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O poder dos candombles, Notas de estudo de Teologia

O PODER DOS CANDOMBLES

Tipologia: Notas de estudo

2013

Compartilhado em 02/12/2013

josimar-rocha-fernandes-9
josimar-rocha-fernandes-9 🇧🇷

4.8

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O Poder dos Candomblés
Perseguição e Resistência no Recôncavo da Bahia
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O Poder dos Candomblés

Perseguição e Resistência no Recôncavo da Bahia

UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA Reitor Naomar Monteiro de Almeida Filho Vice-Reitor Francisco José Gomes Mesquita

EDITORA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA

Diretora Flávia Goullart Mota Garcia Rosa

Conselho Editorial Titulares Ângelo Szaniecki Perret Serpa Caiuby Alves da Costa Charbel Ninõ El-Hani Dante Eustachio Lucchesi Ramacciotti José Teixeira Cavalcante Filho Maria do Carmo Soares Freitas

Suplentes Alberto Brum Novaes Antônio Fernando Guerreiro de Freitas Armindo Jorge de Carvalho Bião Evelina de Carvalho Sá Hoisel Cleise Furtado Mendes Maria Vidal de Negreiros Camargo

©2009, By Edmar Ferreira Santos. Direitos de edição cedidos à Editora da Universidade Federal da Bahia - EDUFBA Feito o depósito legal.

Revisão Nídia M. L. Lubisco

Normalização Adriana Caxiado

Editoração Eletrônica e Capa Rodrigo Oyarzábal Schlabitz

Foto da capa Damário Dacruz

Ilustrações das separatrizes Rodrigo Oyarzábal Schlabitz

EDUFBA Rua Barão de Jeremoabo, s/n - Campus de Ondina, 40170-115 Salvador-BA Tel/fax: (71) 3283- www.edufba.ufba.br [email protected]

Sistema de Bibliotecas - UFBA

Santos, Edmar Ferreira. O poder dos candomblés : perseguição e resistência no Recôncavo da Bahia / Edmar Ferreira Santos. - Salvador : EDUFBA, 2009. 209 p.

ISBN 978-85-232-0609-

  1. Candomblé - Recôncavo (BA). 2. Perseguição religiosa. 3. Resistência.
  2. Imprensa e política. 5. Relações raciais. I. Título.

CDD - 299.

A Gaiaku Luiza ( in memoriam ) que na sua grandeza chama- va-me professor, enquanto me ensinava histórias da Bahia,

e a Maria Luiza, parte da minha sorte.

AGRADECIMENTOS

Em agradecimentos públicos incide sempre o risco dos lapsos ou a impossibilidade de falar de todas as pessoas, ainda mais quando não é pe- queno o número daqueles que contribuíram para a realização do trabalho. Assim, inicio agradecendo ao professor Luis Nicolau Parés, que dedicou horas do seu tempo à orientação, leitura e releitura deste trabalho, tornan- do-se imprescindível para sua realização, sobretudo, pela discussão das mais diversas questões, pela amizade e respeito à liberdade de escolha dos meus próprios caminhos.

Os professores Jocélio Teles e Wlamyra Albuquerque leram meus es- critos e reflexões iniciais. Apontaram possibilidades e chamaram a atenção para aspectos fundamentais no tratamento das fontes e na tessitura do texto. Não posso deixar de destacar e agradecer a atenção e o incentivo desses professores a cada novo encontro, no Centro de Estudos Afro-Ori- entais, nas ruas ou nos arquivos de Salvador e de Cachoeira. Agradeço também a todos os professores, funcionários e colegas do Programa Multidisciplinar em Estudos Étnicos e Africanos, especialmente Lindinalva Barbosa, Cláudia Santos e Artemisa Candé.

A professora Lucilene Reginaldo me iniciou no universo da historiografia com preciosas lições de teoria e pesquisa. Sua atenção e con- fiança são inestimáveis. Henrique Cunha Jr. e Fátima da Silva incentiva- ram a realização da pesquisa e reclamaram a sua urgência. Na mesma pers- pectiva, agradeço a Eduarda Senna e Lysie Reis. A professora Lina Aras acreditou no projeto desde o primeiro momento (quando não passava de mal “trançadas” linhas) e contribuiu significativamente para sua elabora- ção. Entre os amigos e amigas que desde o início dispensaram confiança e apoio não posso deixar de agradecer a Reginilde Santa Bárbara, Sueli Sou- za e Damário da Cruz.

Érica Rocha Moreira acompanhou de perto todas as etapas do proje- to. Além do carinho e da compreensão nos momentos mais difíceis do tra- balho intelectual, leu e teceu críticas de natureza política e acadêmica e ajudou na revisão do texto. Agradeço por tudo.

Meus familiares tiveram de experimentar junto comigo uma ausência aumentada a cada dia. Agradeço a compreensão e o estímulo de todos. Também a família jeje mahi do Rumpame Ayono Runtoloji , especialmente Gaiaku Regina e Iyá Zulmira, Vodum pahum anadeji. Não poderia esquecer dos que me acolheram durante meus estudos nos Estados Unidos: aquele

abraço para Edward, Amélia, Erlinda, Ruth, Nilda e Jim, companheiros e companheiras de experiências singulares.

Em Cachoeira e Salvador são muitas as iyás, equedes e ogans, irmãos e irmãs, amigos e amigas que contribuíram para este trabalho. Meus agra- decimentos a Dona Estelita (Juíza Perpétua da Irmandade da Boa Morte), Dona Lica, Equede Aparecida, Seu Geninho ( in memoriam ), Ogan Bernardino, Seu Hermógenes, Ogan Dezinho, Babalaxé Duda, Ogan Sandro, Luís Magno, Billy Oliveira, Luzia Gomes, Fábio Lima, Liu Onawalê e Maurício Araújo. Também agradeço aos funcionários do Arquivo Regio- nal de Cachoeira, que tiveram atenção e paciência frente aos meus inúme- ros pedidos.

A pesquisa contou com o acompanhamento da equipe do Programabolsa , coordenado no Brasil pela Fundação Carlos Chagas. Agra- deço a toda a equipe, em particular à professora Fúlvia Rosemberg, que além de coordenar o programa encontra tempo para ser conselheira inesti- mável. Dedico especiais agradecimentos ao International Fellowship Program Ford Foundation, que através da concessão de uma bolsa de estu- dos me possibilitou dispor do tempo e dos recursos necessários para realiza- ção desta pesquisa.

A equipe da Editora da Universidade Federal da Bahia (EDUFBA) foi responsável pela cuidadosa produção deste livro, meu grato reconheci- mento. Por fim, o Prêmio de Divulgação Científica da Fundação de Ampa- ro à Pesquisa do Estado da Bahia (FAPESB) foi indispensável para esta publicação.

SUMÁRIO

13 | PREFÁCIO

INTRODUÇÃO

19 | A CONSTRUÇÃO SOCIAL DA CIDADE DO FEITIÇO 22 | A IMPRENSA E A METODOLOGIA 25 | O DISCURSO CIVILIZADOR DA IMPRENSA

CAPÍTULO I

37 | OS BATUQUES DA CIDADE: CELEBRAÇÕES NEGRAS E IDÉIAS DE CIVILIZAÇÃO 41 | A MARCHA DA CIVILIZAÇÃO: EVANGELIZAÇÃO E MANUTENÇÃO DA ORDEM 45 | O CONTROLE DOS BATUQUES NO SÉCULO XIX 48| AS TENTATIVAS DE ORDENAMENTO DA FESTA 52 | OS BATUQUES E A CIDADE PÓS-ABOLIÇÃO 57 | OS DIFERENTES BATUQUES E A POLÍCIA

CAPÍTULO II

71 | A MARCHA DOS CANDOMBLÉS: A DOR E A DÁDIVA DA CURA NO INTERIOR DA BAHIA 72 | A FEITIÇARIA E O FETICHISMO: A CONVERGÊNCIA DOS DISCURSOS CATÓLICOS E PROTESTANTES 77 | O DISCURSO MÉDICO-HIGIENISTA E A IMPRENSA 81 | FEITIÇARIA E CURANDEIRISMO NA IMPRENSA LOCAL 86 | ENTRE PEJIS E CANDOMBLÉS: TERMINOLOGIAS E ESTEREÓTIPOS 93 | O PARADOXO DA FEITIÇARIA 104 | LEMBRANÇAS DO CONFLITO E UMA VOZ DISSIDENTE

CAPÍTULO III

111 | POLÍTICAS LOCAIS E RELIGIOSIDADE AFRO-BAIANA: REPRESSÃO E ESTRATÉGIAS DE RESISTÊNCIA 114 | OS PAPÉIS POLÍTICOS DO OGAN 118 | OS JOGOS POLÍTICOS DA IMPRENSA 128 | OS ANOS 20: MUDANÇAS POLÍTICAS E REPRESSÃO POLICIAL 133 | ASPECTOS DAS RELAÇÕES RACIAIS NA IMPRENSA LOCAL

CAPÍTULO IV

143 | AS SENHORAS DO SEGREDO: LUTAS, ENCANTOS E DESENCANTOS NA RESISTÊN- CIA DOS CANDOMBLÉS 146 | MÃE JUDITH E A RESISTÊNCIA LEGAL 159 | ITINERÁRIOS ANCESTRAIS: TERRITORIALIDADES AFRO-BAIANAS EM CACHOEIRA 171 | O MISTÉRIO E O SEGREDO DOBOZÓ: A RESISTÊNCIA SILENCIOSA DOS CANDOMBLÉS

O Poder dos Candomblés / 13

PREFÁCIO

Nos tempos atuais de crescente visibilidade pública dos candom- blés, dos seus registros nos livros de tombo e da retórica de preservação dos patrimônios culturais afro-brasileiros, não resulta supérfluo lançar um olhar atento para um passado não tão remoto em que tais práticas de matriz africana eram ora silenciadas, ora perseguidas e depreciadas por- quanto identificadas com atraso e desvio dos modelos civilizatórios euro- peus. Se esse olhar retrospectivo resulta salutar ao constatar o quanto se avançou, ele também nos alerta para o quanto ainda se precisa avançar, pois os discursos da intolerância religiosa de ontem se alastram até hoje, embora em novos púlpitos, com os mesmos efeitos perniciosos. Nesse sen- tido, o livro de Edmar Ferreira Santos atinge uma meta que qualquer pesquisa em história social pode almejar: a de nos permitir compreender em detalhe a complexidade do passado para, através dele, iluminar os paradoxos do presente.

Filho da cidade de Cachoeira, no Recôncavo baiano, poeta, profes- sor, militante antirracista, formado em história, mas com interesse interdisciplinar na antropologia, Edmar Ferreira é conhecedor atento da vida cultural e religiosa da heroica cidade e sabedor de alguns dos seus segredos. Talvez por isso ele tenha decidido debruçar-se no universo da história local e, com palavras medidas, nos evocar, nos ajudar a imaginar as luzes e as sombras de figuras, enredos e memórias que, empoeirados, há muito esperavam ser descortinados, nas entrelinhas dos documentos. De fato, a história política e cultural de Cachoeira na República Velha, mais precisamente nas três primeiras décadas do século XX, constituía um uni- verso e período que ainda ninguém abordara de forma criteriosa e sistemá- tica. Apenas por esse aspecto, a obra que se segue seria digna de destaque e interesse, mas não só.

O texto inicia com uma análise do discurso sobre as práticas lúdicas e religiosas afro-baianas, veiculado nas notícias do conservador jornal A Ordem , uma das mais influentes publicações da cidade. Além de constatar a continuidade com a ideologia e as práticas disciplinares dos períodos do Império e Colônia, o autor identifica uma mudança significativa, como seja a progressiva aparição, junto ao velho “discurso da feitiçaria” tradicio- nalmente instigado pela igreja católica, de um novo “discurso do fetiche”, introduzido através da Europa pela ciência médico-higienista. Enquanto o primeiro condenava as práticas afro-baianas como formas de superstição

14 / Edmar Ferreira Santos

marcadas pela presença do diabo, o segundo as condenava pela suposta irracionalidade dos praticantes e pela exploração que os charlatães faziam da sua ignorância. Numa leitura crítica e metodologicamente cuidadosa, que examina e contextualiza o uso e os sentidos de palavras significativas que aparecem de forma recorrente nas notícias do jornal, o historiador nos mostra como os dois discursos se superpunham e reforçavam mutuamente.

Segue logo uma das partes mais originais do livro, relativa à história política do período em apreço que em Cachoeira como na Bahia de modo geral, esteve fortemente marcada pelo personalismo dos líderes locais. Um pedaço da história cachoeirana que estava ainda por ser escrita. Todavia, Edmar Ferreira desvenda a complexidade dos interesses e das disputas no seio do conservador Partido Republicano, dominante na época, e como as diversas facções se utilizavam dos candomblés, ora condenando-os e lan- çando contra eles campanhas repressivas, ora dando-lhes apoio, geralmen- te com fins eleitorais. Essa análise da interdependência entre política e religião e das nuances da sua variabilidade constitui uma singular contri- buição para a história da religiosidade afro-baiana. Ao tempo em que o autor desfaz o mito de uma repressão sistemática dos candomblés e de uma posição unânime das autoridades, identificando pontuais alianças estraté- gicas com os grupos religiosos, ele mostra também como os subalternos podiam sabiamente se aproveitar das brechas criadas pelas disputas entre facções políticas rivais.

Fruto de uma pesquisa que combina e cruza a tradição oral com os registros escritos, a parte final do texto dá destaque especial ao singular caso de Mãe Judith, ialorixá do terreiro Aganju Didè, fundado em 1916, na região da Terra Vermelha. Através dessa figura lendária, além de refletir criticamente sobre importantes questões de gênero que aparecem no dis- curso civilizatório veiculado pela imprensa, o historiador aponta para uma geografia da resistência cultural dos candomblés cachoeiranos, tecida a partir da experiência, vivida e sofrida, de inúmeros sujeitos forjadores da sua própria história. Ilustrando de forma concreta e personalizada as dis- cussões de capítulos precedentes, o autor revela, por exemplo, como Mãe Judith conseguiu difundir, mesmo que através da denúncia publicada pelo jornal A Ordem , o convite anunciando as festas da sua casa em 1917. Pre- ciosa jóia documental que mostra, além do pioneirismo da ialorixá nessa prática de distribuição de convites para amigos e clientes, a audácia dessa mulher que não temia enfrentar o clima de perseguição reinante.

Em definitivo, o texto conduz – sempre ancorado na evidência docu- mental – da discussão mais genérica, sobre uma história cultural das idéias,

O Poder dos Candomblés / 19

INTRODUÇÃO

A CONSTRUÇÃO SOCIAL DA CIDADE DO FEITIÇO

Cachoeira é uma antiga cidade da Bahia, depositária de significativo acervo cultural do Brasil. Construída na margem esquerda do rio Paraguaçu, próximo à sua foz no Recôncavo baiano, o início da colonização portugue- sa dessas terras nos remete a meados do século XVI e às lutas de conquista, das quais resultou o extermínio de numerosa população e diversas culturas indígenas 1. A exploração inicial do solo massapê pela economia da cana- de-açúcar, com a utilização em larga escala de mão-de-obra escravizada indígena e africana, deu vigor à colonização. Aos poucos a movimentação local foi se desenvolvendo em progressiva circulação de mercadorias, por meio fluvial e marítimo, com o porto de Salvador, e terrestre, com as entra- das para o interior da colônia. O paulatino crescimento levou à criação da Vila de Nossa Senhora do Rosário do Porto da Cachoeira em 1698.

A crescente relevância da cultura do tabaco durante o século XVIII, na área fumageira da Vila e adjacências, forneceu o principal objeto de comércio baiano na Costa da Mina, aumentando o fluxo de escravos e a prosperidade econômica da região. Apesar de seu renome de região açucareira, as culturas agrícolas do Recôncavo foram diversificadas de acor- do com o solo, topografia ou clima das várias zonas. O estabelecimento e o crescimento do empreendimento agrícola na região, especialmente da cana, apenas foi possível através da utilização do poderio militar dos portugueses sobre os povos indígenas, subjugados, escravizados e utilizados extensiva- mente nas plantações, junto aos africanos, seguindo os moldes em que es- tava se desenvolvendo a empresa colonial ibérica 2.

A implantação da navegação a vapor nas primeiras décadas do século XIX consolidou a vocação de Cachoeira como entreposto comercial entre Salvador e o interior do Brasil 3. Entre os séculos XVIII e XIX, teve lugar a

(^1) Wanderley Pinho identifica o terceiro governador-geral da Bahia, Mem de Sá, como o responsável por um genocídio empreendido em 1557 no baixo Paraguaçu. Ver: Wanderley Pinho (1982, p. 37-49). (^2) SCHWARTZ, Stuart B. Segredos internos : engenhos e escravos na sociedade colonial. São Paulo: Companhia das Letras, 1988. Especialmente o capítulo 4. O Recôncavo , p. 77-94. Sobre a utilização do fumo como moeda do tráfico, ver Pierre Verger (1987). (^3) No dia 4 de outubro de 1819, ocorreu a primeira viagem em embarcação a vapor entre Salvador e Cachoeira. No entanto, foi apenas depois de 1835 que a navegação a vapor se estabeleceu definitivamente no interior da Baía-de-Todos-os-Santos. Ver: J. da Silva Campos (1930. p. 1).

20 / Edmar Ferreira Santos

construção das edificações mais suntuosas da cidade. Viajantes europeus como os naturalistas Spix e Martius, encantados com sua visita à vila, es- creveram:

[...] sem dúvida a mais rica, populosa e uma das mais agra- dáveis vilas de todo o Brasil. Numerosas vendas e arma- zéns cheios de vários artigos europeus revelam o alto grau de movimentação do seu comércio 4.

Em 1837, a Vila de Nossa Senhora do Rosário do Porto da Cachoeira foi elevada à categoria de cidade em reconhecimento por sua participação nas disputas emancipatórias ocorridas na Bahia 5. À época, a cidade já se caracterizava como o mais importante centro de negócios e comércio do recôncavo baiano.

Cachoeira era considerada o segundo termo mais importante da Bahia. Compreendia uma enorme área geográfica, populosa, com in- tensas relações comerciais e intercâmbios culturais, vastas plantações de fumo e cana, bem como numerosos engenhos de açúcar. A cidade era ainda espaço de produção e distribuição de gêneros alimentícios, passagem dos diamantes de Mucugê e Rio de Contas, gado, além de escravos e toda sorte de produtos para as famílias da região 6. Segundo João José Reis, já na passagem do século XVIII para o XIX, Cachoeira era “o segundo núcleo populacional da Bahia. Em 1775, seu centro ur- bano tinha 986 casas, talvez cerca de 4.000 habitantes; em 1804, 1180 casas, cerca de 5.000 habitantes”. Um recenseamento feito pela câmara local terminado em 1826, contaria 6 mil habitantes na vila e 60 mil em todo o termo 7.

(^4) SPIX, Johann Baptist von; MARTIUS, Carl Friedrich Philipp von. Viagem pelo Brasil (1817-1820). São Paulo: Melhoramentos, 1976. (^5) Refiro-me às lutas pela consolidação da independência política do Brasil entre os anos de 1822 e 1823. (^6) A denominação “termo” se referia a uma circunscrição geográfica, jurídica e político-administrativa. Quando a Vila foi criada, em 1698, o seu termo incorporava o território de mais ou menos30 atuais cidades do Estado da Bahia. Entre elas: Maragogipe, São Félix, Muritiba, Governador Mangabeira, Cabaceiras, Cruz das Almas, São Felipe, Conceição do Almeida, Sapeaçu, Conceição da Feira, São Gonçalo dos Campos, Feira de Santana, Santo Estevão, Castro Alves, Irará, Ipirá, Santa Bárbara, Conceição do Jacuípe, Conde, Entre Rios, Esplanada, Ouriçangas, D. Macedo Costa, Antônio Cardoso, Amélia Rodrigues, Tanquinho, Cardeal da Silva, Altamira, Acajutiba, Jandaíra entre outras. Ver: Francisco José de Mello (2001, p. 34-36). Em 1832, foi criada a Vila da Feira de Santana, que se tornou município no ano seguinte, anexando parte do território antes pertencente à Vila de Cachoeira. (^7) REIS, João José. Magia jeje na Bahia: a invasão do calundu do pasto de Cachoeira, 1785. Revista Brasileira de História , São Paulo, v. 8, n. 16, p. 57-81, mar./ago. 1988. p. 63.