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A proteção das florestas contra o fogo começa com a prevenção. A melhor maneira de combater um incêndio é evitar que ele ocorra.
Tipologia: Notas de estudo
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Tutores: Prof°. Ronaldo Viana Soares (UFPR) Prof°. Antonio Carlos Batista (UFPR)
Associação Brasileira de Educação Agrícola Superior - ABEAS Universidade Federal de Viçosa - UFV Centro de Ciências Agrárias Departamento de Fitopatologia
Brasília - DF 2003
Indique com F ou V, se as afirmativas são falsas ou verdadeiras:
Introdução
1. Prevenção das fontes de fogo 1.1. Aplicação da legislação sobre incêndios e queimadas 1.2. Regulamentação do uso 1.3. Conscientização da população
constantemente. Costuma-se dizer que a prevenção é o trabalho mais importante do serviço de controle de incêndios. A prevenção de incêndios florestais envolve dois níveis de atividades. Primeiro, a prevenção dos incêndios causados pelo homem, procurando através da educação da população, legislação específica e medidas coercitivas, evitar que o fogo ocorra. Segundo, usando técnicas para controlar principalmente o material combustível, impedir ou dificultar a propagação daqueles incêndios que não foi possível evitar.
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Cada incêndio causado pelo homem em uma área florestal protegida deve ser considerado como evidência de que alguma coisa saiu errada. Geralmente, o incêndio é o resultado de uma combinação crítica de circunstâncias que poderiam ser evitadas ou impedidas de acontecer. Estas circunstâncias podem ser codificadas, a fim de permitir um diagnóstico lógico e uma prescrição eficiente para cada caso. Por exemplo: Um incêndio de fumante = um fumante + cigarro + fósforo + descuido Se qualquer um dos quatro elementos do incêndio causado pelo fumante for eliminado, não haverá fogo. Deste modo, existe, quatro maneiras de se prevenir um incêndio deste tipo: i) Banir o fumante de áreas sujeitas a ocorrência de incêndios (fechamento completo da área), induzi-lo a não fumar em determinadas áreas (proibição de fumar) ou proibi-lo de jogar material aceso em locais com combustível perigoso (não fumar enquanto estiver se deslocando pela área); ii) Limitar o uso de cigarro em determinadas áreas que não oferecem risco, sem proibir totalmente o ato de fumar; iii) Aumentar a segurança do agente de ignição, proibir por exemplo o uso do fósforo e permitindo apenas isqueiros, iv) finalmente, educar ou motivar o fumante para ser cuidadoso e tomar as precauções necessárias a fim de evitar o incêndio. Certamente, dessas quatro alternativas, a primeira é a mais direta e positiva para um certo período de tempo e determinada área, mas não há condições de estendê-la a grandes áreas, além de ser uma medida de caráter temporário. A quarta alternativa, educação do fumante, leva muito mais tempo para ser efetivada mas apresenta um caráter mais permanente em termos de prevenção. Este tipo de análise pode ser aplicada a todos os incêndios onde as combinações críticas que causam o fogo são conhecidas. Um incêndio causado por incendiário, por exemplo, é a soma de uma pessoa, um motivo para queimar e material para provocar a ignição. Neste caso, as principais alternativas seriam, retirar a pessoa da área ou eliminar o seu motivo para queimar. A prevenção de incêndio de causa humana, que pode ser alcançada através da educação da população, da regulamentação do uso da floresta e da aplicação da legislação pertinente, ainda apresenta um grande potencial para aperfeiçoamento.
Voltar ao sumário 1.1. Aplicação da legislação sobre incêndios e queimadas
Existe sempre uma minoria de pessoas negligentes, descuidadas e refratárias a qualquer legislação, que agem sempre em seus interesses pessoais. Para estas pessoas, a aplicação rigorosa da legislação é a medida mais eficiente na prevenção dos incêndios. O cumprimento rigoroso do Código Florestal Brasileiro, que tem quatro artigos que tratam diretamente do problema do fogo em florestas, seria uma medida extremamente útil na prevenção de incêndios no país. O Artigo 11°, do referido Código, diz que “o emprego de produtos florestais ou hulha como combustível obriga o uso de dispositivos que impeçam a difusão de fagulhas suscetíveis de provocar incêndios nas florestas e demais formas de vegetação”. O Artigo 25° estabelece que “em caso de incêndio rural, que não se possa extinguir com os recursos ordinários, compete não só ao funcionário florestal, como a qualquer outra autoridade pública, requisitar os meios materiais e convocar os homens em condições de prestar auxílio”. O Artigo 26° diz, entre outras coisas, que “fazer fogo, por qualquer modo, em florestas e demais formas de vegetação, sem tomar as precauções adequadas; fabricar vender, transportar ou soltar balões que possam provocar incêndios nas florestas e demais formas de vegetação; e empregar, como combustível, produtos florestais ou hulha sem uso de dispositivos que impeçam a difusão de fagulhas suscetíveis de provocar incêndios florestais, constituem contravenções penais, puníveis com três meses a um ano, de prisão simples ou multa de um a cem salários mínimos, ou ambas as penas cumulativamente.” Finalmente, o Artigo 27° diz que “é proibido o uso de fogo nas florestas e demais formas de vegetação”. Entretanto, como o fogo é um instrumento essencial em práticas agrícolas e florestais, o parágrafo único deste Artigo faz a seguinte ressalva: “se peculiaridades locais e regionais justificam o emprego do fogo em práticas agro-florestais e florestais, a permissão será estabelecida em ato de poder público, circunscrevendo as áreas e estabelecendo normas de precaução”. Se apenas esse Artigo fosse rigorosamente observado, os incêndios florestais no Brasil seriam rigorosamente reduzidos. O decreto n o
2661, de 8 de julho de 1998 regulamentou o parágrafo único do Artigo 27, estabelecendo as normas de precaução relativas ao emprego do fogo em práticas agropastoris e florestais, dando ainda outras providências com relação ao uso do fogo. A Portaria n o^ 94 – N, de 9 de julho de 1998 regulamentou a sistemática de queima controlada, estabelecendo os critérios necessários para aplicação de queimas controladas. A lei de crimes ambientais ( Lei n o^ 9605, de 12 de fevereiro de 1998) estabelece penas mais severas para danos provocados por incêndios florestais. O Artigo 41 dessa lei estabelece a seguinte pena para quem provocar incêndios em mata ou floresta: reclusão, de dois a quatro anos e multa. No parágrafo único estabelece que se o crime for culposo, a pena é de detenção de seis meses a um ano, e multa. O Artigo 42 da lei n o^ 9605 estabelece
pena de detenção, de um a três anos, ou multa, ou ambas as penas cumulativamente para quem fabricar, vender, transportar ou soltar balões que possam provocar incêndios nas florestas e demais formas de vegetação, em áreas urbanas ou qualquer tipo de assentamento humano. Em virtude do aumento desenfreado do problema dos incêndios e queimadas nas áreas de expansão agrícola do país, particularmente na região da Amazônia conhecida como “Arco do Desflorestamento”, o governo federal estabeleceu o decreto n o^ 2662, de 8
de julho de 1998, dispondo sobre medidas a serem implementadas na Amazônia Legal, para monitoramento, prevenção, educação ambiental e combate a incêndios florestais. Pelo que foi exposto brevemente pode se constatar que existe uma legislação forte e bem atualizada sobre a questão dos incêndios e queimadas. No entanto, é necessário um
exploração florestal é suspensa toda vez que a umidade relativa do ar, nas áreas florestais, cai para menos de 30%.
1.3. Conscientização da população
As pessoas se constituem no primeiro problema da prevenção de incêndios. Se todos que usam ou transitam em áreas florestais tivessem plena consciência do potencial de destruição dos incêndios, fossem bem informados de como evitar que eles ocorram e suficientemente motivados para procederem corretamente, apenas um número reduzido de incêndios ocorreria anualmente. Por este motivo, a educação da população deve ser a primeira iniciativa na prevenção de incêndios. Seu objetivo principal é formar uma conscientização na população, com relação à importância das florestas e os danos que a elas pode causar os incêndios florestais. O grande obstáculo para se alcançar essas metas é a dificuldade de se atingir todas as classes de pessoas responsáveis por ocorrências de incêndios através de uma comunicação simples e objetiva, mostrando como e porque evitar o fogo nas florestas. Os principais meios de comunicação visando a educação da população são livros, revistas, folhetos, rádio, televisão, filmes, painéis, palestras e contatos pessoais. Todos esses meios são eficientes quando usados hábil e adequadamente, considerando a época oportuna, o local adequado e a pessoa correta. Mas todos, ou quase todos eles, são necessários, pois nenhum meio, isoladamente, poderá alcançar todas as classes de pessoas e também porque a reação dos indivíduos varia bastante em relação a apelos públicos, instruções e restrições. Campanhas educativas voltadas para as crianças e jovens na escola são extraordinariamente importantes porque quando estas pessoas atingirem a idade adulta influirão em muitos fatores que ocasionam incêndios. O ensino nas escolas deverá, no entanto, variar de acordo com a região e os problemas que os incêndios representam em cada local. É importante aproveitar as datas em que ocorrem comemorações, tais como: exposições agropecuárias, semana da árvore, semana do meio ambiente e outras, para implementar as campanhas educativas de prevenção de incêndios, com divulgação de mensagens, palestras, filmes, distribuição de material informativo escrito ( folhetos, cartilhas, etc.) e brindes para os participantes. Ryan, Gladen e Folkman (1978) relatam um experimento conduzido na Califórnia, EUA, visando conscientizar crianças de escola de primeiro grau para o problema de incêndios florestais. Equipes de quatro a oito pessoas conduziram o programa visitando as salas de aula e apresentando sessões divididas em três partes, cada uma com cerca de dez minutos de duração: trabalhos em grupos, apresentação de dispositivos e visita do urso smokey. As crianças foram submetidas a testes antes e depois de participarem do programa e suas respostas comparadas com as de crianças não-submetidas ao programa. As crianças submetidas ao programa obtiveram muito melhor performance nos testes sobre princípios de prevenção de incêndios do que as que não participaram do programa. Bernardi (1973) testou a eficiência de três anúncios de 60 segundos sobre a prevenção de incêndios em emissoras de televisão nos Estados da Califórnia e Oregon, EUA. Os filmes diferiam apenas de narrador: o urso Smokey em um, rapaz jovem em outro e um guarda florestal no terceiro. A pesquisa demonstrou que o filme narrado pelo rapaz foi
mais eficiente na conscientização da população amostrada, com relação à prevenção de incêndios. O autor conclui ainda que os filmes foram mais eficientes quando mostrados em salas de aula do que quando exibidos para o público de televisão em geral. Os painéis colocados nas margens de estradas são também muito úteis na educação da população. Folkman (1973) demonstrou, através de pesquisas realizadas na Califórnia, EUA, que as mensagens dos painéis mantém sua eficiência por pelo menos seis anos. Cinco diferentes mensagens foram colocadas ao longo de estradas florestais da região e, seis anos depois, as mensagens foram aumentadas para dez, os painéis redesenhados e apresentados com novas cores. Cerca de 97% dos motoristas entrevistados se lembraram dos novos painéis e cerca de 70% disseram se lembrar também dos antigos. De todos os métodos de educação da população, o contato pessoal e individual parece ser o mais eficiente. A principal vantagem do contato pessoal é permitir um nível de troca de idéias que não é possível através de outros meios de comunicação. Este é um método altamente seletivo e que pode, eficientemente, preencher os espaços ou falhas deixados pelos outros métodos.
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A redução do risco de propagação dos incêndios que não puderam ser evitados é outra importante parte da prevenção de incêndios florestais. Mesmo os mais eficientes programas de prevenção não conseguem evitar totalmente o início de incêndios em áreas florestais. Por este motivo, é essencial estabelecer sistemas que evitem ou dificultem a propagação de incêndios, principalmente através do controle de quantidade, arranjo, continuidade e inflamabilidade, ou potencial de queima, do material combustível. A redução do risco de propagação dos incêndios em áreas florestais pode ser conseguida através da implantação das seguintes técnicas preventivas:
Voltar ao sumário 2.1. Construção e manutenção de aceiros
Os aceiros podem ser barreiras naturais ( tais como: estradas ou cursos d’água) ou especialmente construídas para impedir a propagação dos incêndios e para fornecer uma linha de controle estabelecida no caso de ocorrer um incêndio (Gaylor, 1974). Constituem- se basicamente de faixas livres de vegetação, onde o solo mineral é exposto, distribuídas através da área florestal, de acordo com as necessidades de proteção. A largura dos aceiros depende do tipo de material combustível, da localização em relação à configuração do terreno e das condições meteorológicas esperadas na época de ocorrências de incêndios. No entanto, não deve ser inferior a 5 m e, em locais de extremo perigo, pode chegar a 50 m. Em área florestal, onde deve existir uma rede de aceiros, a largura de cada um deles varia de acordo com sua importância estratégica. Neste caso, existem aceiros principais, mais largos, e secundários, mais estreitos. Os aceiros, por si só, não são capazes de deter os incêndios, ou pelo menos a maioria deles, principalmente quando o fogo começa mais distante e chega até eles com
Para se elaborar um plano de prevenção de incêndios são necessárias algumas informações e estatísticas sobre ocorrências anteriores de fogo e aspectos gerais de área, no sentido de se estabelecer com mais eficiência os métodos e objetivos da prevenção. Estas informações são, basicamente, as seguintes:
Voltar ao sumário 3.1. Regiões de ocorrência
Os incêndios não se distribuem uniformemente através das áreas florestais. Existem locais onde a ocorrência de incêndios é mais freqüente, como por exemplo próximo a vilas e acampamentos, margens de rodovias, margens de estradas de ferro, proximidades de áreas agrícolas e margens de rios e lagos (Figura 1). Por outro lado, existem locais dentro de uma região florestal onde nunca, ou raramente, ocorrem incêndios. A elaboração de um mapa de risco, através da marcação dos pontos onde ocorreram os incêndios, possibilita a visualização das áreas de maior incidência de incêndios e ajuda na designação de medidas preventivas especiais para as áreas de maior risco.
Figura 1 - Mapa das zonas de maior risco de ocorrência de incêndios em uma área florestal.
Voltar ao sumário 3.2. Causas dos incêndios
Para se fazer um trabalho objetivo de prevenção de incêndios em uma área é necessário conhecer as principais causas ou grupos de causas desses incêndios. O agrupamento usado no Brasil engloba oito grupos de causas, a saber: raios, queimas para limpezas, operações florestais, fogos campestres, fumantes, incendiários, estradas de ferro e diversos. As causas de incêndios variam de região para região, principalmente em países de grande extensão territorial. Para se ter estatísticas confiáveis é necessário investigar com afinco as causas dos incêndios e manter um arquivo ordenado dos dados ao longo dos anos. Um exemplo de estatística de causas de incêndios em uma determinada região é mostrado na Tabela 2.
Tabela 2 - Classificação das causas dos incêndios florestais ocorridos e registrados no município de Telêmaco Borba, Paraná, de julho de 1965 a maio de 1974. Causas Incêndios Área queimada N o^ % ha %
Queimas para limpeza 28 33,73 2.247,15 53,
Raios 17 20,48 126,91 2,
Fumantes 11 13,25 7,60 0,
Diversos 7 8,43 24,55 0,
Incendiários 6 7,23 10,90 0,
Estradas de ferro 6 7,23 5,70 0,
Operações florestais 5 6,03 375,30 8,
Fogos campestres 3 3,62 1.600,85 34,
Total 83 100,00 4.598,96 100,
Voltar ao sumário 3.3. Períodos de ocorrência
Os incêndios, devido principalmente às condições climáticas, não ocorrem com a mesma freqüência durante todos os meses do ano. A variação do número de ocorrências de incêndios, de região para região, ao longo dos meses, deve-se às diversidades climáticas ou às diferenças nos níveis de atividades agrícolas e florestais. A Tabela 3 mostra um exemplo de distribuição de ocorrências de incêndios nos diferentes meses do ano, em uma região do Estado do Paraná. O período de maior perigo de incêndios em uma região pode também ser obtido através do cálculo dos índices de perigo de incêndio. Estes índices estimam, através de escalas numéricas, o potencial de ignição ou de inflamabilidade da vegetação. No Brasil, os índices de melhor adaptação e de maior uso atualmente são a Fórmula de Monte Alegre e o Índice de Nesterov.
Tabela 3 - Distribuição das ocorrências de incêndios e respectivas áreas queimadas no município de Telêmaco Borba, Paraná, entre junho de 1965 a dezembro de
Mês Incêndios Área queimada No^ % ha %
Janeiro 14 4,1 121,92 1,
Fevereiro 15 4,4 37,35 0,
Março 14 4,1 117,67 1,
Abril 17 4,9 7,15 0,
Maio 17 4,9 11,08 0,
Junho 17 4,9 9,30 0,
Julho 50 14,6 684,84 8,
Agosto 64 18,7 1.014,15 12,
Setembro 66 19,2 1.878,28 23,
Outubro 25 7,3 1.866,21 23,
Novembro 25 7,3 76,32 1,
Dezembro 19 5,6 2.024,60 25,
Total 343 100,0 7.848,87 100,
Voltar ao sumário 3.4. Classes de material combustível
Os tipos de vegetação influem de modo distinto no potencial de propagação dos incêndios. A propagação é geralmente mais rápida e intensa em povoamentos de coníferas do que em folhosas, mais rápida em florestas plantadas do que em florestas naturais e mais rápida ainda em pastagens e campos secos por geadas. A elaboração de mapas, de preferência com o uso de diferentes cores indicando os diversos tipos de vegetação, permite prever em que áreas o fogo oferece maior risco de propagação. Estes mapas são muito úteis na elaboração dos planos de prevenção (Figura 2).
consequentemente, diagnose e tratamentos distintos. A mesma coisa ocorre com o fogo. É um forte e perigoso “remédio”, com várias evidências de que pode ser extremamente daninho. Entretanto, com um correto diagnóstico e hábil aplicação, ele pode ser uma boa alternativa em certas situações. O fogo, principalmente a queima de madeira, tem estado intimamente ligado à espécie humana desde os primórdios da civilização. Os antropólogos consideram a descoberta e o uso do fogo como um dos fatores básicos que permitiram ao homem viver e prosperar nas zonas temperadas. O homem conseguiu, graças ao fogo, antecipar em alguns milhares de anos a ocupação daquelas regiões, evitando adaptações evolucionárias que ele certamente necessitaria, a fim de sobreviver aos frios invernos. O homem descobriu que com o fogo ele poderia modificar o ambiente para satisfazer suas necessidades. A partir daí, o fogo continuou a desempenhar papeis importantes em todas as culturas posteriores. Os antigos filósofos gregos, por exemplo, consideravam o fogo, em conjunto com o ar, a terra e a água como um dos quatros elementos básicos da natureza. O fogo, principalmente sob forma de combustão em ambientes fechados, como nas caldeiras de geração de vapor e nos motores de combustão interna, tem estado ligado a diversos avanços tecnológicos, através de toda história da humanidade. Mas tem também, por outro lado, causado grandes catástrofes. Segundo Ahlgren e Ahlgren (1960), antes da colonização do país, os raios eram provavelmente a principal causa de incêndios nos EUA, embora o costume indígena em colocar fogo em áreas de campo e florestas também tenha sido muito importante. Os índios usavam o fogo para melhorar as condições de visibilidade e caminhamento nas florestas, para conduzir e encurralar a caça, para limpar a terra e obter melhor pastagens e colheitas, para aumentar a produção de frutos silvestres, para comunicação e para eliminar moscas e mosquitos. As condições entretanto, de acordo com Dodge (1972), mudaram drasticamente com a chegada dos colonizadores. Extensas áreas florestais foram cortadas a fim de produzir madeira para construção de novas cidades, para escora de minas e para combustível. A exploração dessas florestas deixou, sobre o solo, grandes quantidades de resíduos, como ponteiro de árvores, galhos e folhagem. A redução da cobertura formada pelas copas das árvores permitiu maior insolação e secagem do material combustível depositado nos pisos das florestas. A remoção de grande número de árvores aumentou a velocidade do vento no interior da floresta, contribuindo também para a secagem do combustível. O resultado dessas condições adversas foi uma série de incêndios devastadores ocorridos ao longo dos anos seguintes. O mesmo problema é relatado por Vines(1975), na Austrália. Segundo o autor, as práticas protecionistas e o aumento da exploração promovidos pelos colonizadores europeus parecem ter alterado o equilíbrio original entre combustível e microclima, criando concentrações anormalmente altas de resíduos em muitas das florestas secas da Austrália. O resultado também foi a ocorrência de grandes incêndios florestais Komarek (1971) acredita que o conceito de que todos os incêndios são daninhos foi desenvolvido em um ambiente especial, as florestas latifoliadas da Europa, e daí extrapolado literalmente para todas as partes do mundo. Com o passar do tempo, porém, alguns pesquisadores começaram a duvidar da validade da política de total exclusão do fogo em qualquer circunstância. Em ecossistemas onde o fogo desempenha papel importante, quanto mais eficiente a política de exclusão do fogo, maior é o potencial de danos pelos incêndios, devido ao aumento da quantidade de material combustível. Além disto, em alguns locais, espécies florestais importantes, que necessitam do fogo ou outro
distúrbio qualquer para se regenerar, começaram a ceder lugar a outras comunidades de menor valor comercial. Em 1849 apareceu, nos EUA, a primeira referência escrita sobre a importância do fogo na sucessão de uma espécie florestal - o Pinus palustris. Segundo Langdon (1971), ainda em 1888, Ellen Long sugeriu que talvez o Pinus palustris necessitasse de fogo para se regenerar - uma idéia absurda para a maioria dos pesquisadores da época. Riebold (1971) relata que Harper, um botânico, propôs, em 1911, o uso do fogo para controle de espécies folhosas do sub-bosque das florestas de coníferas. E finalmente Chapman, um pesquisador florestal, , começou, a partir de 1909, através de vários artigos, a pregação da necessidade do uso de fogo controlado na regeneração e manejo do Pinus palustris e outras espécies do sudeste americano. Entretanto, apenas em 1943 o chefe do Serviço Florestal dos EUA aprovou uma política de queimas controladas em povoamentos de Pinus palustris e Pinus elliottii e autorizou a instalação de pesquisas visando a utilização do fogo também em Pinus taeda. O reconhecimento de que o fogo desempenha importante papel em certos ecossistemas levou também o Serviço de Parques Nacionais dos EUA, a partir de 1960, a adotar uma política com relação ao fogo, que estabelece o seguinte: i) deixar que alguns incêndios naturais queimem livremente, desde que não ofereçam riscos à vida humana ou às propriedades; ii) reconhecer a queima controlada como um instrumento necessário ao manejo florestal; iii) continuar prevenindo e combatendo os incêndios nos vales e próximo a áreas desenvolvidas. Segundo Vines (1975), a total exclusão do fogo nas florestas da Austrália é impossível de se alcançar e indesejável ecologicamente. Por este motivo, foi iniciado um programa de queima controlada no país com finalidade de reduzir o risco de incêndios incontrolados e restaurar as condições ecológicas necessárias para a sobrevivência da floresta e da fauna. Atualmente, existem programas regulares de queimas controladas em áreas florestais em vários países do mundo. Nos EUA, queima-se, sob forma de fogo controlado, cerca de 1.800.000 ha por ano. Na Austrália o fogo controlado é aplicado a aproximadamente 820.000 ha por ano. No Canadá também se usa o fogo controlado em larga escala, sendo inclusive obrigatória a queima de resíduos florestais em áreas de corte raso no distrito florestal de Vancouver. Em Honduras, Nicarágua e Guatemala o fogo tem sido usado e recomendado para favorecer a regeneração das espécies de Pinus existentes naqueles países.
Voltar ao sumário 4.1. Uso do fogo controlado
O fogo controlado pode ser um instrumento útil para se alcançar diversos objetivos no manejo florestal. No entanto, o fogo somente deve ser utilizado após um diagnóstico cuidadoso que indique ser ele mais seguro, barato, eficiente e prático do que outros tratamentos. Os problemas geralmente corrigidos pelo fogo controlado em áreas florestais incluem: grande acumulação de combustível, áreas inadequadas para alimentação da fauna, invasão de espécies indesejáveis e condições inadequadas para a regeneração natural ou artificial. Voltar ao sumário 4.1.1. Redução do material combustível
Sacramento, MG, obteve reduções de 90 e 91%, respectivamente, do material combustível existente. As quantidades de material combustível antes da queima eram 8,5 e 7,9 t/ha, respectivamente. Voltar ao sumário 4.1.2. Preparo do terreno
O fogo é o mais prático e econômico de todos os meios conhecidos para preparar o terreno para plantio, tanto de espécies agrícolas como florestais. A literatura sobre o assunto mostra que a queima controlada tem sido usada, com sucesso, para essa finalidade nos EUA, Canadá, Austrália e vários outros países. A maioria dos técnicos florestais sabe que o plantio é mais fácil em áreas queimadas do que nas não queimadas. Vyse e Muraro (1973) concluíram que a produtividade de plantio foi significativamente aumentada na província de Columbia Britânica, Canadá, através da eficiente queima dos restos vegetais. Eles acrescentam que os ganhos em produtividade diminuem nas áreas com menor quantidade de resíduos ou onde o consumo de material é menor. Segundo Wade (1969), em áreas de corte raso no sudeste dos EUA, a queima controlada custa em média menos de um décimo do total de outros tratamentos no preparo do terreno para plantio. Além disso, prossegue o autor, a queima controlada é talvez uma das poucas alternativas aceitáveis em terrenos montanhosos, onde a erosão é um problema a ser levado em consideração. Na regeneração natural, a queima controlada é também um ótimo meio de preparar a área para receber as sementes, ou mesmo favorecer sua abundante germinação, como ocorre com a bracatinga ( Mimosa scabrella ), importante espécie florestas do sul do Brasil. As chances de uma boa germinação de sementes de algumas coníferas, além do desenvolvimento das plantinhas, são também consideravelmente aumentadas após uma queima controlada, com a consequente exposição do solo. Pesquisas com Pinus taeda no sudeste dos EUA, relatadas por McNab e Ach (1967), mostraram que em áreas não queimadas se necessita o dobro de sementes do que se necessitaria em áreas queimadas para se obter o mesmo número de mudas. Voltar ao sumário 4.1.3. Controle de espécies indesejáveis
A queima controlada pode ser usada para controlar espécies indesejáveis, desde que estas sejam mais sensíveis ao fogo do que aquelas que se quer preservar. Em associações de coníferas e folhosas o fogo irá sempre favorecer as coníferas, por serem elas mais resistentes ao fogo. Em povoamentos de eucaliptos, após as árvores atingirem certo porte, o fogo controlado de baixa intensidade pode ser usado para evitar a competição de espécies indesejáveis do sub-bosque, pois a maioria dos eucaliptos são mais resistentes ao fogo do que outras folhosas. Ao se usar o fogo deve-se sempre observar os períodos ou estágios de desenvolvimento das espécies que se quer preservar para evitar danos também a elas. Mesmo espécies resistentes como Pinus palustris, Pinus elliottii, Pinus caribaea e Pinus taeda , são altamente susceptíveis a danos pelo fogo nos primeiros anos de vida. Voltar ao sumário 4.1.4. Melhoria do habitat para a fauna silvestre
A queima controlada é um importante instrumento para melhorar o habitat para a fauna silvestre, sendo usada extensivamente por florestais e biólogos ligados a esse campo
nos EUA. As queimas são pequenas e não se propagam rapidamente, para evitar mortalidade entre os animais. O habitat é sensivelmente melhorado, especialmente para grandes mamíferos e pássaros, devido à redução do acúmulo de serapilheira e à criação de condições favoráveis à regeneração de espécies que servem de alimento à fauna. Segundo Cooper (1971), no sudeste dos EUA, as plantas herbáceas comestíveis para a fauna, são geralmente dez vezes mais abundantes em áreas queimadas do que nas não queimadas. As leguminosas, um dos mais importantes gêneros na alimentação da fauna, são de modo geral cinco vezes mais abundantes após o fogo do que antes. Em áreas de maciço florestais, especialmente monoculturas que não oferecem alimentação para a fauna, é conveniente criar aberturas para aumentar a quantidade de espécies forrageiras. Esta prática, seguida por uma queima controlada, ainda de acordo com Cooper (1971), aumenta a produção de sementes em cerca de 300% e a abundância de plantas em aproximadamente 100%. Este aumento, acompanhado da facilidade de acesso devido à redução da serapilheira, torna aquelas aberturas particularmente atraentes para as espécies selvagens herbívoras. Embora exemplo de mortalidade sejam às vezes citados, mesmo em queimas controladas, os benefícios gerais resultantes da melhoria do habitat, aumento da produtividade do sítio e estímulo ao crescimento geralmente superam os eventuais danos diretos causados pelo fogo. No entanto, a queima controlada não deve ser usada durante a estação de procriação da fauna, a primavera. Um bom exemplo de uso de queima controlada na melhoria do habitat e consequentemente restauração da vida silvestre em uma área degradada é relatada por Czuhai e Cushwa (1968). Segundo eles, o refúgio Nacional de vida silvestre de Piedmont, Sudeste dos EUA, foi estabelecido para demonstrar que a população faunística poderia ser restabelecida, nesta ou em áreas similares, através da proteção e manejo adequado. A maioria da área havia sido abandonada depois que práticas agrícolas inadequadas haviam provocado severa erosão, reduzindo a fertilidade do solo e eliminando os animais selvagens de maior valor, como veados e perus. Após 27 anos de manejo da área e proteção da fauna, as populações de veados e perus retornaram aos níveis anteriores e milhares de codornas, perdizes, lebres, esquilos, pombas e outras espécies retornaram e permaneceram no refúgio. Ainda segundo os autores, a queima controlada periódica foi um dos fatores decisivos na restauração da vida silvestre naquela área. Voltar ao sumário 4.1.5. Controle de parasitas doenças
A crença popular sobre os efeitos sanitários e purificadores do fogo vem desde a antiguidade. Na agricultura, o fogo é frequentemente usado para combater certas pragas, destruir sementes de plantas daninhas, combater doenças e eliminar resíduos de colheitas. Em silvicultura, o uso do fogo no controle de parasitas e doenças é ainda um assunto polêmico, devido a falta de estudos nesse campo. Insetos e fungos são componentes vitais da dinâmica dos ecossistemas florestais. A ação destes agentes pode ser relacionada com o aumento da quantidade de material combustível e, por conseguinte, a maior probabilidade de ocorrência de incêndios devido a sua atividade. Algumas árvores feridas pelo fogo, por outro lado, atacadas por insetos e fungos, podem morrer, novamente acumulando material combustível e completando um ciclo vicioso. Isto é o que ocorre, por exemplo, no ecossistema do Pinus contorta nos EUA. Em áreas florestais, a queima controlada às vezes é usada para controlar certos coleópteros. French e Keirle (1969) informam que em plantações de Pinus radiata na
Consiste em se colocar linhas de fogo ao longo de aceiros naturais ou artificiais e permitir que ele se propague apenas contra o vento (Fig. 3). Em terrenos planos ou levemente ondulado o fogo é colocado em linhas perpendiculares à direção do vento; em terrenos com maior inclinação, o fogo deve ser forçado a se propagar montanha abaixo. Aceiros adicionais são necessários para cada linha de fogo colocada. Esta é talvez a mais simples e segura técnica de queima controlada, desde que exista vento constante, Além de mais segura, é menos poluidora e desenvolve temperaturas menores que todas as outras técnicas. É necessariamente, a técnica que deve ser usada na primeira redução de combustível no interior de povoamentos florestais. Algumas desvantagens da queima contra o vento são: o tempo consumido na operação e a necessidade de se construírem aceiros dentro da área, geralmente a intervalos de 50 a 200m de distância. É necessário também a existência de ventos constantes com velocidades entre 6 a 16 km/h ao nível do solo, para dissipar a fumaça e evitar que o ar quente suba até às copas das árvores. Além disto é mais caro que os demais e, depois de construídos os aceiros internos, inflexível, por somente permitir a queima a uma determinada direção do vento.
Figura 3 Queima contra o vento Voltar ao sumário 4.2.2. Queima em faixas a favor do vento
Consiste em se colocar uma linha ou uma série de linhas de fogo, de maneira tal que nenhuma linha possa desenvolver alta intensidade antes de encontrar outra linha de fogo ou um aceiro (Figura 4). A distância entre linhas de fogo depende das condições locais mas geralmente veria de 20 a 60 m. compensações devido a mudanças de direção do vento podem ser feitas alterando-se o ângulo da faixa de fogo com a linha básica. Do mesmo modo, ajustes para quantidade e arranjo do material combustível podem ser feitos alternando-se a distância entre as linhas de fogo. Este método é relativamente rápido, flexível e geralmente de custo moderado. Pode ser usado para reduções periódicas de combustível no interior de plantações, desde que a primeira redução tenha sido feita através da técnica contra o vento. As principais desvantagens da queima em faixas a favor do vento são: a necessidade de acesso ao interior da área e o aumento de intensidade no encontro das linhas de fogo, tornando maior a possibilidade de crestamento das copas.
Figura 4 - Queima em faixas a favor do vento. Voltar ao sumário 4.2.3. Queima de flanco
Neste método o fogo é colocado simultaneamente ao longo de linhas paralelas ao vento e se propaga perpendicularmente na direção do mesmo (Figura 5). As linhas devem ser mantidas em comprimentos iguais e espaçadas a intervalos uniformes. A propagação
lateral, ou de flanco, do fogo geralmente dobra a velocidade em relação à queima contra o vento e, consequentemente, aumenta a taxa de calor liberada. Este método é útil em pequenas áreas ou para facilitar a queima de grandes áreas em tempo relativamente curto. É também útil para segurar lateralmente o fogo quando se usa outros métodos. A queima de flanco apresenta algumas desvantagens e requer muita habilidade para se alcançar bons resultados. Necessita pessoal experimentado e perfeita coordenação de tempo e espaço. Há forte tendência de turbulência no encontro lateral das chamas, aumentando o perigo de crestamento. Mudança de direção do vento pode produzir indesejável fogo a favor do vento.
Figura 5 - Queima de flancos. Voltar ao sumário 4.2.4. Queima em V
Esta técnica foi desenvolvida para uso em áreas acidentadas, partindo-se sempre do topo para a base das montanhas. As linhas de fogo devem ser iniciadas, simultaneamente, de um único ponto, no local mais alto e prosseguirem montanha abaixo, de forma radial (Figura 6). Basicamente, esta técnica envolve o mesmo conceito da queima de flanco, exceto que as linhas de fogo são radiais ao invés de paralelas. Apresenta, por isto mesmo, as mesmas vantagens e desvantagens que aquela técnica.
Figura 6 - Queima em V. Voltar ao sumário 4.2.5. Queima em manchas
Consiste em se acender uma série de pontos ou círculos de fogo, os quais queimam em todas as direções mas vão se encontrando antes que se tornem muito grandes e se propaguem violentamente (Figura 7). Os círculos de fogo devem ser colocados de 40 a 100 m de distância um do outro. Uma equipe eficiente pode queimar grandes áreas em curto espaço de tempo usando este método. Ele pode ser usado com ventos moderados e variáveis, em diferentes concentrações de combustível. É barato porque não necessita de aceiros intermediários. A desvantagem do método é que ele pode criar manchas quentes se a distância entre os pontos for mal calculada e portanto requer considerável experiência. Necessita também de acesso ao interior da área.
Figura 7 - Queima em manchas. Voltar ao sumário 4.2.6. Queima central ou em anel
Neste método, vários pontos de fogo, em forma mais ou menos circulares, são acesos no centro da área. A propagação destes pontos de fogo vai acelerar à medida que a