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o que é loucura
Tipologia: Notas de estudo
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Não perca as partes importantes!





























































































1ª edição 1982 3ª edição 1984
Para os meus alunos.
chegar a propor uma definição da loucura. E teríamos um livro mais seco, mais acessível, em que a loucura seria tratada como um objeto de conhecimento. Mas aí veio a dúvida: não estaríamos com isso apresentando no lugar da loucura alguma outra coisa? E, portanto, iludindo o leitor?
A crermos em muitos pensadores contemporâneos, a loucura não é um fenômeno fundamentalmente oposto ao da chamada racionalidade ou normalidade. A loucura é interior à razão — eis uma proposição notável muitas vezes posta sob suspeita, tão espantosa que se resiste a aceitar. Se a loucura é algo com que convivemos, paradoxalmente é algo difícil de se falar na primeira pessoa. Fácil é falar do outro, da loucura alheia. Da loucura do outro? Na fala cotidiana (ou no discurso científico), são-lhe emprestadas tantas vestes que ela se mostra a nós disfarçada de certa maneira. Essa aparência da loucura é a visão que se tem do louco, visão cujo sentido de máscara é o que vou tentar apontar neste livro. Mas, concretamente, de que visão se trata?
Propondo a um grupo de jovens universitários e pré- universitários da cidade de São Paulo o tema deste livro, recolhi um conjunto de pequenos escritos que circunscreve em torno da palavra loucura um campo de acepções exemplar. Ignorando o caráter impreciso, por vezes contraditório, dos termos empregados, vou apresentar enumeradamente essas acepções, pois é possível que o
leitor venha a perceber entre elas seu próprio ponto de vista. Então, grosso modo, pode-se dizer que por loucura esses jovens entendem:
Um estado de perda da consciência de-si-no- mundo que condena a pessoa a existir à maneira de uma coisa. Por exemplo: “loucura é a perda da consciência do próprio ‘eu’. Uma pessoa chega à loucura a partir do momento em que vai perdendo a consciência de sua existência, do seu ser, do seu lugar no mundo e, vazia, se perde na realidade exterior”; “loucura é o estado no qual a pessoa vive quase como um vegetal e suas ações se processam ‘no escuro’. Não tendo nenhum controle de sua realidade pessoal consciente..., seu barco se desgoverna por completo” etc.
Uma doença. Por exemplo: “um estado físico mental, posto que o cérebro sofre danos, em que a pessoa passa a agir de forma descontroladamente agressiva, tornando-se perigosa no convívio com outras ou, o que é pior, que já não saiba mais discernir entre a realidade e seus devaneios...”; “a loucura talvez seja a doença que existe há mais tempo na história dos homens” etc.
Um “distúrbio orgânico” ou um “desequilíbrio emocional” do indivíduo cujo efeito é um desvio do comportamento em relação a normas sociais.
Distúrbios emocionais ou somáticos cuja origem é “o desajustamento do indivíduo dentro
a loucura é saber. De outro lado (e esta é a tendência mais forte), temos a loucura descrita como uma falha da forma pessoal, consciente, normal, equilibrada e sadia de ser, um desvio do grupo social: o louco é perigoso para os outros, senão para si mesmo. Esses pontos de vista, que alguns especialistas (médicos, cientistas sociais e filósofos) chegam a assumir, são discutíveis.
Com efeito, crer numa loucura localizada no indivíduo e emprestar ao louco uma vestimenta que o transfigura em monstro não só tende a retirar-lhe o estatuto de humanidade, como também a nos fazer esquecer que algo se diz através da loucura. Isto é, algo cujo sentido denuncia o contexto no qual ela emerge. A propósito, Antonin Artaud, artista e pensador internado em hospício durante nove anos (1937-1946), escreveu: “E o que é um autêntico louco? é um homem que preferiu enlouquecer, no sentido em que socialmente se entende a palavra, a trair uma certa idéia superior de honra humana. Eis por que a sociedade condenou ao estrangulamento em seus manicômios todos aqueles dos quais queria se livrar ou contra os quais queria se defender, pois eles haviam se recusado a acumpliciar- se com ela em certos atos de suprema sujeira. Pois um louco é também um homem a quem a sociedade não quis ouvir e a quem quis impedir a expressão de insuportáveis verdades”.
Mas igualmente discutível é a perspectiva que
coloca os loucos sobre um pedestal, pois elogiar a loucura, deixando-se fascinar por seus poderes e, no limite, acreditar no lucro de um saber inatingível para os que não embarcaram nessa “viagem”, pode desviar nossa escuta da vivência trágica dos loucos. Eis o que disse um interno à psicanalista francesa Maud Mannoni: “Sempre me consideram como o Cristo. Juro que sou inocente. Não procure as razões do meu internamento. Não procure saber quem sou nos registros oficiais. Escute-me, sou um órfão rejeitado da sociedade. Não tenho conhecido senão desgraças. Tenho levado uma vida de donzela, esquecendo-me de que sou um rapaz. Alguém, uma donzela, se apossou da alegria do meu sexo. Nunca conheci a felicidade. Nasci para a infelicidade. Sempre fui atacado e julgado. Os médicos nada entendem do meu caso. Eles me oferecem asilo quando o que eu peço é ser herói da dança flamenga”.
Assim, quer se conceba o louco como doente, a loucura como a degenerescência do ser humano e, portanto, como ausência de lucidez (ou de conhecimento), quer se encare a loucura como a forma de conhecimento da verdade e o louco como aquele que sabe “olhar o mundo com os olhos da realidade”, tanto num caso, como no outro, o louco se encontra excluído do universo comum dos mortais. Qual o sentido desta exclusão? Em que critérios ela se baseia? — são questões que pedem resposta, mas nada fáceis de responder.
nome será destacado: Michel Foucault. A meu ver a sua História da Loucura é uma obra decisiva para quem deseja apreender o sentido tanto de uma ciência da loucura, como da própria loucura.^1
Este livro foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a intenção de facilitar o acesso ao conhecimento a quem não pode pagar e também proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras. Se quiser outros títulos nos procure http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros, será um prazer recebê‐lo em nosso grupo.
DOENÇA MENTAL OU DESVIO SOCIAL
As intenções deste livro dispensam-nos da aventura que seria entrar no interior da Psiquiatria (isto é, disciplina científica contemporânea para a qual a loucura, no final do século XVIII, se tornou objeto de conhecimento) e apreender suas divergências teóricas bem como o debate que se trava entre elas. Todavia, há um conceito que por ser nuclear em grande parte das teorias e práticas psiquiátricas precisa ser mencionado. Trata-se exatamente do conceito de “doença mental” que pretende dar conta do fenômeno loucura.
De modo bastante esquemático, pode-se dizer que, tradicionalmente concebida por analogia com as demais doenças orgânicas, a “doença mental assume a feição de uma entidade natural
etiológico proposto ou postulado (i.e., a explicação da origem da patologia) consiste em reduzir as doenças mentais a fenômenos produzidos por distúrbios cerebrais. Por exemplo, considere-se as relações entre o delírio e a alucinação: o delírio baseia-se na alucinação causada pela excitação de um centro sensorial.
Segundo o psiquiatra H. Ey (1967) essa visão organicista constitui “o dogma da Psiquiatria clássica”. Já E. Kraepelin (1856-1926), freqüentemente considerado o pai da moderna medicina mental, ensinava procurar atrás dos sintomas psiquiátricos as entidades mórbidas. Não lhe interessava ouvir o doente. Dizia: “ignorar a língua do enfermo é, em medicina mental, uma excelente condição de observação”. O aparato teórico-técnico dessa perspectiva se renovou, desde o começo do século, graças ao progresso das pesquisas biológicas (neurocirurgia, eletroencefalografia, neurofisiologia), mas a tese básica se manteve: a doença mental é concebida como efeito de um processo orgânico. Sua origem é endógena. Ou seja, é no interior do organismo individual que se encontrará a causa de seu estado mórbido, isto é, uma lesão de natureza anatômica ou algum distúrbio fisiológico. Atualmente, com os estudos de Bioquímica e de Genética Molecular, o psiquiatra espera vir a conhecer plenamente a química da loucura. Portanto, é como realidade material que a loucura é vista pelo organicismo.
E o louco, como cadáver.
Mas a expressão “doença mental” pode recobrir um outro significado. Pode designar uma desorganização da chamada “personalidade individual”. Como uma alteração interna de suas estruturas, como um desvio progressivo de seu desenvolvi mento, a doença, nesse caso, só teria sentido no interior de uma personalidade estruturada. A personalidade do indivíduo torna-se, portanto, o habitat natural da doença e o critério segundo o qual ela será julgada. Nesse sentido, as doenças mentais se definem conforme o grau das perturbações do funcionamento da personalidade. Abrem-se, então, duas grandes categorias — as psicoses e as neuroses.
Muito esquematicamente, as psicoses se referem aos distúrbios da personalidade como um todo. Incluem: perturbações do pensamento (ex.: em geral, pensamento que não obedece às regras da lógica); perturbações da afetividade e do humor (ex.: ausência do contato afetivo ou acentuada instabilidade emocional); alterações da percepção e do senso crítico, da consciência de si e do mundo (ex.: experiências delirantes e alucinatórias que para o doente adquirem valor de evidência). Diferentemente, as neuroses se referem às alterações de apenas um setor da personalidade, sem implicar o comprometimento da estrutura do pensamento, do contato afetivo com o meio e da consciência crítica do indivíduo relativamente aos
“há sempre um passado do qual o paciente ou aqueles que o cercam guardam certa nostalgia”. Portanto, o indivíduo é doente sempre em relação: em relação aos outros, em relação a si mesmo. Isto significa que o próprio da loucura como “doença mental”, conforme a expressão médica, é ser rebelde a uma definição positiva. Em outras palavras, é teoricamente muito difícil, senão impossível, definir a loucura em si mesma, como um fato isolado.
Com efeito, os termos segundo os quais se procura dar uma definição da loucura são, explícita ou implicitamente, sempre relacionais. Isto é, designa-se louco o indivíduo cuja maneira de ser é relativa a uma outra maneira de ser. E esta não é uma maneira de ser qualquer, mas a maneira normal de ser. Portanto, será sempre em relação a uma ordem de “normalidade”, “racionalidade” ou “saúde” que a loucura é concebida nos quadros da “anormalidade”, “irracionalidade” ou “doença”.
Ora, isto é o óbvio!, poderá pensar o leitor. No entanto, isso que parece evidente se revelará bastante complicado tão logo nos perguntarmos, por exemplo, sobre o sentido do termo normal.
A palavra latina norma, que está na origem do termo normal, significa “esquadro”. A palavra normalis quer dizer “aquilo que não se inclina nem para a direita nem para a esquerda”, ou seja, que é “perpendicular”, que “se mantém num justo meio termo”. Portanto, “uma norma,
uma regra, é aquilo que serve para retificar, pôr de pé, endireitar”. Nesse sentido, normalizar é impor uma exigência a uma existência que possui um caráter diversificado, irregular. Essa diversidade vai se apresentar em relação à exigência como um elemento de resistência e indeterminação. Porém, é preciso notar que uma norma, uma regra, se propõe como um modo possível de eliminar uma diferença. E ao se propor desse modo a própria norma cria a possibilidade da sua negação lógica.
Realmente, ao procurar regular a diversidade da existência, uma norma sempre comporta a abertura para uma outra possibilidade que só pode ser inversa. Melhor dizendo, qualquer preferência de uma ordem possível ou de um estado de coisas satisfatório que uma norma instituída expressa é acompanhada, implicitamente, pela aversão à ordem inversa possível. Nesse sentido, “o anormal, enquanto anormal, é posterior à definição do normal, é a negação lógica deste”.
Entretanto, o sentido, a função e o valor de uma norma (i.é, a própria existência da norma) nascem apenas do fato de existir algo, estranho a ela, que não corresponde à exigência a que ela obedece. Isto quer dizer que uma norma só vem a ser norma, exercendo a sua função normativa ou de regulação, mediante a antecipação da possibilidade de sua infração. Portanto, é “a anterioridade histórica do futuro anormal que provoca uma