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Tipologia: Exercícios
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Parte I Padre António Vieira, “Sermão de Santo António.
Os elogios feitos aos peixes pressupõem uma crítica aos homens, pela ausência dessas virtudes. No entanto, a crítica social é sobretudo evidente e mais contun- dente nos Capítulos IV e V, quando Vieira faz repreensões aos peixes, primeiro em geral (Capítulo IV) e depois em particular (Capítulo V).
Mais uma vez, Santo António surge como modelo a seguir (exemplaridade), por apresentar um comportamento contrário ao dos peixes referidos.
5.1. Discurso figurativo: alegoria, comparação
e metáfora
O “Sermão de Santo António” é um discurso figurativo, na medida em que, através da alegoria (representação simbólica), se aborda uma realidade abstrata. Assim:
Alegoria
Por sua vez, a alegoria concretiza-se, muitas vezes, por meio de metáforas e de comparações.
Vos estis Vós sois o
Pregadores
sal sal
Doutrina
terrae da terra
Ouvintes
Metáfora
O polvo , com aquele seu capelo na cabeça , parece um monge ; com aqueles seus raios estendidos , parece uma estrela ; com aquele não ter osso nem espinha , parece a mesma brandura , a mesma mansidão. VIEIRA, Padre António (2014). Sermão de Santo António. Porto: Porto Editora [p. 56]
Comparação
Educação Literária
TEORIA
GESTP11 © Porto Editora
5.2. Visão global do sermão e estrutura
argumentativa
Estrutura externa
Estrutura interna
Assunto
Capítulo I
Exórdio Parte inicial, que inclui a apresentação do tema e a captação da atenção do auditório
- Conceito predicável – “Vos estis sal terrae” argumentação assente na metáfora - Elogio a Santo António – modelo de pregação a seguir pregar aos peixes - Invocação a Maria
Capítulo II
Exposição Referência ao assunto a desenvolver e apresentação da sua divisão em partes
- Estrutura do sermão “dividirei, peixes, o vosso sermão em dois pontos: no primeiro louvar-vos-ei as vossas virtudes, no segundo repreender- - vos-ei os vossos vícios”
Confirmação Apresentação de argumentos e de exemplos que os sustentam
- Louvores em geral − “obediência” − “ordem, quietação e atenção com que ouvistes a palavra de Deus” − “prudência” (afastamento dos homens)
Capítulo III
- Louvores em particular − Peixe de Tobias: poder curativo − Rémora: força e poder − Torpedo: energia − Quatro-olhos: capacidade de olhar para cima e para baixo
Capítulo IV
- Repreensões em geral “Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos.” “ignorância e cegueira”
Capítulo V
- Repreensões em particular − Roncadores: arrogância − Pegadores: oportunismo, parasitismo − Voadores: vaidade, ambição − Polvo: hipocrisia, traição
Capítulo VI
Peroração Parte final
- Última advertência aos peixes Elogio final (comparação com os outros animais e com o orador) - Exortação – “Louvai, peixes, a Deus”
Exórdio tem origem na palavra latina “exordire”, que significa começar?
Sabias que…
Notas ❶ A estrutura clássica de um discurso retórico inclui, de maneira geral, as seguintes partes: exórdio, exposição, confirmação e peroração. ❷ A exposição e a confirmação correspondem ao desenvolvimento do sermão. ❸ A peroração inclui normalmente: a recapitulação (síntese dos principais argumentos referidos), a amplificação (reforço de uma ideia em sintonia com a tese defendida) e a comoção (apelo ao auditório capaz de o emocionar).
Vídeo
“Sermão de Santo António”
GESTP11 © Porto Editora
1.4. Identifica e explicita o valor do(s) recurso(s) expressivo(s) presente(s) na linha 21: “Deixa as praças, vai-se às praias; deixa a terra, vai-se ao mar…”.
Esta passagem evidencia um paralelismo de construção, resultado da repetição das formas verbais “Deixa” e “vai” (anáfora), cujo significado
é precisamente oposto (antítese), denotando uma mudança de
comportamento por parte de Santo António.
1. Lê o excerto do “Sermão de Santo António” que se segue.
O leme da natureza humana
O leme da natureza humana é o alvedrio^1 ; o piloto é a razão: mas quão poucas vezes obedecem à razão os ímpetos precipitados do alvedrio? Neste leme, porém, tão desobediente e rebelde, mostrou a língua de António quanta força tinha, como rémora, para domar e parar a fúria das paixões humanas. Quantos, correndo fortuna na nau Soberba, com as velas inchadas do vento e da mesma soberba (que também é vento), se iam desfazer nos baixos, que já rebentavam por proa, se a língua de António, como rémora, não tivesse mão no leme, até que as velas se amainassem, como mandava a razão, e cessasse a tempestade de fora e a de dentro? Quantos, embarcados na nau Vingança, com a artilharia abocada^2 e os bota-fogos^3 acesos, corriam enfunados a dar-se batalha, onde se queimariam ou deitariam a pique, se a rémora da língua de António lhes não detivesse a fúria, até que composta a ira e o ódio, com bandeiras de paz, se salvassem amigavelmente? Quantos, navegando na nau Cobiça, sobrecarregada até às gáveas e aberta com o peso por todas as costuras, incapaz de fugir, nem se defender, dariam nas mãos dos corsários com perda do que levavam e do que iam buscar, se a língua de António os não fizesse parar, como rémora, até que aliviados, da carga injusta, escapassem do perigo e tomassem porto? VIEIRA, Padre António (2014). Sermão de Santo António. Porto: Porto Editora [p. 23].
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1.1. Localiza o excerto na estrutura externa e interna da obra.
1.2. Mostra como o excerto apresentado constitui um exemplo do discurso figura- tivo característico deste sermão.
1.3. Explicita o valor da enumeração presente ao longo do excerto.
Resolve
tu!
Notas vocabulares 1 alvedrio: determinação da vontade 2 abocada: apanhada com a boca 3 bota-fogos: pedaços de corda com alcatrão com os quais se comunicava o fogo à pólvora dos canhões antigos
“Sermão de Santo António”
GESTP11 © Porto Editora
As roncas do mar
É possível que, sendo vós uns peixinhos tão pequenos, haveis de ser as roncas do mar?! Se com uma linha de coser e um alfinete torcido vos pode pescar um aleijado, porque haveis de roncar tanto? Mas por isso mesmo roncais. Dizei-me: o espadarte porque não ronca? Porque, ordinariamente, quem tem muita espada, tem pouca língua. Isto não é regra geral; mas é regra geral que Deus não quer roncadores, e que tem particular cuidado de abater e humilhar aos que muito roncam. S. Pedro, a quem muito bem conheceram os vossos antepassados, tinha tão boa espada que ele só avançou contra um exército inteiro de soldados romanos; e, se Cristo lha não mandara meter na bainha, eu vos prometo que havia de cortar mais orelhas que a de Malco^1. Contudo, que lhe sucedeu naquela mesma noite? Tinha roncado e barbateado^2 Pedro que, se todos fraqueassem^3 , só ele havia de ser constante até morrer, se fosse necessário; e foi tanto pelo contrário que só ele fraqueou mais que todos, e bastou a voz de uma mulherzinha para o fazer tremer e negar. Antes disso já tinha fraqueado na mesma hora em que prometeu tanto de si. Disse-lhe Cristo no horto^4 que vigiasse, e vindo daí a pouco a ver se o fazia, achou-o dormindo com tal descuido, que não só o acordou do sono, senão também do que tinha blasonado […]. O muito roncar antes da ocasião é sinal de dormir nela. Pois que vos parece, irmãos roncadores? Se isto sucedeu ao maior pescador, que pode acontecer ao menor peixe? Medi-vos, e logo vereis quão pouco fundamento tendes de blasonar^5 , nem roncar. VIEIRA, Padre António (2014). Sermão de Santo António. Porto: Porto Editora [pp. 45-46, com supressões].
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2.1. Integra o excerto na globalidade da obra.
2.2. Caracteriza o tipo humano simbolizado pelos peixes roncadores, tendo em conta a crítica social subjacente à obra.
2.3. Refere a consequência do comportamento destes peixes.
2.4. Interpreta o recurso à apóstrofe nas linhas 17-18: “Pois que vos parece, irmãos roncadores?”
Notas vocabulares 1 Malco: servo do Sumo Sacerdote ao qual S. Pedro cortou a orelha direita 2 Tinha […] barbateado: Tinha-se vangloriado de 3 fraqueassem: fraquejassem 4 horto: Jardim das Oliveiras 5 blasonar: vangloriar-se de qualidades que não se tem
Atividade
Educação Literária
GESTP11 © Porto Editora
9.3. Registos de língua e atos de fala
Ao analisar uma situação de comunicação, é necessário ter em conta:
Registos de língua Atos de fala
Registo formal
- Utilizado em situações formais, no modo oral ou escrito - Registo cuidado: correção linguística, vocabulário rico, assertivo e diversificado, formas de tratamento formais Ex.: o senhor, Senhor Doutor
Registo informal
- Utilizado em situações informais, no modo oral ou escrito - Menor preocupação com a linguagem: construções frásicas e vocabulário simples, formas de tratamento informais Ex.: tu, vocês
Ato diretivo O locutor pretende que o ouvinte atue conforme a sua vontade. Ex.: ordem, convite, pedido Ato assertivo O locutor responsabiliza-se pela veracidade do que diz. Ex.: asserção, constatação Ato expressivo O locutor expressa o seu estado de espírito. Ex.: agradecimento, pedido de desculpas Ato compromissivo O locutor responsabiliza-se por uma ação futura. Ex.: promessa, ameaça Ato declarativo O locutor, numa determinada posição social, cria uma nova realidade. Ex.: batismo, casamento, nomeação
9.4. Dêixis
Deíticos Marcas linguísticas
Deíticos pessoais
Remetem para o enunciador e o destinatário ( EU-TU )
- Formas de 1.ª e 2.ª pessoa (determinantes, pronomes, flexão verbal) - Vocativo - Formas de tratamento
Deíticos espaciais
Remetem para o espaço em que se fala ( AQUI )
- Determinantes e pronomes demonstrativos - Advérbios e expressões que se referem ao lugar em que se fala Ex.: aqui, ali, acolá, cá, além, neste/nesse/naquele lugar - Algum léxico: Ex.: ir, vir, chegar, sair
Deíticos temporais
Remetem para o tempo em que se fala ( AGORA )
- Advérbios e expressões que se referem ao tempo em que se fala Ex.: agora, ontem, hoje, amanhã, já, neste momento - Alguns tempos verbais: presente, pretérito, futuro
Nota A palavra “dêixis” significa ação de mostrar/apontar.
Nota Os atos de fala relacionam-se com a intenção comunicativa de quem fala. Podem ser:
- diretos: a intencionalidade comunicativa é explícita; - indiretos: a intencionalidade comunicativa está implícita no que se diz.
Atividade
9. Texto e interação discursiva
GESTP11 © Porto Editora