorestaILPF - Integração Lavoura-Pecuária-FlorestaILPF - Integração Lavoura-Pecuária-FlorestaILPF - Integração Lavoura-Pecuária-FlorestaILPF - Integração Lavoura-Pecuária-Floresta

somente de grãos (REUNIÃO, 2005a, 2005b; COMISSÃO..., 2006), da mesma forma que, o controle de doenças e de pra- gas. Dessa forma, deve-se proceder desde o tratamento de sementes até as doenças ou pragas da parte aérea das es- pécies em cultivo. Os cereais de inverno de duplo propósito, ao serem pastejados, podem necessitar somente uma apli- cação de fungicida, pois o rebrote dá origem a novos tecidos, podendo escaparem da ação de patógenos.

Tabela 11. Altura de planta (AP), concentração de massa seca (MS) e rendimento de massa seca (MS), de trigo BRS Figueira, de 2003 a

  1. Embrapa Trigo. Passo Fundo, RS

AP MS MS Densidade de semeadura (cm) (%) (kg/ha) 120 sementes aptas/m^2 30 21 622 c 240 sementes aptas/m^2 31 19 934 ab 360 sementes aptas/m^2 31 19 1.099 a 480 sementes aptas/m^2 32 19 1.141 a Testemunha (aveia preta Agro Zebu) 31 19 833 bc Média 31 19 926 CV (%) 7 8 16 Médias seguidas da mesma letra, na coluna, não diferem significativamente pelo teste de Tukey (P>0,05). Fonte: Fontaneli et al. (2006).

Tabela 12. Peso de 1.000 grãos (PMG), peso do hectolitro (PH), altura de planta (AP), rendimento de grãos (RG), de trigo BRS Fi- gueira, de 2003 a 2005, Embrapa Trigo. Passo Fundo, RS.

PMG PH AP RG Densidade de semeadura (g) (kg/hL) (cm) (kg/ha)

120 sementes aptas/m^2 25,6 a 73 a 62 b 1.640 b 240 sementes aptas/m^2 25,7 a 73 a 62 b 1.899 ab 360 sementes aptas/m^2 25,4 a 74 a 63 b 2.048 a 480 sementes aptas/m^2 25,9 a 73 a 64 b 2.001 ab Testemunha (aveia preta Agro Zebu) 19,1 b 45 b 111 a 1.714 ab

Média 24,3 68 73 1. CV (%) 6 2 2 14

Médias seguidas da mesma letra, na coluna, não diferem significativamente pelo teste de Tukey (P>0,05). Fonte: Fontaneli et al. (2006).

Manejo para pastejo dos cereais de

inverno de duplo propósito

Sugere-se observar a compatibilização dos três critérios para

a utilização de aveia preta forrageira, que mostra-se adequa-

da aos cereais de inverno de duplo propósito (aveia branca,

centeio, cevada, trigo e triticale), tanto no corte mecânico

como no pastoreio que são os seguintes: a) altura de plan-

tas; b) biomassa disponível e c) temporal ou cronológico.

Fig. 18. Pastagem de trigo de duplo propósito BRS Tarumã em Almirante Tamandaré, RS. Foto: Renato S. Fontaneli.

Fig. 19. Pastagem de trigo de duplo propósito BRS Tarumã em Chiapeta, RS. Foto: Renato S. Fontaneli.

92 ILPF - Integração Lavoura-Pecuária-FlorestaILPF - Integração Lavoura-Pecuária-FlorestaILPF - Integração Lavoura-Pecuária-FlorestaILPF - Integração Lavoura-Pecuária-FlorestaILPF - Integração Lavoura-Pecuária-Floresta

b) Biomassa disponível

Mede-se com um quadrado de 1,0 metro de lado, onde corta- se, com foice manual ou faca, todas as plantas da área (nor- malmente de cinco linhas de plantas), toda forragem acima de 7,0 cm (altura de resteva – limite onde os animais devem pastejar) e pesa-se (Fig. 20). O pastejo deve ser iniciado quando houver de 0,7 a 1,0 kg de pasto verde por metro qua- drado. A concentração de MS no estádio vegetativo varia de 12 a 18% ou seja, 1,0 quilograma de pasto fresco, depois de seco, pesa somente 120 a 150 gramas. Nessa condição, a quantidade de forragem disponível dos cereais de inverno de duplo propósito é de 1,0 a 1,5 t de massa seca (MS) por hec- tare, ponto de máxima eficiência de pastejo por bovinos de corte ou vacas leiteiras.

Fig. 20. Observar a altura de resteva (5 a 10 cm) no corte mecânico ou na saída dos animais é uma prática importante para o sucesso da utilização dos cereais de inverno como duplo propósito, Tapejara, RS. Fotos: Renato S. Fontaneli.

94 ILPF - Integração Lavoura-Pecuária-FlorestaILPF - Integração Lavoura-Pecuária-FlorestaILPF - Integração Lavoura-Pecuária-FlorestaILPF - Integração Lavoura-Pecuária-FlorestaILPF - Integração Lavoura-Pecuária-Floresta

os animais forem manejados no sistema de pastoreio rotativo, ou seja, lotação instantânia, por uma ou duas vezes, esses efeitos serão menores do que preparo convencional de solo (SPERA et al., 2004). Quando o pastoreio ocorre no sistema de lotação contínua por 30 a mais de 60 dias consecutivos e retirados no fim do período hibernal, o efeito da compactação do solo diminui, paulatinamente até a época de semeadura da cultura de verão. Desta forma, os cereais de inverno indi- cados para duplo propósito, podem fornecer forragem aos bovinos no período crítico de inverno e ainda propiciar colhei- ta de grãos (DEL DUCA et al., 1997, 2000).

Fig. 21. Ponto de crescimento de trigo. Foto: Paulo Kurtz.

Fig. 22. Colmo vazio. Foto: Paulo Kurtz.

Dados obtidos por Del Duca & Fontaneli (1995) e por Del Duca et al. (1997) permitem evidenciar vantagens compara- tivas de genótipos de trigo para duplo propósito, relativamen- te à aveia preta, quanto ao rendimento de forragem e, especi- almente, quanto ao rendimento de grãos.

A cobertura de solo é fundamental para a sustentabilidade do sistema plantio direto. Os cereais de inverno de duplo propó- sito (DP) propiciam cobertura de solo antecipada àquela dos cereais somente para grãos por serem semeados de 20 a 40 dias antes da época recomendada para as variedades pre- coces. Assim, a semeadura de cereais de inverno DP é mais uma alternativa para suplementação animal no final de outo-