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O eucalipto no Brasil, Notas de estudo de Engenharia Florestal

O eucalipto no Brasil

Tipologia: Notas de estudo

2012

Compartilhado em 13/11/2012

http-engenheiros-florestais-blogspo
http-engenheiros-florestais-blogspo 🇧🇷

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O eucalipto no Brasil
As primeiras mudas de eucalipto que chegaram ao Brasil fo-
ram plantadas no Rio Grande do Sul em 1868. No mesmo ano,
também foram plantados alguns exemplares na Quinta da Boa
Vista, no Rio de Janeiro.
O plantio do eucalipto em escala comercial data da primeira
década do século XX (1904). Inicialmente, foi introduzido como
monocultura destinada a suprir a demanda de lenha para com-
bustíveis das locomotivas e dormentes para trilhos da Compa-
nhia Paulista de Estradas de Ferro. Além disso, era utilizado
para a produção de mourões de cercas e postes margeando a
ferrovia, fornecendo ainda o madeiramento para a construção
das estações e vilas. Do Estado de São Paulo, o plantio de
eucalipto se estendeu para todo o centro e sul do País.
Dos 470 mil hectares de eucaliptos plantados no País entre
1909 e 1966, 80% concentravam-se em São Paulo2. Ao adquirir
novas terras em 1909, a Cia. Paulista de Estradas de Ferro ini-
ciou o plantio de eucalipto em escala comercial. Foram obtidas
sementes de 144 espécies plantadas em diversos hortos da
companhia, especialmente em Rio Claro, São Paulo.
Os anos 1960: incentivos fiscais para o reflorestamento
A partir de meados dos anos 1960, o governo adotou uma
intensa política de incentivo fiscal para o reflorestamento, volta-
da para as grandes indústrias siderúrgicas e de papel e celulo-
se. Essas indústrias, que estavam em franca expansão, eram
obrigadas por força de Lei a manter áreas próprias para sua
produção de matéria-prima.
A política florestal do governo militar criou uma série de ins-
trumentos que, até metade dos anos 1980, incentivou e finan-
ciou as grandes empresas florestais.
Os anos 1980: a sociedade se organiza e cobra mudanças
Com o processo de redemocratização do País e a vigência da
nova Constituição, a partir da década de 1980, a sociedade civil
2 SAMPAIO, Anavarro. Os eucaliptos no Brasil. In: Aracruz Celulose, O eucalipto e as ecologias, pp.5-10.
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O eucalipto no Brasil

As primeiras mudas de eucalipto que chegaram ao Brasil fo- ram plantadas no Rio Grande do Sul em 1868. No mesmo ano, tambÈm foram plantados alguns exemplares na Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro. O plantio do eucalipto em escala comercial data da primeira dÈcada do sÈculo XX (1904). Inicialmente, foi introduzido como monocultura destinada a suprir a demanda de lenha para com- bustÌveis das locomotivas e dormentes para trilhos da Compa- nhia Paulista de Estradas de Ferro. AlÈm disso, era utilizado para a produÁ„o de mourıes de cercas e postes margeando a ferrovia, fornecendo ainda o madeiramento para a construÁ„o das estaÁıes e vilas. Do Estado de S„o Paulo, o plantio de eucalipto se estendeu para todo o centro e sul do PaÌs. Dos 470 mil hectares de eucaliptos plantados no PaÌs entre 1909 e 1966, 80% concentravam-se em S„o Paulo 2. Ao adquirir novas terras em 1909, a Cia. Paulista de Estradas de Ferro ini- ciou o plantio de eucalipto em escala comercial. Foram obtidas sementes de 144 espÈcies plantadas em diversos hortos da companhia, especialmente em Rio Claro, S„o Paulo.

Os anos 1960: incentivos fiscais para o reflorestamento

A partir de meados dos anos 1960, o governo adotou uma intensa polÌtica de incentivo fiscal para o reflorestamento, volta- da para as grandes ind˙strias sider˙rgicas e de papel e celulo- se. Essas ind˙strias, que estavam em franca expans„o, eram obrigadas por forÁa de Lei a manter ·reas prÛprias para sua produÁ„o de matÈria-prima. A polÌtica florestal do governo militar criou uma sÈrie de ins- trumentos que, atÈ metade dos anos 1980, incentivou e finan- ciou as grandes empresas florestais.

Os anos 1980: a sociedade se organiza e cobra mudanÁas

Com o processo de redemocratizaÁ„o do PaÌs e a vigÍncia da nova ConstituiÁ„o, a partir da dÈcada de 1980, a sociedade civil

2 SAMPAIO, Anavarro. Os eucaliptos no Brasil. In: Aracruz Celulose, O eucalipto e as ecologias, pp.5-10.

se organiza e passa a pressionar os Ûrg„os p˙blicos e as em- presas florestais para a tomada de medidas com relaÁ„o aos impactos negativos da eucaliptocultura, tanto do ponto de vista ambiental quanto do ponto de vista social. Em meados da dÈcada de 1980, com o fim dos incentivos fiscais, as empresas florestais fizeram investimentos para man- ter a produÁ„o prÛpria, conforme determina a lei, e se associa- ram ‡s universidades p˙blicas para o desenvolvimento tecnolÛgico. A despeito do grande passivo herdado das pr·ti- cas adotadas, observa-se uma grande evoluÁ„o das tÈcnicas de gerenciamento ambiental e de inserÁ„o social dos produto- res de matÈria-prima florestal.

SituaÁ„o atual da eucaliptocultura no

Brasil

Hoje o Brasil e, em especial, Minas Gerais detÍm tecnologia de ponta, chegando mesmo a exportar conhecimentos tÈcnicos e cientÌficos para a Austr·lia, a terra de origem do eucalipto. O fomento florestal vem criando uma nova tendÍncia de descentralizaÁ„o da produÁ„o da madeira. ExperiÍncias do Prodemata ñ primeiro Programa de Desenvolvimento Rural Inte- grado, criado no Brasil, na dÈcada de 1970 ñ demonstram com sucesso como os produtores rurais podem participar e lucrar com esse mercado, sem provocar concorrÍncia com outras cul- turas alimentares ao utilizar ·reas marginais das propriedades. Existe um potencial para que, em um futuro prÛximo, o produtor rural assuma definitivamente essa atividade, que originalmente foi dele, criando condiÁıes espont‚neas para o desenvolvimen- to de um mercado autÙnomo de madeira e produtos florestais. Segundo dados da Sociedade Brasileira de Silvicultura (SBS), o setor florestal brasileiro mantÈm hoje, em regime de produÁ„o, cerca de 4,8 milhıes de hectares de plantaÁıes florestais de r·pido crescimento. Outras espÈcies como a arauc·ria, ac·cia negra e teca tambÈm s„o plantadas comercialmente, porÈm em menores proporÁıes. Das plantaÁıes florestais existentes no

tas para fins industriais, totalizando investimentos da ordem de R$ 217 milhıes. Minas Gerais tem hoje 1,5 milh„o de hectares de plantios florestais, principalmente de eucalipto. O consumo anual È de 120 mil hectares, quase o dobro do plantio de flores- tas em 2002/2003, que foi de 68 mil hectares^5.

O eucalipto na siderurgia: histÛrico

A siderurgia a carv„o vegetal foi implantada no Brasil pela primeira vez em 1827, no MunicÌpio mineiro de CaetÈ, com o nome de Forjas Catal„s. O processo era artesanal e descontÌnuo. Em 1925, a Compa- nhia Belgo-Mineira instalou em Sabar· uma ind˙stria sider˙rgica inte- grada, ou seja, que produz o ferro-gusa e, a partir dele, o aÁo. A implantaÁ„o da segunda unidade da Belgo, em 1937,no MunicÌpio de Jo„o Monlevade, a maior do mundo a carv„o vegetal na Època, ocor- reu com a primeira experiÍncia de integraÁ„o entre a siderurgia e a atividade de produÁ„o de florestas plantadas de eucalipto, com a finalidade de suprir a demanda de carv„o vegetal da ind˙stria. A siderurgia a coque sÛ se instalou no PaÌs com a Companhia Side- r˙rgica Nacional (CSN), em Volta Redonda, Rio de Janeiro, em 1941.

Vantagens da substituiÁ„o do coque

pelo carv„o vegetal

O carv„o vegetal e o coque tÍm a mesma funÁ„o no processo sider˙rgico. S„o utilizados como redutores do ferro presente no minÈ- rio para gerar o gusa. AlÈm disso, s„o a fonte energÈtica principal do processo e respons·veis por estruturar a carga dentro do alto-forno. O coque È originado da destilaÁ„o do carv„o mineral extraÌdo de reservas fÛsseis. No Brasil, cuja produÁ„o se concentra nos esta- dos da Regi„o Sul, as reservas desse mineral s„o pouco expressi- vas e de baixa qualidade. Essa escassez implica a necessidade contÌnua de importaÁ„o e estabelece uma dependÍncia externa

5 Informativo AMS. 9/3/2004.

para a manutenÁ„o da siderurgia. PorÈm, a importaÁ„o de coque de paÌses como a China e a R˙ssia, em virtude de suas grandes reservas de carv„o mineral e da situaÁ„o econÙmica vigente nos ˙ltimos 15 anos, tinha-se mostrado muito vantajosa. Tal circunst‚n- cia levou algumas ind˙strias brasileiras a substituirem o carv„o vegetal pelo coque, j· que, alÈm de n„o renov·vel, esse produto tem alto custo ambiental e social na sua extraÁ„o e processamento. AlÈm da emiss„o de carbono, o coque produz contaminaÁ„o ambiental por enxofre. No momento atual, o surto de desenvolvi- mento na China transformou esse paÌs de exportador de coque a um importador de ferro-gusa. Esse fato mudou a correlaÁ„o de forÁas no mercado de insumos e produtos sider˙rgicos, pois enca- receu assustadoramente o coque e valorizou o ferro-gusa. Dessa forma, viabilizou-se o aumento do preÁo do carv„o vegetal, o que estimulou atitudes oportunistas na utilizaÁ„o de matas nativas para sua produÁ„o. Como exemplo, podemos citar o caso da regi„o de Rio Espera, localizada na Zona da Mata mineira, onde foram identificadas cerca de 200 ·reas de desmatamento ilegal. O carv„o vegetal, por sua vez, È derivado da carbonizaÁ„o de madeira extraÌda de florestas nativas ou plantadas. Por se originar de florestas, o carv„o vegetal constitui uma fonte renov·vel e praticamente inesgot·vel de recursos, desde que adotadas tÈcnicas de manejo florestal adequadas 6. AlÈm de n„o apresentar poluiÁ„o por enxofre, a siderurgia a carv„o vegetal possui um balanÁo de CO 2 negativo, ou seja, as plantaÁıes ab- sorvem mais carbono durante seu crescimento do que È libera- do no carvoejamento e no processo de produÁ„o de gusa 7.

Problemas apresentados pelo plantio

de eucalipto em escala industrial

Os problemas tradicionalmente elencados com relaÁ„o ao plantio do eucalipto, motivo de constantes debates ainda hoje,

6 BED , J˙lio Cadaval. InformaÁ„o tÈcnica, GerÍncia-Geral de Consultoria Tem·tica, GerÍncia de Meio Ambi- ente, da AssemblÈia Legislativa do Estado de Minas Gerais. 7 LOPES, Luiz Eduardo F. (RS CONSULTANTS Ltda.) e SAMPAIO, Ronaldo S. (SINDIFER). O ferro prim·rio mais limpo do planeta ñ A produÁ„o de ferro com uso de biomassa plantada

Impactos SocioeconÙmicos

  • Expuls„o de populaÁıes tradicionais de suas terras, com profundas alteraÁıes da estrutura fundi·ria.
  • OcupaÁ„o de ·reas coletivas por empresas privadas com limitaÁ„o de acesso e uso das terras.
  • GeraÁ„o de dependÍncia das comunidades locais com rela- Á„o ‡s empresas privadas.
  • Agravamento das condiÁıes alimentares das populaÁıes vizinhas de cultivo de eucalipto.
  • Crescimento desordenado dos centros urbanos em decor- rÍncia da migraÁ„o rural.
  • DesvalorizaÁ„o da cultura popular nas regiıes atingidas.

Perspectivas

  • Estabelecimento definitivo de consenso entre as empresas que compıem o setor florestal contra pr·ticas de substituiÁ„o de florestas nativas por cultivo de eucalipto.
  • Investimentos no fomento florestal como forma de desenvol- ver um mercado de madeira auto- sustent·vel, que inclui o pro- dutor rural como protagonista.
  • Desenvolvimento contÌnuo de conhecimentos e tecnologias voltados para a melhoria das pr·ticas de cultivo do eucalipto, com a utilizaÁ„o de produtos menos agressivos ao homem e ao meio ambiente, equipamentos de proteÁ„o individual, siste- mas de aplicaÁ„o de produtos mais compatÌveis com o clima brasileiro, manejo de solo adequado, sistemas de exploraÁ„o florestal, entre outros pontos.
  • Desenvolvimento de equipamentos capazes de reduzir os esforÁos fÌsicos dos trabalhadores.
  • AtenÁ„o em relaÁ„o ‡ biodiversidade, por meio de plane- jamento de plantios, procurando selecionar os solos mais ade- quados, preservando os mananciais e as matas nativas, alÈm do estabelecimento de corredores de vegetaÁ„o natural para a movimentaÁ„o da fauna, plantio de enriquecimento nas ·re- as de preservaÁ„o e da adoÁ„o de manejos diferenciados, com absoluto respeito ‡ legislaÁ„o ambiental