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Atividades de mergulho em offshore
Tipologia: Notas de estudo
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Centro Tecnológico e Científico - UFF CEP 24210-240 - Niterói, RJ - Brasil [email protected]
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Aramiihs-IRIT UPS-CNRS UMR 5505, 118, Rte de Narbonne, 31062 Toulouse Cedex, France [email protected]
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In this article, we research the work of deep dive in the region of Campos, an activity actually essential to make possible oil production and exploration offshore. Our objective is to emphasize the importance of the aspects related with the collective dimension of work (specially
cooperation/comunication). Also, the relation between these aspects and safety, in place of complex systems.
Neste artigo, analisamos o trabalho de mergulho profundo na Bacia de Campos, uma atividade que tornou-se imprescindível para viabilizar a produção e exploração petrolífera offshore. Nosso objetivo é ressaltar a importância de aspectos relacionados à dimensão coletiva do trabalho (em especial, a cooperação/comunicação), e sua relação com a segurança no âmbito dos sistemas complexos.
I- INTRODUÇÃO
Continua sendo inquestionável o papel crucial desempenhado pelo petróleo como principal fonte de energia da sociedade moderna. Estima-se que o peso relativo do petróleo no consumo de energia mundial seja superior a 60% (PINGUELLI ROSA e TOLMASQUIM, 1996). Não obstante o desenvolvimento de fontes alternativas, sabe-se que nas próximas décadas o petróleo tende a predominar para fins de geração de energia, sendo ainda mais remota a substituição de alguns dos seus produtos derivados tais como fibras sintéticas, plásticos, borrachas, fertilizantes etc. Em função desta enorme importância, e por ser um recurso natural geograficamente mal distribuído, tornou-se um elemento de disputa não apenas econômica, mas também política. Isto se reflete nas inúmeras discussões no campo da economia política acerca do “poder de mercado” das grandes companhias de petróleo e da “natureza estratégica” deste recurso natural, que de tão valioso acabou ficando conhecido como o “ouro negro”, deixando em seu rastro, ao longo deste século “uma história de dinheiro, ganância e poder” nas palavras de YERGIN (1993).
No Brasil, a Petrobrás iniciou em 1977 as operações de produção de petróleo na Bacia de Campos, região situada no Norte do Estado do Rio de Janeiro, e onde, até então, predominavam as atividades pesqueiras e agropecuárias. Vinte anos depois esta região é detentora de 70% da produção nacional de petróleo e 40% da produção de gás. Segundo dados da própria empresa 1 foram 21 bilhões de dólares investidos, já tendo sido ultrapassada a marca dos 1150 poços perfurados. Em julho de 97 foram produzidos, em média, 626500 barris diários de óleo e 10,5 milhões de metros cúbicos de gás, ultrapassando os patamares de países pertencentes à OPEP (Organização dos Países Exportadores
portos, construção de cais, barragens, pontes, etc, e, sobretudo, a partir das obras da Ponte Rio- Niterói^3 , quando são realizados os primeiros mergulhos profundos no país.
Outrossim, deve-se assinalar que o chamado mergulho comercial subdivide-se em dois grupos: o mergulho raso e o mergulho profundo. O mergulho raso é todo aquele que se realiza até a faixa dos 50 metros de profundidade, normalmente utilizando-se o ar comprimido como mistura respiratória, fornecida através de equipamento autônomo (o tradicional aqualung) ou dependente, quando interligado à superfície. Quando as atividades realizadas ultrapassam a barreira dos 50 metros, diz-se, então, que o mergulho é do tipo profundo , caso em que as operações necessitam não apenas da utilização de misturas especiais como o heliox (hélio e oxigênio), mas de todo um suporte/monitorização dado pela superfície. Até a profundidade de 130 metros pode-se lançar mão do chamado mergulho de intervenção, mais conhecido como ‘bounce dive’^4 , há vários anos utilizado de forma bastante restrita na Bacia de Campos. A partir deste limite até a profundidade máxima de 320 metros a alternativa são os mergulhos de saturação.
Atualmente, na Bacia de Campos, este tipo de atividade fica a cargo de duas empresas subcontratadas (terceirizadas). O suporte às operações de mergulho é dado através das modernas embarcações da classe DSV (Diving Support Vessel), segundo as demandas e prioridades estabelecidas pela Petrobrás. Tomaremos como referência o DSV SO da empresa S, que dava suporte à operação quando ocorreu o último acidente fatal na atividade de mergulho profundo nesta região.
Esta empresa de origem francesa iniciou suas atividades na Bacia de Campos em 1972, ainda no período de sua implantação. Após sua fusão com uma grande empresa de origem britânica, passou a fazer parte de uma holding que presta serviços diversos para a indústria do petróleo offshore em regiões espalhadas pelo globo: Golfo do México, Bacia de Campos, Terra do Fogo, Mar do Norte, Costa Ocidental da África, Golfo Pérsico, Sudeste da Ásia e Oceania. Possui sedes em Aberdeen (a matriz, na Escócia), Stavanger (Noruega), Marseille (França), Houston (EUA), Perth (Austrália), e no Rio de Janeiro (Brasil).
Os investimentos realizados pelo grupo entre 95 e 97 foram da ordem de US$ 250 milhões, e hoje possui ROV’s^5 de última geração e sua frota é composta de 10 navios, dos quais 6 pertencem à classe DSV. Destes seis, dois encontram-se operando na Bacia de Campos, os DSV’s SH e SO. O valor do contrato de aluguel diário deste último está em cerca de US$ 65 mil.
A técnica de saturação foi desenvolvida para atender fundamentalmente à dupla necessidade de se executar tarefas que demandavam jornadas de permanência no fundo mais longas e a profundidades cada vez maiores. Lembramos que com a técnica do “bounce dive”, o tempo máximo de fundo era de uma hora para uma profundidade limite de 130 metros.
Hoje, com os sistemas de mergulho dos DSV’s mais modernos - conjunto de câmaras de saturação que comporta 16 mergulhadores saturados, 2 sinos de mergulho, ROV’s/RCV’s^6 etc - é viável, em determinadas circunstâncias e mediante um esquema de revezamento, dispor de mergulhadores em atividade no fundo durante 24 horas por dia a grandes profundidades, durante vários dias.
Nestes DSV’s o sistema de saturação é constituído basicamente por câmaras pressurizadas (câmaras de saturação) que estão interligadas entre si, ou seja, são grandes vasos de pressão intercomunicantes, que permitem, quando necessário, a transferência dos mergulhadores de uma câmara para outra. É nestas câmaras, supervisionadas pelo controle de saturação, que os mergulhadores permanecem, quando não encontram-se na água, durante todo o período em que estiverem saturados, normalmente 28 dias. Salvo situações excepcionais, este é o limite máximo permitido para o ciclo completo de uma saturação, o intervalo de tempo compreendido entre o início da compressão e o final da descompressão.
Em geral são saturados 6 mergulhadores por equipe, num processo que se estende, aproximadamente, por 12 horas até o seu término 7. A pressão das câmaras é então regulada de modo a tornar-se compatível com a respectiva pressão de trabalho do fundo, onde os mergulhadores executarão as tarefas requisitadas com base numa programação previamente estabelecida.
Em primeiro lugar, vejamos em relação ao DSV SO os setores (e seus respectivos níveis hierárquicos) envolvidos mais diretamente numa intervenção submarina. Os cargos à nível de superintendência são aqueles cujos profissionais não se enquadram no esquema de revezamento, e não têm horário fixo, em geral cumprindo a maior parte de suas jornadas no período diurno. O superintendente de operações (“barge”) e o comandante do navio também ficam à disposição, mas
Definido o local da intervenção pelo representante do cliente daquele horário (fiscal da Petrobrás que fica a bordo do navio, um de 0 às 12 e o outro de 12 às 24), este transmite a informação ao superintendente de operações (ou ao supervisor técnico), que irá então solicitar ao comandante para que rume com o navio até o referido local. Toda a parte concernente à navegação fica sob a responsabilidade do comandante.
A programação a ser cumprida vai sendo, então, comunicada ao superintendente de operações ou ao supervisor técnico pelo fiscal. Os dois primeiros funcionam como elo de ligação entre este último e
Fiscal (Petrobrás)
Superintendente de Operações (Barge ) Comandante
Superintendente de Mergulho
Superintendente de ROV/RCV
Supervisor de Mergulho
Supervisor de ROV/RCV
Supervisor de Saturação
Mergulhdores Saturados
Mergulhadores de Apoio
Técnicos de Saturação
Pilotos de ROV/RCV
Supervisor Técnico Imediato
os superintendentes de mergulho e ROV/RCV, que passam aos respectivos supervisores a programação prevista. Logo, formalmente, a transmissão da programação dos serviços a serem executados segue o percurso hierárquico fiscal - “barge” (ou supervisor técnico) - superintendente de mergulho - supervisor de mergulho. Os parâmetros concernentes à saturação são obtidos junto ao supervisor deste setor pelo superintendente de mergulho, ou mesmo pelo supervisor de mergulho do turno. Quando se trata de intervenções que requerem um planejamento mais detalhado participam deste o comandante (ou o imediato), o fiscal da Petrobrás, os 3 superintendentes (operações, mergulho e ROV/RCV), e o supervisor de mergulho do turno.
Deve-se ressaltar que apesar do supervisor de mergulho ser subordinado ao superintendente de mergulho, e este, por sua vez, ao superintendente de operações, ele (supervisor) é soberano para interromper ou cancelar qualquer operação de mergulho, sobretudo em condições que possam colocar em risco a segurança do mergulhador. Assim reza a legislação.
É preciso deixar claro, no entanto, que no decurso da atividade tal responsabilidade extrapola sua alçada. Em verdade, seu espaço para tomada de decisões tem se mostrado cada vez mais restrito ao âmbito da conduta técnica das operações. Ou seja, se na execução de uma determinada tarefa qualquer, surge um empecilho maior, não é o supervisor que define, por exemplo, se o mergulhador deverá interrompê-la temporariamente ou insistir para tentar concluí-la. Ele até pode dar sugestões, mas a decisão final é negociada entre o “barge” e o fiscal, levando-se em conta uma série de fatores tais como o “tempo de água” do mergulhador, sua competência e o tipo de dificuldade para a consecução daquele serviço, os riscos envolvidos, a possibilidade de se executar alguma outra tarefa próxima àquele local etc.
Uma questão extremamente delicada é que dependendo do tipo de anomalia/disfuncionamento, o cliente (fiscal da Petrobrás a bordo) pode multar a contratada aplicando ‘down time’, período em que o serviço corre por conta da própria contratada, ou seja, durante o intervalo de tempo em que o “down time” esteja vigorando o serviço não é pago pela Petrobrás. No caso do DSV SO, por exemplo, como o aluguel diário está em torno de U$S 65000,00, cada hora de ‘down time’ corresponde a um prejuízo de aproximadamente U$S 2700,00^10. Daí a importância da relação entre o fiscal da Petrobrás (o cliente) e o superintendente de operações (barge do navio) da empresa contratada, pois uma relação tensa entre os dois acaba repercutindo sobre todo o coletivo a bordo do navio. Há fiscais, e mesmo gerentes de plataformas, que adotam uma postura mais rígida,
quente, chegam até o mergulhador por intermédio de um conjunto de mangueiras, que se constitui na ligação entre o mergulhador (na água) e o sino, chamado de umbilical (ou narguilê ). O sino, por sua vez, é alimentado pela superfície de modo análogo, isto é, através do umbilical principal que o liga até esta.
Em verdade, durante toda a operação o controle de mergulho exerce um papel de coordenação central, estando em comunicação permanente com o mergulhador na água, com o ‘bell man’ no sino e com o controle de ROV/RCV. Em algumas etapas da operação também mantém contato com a ponte de comando do navio e com os mergulhadores que estão na equipe de apoio (para subida e descida do sino, da cesta de ferramentas etc). Por vezes, ainda fica em comunicação com as plataformas ou outras embarcações, quando da realização de operações em conjunto.
Ao final da operação (que deve se limitar a uma duração máx. de 8h) ou pouco antes de se esgotar seu tempo máximo “de água”^16 , o mergulhador retorna ao sino e este é içado até a superfície. Esta dupla de mergulhadores regressa à câmara de saturação e, na hipótese da intervenção não ter sido concluída, outra dupla pode ser acionada reiniciando-se o processo. Em caso contrário, o DSV navega em direção ao local da próxima intervenção programada.
III - A DIMENSÃO COLETIVA DAS INTERVENÇÕES
Em relação ao grau de cooperação entre supervisor e mergulhador no curso das tarefas executadas por este último quando encontra-se no fundo, o comentário de um dos supervisores do DSV SO é bem ilustrativo no sentido de caracterizar a intensidade com que esta cooperação se manifesta: “eu (supervisor) trabalho junto com o ‘cara’ (mergulhador)”. Isto porque o supervisor acompanha passo a passo a movimentação do mergulhador no fundo através das imagens fornecidas pelo ROV/RCV, como frisamos acima. Ele conjuga as imagens emitidas pelo vídeo com o sistema de fonia, podendo assim orientá-lo na execução dos serviços. Através da fonia o mergulhador também pode ajudar o supervisor a construir uma representação mais precisa da situação, fornecendo detalhes que nem sempre são captados pelos veículos (ROV’s/RCV’s). Sobretudo quando a visibilidade está comprometida por partículas em suspensão ou pelos minúsculos camarões que se concentram em frente à câmera do veículo.
No entanto, ao considerarmos o trabalho de monitorização desempenhado pelo controle de ROV/RCV, e a atividade do ‘bell man’ no sino, “pagando” 17 e recolhendo o umbilical do mergulhador de acordo com a orientação que lhe vai sendo dada também pelo supervisor na superfície, constatamos que a cooperação se dá efetivamente em nível mais ampliado, envolvendo além do mergulhador e do supervisor de mergulho, o piloto/supervisor de ROV/RCV e o ‘bell man’ no sino. Isto sem falar nas operações em conjunto, em que a sala de controle da plataforma, junto a qual se desenrolam os serviços, também acompanha a intervenção 18. Ou então quando os mergulhadores que estão no apoio de superfície “passam um telegrama ou telefone” para o mergulhador no fundo, isto é, enviam alguma ferramenta ou peça, cuja utilização não foi prevista quando do lançamento da cesta de ferramentas no início da operação.
Por vezes, o supervisor de mergulho chega a ficar com quatro fonias abertas, e como um deles chegou a frisar, “com todo mundo querendo falar ao mesmo tempo”. Nestas circunstâncias desvela- se a “perícia cognitiva” (PAVARD e DECORTIS, 1994) mobilizada pelo supervisor no curso da atividade para gerir as informações que se apresentam simultaneamente. Entende-se, então, o que um dos engenheiros do DSV SO quis dizer ao afirmar que há ocasiões onde se faz necessário um investimento cognitivo que desborda da concentração: “tem que ser imersão”. Outrossim o “barge” do mesmo navio ressaltou a criticidade do aspecto comunicacional: “a comunicação é a coisa mais difícil no mergulho”. Entende-se, também, a razão do largo período de gestação necessário para a constituição das competências cooperativas neste tipo de atividade. Como veremos elas se caracterizam, em larga medida, pela mobilização de regras implícitas que podem não corresponder, e mesmo superar amplamente os aspectos prescritos do trabalho (LEPLAT, 1992; PAVARD et alii, 1994).
Além de todo este trabalho de comunicação/cooperação, fica a cargo do controle de mergulho a operação e monitorização de controles e ‘displays’ (dispositivos de informação) variados existentes na mesa e nos painéis que integram a estação de trabalho do supervisor. No tocante à movimentação do sino, por exemplo, todas as manobras - do seu desacoplamento, quando deixa a superfície , até seu retorno - podem ser executadas por controles hidráulicos localizados nesta mesa. No caso do DSV SO, há uma cabine à parte, também comandada pelo supervisor, que normalmente fica encarregada de operar a movimentação do sino, constituindo-se em um canal adicional de comunicação.
“(...) Por se tratar de um ROV, toda vez que você se aproxima o ROV produz um ruído, o aparelho produz um ruído, ele não é silencioso, se você se aproximar do mergulhador eu escuto o mergulhador ainda, mas o mergulhador tem problema para me ouvir por causa do ruído provocado pelo ROV (...) O que acontece é que o supervisor de mergulho ele tem que falar o estritamente necessário para o mergulhador, todo supervisor de mergulho é orientado para isso, porque no fundo você tem ruído, ruído do equipamento, ruído do veículo, e a própria situação, a água, o equipamento... e tudo isso dificulta o mergulhador escutar, não dificulta o supervisor escutar, mas dificulta o mergulhador escutar... Ás vezes o mergulhador tem que parar o que está fazendo para escutar o que o supervisor está dizendo” (PETROBRÁS, 1997).
Por isso, um dos supervisores do DSV SH, afirmou que não é comum colocar o ‘bell man’ em comunicação com a linha supervisor - mergulhador. O sistema de comunicação deste DSV permite esta conexão, no entanto o ‘bell man’ pode se constituir em mais um elemento de interferência: “tem uns caras que vão se meter em tudo, e acaba atrapalhando o serviço. O ‘bell man’ vai ouvir a comunicação entre o fundo e a superfície e vai acabar interferindo”.
Cabe ressaltar que no controle de mergulho o supervisor pode abrir a escuta, compartilhando-a com outras pessoas presentes no controle. Assim, a escuta deixa de restritngir-se ao ‘headphone’ do supervisor (comunicação mono-endereçada ), e passa também a ser captada por um pequeno auto- falante dentro da sala de controle, caracterizando um tipo de comunicação pluri-endereçada , permitindo aos demais presentes o acesso à comunicação, e na medida em que as informações recebidas do fundo, visual e verbalmente, podem ser compartilhadas entre supervisor, superintendente, “barge” e fiscal, pode-se dizer que existe conhecimento mútuo da situação em curso. Estas informações podem ser discutidas, abrindo-se um espaço potencial para que se engendre coletivamente um referencial comum – a representação mental compartilhada pelos operadores, que orienta e controla sua atividade coletiva. No entanto, há situações onde o mergulhador encontra dificuldades para fazer com que as informações sejam apreendidas pela superfície. Por vezes, o nó comunicacional deve-se ao fato do mergulhador não conseguir explicitar aspectos pertinentes a uma dada situação que permitam ao supervisor construir uma representação mais precisa acerca desta. Isto é, o supervisor pode até estar ouvindo bem o mergulhador, porém este não consegue lhe fornecer os subsídios necessários para que a superfície, e em particular o supervisor, possa “montar o cenário” da situação e compreender de forma mais detalhada o que está se passando no fundo:
“ P. Tem um pessoal que tem uma dificuldade mesmo...? R. Tem. De ‘bolar’, até de falar às vezes. Porque muito importante, também, no mergulho é a comunicação. A comunicação (enfatiza). .. Então o cara tem que saber transmitir exatamente a situação como é que está... Porque aí ele prevê. Aí sai com duas ou três possibilidades, e te passa, mas tem que te passar claramente. Tem que falar fluentemente. P. Às vezes o cara é enrolado pra falar?
R. Aí o cara não consegue te explicar o que está acontecendo, como que está a obra, a situação. Você não está conseguindo ver direito, né. Então é muito a coisa do cara falando: ‘oh, você não está vendo daí, mas se eu botar esse ‘tifor’^20 aqui... Você não está vendo (ele falando com o supervisor), mas se eu botar esse ‘tifor’ aqui, eu vou puxar de um jeito, com um ângulo, que vai bater na peça ali. Então eu daqui estou vendo a situação legal. Não é legal botar aqui não. Mas, se a gente colocar lá atrás (ele pode até não tomar a decisão, mas ele monta o cenário para você fazer)... Mas se eu botar lá atrás pode acontecer isso. Eu posso colocar no meio, mas aí vai ser isso, o que é que a gente faz’. Então ele monta o cenário pra você tomar a tua decisão, entendeu. Então, comunicação, né. É muito importante....”
No caso do DSV SO, onde pudemos observar o transcorrer das operações, o sistema também permite que o ‘bell man’ possa acompanhar toda a comunicação entre supervisor e mergulhador no curso da operação, porém, de modo análogo ao DSV SH, este não é o procedimento normal. A nosso ver este é um dos pontos críticos do sistema, na medida em que o bell-man não tem quase nenhuma informação direta do desenrolar da operação na água. Tanto em relação ao nível verbal – fica impossibilitado de falar com o mergulhador, e de escutá-lo diretamente – como no que tange ao nível visual – não recebe nenhum tipo de imagem no interior do sino. Em verdade, excetuando-se os estímulos sonoros perceptíveis e as eventuais ondas de choque na estrutura do sino, provenientes do meio exterior, o ‘bell man’ permanece completamente “no escuro” (sem receber informações diretas da operação), ficando totalmente sob a dependência do supervisor, intermediário da comunicação entre ele (‘bell man’) e o mergulhador.
IV- CONCLUSÃO
Esta configuração rígida, além de sobrecarregar cognitivamente o supervisor, pode se mostrar ineficaz, sobretudo em situações envolvendo rápidas tomadas de decisão, que, não raro, engendram a necessidade de um fluxo de informações mais ágil/flexível entre os membros deste coletivo.
Ora, mas se assumimos que é através da cooperação e do coletivo de trabalho que se dá a regulação/ajustamento de tais processos, indagamo-nos em que medida tal configuração não estaria reproduzindo a lógica segundo a qual em alguns dos sistemas ditos complexos estaria havendo uma substancial e perigosa defasagem entre sofisticação tecnológica e gestão das situações incidentais, comprometendo a sua confiabilidade global. O acidente fatal citado no início deste artigo, e que vem sendo objeto de nossa análise, tem se mostrado um terreno fértil para discutir tais questões.
10- Durante a semana em que Figueiredo esteve a bordo do DSV SO, a empresa S foi penalizada com um ‘down time’ de 48 minutos, pois uma das operações de mergulho teve que ser ‘abortada’ em função de uma avaria no umbilical principal. 11- Equipamento constituído basicamente por um conjunto de registros e válvulas, cuja finalidade é controlar o fluxo de fluídos oriundos dos reservatórios submersos. 12- Existe uma “pastilha” embutida no capacete que funciona como um microfone; em relação às válvulas, podemos citar o dispositivo de acionamento do ‘B.O.S.’, a válvula que dispara o ‘free flow’ para ventilar o interior do capacete, a válvula anti -‘squeeze’ para evitar uma subpressão no interior do capacete, provocada pelo funcionamento ininterrupto do sistema de recuperação etc; a lanterna fica acoplada na parte superior do capacete, e o seu acionamento é comandado pela superfície. É mais conhecida entre os mergulhadores como “farol da bicicleta”. 13- O ‘B.O.S.’ é um equipamento transportado pelo mergulhador em suas costas como se fosse um ‘aqualung’. Ele é acionado quando ocorre alguma pane no sistema de suprimento de gás enviado pelo umbilical, permitindo ao mergulhador que se encontra na água retornar ao sino respirando normalmente. O modelo ‘B.O.S.II’, usado atualmente, foi especialmente desenvolvido para ser usado com o capacete ‘hydralite 3’, com o qual se conecta através de duas mangueiras. 14- Segundo um dos gerentes, o ‘know how’ acumulado na confecção de roupas especiais, acabou credenciando a empresa S para desenvolver protótipos de roupas utilizadas por astronautas. 15- Levando-se em conta as tarefas a serem executadas durante a operação o supervisor orienta a equipe de apoio na superfície para que coloque as ferramentas necessárias numa cesta cuja função é transportá-las até o fundo. 16- Para mergulhos entre 211 e 300m, o tempo máximo “de água” do mergulhador (intervalo de tempo decorrido entre a saída e o retorno ao sino) não pode exceder 5h. Entre 301 e 350m, este tempo é de 3h. 17- Aqui o termo “pagando”, assume a conotação de liberando. “Pagar” o cabo de um guincho, por exemplo, significa liberá-lo. 18- Isto é viabilizado por um sistema de ‘videolink’, que transmite à plataforma as imagens captadas pelo controle de ROV/RCV. 19- Tentaremos verificar junto à empresa S, a existência de dados que nos possibilitem identificar a abrangência destas afecções auditivas 20- O nome correto, segundo o entrevistado, é ‘tirfor’, uma ferramenta que permite multiplicar a força aplicada em manobras que envolvem puxadas de aproximação.