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Fundamentos de libras para iniciantes.
Tipologia: Manuais, Projetos, Pesquisas
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Não perca as partes importantes!





























































































GABRIELA MAFFEI MOREIRA TATIANA PALAZZO 1ª edição SESES rio de janeiro 2017 TÓPICOS EM LIBRAS: SURDEZ E INCLUSÃO
capítulo 1 (^) • 9 Durante muito tempo, as pessoas com surdez tiveram sua formação baseada nas línguas orais, mas, com o passar do tempo, percebeu-se que a língua de si- nais que este grupo utilizava era uma língua/idioma, com características próprias (gramática, semântica, sintaxe e morfologia), sendo esta a língua materna para os surdos e a língua oficial do país, a segunda. Atualmente, uma das principais discussões é como alfabetizar no segundo idioma, o português; este assunto será abordado, porém seu aprofundamento fi- cará para um próximo estudo, pois antes precisamos conhecer, respeitar e acei- tar a LIBRAS como língua/idioma oficial utilizado por alunos, cidadãos, pessoas surdas. Nesta disciplina, buscaremos trazer conhecimentos específicos quanto a educação, língua e inclusão das pessoas com surdez. Para melhor entender as mudanças na formação oferecida às pessoas com surdez, é necessário saber a trajetória percorrida, para que hoje, no século XXI, tenhamos um ensino baseado na língua de sinais e a opção de a educação ser em escolas comuns. Vamos voltar no tempo e conhecer as principais concepções que existiam quanto a “ser surdo” e suas possibilidades sociais, educacionais e legais, sempre contextualizando as questões mundiais, as influências religiosas e as tendências políticas. Podemos citar o que Darwin dizia quanto à evolução do homem e de todos os animais que vivem hoje: eles passaram por um processo de seleção natural constante e severo e depois desta seleção sobreviveram os mais aptos, para viver segundo as condições de vida do meio e da época em que existiam. Era uma guerra pela existência, em que somente os “melhores” sobreviviam. Com a evolução surgiram dúvidas, questionamentos e incertezas quanto a tudo que rodeava as pessoas: questões sobre a vida, a morte, enfim, como se dava a formação da sociedade. No próximo capítulo, iniciaremos o nosso estudo de como foi a educação dos surdos desde a Antiguidade até os dias atuais. Vamos fazer uma viagem no tempo! Além disso, estudaremos as principais legislações da área, nacional e internacional. OBJETIVOS
capítulo 1 (^) • 10 Antiguidade Na Antiguidade, a deficiência era vista como incapacidade; as pessoas não podiam produzir nem eram livres para “cuidar” de suas vidas. Segundo Perlin (2002,p.16): A história dos surdos é escrita pela história da educação e a história da educação dos surdos foi sempre contada pelos ouvintes. É natural que muitos surdos tenham se apropriado dela como se fosse verdade absoluta e a tenha absorvido exatamente como lhes foi dito, isto é, que eles eram deficientes, menos válidos, incapazes [...]. No livro da lei dos hebreus (século XIII a.C) a Torá, podia-se ler: “[...]quem dá a boca ao homem? Quem o torna mudo ou surdo, capaz de ver ou cego? Não sou Eu, Javé?” (Êxodo, IV:11). “— Ser surdo e ser mudo é a vontade do Senhor e, por isso, que pode o homem fazer?” A deficiência era justificada pela religião, por castigo. Consequentemente, não se prestava atendimento educacional e social. O deficiente nem mesmo participa- va da família como um de seus membros. Entretanto, no século V a.C, Sócrates (470-399 a.C) já afirmava que os surdos tinham que usar o gesto e a pantomima para se comunicarem. Sócrates, em 360 a.C, fez a seguinte reflexão: “Se não tivéssemos voz nem língua, mas apesar disso desejássemos manifestar coisas uns para os outros, não deveríamos, como as pessoas que hoje são mudas, empenhar-nos em indicar o significado pelas mãos, pela cabeça e por outras partes do corpo?” © WIKIMIDIA Sócrates e Platão
capítulo 1 (^) • 12 Naquela mesma época, em função de suas limitações, os deficientes eram vis- tos pela Igreja Católica como seres com “almas imortais”, pois não conseguiam verbalizar os sacramentos. São Paulo (Epístola aos Romanos, X:17), tendo dito que “a fé deriva da pregação e a pregação é o anúncio da palavra”, também negou aos surdos-mudos o direito à religião, aos sacramentos e mesmo à salvação da alma, isso já no século I.
© WIKIMIDIA Na sociedade medieval, havia posturas contraditórias em relação às pessoas com deficiência: a igreja cuidava delas e fazia caridade; os nobres as usavam como “bobos da corte”. Com o Cristianismo (400 d.C.), a Igreja Católica passou a ter o poder políti- co. A Antiguidade foi um período de exclusão; na Idade Média, com o monarquis- mo, houve a ascensão da Igreja Católica, que trouxe o assistencialismo. Os surdos eram considerados inaptos à educação e ao sacerdócio. Somente eram respeitados juridicamente se falassem e casavam-se apenas com a permissão do papa.
No século XVI, a deficiência passou a ser concebida e a ser tratada por meio da alquimia, da magia e da astrologia, métodos da incipiente medicina.
capítulo 1 (^) • 13 Naquela época surgiram os asilos e os hospitais psiquiátricos, com o objetivo não de tratar, mas de segregar as pessoas com qualquer tipo de deficiência. “Tais instituições eram pouco mais do que prisões”, segundo Aranha (2001, p.165). Durante os séculos XVII e XVIII, nos hospitais, houve grande desenvolvi- mento no atendimento às pessoas com deficiência. Havia assistência especializada em ortopedia para os mutilados das guerras e para pessoas cegas e surdas. Percebia-se o investimento de alguns médicos e educadores para mostrar que as pessoas com deficiência poderiam ter uma vida acadêmica e se comunicar. De acordo com Carvalho (2007), Bartolo della Marca d’Ancona (1314-1357), escritor italiano, foi o primeiro a expor a possibilidade de o surdo ser ensinado por meio da língua oral ou da “língua gestual”. © WIKIMEDIA Podemos citar o médico Girolano Cardano, que afirmou que os surdos po- deriam ser ensinados – ele passou a se interessar pela surdez porque seu primo- gênito era surdo. Nessa mesma época, Pedro Ponce de Leon, monge beneditino espanhol, iniciou um trabalho educacional com surdos da elite, com o objetivo de “[...] ensinar a falar, escrever, ler, fazer contas, orar e confessar pelas palavras, a fim de ser reconhecidos como pessoas nos termos da lei e herdar seus títulos [...]” (GUARINELLO, 2007, p.21).
capítulo 1 (^) • 15 WIKIMIDIA Já na Inglaterra, em 1644, o médico John Bulwer publicou Chironomia, or the art of manuall rhetorique , em que apresenta e defende sua teoria de que a lingua- gem das mãos é natural para todos os homens, principalmente para pessoas com surdez. (CABRAL,2001) Um dos maiores educadores da história de surdos foi Charles Michel de L’Épée, conhecido como Abbé de L’Épée, que publicou Instruction de sourds et muets par la voix des signes méthodiques (1776). Ele fundou, em Paris, a primeira escola pública para surdos, que tinha o objetivo de que os surdos aprendessem a ler e a escrever. L’ Épée iniciou o seu trabalho na educação de surdos ao substituir seu pro- fessor (falecido), que lecionava para duas crianças (gêmeas) surdas. Observou a comunicação gestual existente entre as duas irmãs, interessou-se em aprendê-la e buscou sistematizar o ensino desses sinais (sinais realizados na gramática do fran- cês): sinalizava com uma das mãos enquanto escrevia na lousa com a outra mão.
capítulo 1 (^) • 16 © WIKIMIDIA Houve algumas tentativas em mudar o conceito e tratamento das pessoas de- ficientes como Jacob Rodrigues Pereira, em 1747, na tentativa de ensinar surdos congênitos a se comunicar, essas “[...]tentativas foram tão bem sucedidas que es- timulou a busca de formas para lidar com outras populações, especialmente a de pessoas com deficiência mental.” (ARANHA, 2001, p.166) Simultaneamente aos avanços feitos pelo Abade de L’Épée, Samuel Heinike (1778) dirigiu, em Leipzig (Alemanha), uma escola de ensino exclusivamente oral para surdos, rejeitando todos os outros métodos, que ele qualificava de inúteis e fraudulentos. Segundo Cabral (2001), ambos os educadores criaram uma polêmi- ca quanto aos métodos de ensino, que ficaram conhecidos como método francês e método alemão. Em 1872, no Congresso de Veneza, foi decido que: o meio humano para a comunicação do pensamento é a língua oral; se orientados, os surdos leem os lá- bios e falam; a língua oral tem vantagens para o desenvolvimento do intelecto, da moral e da linguística. No I Congresso Internacional sobre a Instrução dos Surdos-Mudos, em 1878, em Paris, concordou-se que só a instrução oral poderia incluir o surdo na socie- dade e que o método articulatório, que abrange a leitura labial, devia ser a base de todo o trabalho educacional.
capítulo 1 (^) • 18 © WIKIMEDIA Gallaudet University: primeira universidade para surdos no mundo. Também nos EUA, na cidade de Boston, em 1872, Alexander Graham Bell abriu uma escola oralista para professores de surdos. Registrou a patente do te- lefone em 1873. Propôs a eliminação das escolas residenciais e a proibição do magistério aos professores surdos e do casamento entre surdos. De acordo com Carvalho (2007), durante a Segunda Guerra Mundial, os nazistas perseguiram todos os surdos, principalmente os judeus, defendendo seu extermínio. Praticava-se o aborto e a eutanásia em bebês com surdez. Eram con- denados à morte as crianças encaminhadas a centros especiais (onde os pais acredi- tavam estar enviando seus filhos para a cura) e os adultos institucionalizados – os quais Hitler autorizou direcionar para a câmara de gás e, depois, permitiu retirar os órgãos deles para experiência. Percebendo-se a necessidade de organizar a educação e os rumos a serem to- mados mundialmente quanto à comunicação das pessoas com surdez, foi fundada a Federação Mundial de Surdos (WFD), em Roma, em 1951. Com os estudos feitos em 1967 por Roy Holcomb, introduziu-se a expressão Total Communication como filosofia de comunicação, e não como um método, associando novamente oralidade e sinais.
capítulo 1 (^) • 19 Temos como uma das definições para essa filosofia de comunicação: A filosofia da Comunicação Total tem como principal preocupação os processos co- municativos entre surdos e surdos e entre surdos e ouvintes. Essa filosofia também se preocupa com a aprendizagem da língua oral pela criança surda, mas acredita que os aspectos cognitivos, emocionais e sociais não devem ser deixados de lado em prol do aprendizado exclusivo da língua oral. Por esse motivo, esta filosofia defende a uti- lização de recursos espaço-visuais como facilitadores da comunicação. (GOLDFELD, 1997, p. 35) Um dos primeiros países a reconhecer oficialmente a língua gestual como lín- gua nativa dos surdos foi a Suécia, em 1983.
No Brasil, a história da educação de surdos teve início em 26 de setembro de 1857, quando se criou o Imperial Instituto dos Surdos-Mudos, pela lei nº 839, esta tinha sua comunicação baseada no método combinado. Essa instituição foi fundada durante o Império de D. Pedro II, com a chegada do professor francês Hernest Huet, que era surdo. O Instituto era um asilo, onde só se aceitavam sur- dos do sexo masculino, que vinham de todos os pontos do país, sendo que muitos eram abandonados pelas famílias naquele local. Inicialmente, utilizava-se a língua dos sinais, mas em 1911 adotou-se o oralismo como forma de comunicação. CONEXÃO Instituto Nacional de Educação de Surdos, localizado no Rio de Janeiro, com mais de 150 anos de trabalho oferecido na área da surdez. É referência nacional e tem atualmente um curso de graduação Bilíngue de Pedagogia, oPrimeiro Curso de Graduação Bilíngue (Português/Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS). Para conhecer melhor esse trabalho, acesse: http://www.ines.gov.br/ O estado de São Paulo tem algumas das mais antigas escolas para surdos do Brasil, como a fundada, em 1929, pelo Bispo Dom Francisco de Campos Barreto, o Instituto Santa Terezinha, na cidade de Campinas/SP, com atendimento para meninas. O Instituto foi, em 1933, transferido para São Paulo e, a partir de 1970,