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PRATINTA RES EUA Nesetetetps À — Juan E. Diaz Bordenave N QUE É | “JUNICAÇÃO ora brasiliense 2” Juan E. Diaz Bordenave O que é Comunicação 21 rá D “racional”, como a provisão de informação (noti- em que ocorrem seus melodramas refletem gostos cias, anúncios etc.), o jornal satisfaz necessidades de classe média para cima. “não racionais”, como o fornecimento de contatos As telenovelas, aliás, são formas de comunicação sociais e, indiretamente, de prestígio social. A com um complexo papel social, Para alguns, elas estas funções agregase uma de proporcionar constituem oportunidades de catarse emocional, “segurança” aos leitores num mundo sempre isto é, uma ocasião para experimentar surpresas, perturbado, e uma função “ritualista” ou quase alegrias, sofrimentos e até para dar vazão a senti- compulsiva para as pessoas que lêem o jornal mentos agressivos, A identificação do ouvinte sempre na mesma hora, no mesmo lugar e na com os personagens e suas alegrias e sofrimentos mesma sequência. parece produzir uma sensação positiva, já que Outros meios, como o rádio, mostraram desem- significa compartilhar os próprios problemas penhar ainda.o papel de “companhia”, particular- com alguém mais importante. O sucesso obtido mente para pessoas solitárias. pelos personagens parece cumprir a função de O rádio e a TV, além de difundirem notícias, compensar e aliviar carências e fracassos dos diversão e publicidade, cumprem uma função ouvintes. Assim, uma mulher cuja filha abandonou social de “escape”, oferecendo uma compensação O lar para casar-se com um homem que está ausente relaxante para o crescente “stress” da vida todas as noites, assiste a novelas que pintam moderna. As revistas populares cumprem mais uma vida familiar feliz e uma esposa bem-sucedida. ou menos a mesma função, especialmente as que As telenovelas são também escutadas como contêm romances e fotonovelas. fonte de orientação e conselho: “Se você assiste à Para muitos leitores e telespectadores, os meios movelas e algo acontece em sua própria vida — respondem também a suas aspirações de mobili- afirmam alguns telespectadores — você sabe o que dade social, Talvez por esta razão, os recortes fazer porque já viu algo semelhante na novela,” de revistas que cobrem as paredes dos favelados Há pessoas que resolvem fazer regime porque raramente contêm cenas de pobreza e opressão e viram um personagem de novela fazendo regime. sim de mansões de luxo, pessoas bem vestidas, Outras aceitam a situação em que se encontram personagens aparentemente bem-sucedidos, como rando que, numa certa novela, O personagem astros de cinema, cantores e estrelas de futebol. isto mesmo e se deu bem. Os criadores de telenovelas parecem ter chegado Importantes como eles são, é um erro, porém, a conclusão semelhante, daí por que os ambientes nsiderar os meios de comunicação social como a A : Juan E. Diaz Bordenave O que é Comunicação ros sons usados para criar uma linguagem eram imitações dos sons da natureza: o cantar do pássaro, o latido do cachorro, a queda d'água, o trovão. Outros afirmavam que os sons humanos inham das exclamações espontâneas como o i” da pessoa ferida, o “ah” de admiração, o “grrr” da fúria. Nada impede que se pense também que o homem primitivo usasse sons produzidos pelas mãos e os pés, e não só pela boca. Poderia ainda ter produzido sons por meio de objetos, como pedras ou troncos ocos. Qualquer que seja o caso, o que a história mostra é que os homens encontraram a forma de associar um determinado som ou gesto a um certo objeto ou ação. Assim nasceram o signo, isto é, qualquer coisa que faz referência a outra coisa ou idéia, e a significação, que consiste no uso social dos signos. A atribuição de significados a determinados signos é precisamente a base da comunicação em geral e da linguagem em particular, Outra grande invenção humana foi a gramática, isto é, o conjunto de regras para relacionar os signos entre si. As regras de combinação são necessárias pela seguinte razão: se o homem possui um repertório de signos, teoricamente poderia combiná-los de infinitos modos. Se cada pessoa combinasse seus signos a seu modo, seria muito difícil comunicar-se com os outros. Graças à gramática, o significado já não depende só dos - signos mas também da estrutura de sua apre- sentação. É por isto que não é a mesma coisa dizer: “Um urso matou meu pai”, que dizer: “Meu pai matou um urso.” De posse de repertórios de signos, e de regras para combiná-los, o homem criou a linguagem. Eventualmente os homens aprenderam a distin- guir modos diversos de usar a linguagem: modo indicativo, declarativo, interrogativo, imperativo, traduzindo as diferentes intenções dos interlo- cutores. Compreendeu-se que, na linguagem, algumas palavras tinham a função de indicar ação, outras de nomear coisas, outras de descrever qualidades ou estados das coisas etc. Evidentemente, quando criaram a linguagem, os homens primitivos não imaginavam que estas funções algum dia recebe- riam os nomes de verbo, substantivo, adjetivo, advérbio etc. Vencer o tempo e a distância Parece haver poucas dúvidas de que a primeira ma organizada de comunicação humana foi a uagem oral, quer acompanhada ou não pela agem gestual. linguagem oral, entretanto, sofre de duas s limitações: a falta de permanência e a falta Juan E. Diaz Bordenave O que é Comunicação 2 de alcance. Daf o fato de que os homens tenham apelado a modos de fixar seus signos e a modos de transmiti-los a distância. Para fixar seus signos o homem utilizou primeiro o desenho e mais tarde a linguagem escrita. Desenhos primitivos, pintados por homens da era Paleolítica (entre 35 000 e 15000 anos antes da era cristã), foram achados em cavernas como as de Altamira, Espanha, e Dordogne, França. Ali se observam cenas de caça envolvendo animais e pessoas. Não se sabe se o propósito destas figuras era mágico, estético ou simplesmente expressivo ou comunicativo. Os egípcios, cerca de 3 000 anos antes de Cristo, representavam aspectos de sua cultura por meio de desenhos e gravuras colocados nas casas, edifícios e câmaras mortuárias. Para resolver o problema do alcance, o homem inicialmente apelou a signos sonoros e visuais, tais como o tantã, o berrante, o gongo, os sinais de fumaça, Mas uma solução mais decisiva foi encon- trada com a invenção da escrita, lá pelo século IV antes de Cristo. As mensagens escritas, com efeito, podem ser transportadas a qualquer distância. À linguagem escrita evoluiu a partir dos pictogra- mas, signos que guardam correspondência direta entre a imagem gráfica (desenho) e o objeto repre- sentado. O desenho de uma mulher significava isso mesmo, mulher; o desenho de um sol significava o sol, e assim por diante. Os hieróglifos do antigo a Egito são um exemplo da escrita pictográfica. Chegou um momento em que o homem sentiu-se demasiadamente limitado pela necessidade de que a cada signo correspondesse um objeto. Passou então a usar signos não para representar objetos, mas para representar idéias. Assim, para indígenas da América do Norte a figura de um pássaro voando significava “pressa”, e a paz era represen- tada por um cachimbo. Os antigos egípcios representavam a alma por meio de um pássaro com cabeça de homem. Este tipo de escrita recebeu o nome de ideográfica, e dela são exemplos o chinês e o japonês. A escrita inicialmente seguia a mesma sequência que a língua falada. Nos primeiros pictogramas e ideogramas a sequência dos signos reproduzia a cronologia dos eventos narrados. Se um caçador jejuava, logo depois reunia suas armas e mais tarde matava um animal, estes eventos sucessivos seriam desenhados em tal ordem. Um grau ainda maior de liberdade foi alcançado quando es homens perceberam que as palavras ou os nomes de objetos compunham-se por unidades menores de som (fonemas), e que, por conseguinte, os signos podiam representar estas unidades de som e não mais objetos ou idéias. Esta descoberta serviu de base para a escrita chamada fonográfica, onde os signos representam sons. Os sons elementares são combinados em sequências de diversos comprimentos para represen- Juan E, Diaz Bordenave o rádio, a televisão e, finalmente, o satélite. O domínio das ondas eletromagnéticas pelo homem reduziu o tamanho do mundo e o trans- formou numa “aldeia global”. Se alguns anos atrás uma notícia precisava 4 meses para chegar da Europa à América do Sul, hoje não demora mais que segundos. A influência social dos meios aumentou na medida de sua penetração e difusão. Às técnicas de impressão aperfeiçoadas permitiram o uso de várias cores, tiragens de milhões, formatos originais em jornais, revistas, livros, folhetos e cartazes. O rádio estendeu a voz do homem através de montanhas e desertos, até os lares mais humildes e isolados. O cinema, ao incorporar o som ea cor, ao ampliar a tela e empregar lentes especiais, oferece uma expressão cada dia mais fiel da realidade. A televisão juntou o alcance geográfico do rádio às potencialidades visuais do cinema e se converteu numa “magia a domicílio”. A ciência e a tecnologia da comunicação produ- zem constantemente inovações cada vez mais sofisticadas. À vinculação dos meios de comunica- ção com os de prócessamento de dados gerou uma nova ciência: a informática. A invenção dos microcomputadores promete colocar ao alcance de qualquer pessoa os recursos informativos de centenas de bancos de dados distribuídos em todos os países, A teleconferência, pela qual pessoas localizadas em diferentes cidades podem E D que é Comunicação 3 À comunicação orientando os comportamentos. aa Ev) Juan E, Diaz Bordenave - empresas conversar simultaneamente, vendo-se mutuamente nas telas é trocando informações escritas ou gráfi- cas, é apenas um dos numerosos milagres da telemática. O vídeo-teipe e o vídeo-disco são já realidades que só esperam o barateamento dos custos para se popularizarem. A câmara fotográfica de revelação instantânea já é utilizada por milhões de pessoas. A indústria da comunicação Ora, para explorar comercialmente as capacidades tecnológicas dos meios de comunicação, organiza- ram-se empresas jornalísticas, editoriais e teledi- fusoras, Para colher o material que elas necessitam, formaram-se agências noticiosas, como a Reuter, da Inglaterra, a France Press, da França, e a Asso- ciated Press e United Press, dos Estados Unidos. Para construir a infra-estrutura física necessária à transmissão massiva de mensagens, criaram-se fabricantes de aparelhos emissores, transmissores & receptores, assim como de satélites e outros materiais. A indústria da comunicação passou à casa dos bilhões de dólares e transnacio- nalizou-se, instalando fábricas e conquistando mercados em todos os continentes. Ao mesmo tempo que os engenheiros eletrônicos aperfeiçoavam as capacidades técnicas dos meios E que é Comunicação 33 de comunicação, conhecido como “hardware” ou equipamento pesado, psicólogos, sociólogos, politicólogos e comunicólogos de todo o mundo desenvolveram a arte da elaboração das mensagens, pesquisando as condições ótimas de percepção decodificação, interpretação e incorporação de seus conteúdos. i Pela prática profissional, pela pesquisa e pela competição recíproca, melhoram-se constantemen- te a redação de notícias e artigos, a elaboração de programas de rádio e TV, a preparação de anúncios publicitários e a produção de filmes e vídeo-cassetes, Paralelamente, deu-se um fenômeno interessante: a utilização dos meios de comunicação como parte do processo educativo formal e não-formal. No mundo inteiro a rádio e a TV, e mais recentemente microcomputadores, passaram a formar parte a bagagem instrumental da chamada Tecnologia cativa. 4 Este processo de desenvolvimento de aparelhos “hardware”) e das técnicas de programação e ção (“software”) foi acompanhado de um endo “aumento de influência e poder da unicação na sociedade. O impacto dos meios re as ias, as emoções, o comportamento mico e político das pessoas, cresceu tanto se converteu em fator fundamental de poder Menino em todos os campos da atividade a. É Juan E. Diaz Bordenave que é G ras 37 as notícias nacionais e internacionais. Concentra-se ] tanto no roteiro escrito, para não pular palavras, que não lembra que, nesse momento, mais de três milhões de pessoas o estão escutando. As notícias que divulga, porém, afetam as vidas de muitos ouvintes. O que há de comum nestas três situações: o artesão e seu filho, o ator e sua platéia, o locutor e seu público? O que há de comum é que todas as três são ATOS DE COMUNICAÇÃO. O que é, então, a comunicação? Há duas maneiras de definir o que é uma coisa: enumerar os elementos de que está composta ou indicar para que serve. Pode-se definir o automóvel, por exemplo, dizendo que é um con- junto formado por motor, carroçaria e rodas. Mas seria ainda melhor definilo como um veículo autopropulsado que serve para transportar pessoas e coisas de um lugar a outro. E para que serve a comunicação ? Serve para que as pessoas se relacionem entre si, transformando-se mutuamente e a realidade que as rodeia. Sem a comunicação cada pessoa seria um mundo fechado em si mesmo. Pela comunicação as pessoas compartilham experiências, idéias e sentimentos. Ao se relacionarem como seres interdependentes, influenciam-se mutuamente e, juntas, modificam a realidade onde estão inseridas. De que elementos consta a comunicação? Analisemos as três situações de comunicação, acima. e O artesão ensina seu filho a fazer carrancas de cerâmica, Compartilha com ele conhecimentos e experiência. Ambos usam palavras, gestos, objetos e movimentos como meio' para trocar suas percepções e intenções. O barro da terra se transforma em uma nova realidade, Ao mesmo tempo, o pai e o filho se modificam: o velho torna-se, mais que pai, mestre; e o filho converte-se em artesão. e O ator e a platéia se comunicam: o ator diz suas palavras, faz seus gestos, caminha, pula, se ajoelha. À platéia, embora não fale com palavras, o faz com seu silêncio, suas lágrimas, seus aplausos, O ator e o público se transformam; o ator sente-se mais seguro, mais bem compreendido, até mais querido. O público volta à rotina de sua própria vida com — novas percepções, novas perguntas, às vez: mais calmo, às vezes mais angustiado. A realidade social recebe o impacto do teatro: ela reflete sobre si mesma através do drama e da comédia representados no palco, O locutor de rádio se comunica com o seu público. Para manter a atenção de seus ouvintes enquanto transmite os aconteci- — mentos do dia, ele usa, além de suas palavras, Juan E. Diaz Bordenave O que é Comunicação 39 música e efeitos de som. Um complexo mecanismo tecnológico — a emissora — leva suas palavras até milhões de receptores, de tal modo que as recebam simultaneamente. Embora os ouvintes não tenham condições para dialogar com o locutor, como dialogam o artesão e seu filho, tanto o locutor como os ouvintes se transformam, mesmo que imperceptivelmente. E a realidade também se transforma por efeito da difusão das notícias. Quais, então, são os elementos comuns aos três atos de comunicação? e Primeiramente, nos três casos temos uma realidade na qual a comunicação se y liza. As pessoas não se comunicam num vazio, mas dentro de um ambiente, como parte de uma situação, como momento de uma história. O artesão e seu filho conversam em Petrolina, no sertão pernambucano, num ambiente de classe pobre, de gente que vive do artesanato por gerações, dentro de uma comunidade que tem uma história, uma tradição, uma cultura e uma esperança. Tudo isto — o passado, o presente e o futuro — está presente no mais simples ato de comunicação. A realidade influi sobre o comunicar e o comu- nicar influi sobre a realidade. e Em segundo lugar, nos três casos há pessoas que desejam partilhar alguma coisa: conheci- mentos, emoções, informações. Estes são os interlocutores (os que falam entre si). Num momento dado cada interlocutor é fonte de comunicação e noutro é receptor. * As coisas que se deseja compartilhar é outro elemento da comunicação, que chamaremos de mensagem. Inicialmente, as mensagens vivem apenas na mente (ou no 'coração) dos interlocutores. Mas, durante a comunicação, elas aparecem de modo a que possam ser ouvidas, vistas e tocadas. O quarto elemento viria então a ser a forma como a mensagem se apresenta: as palavras, os gestos, os olhares, os movimentos do corpo. As formas que representam as idéias e as emoções chamam-se signos. Signo é todo objeto perceptível que de alguma maneira remete a outro objeto, toma o lugar de outra coisa. Se pudéssemos influir diretamente nas mentes de outras pessoas não precisa- ríamos de signos para transmitir nossas idéias e emoções. Mas nem sempre podemos. Daí a necessidade de “significar” nosso mundo interior para poder compartilhálo com os demais. Em geral, os signos formam con- juntos organizados chamados códigos. A língua portuguesa, o código Morse, os sinais de trânsito, o sistema Braile para cegos, são | conjuntos organizados de signos. * O quinto elemento da comunicação seriam os no Juan E. Diaz Bordenave O que é Comunicação 41 , meios que os interlocutores utilizam para levar suas palavras ou seus gestos às outras pessoas. O artesão usa o barro, suas mãos, sua voz, como meios para comunicar seus conhecimentos ao filho; o ator usa sua voz, o palco, as luzes da ribalta, a maquilagem, a música, as roupas especiais; O locutor emprega sua voz, O roteiro, o disco, à fita gravada, a emissora de rádio em geral. Resumindo, os elementos básicos da comuni- cação são: e a realidade ou situação onde ela se realiza e sobre a qual tem um efeito transformador; * os interlocutores que dela participam; * os conteúdos ou mensagens que elas compar- tilham; * os signos que elas utilizam para representá-los; e os meios que empregam para transmitilos. É importante assinalar que a própria natureza encarregou-se, durante o longo curso da evolução de nossa espécie, de nos preparar para a comuni- cação. Ela nos forneceu os órgãos capazes de criar signos e também os órgãos que podem recebê-los e interpretá-los. Assim, a boca humana é capaz de produzir infinitas combinações de sons, e o ouvido pode captar e distinguir milhares dessas combinações. O rosto, os olhos e as mãos podem mover-se de mil maneiras para criar gestos expressivos. E os olhos podem captar esses movimentos, distinguílos e ) combiná-los. E por trás de tudo isso está o cérebro humano, computador de infinita sutileza, que recebe os sons, os movimentos e as luzes, combina- os e, apelando à memória de milhões de expe- riências prévias, interpreta o que estes estímulos representam para a pessoa. De posse dos elementos da comunicação, esta- mos em condições de analisar como funciona este complexo processo. As fases do processo É teórica e praticamente impossível dizer onde começa e onde termina o processo da comunicação. Razões internas ou externas podem levar duas pessoas a se comunicarem. Embora a fase visível da comunicação possa ser iniciada por uma delas, sua decisão de comunicar pode ter sido provocada pela outra, ou por uma terceira pessoa, presente ou ausente, ou por muitas causas coincidentes. Não é possível, assim, enumerar as fases de uma comunicação como se fossem partes de uma segiência linear e ordenada. À comunicação, de fato, é um processo multifacético que ocorre ão mesmo tempo em vários níveis — consciente subconsciente, inconsciente -, como parte orgânica do dinâmico processo da própria vida. Qualquer tentativa de “dissecar” o processo . 4 Juan E. Díaz Bordenave que é Comunicação 43 3 o o vital da comunicação é um exercício pouco realista, língua, ouvido. Entretanto, a pessoa não embora possa ter utilidade didática ou explicativa. emite tudo o que ela contém nem recebe tudo Contudo, podem ser mencionadas algumas o que a ela vem do meio ambiente. De modo fases que costumam participar do processo da que outra fase do processo é a seleção. comunicação. As fases podem se dar em qualquer e À seleção: Deste caldeirão onde fervem as ordem, ou simultaneamente, e podem até entrar experiências da pessoa, seus conhecimentos e em conflito umas com as outras. Vejamos: crenças, valores e atitudes, signos e capaci- e À pulsação vital: A dinâmica interna de dades, a pessoa seleciona alguns elementos qualquer pessoa está sempre pulsando, ferven- que deseja compartilhar com outras pessoas. do, vibrando, como verdadeiro caldeirão vital Às vezes esta seleção é provocada por esti onde se encontram em ebulição pensamentos, tos que vêm de fora, outras vezes pela decisão lembranças, sentimentos, novas sensações e da própria pessoa de tornar consciente — para percepções, desejos e necessidades. A pulsação refletir sobre eles — alguns elementos de vital ocorre em todo o corpo, mas seu centro seu repertório. é o cérebro. O organismo humano compor- e A percepção: No caso de estímulos que vêm tase, então, como um sistema aberto em de fora, o homem “sente” a realidade que o constante interação consigo mesmo e com o rodeia por meio de seus sentidos — vista, meio ambiente. ouvido, olfato, tato e paladar —, e assim * A interação: A pulsação vital permanente no percebe as palavras, gestos e outros signos interior da pessoa consiste num precário que lhe são apresentados. equilíbrio dinâmico que, para ser mantido, JS À decodificação: Percebidos os signos, a tem obrigatoriamente de se adaptar ao meio pessoa tem que determinar o que eles repre- ambiente físico e social que rodeia o organis- sentam, a que código pertencem. Como o mo, quer se acomodando a ele, quer tentando artesão e seu filho pertencem ambos à mesma transformá-lo. Em outras palavras, a pessoa cultura — a nordestina —, os signos que eles necessita entrar em interação com o meio usam têm o mesma significado para os dois. ambiente. Ora, uma das maneiras de interagir De fato, eles usam o mesmo código: para com o meio ambiente é a comunicação. falar, usam o idioma português (com suas A pessoa emite é recebe mensagens por todos variações regionais e locais); para gesticular, os canais disponíveis: olhos, pele, mãos, usam os gestos que aprenderam de seus se 46 Juan E. Diaz Bordenave que é Comunicação 47 ( ) ) funções, entre as quais as que se seguem: a falar?”. E — Função imaginativa: criar um mundo próprio — Função instrumental: satisfazer necessidades de fantasia e beleza. materiais ou espirituais da pessoa. » Exemplos: Vamos fazer de conta que... ”, Exemplos: “Eu quero isto”, “Tenho fome”, “Havia uma vez um rei...”, “O que eu “Estou caindo”, “Preciso um conselho seu”, faria se ganhasse na loteria esportiva?”. ““Ajude-me a resolver este problema”. — Função informativa: apresentar nova infor- Outra função da comunicação é indicar a quali- mação. 3 dade de nossa participação no ato de comunicação: Exemplos: “Tenho algo para te dizer”, “Aten- que papéis tomamos e impomos aos outros, que ção! OQ Conselho de Segurança da ONU votou desejos, sentimentos, atitudes, juízos e expecta- 10 contra 1...”. tivas trazemos ao ato de comunicar. — Função regulatória: controlar o compor- E a comunicação deve fazer tudo isto ao mesmo tamento de outros. tempo, de maneira tal que o que se está dizendo Exemplos: “Faça como eu lhe digo Será coincida com a forma com que se diz e com o que tenho que repetir a mesma coisa para Contexto social em que se fala. A comunicação você um milhão de vezes? Obedeça a lei”. não apresenta uma pilha de signos e símbolos, — Função interacional: relacionar-se com outras senão um “discurso”, isto é, uma obra de sentido pessoas. e de coerência que somente nós, homens, podemos Exemplos: “Você e eu vamos tomar conta instruir. disso tudo”, “Eu amo você”, As qualidades únicas da comunicação humana — Função de expressão pessoal: identificar im-se quando a comparamos com a comu- e expressar o “eu”. cação animal. Porque os animais também pos- Exemplos: “Sou contrário aos regimes de im signos, órgãos emissores e órgãos receptores. direita”, “Eu amo a liberdade mas também os signos animais não foram criados delibe- defendo a justiça social”. a e arbitrariamente como foram criados os — Função heurística ou explicativa: explorar $ humanos, Aqueles formam parte automática o mundo dentro e fora da pessoa. equipamento genético da espécie. Como tais, Exemplos: “Pai, por que a lua muda de não mudam nunea, O cachorro de Cleópatra tamanho? “, “Como é que a criança aprende “antigo Egito latia da mesma maneira e nas a A Juan E. Diaz Bordenave que é Comunicação 49 mesmas circunstâncias em que late hoje o cachorro de Elizabeth Taylor em Hollywood. Tampouco os animais inventam signos novos ou modificam o significado dos antigos. É que os signos dos animais parecem ser mais sinais que signos: eles indicam reações a estímulos presentes ou lembrados. Os animais se comunicam da mesma maneira instintiva com a qual cons- troem seus ninhos, fogem dos perigos e copulam para reproduzir sua espécie. Daí que a comunicação animal carece do poten- cial de beleza e de paixão que o homem coloca em suas mensagens. Beethoven, surdo, com- pondo sua Sonata Patética para expressar a tormenta que rugia em sua alma desesperada, é um fenômeno exclusivamente humano, Como é unicamente humana a despedida do Coronel Moscardó de seu filho refém, que seria fuzilado se o pai não entregasse o Alcázar de Toledo, durante a Guerra Givil Espanhola: “Candido Cabello, chefe da milícia em Toledo, telefonou ao Coronel Moscardó dizendo-lhe que se não entregasse o Alcázar dentro de dez minutos, ele, Cabello, matar-lheia o filho, Luis Moscardó, a quem havia capturado naquela manhã. 'E para que veja que é verdade, ele próprio vai falar-lhe, acrescentou Candido Cabello, Então Luis Moscardó disse ao telefone a palavra 'Papai'. 'Que se passa, meu filho?”, perguntou o Coronel. Nada”, respondeu o filho, “Eles dizem que me matarão se o Alcázar não se render”. “Se for verdade", replicou o Coronel Moscardó, “encomenda a tua alma a Deus, grita Viva Espanha” e morre como um herói. Adeus, meu filho, um derradeiro beijo.” “Adeus, meu pai”, respondeu Luis, 'um beijo bem grande”, Candido Cabello voltou ao tele- fone e o Coronel Moscardó anunciou-lhe que não precisava de prazo para decidir. 'O Alcázar jamais se renderá”, declarou antes de desligar o telefone. Luis Moscardó foi morto a 23 de agosto.” tA “Guerra Civil Espanhola, por Hugh Thomas, Editora Civilização Brasileira, 1964, p. 244). s2 Juan E. Diaz Bordenave palidez ou rubor etc., são involuntários e até inconscientes. O telespectador, em todo caso, recebe tantas mensagens sobre os mesmos candi- datos como sobre os assuntos debatidos. Isto nos leva a comentar o chamado “carisma” de certas pessoas, entendendo por tal os efeitos que elas produzem sobre o público, sem que seja possível especificar precisamente as quali- dades que provocam esses efeitos. Carlos Lacerda, Juscelino Kubitscheck, Jânio Quadros, exerciam complexas influências sobre as massas, sendo difícil explicá-las através da mera análise de suas qualidades. A mesma coisa acontece com os artistas popu- lares. Arthur da Távola, por exemplo, percebeu o misterioso “carisma” comunicativo das grandes cantoras e atrizes brasileiras e escreveu em O Globo: “Gal transmite ao lado do “texto”, isto é, do que fala é canta, uma série de outras mensagens de alto poder comunicativo que se somam à sua figura de comunicação, modelando-a. Que mecanismos secretos explicarão a relação da atriz Elizabeth Savalla com o povão? Ela é boa atriz e moça bonita, mas há centenas de outras boas atrizes e moças bonitas que não estabe- lecem os mesmos mecanismos secretos de comunicação.” - O que é Comunicação Juan E. Diaz Bordenave que é Comunicação 55 Arthur da Távola comenta que esses mecanismos atuam em níveis mais fundos que os da percepção consciente: “Eles excitam mecanismos guardados e desconhecidos, difíceis de definir. Estão no território da empatia, um lugar complexo, oculto, misterioso.” A cultura como comunicação Se tudo na vida pode ser decodificado como signo — o penteado, a maneira de andar e de sentar-se, o bairro em que se mora, a igreja que se frequenta —, então a própria cultura de uma sociedade pode ser considerada como um vasto sistema de códigos de comunicação. Estes códigos indicam os papéis apropriados e oportunos, o que é tabu e o que é sagrado. Exemplos de nossa cultura incluem os seguintes: — Quando um homem e uma mulher se casam colocam anéis, se possível de ouro, em certos dedos da mão. O nome dos anéis é “aliança” pois eles comunicam aos demais que estas pessoas já não estão mais livres e sem com- promisso. — Na mesa onde a família faz suas refeições, o pai sempre ocupa a cabeceira. Seu lugar na - mesa comunica eua. posição de autoridade. s (q — Enquanto os empregados são obrigados a chegar a seus lugares de trabalho às 8h em ponto, o chefe chega às 9h ou 10h da manhã. Isto indica a todos a diferença de hierarquia. — No Natal, costuma-se dar presentes aos parentes e amigos. O valor do presente, em geral, comunica o grau de importância que o doador atribui ao presenteado. — Até há pouco tempo, os parentes costumavam vestir-se de preto quando morria um membro da família, e a cultura estipulava um prazo para a viúva, Os irmãos etc. manterem o luto. — À maneira de manejar os talheres nas refeições não é assunto de escolha individual; ela comunica imediatamente a classe social a que pertence a pessoa. — Às empregadas domésticas são obrigadas a vestir uniformes para não serem confundidas com os membros da família. — É considerado de mau gosto chegar pontual- mente a uma recepção. Os convidados pon- tuais correm o risco de encontrar os anfi- triões ainda no banheiro ou terminando de se vestir. = Expressamos nossos sentimentos patrióticos por meio de símbolos que incluem a bandeira, o hino nacional, os vultos históricos, as efemérides ou datas significativas. s