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O touro branco - Voltaire, Notas de estudo de Literatura

O touro branco - Voltaire

Tipologia: Notas de estudo

2011

Compartilhado em 02/03/2011

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O TOURO BRANCO
Traduzido do siríaco pelo senhor Mamaki, intérprete do Rei da Inglaterra para as línguas orientais
Voltaire
ÍNDICE
APRESENTAÇÃO
BIOGRAFIA DO AUTOR
CAPÍTULO PRIMEIRO
De como a princesa Amaside encontra um boi
CAPÍTULO SEGUNDO
De como o sábio Mambrés, antigo feiticeiro do Faraó reconheceu uma velha, e como foi por ela reconhecido.
CAPÍTULO TERCEIRO
De como a bela Amaside teve uma entrevista secreta com uma bela serpente.
CAPÍTULO QUARTO
De como quiseram sacrificar o boi e exorcismar a princesa.
CAPÍTULO QUINTO
De como o sábio Mambrés sabiamente se conduziu.
O touro branco
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O TOURO BRANCO

Traduzido do siríaco pelo senhor Mamaki, intérprete do Rei da Inglaterra para as línguas orientais

Voltaire

ÍNDICE

APRESENTAÇÃO

BIOGRAFIA DO AUTOR

CAPÍTULO PRIMEIRO De como a princesa Amaside encontra um boi

CAPÍTULO SEGUNDO De como o sábio Mambrés, antigo feiticeiro do Faraó reconheceu uma velha, e como foi por ela reconhecido.

CAPÍTULO TERCEIRO De como a bela Amaside teve uma entrevista secreta com uma bela serpente.

CAPÍTULO QUARTO De como quiseram sacrificar o boi e exorcismar a princesa.

CAPÍTULO QUINTO De como o sábio Mambrés sabiamente se conduziu.

CAPÍTULO SEXTO De como Mambrés encontrou três profetas e lhes ofereceu um bom almoço.

CAPÍTULO SÉTIMO Chega o rei de Tânis. Sua filha e o touro vão ser sacrificados.

CAPÍTULO OITAVO De como a serpente contou histórias à princesa, para a consolar.

CAPÍTULO NONO De como a serpente não a consolou.

CAPÍTULO DÉCIMO De como quiseram cortar o pescoço à princesa, e de como lho não cortaram.

CAPÍTULO UNDÉCIMO De como a princesa desposou o seu boi.

NOTAS

APRESENTAÇÃO

Nélson Jahr Garcia

Não se conhece muito bem a intenção de Voltaire ao escrever "O Touro Branco". Há hipóteses: plausíveis, lógicas, mas hipóteses. Uma delas sugere que tenha se inspirado em lendas orientais a respeito da metamorfose animal. A mais provável, já que Voltaire sempre se interessou por religiões e mitos, é de que ele teria coletado, dentre os mitos religiosos orientais, aqueles em que os homens entrassem em contato com aos animais, mesclando-os com outros. Reuniu, assim, numa comédia animal, a serpente do paraíso, o asno de Balaão, a baleia de Jonas com as divindades do Egito, igualmente relacionadas a animais, especialmente o touro-rei. Mas é o mesmo e inconfundível Voltaire, com seu conhecimento da alma humana, a filosofia profunda e a ironia impecável. Não é tão irreverente como em outras obras, mas parece não ter resisitido a sê-lo em algumas oportunidades: A serpente do paraíso, contestando a sua condenação, retruca:

Nada disso: dei-lhe o melhor conselho do mundo. Ela honrava-me com a sua confiança. Eu era de parecer que ela e seu marido deviam provar do fruto da árvore da ciência. Acreditava agradar assim ao senhor das coisas. Uma árvore tão necessária ao gênero humano não me parecia plantada para ficar inútil. Desejaria o Senhor ser servido por ignorantes e idiotas? Não é feito o espírito para esclarecer-se e aperfeiçoar-se? Não se deve conhecer o bem e o mal para praticar o primeiro e evitar o segundo? Por certo só me deviam agradecimentos.

em particular por Chaulieu e pelo marquês de la Fare, publicou seus primeiros versos. Em 1717, acusado de ser o autor de um panfleto político, foi preso e encarcerado na Bastilha, de onde saiu seis meses depois, com a Henriade quase terminada e com o esboço do OEdipe. Foi por essa ocasião que ele resolveu adotar o nome de Voltaire. Sua tragédia OEdipe foi representada em 1719 com grande êxito; nos anos seguintes, vieram: Artemise (1720), Marianne (1725) e o Indiscret (1725).

Em 1726, em conseqüência de um incidente com o cavaleiro de Rohan, foi novamente recolhido à Bastilha, de onde só pode sair sob a condição de deixar a França. Foi então para a Inglaterra e aí se dedicou ao estudo da língua e da literatura inglesas. Três anos mais tarde, regressou e publicou Brutus (1730), Eriphyle (1732), Zaïre (1732), La Mort de César (1733) e Adélaïde Duguesclin (1734). Datam da mesma época suas Lettres Philosophiques ou Lettres Anglaises, que provocaram grande escândalo e obrigaram a refugiar-se em Lorena, no castelo de Madame du Châtelet, em cuja companhia viveu até

  1. Aí se entregou ao estudo das ciências e escreveu os Eléments de le Philosophie de Newton (1738), além de Alzire, L'Enfant Prodigue, Mahomet, Mérope, Discours sur l'Homme, etc. Em 1749, após a morte de Madame du Châtelet, voltou a Paris, já então cheio de glória e conhecido em toda a Europa, e foi para Berlim, onde já estivera alguns anos antes como diplomata. Frederico II conferiu-lhe honras excepcionais e deu-lhe uma pensão de 20.000 francos, acrescendo-lhe assim a fortuna já considerável. Essa amizade, porém, não durou muito: as intrigas e os ciúmes em torno dos escritos de Voltaire obrigaram-no a deixar Berlim em 1753.

Sem poder fixar-se em parte alguma, esteve sucessivamente em Estrasburgo, Colmar, Lyon, Genebra, Nantua; em 1758, adquiriu o domínio de Ferney, na província de Gex e aí passou, então, a residir em companhia de sua sobrinha Madame Denis. Foi durante os vinte anos que assim viveu, cheio de glória e de amigos, que redigiu Candide, Histoire de la Russie sous Pierre le Grand, Histoire du Parlement de Paris, etc., sem contar numerosas peças teatrais.

Em 1778, em sua viagem a Paris, foi entusiasticamente recebido. Morreu no dia 30 de março desse mesmo ano, aos 84 anos de idade.

CAPÍTULO PRIMEIRO

De como a princesa Amaside encontra um boi.

A jovem princesa Amaside, filha de Amásis, rei de Tânis, no Egito, passeava pela estrada de Pelusa com as damas do seu séquito. Estava mergulhada em profunda tristeza; as lágrimas corriam de seus belos olhos. Sabe-se qual o motivo do seu sofrimento e como temia ela desagradar ao rei seu pai com esse mesmo sofrimento. Achava-se em sua companhia o velho Mambrés, antigo mago e eunuco dos faraós, e que não a deixava quase nunca. Vira-a nascer, educara-a, ensinara-lhe tudo o que a uma bela princesa é permitido saber das ciências do Egito. O espírito de Amaside igualava-se à sua bondade; ela era tão sensível, tão terna como encantadora; e era essa sensibilidade que lhe custava tantas lágrimas.

A princesa tinha vinte e quatro anos de idade; o mago Mambrés tinha cerca de mil e trezentos anos. Fora ele, como é sabido, quem sustentara com o grande Moisés aquela famosa disputa na qual a vitória esteve por longo tempo pendente entre os dois profundos filósofos. Se Mambrés sucumbiu, foi unicamente devido à visível intervenção das potências celestes, que favoreceram o seu rival; só mesmo

deuses, para vencer Mambrés.

Amásis o nomeara superintendente da casa de sua filha, e ele se desincumbia dessas funções com a sua ordinária sabedoria. A bela Amaside enternecia-o com seus suspiros.

  • O meu amor! meu jovem e querido amor! - exclamava ela às vezes, - tu, o maior dos vencedores, o mais perfeito, o mais belo dos homens! como! há mais de sete anos que desapareceste da face da terra! Que deus te arrebatou à tua terna Amaside? Não estás morto, assim o dizem os sábios profetas do Egito; mas para mim estás morto, acho-me sozinha na terra, ela é deserta. Por que estranho prodígio abandonaste o teu trono e a tua amada? o teu trono! era o primeiro do mundo, e é pouco; mas eu, que te adoro, ó meu querido Na...
  • Tremei de pronunciar esse nome fatal - disse-lhe o sábio Mambrés, antigo eunuco e mago dos faraós. - Seríeis talvez traída por alguma das vossas damas. Elas vos são todas fiéis, e todas as belas damas timbram em servir as nobres paixões das belas princesas; mas, enfim, pode-se encontrar uma indiscreta entre elas, e até mesmo uma pérfida. Bem sabeis que o rei vosso pai, que aliás vos ama, jurou mandar cortar-vos o pescoço, se pronunciásseis esse nome terrível, continuamente prestes a vos escapar dos lábios. Chorai, mas calai-vos. Essa lei é dura, mas não fostes educada na sabedoria egípcia para que não soubésseis dominar a língua. Considerai que Harpócrates, um dos nossos maiores deuses, tem sempre um dedo sobre o lábio.

A bela Amaside chorou e não falou mais.

Como se dirigisse em silêncio para as margens do Nilo, avistou de longe, junto a um bosque banhado pelo rio, uma velha coberta de farrapos, sentada sobre um cômoro. Tinha junto a si uma jumenta, um cão e um bode. A frente dela estava uma serpente que não era como as serpentes ordinárias, pois seus olhos eram tão ternos como animados; sua fisionomia era tão nobre como atraente; sua pele brilhava com as mais vivas e agradáveis cores. Um enorme peixe, mergulhado a meio no rio, não era a menos admirável pessoa da companhia. Havia sobre um ramo um corvo e uma pomba. Todas essas criaturas pareciam empenhadas em animada conversação.

  • Ai! - suspirou baixinho a princesa, - toda essa gente fala decerto de seus amores, e a mim não me é permitido pronunciar o nome daquele a quem amo!

A velha segurava uma leve corrente de aço, de umas cem braças de comprimento, à qual se achava atado um touro que pastava no campo. Esse touro era branco, bem torneado, elegante de linhas, leve até, o que é bastante raro. Seus cornos eram de marfim. Era o que de mais belo já se vira na sua espécie. O de Pasifaé, e aquele cuja figura tomou Júpiter para raptar Europa, não se aproximavam sequer do soberbo animal. Apenas a encantadora novilha em que fora transformada Isis seria, quando muito, digna dele.

Mal viu a princesa, correu para ela com a rapidez de um cavalo árabe que franqueia as vastas planícies e os rios do antigo Saara para se aproximar da brilhante égua que reina no seu coração e que o faz erguer as orelhas. A velha fazia esforços por detê-lo, a serpente parecia querer espantá-lo com seus silvos; o cão o seguia, mordendo-lhe as belas pernas; a jumenta atravessava-se-lhe no caminho e dava-lhe coices para o fazer voltar. O grande peixe remontava o Nilo, e, lançando-se fora d'água, ameaçava devorá-lo; o corvo adejava em torno da cabeça do touro, como se quisesse vazar-lhe os olhos. Só a pomba o acompanhava

  • Ah! senhora - exclamou o velho, - sois a augusta pitonisa de Endor.
  • E vós, senhor - disse a pitonisa, abraçando-o, - sois o grande Mambrés do Egito.
  • Ó imprevisto encontro! ó memorável dia! ó decretos eternos! - exclamou Mambrés. - Não é, por certo, sem ordem expressa da providência universal que nós nos encontramos neste prado à margem do Nilo, perto da soberba cidade de Tânis. Com que então sois mesmo vós, senhora, tão famosa às margens do Jordão, vós, a mais hábil pessoa do mundo para evocar as sombras!
  • E sois vós, senhor, tão famoso por mudardes os bastões em serpentes, o dia em trevas, e os rios em sangue!
  • Sim, minha senhora; mas a minha avançada idade enfraquece parte de minhas luzes e de meus poderes. Ignoro de onde vos vem esse belo touro branco, e que animais são esses que vos auxiliam a vigiá-lo.

A velha recolheu-se um momento, ergueu os olhos ao céu, depois respondeu nos seguintes termos:

  • Meu caro Mambrés, somos do mesmo ofício, mas é-me expressamente proibido dizer-vos que touro é esse. Posso satisfazer-vos no tocante aos outros animais. Vós os reconhecereis facilmente pelos sinais que os caracterizam. A serpente é aquela que persuadiu Eva a comer uma maçã, e a fazer que o marido a comesse. A jumenta é a que falou num caminho a Balaão, contemporâneo vosso. O peixe que conserva sempre a cabeça fora d'água é aquele que engoliu Jonas há alguns anos. Esse cão é aquele que seguiu o anjo Rafael e o, jovem Tobias durante a viagem que fizeram a Ragés, na Média, no tempo do grande Salmanasar. Esse bode é aquele que expia todos os pecados de uma nação. Esse corvo e essa pomba são os que estavam na arca de Noé: grande acontecimento, catástrofe universal, que quase toda a terra ainda ignora. Estais, pois, informado. - Mas, quanto ao touro, nada sabereis.

Mambrés escutava com respeito. Depois disse:

  • O Eterno revela o que quer, e a quem quer, ilustre pitonisa. Todos esses animais, encarregados convosco da guarda do touro branco, só são conhecidos na vossa generosa e aprazível nação, a qual, por sua vez, é desconhecida de quase todo o mundo. As maravilhas que vós e os vossos, e eu e os meus operamos, serão um dia objeto de dúvida e escândalo entre os falsos sábios. Felizmente encontrarão crédito entre os verdadeiros sábios, que se submeterão aos videntes, numa pequena parte do mundo, e é o que basta.

Enquanto pronunciava estas últimas palavras, a princesa puxou-lhe a manga, indagando:

  • Mambrés, e o meu touro? Será que não vais comprá-lo?

O mago, mergulhado em profunda cisma, nada respondeu, e Amaside pôs-se a chorar.

Dirigiu-se então à pitonisa, dizendo-lhe:

  • Minha boa velha, conjuro-te por tudo o que tens de mais caro no mundo, por teu pai, por tua mãe, por tua ama, que sem dúvida ainda vivem, que me vendas não só o teu touro, mas também a tua pomba, que lhe parece tão afeiçoada. Quanto aos teus outros animais, não os quero; mas sou bem capaz de adoecer de vapores, se não me venderes esse encantador touro branco, que constituirá toda a doçura da minha vida.

A velha beijou-lhe respeitosamente a fímbria do vestido de gaze e disse-lhe:

  • Princesa, o meu touro não está à venda, e o vosso ilustre mago já o sabe. O mais que eu posso fazer por vós é levá-lo a pastar todos os dias nas proximidades de vosso palácio; podereis acariciá-lo, dar-lhe biscoitos, fazê-lo dançar à vontade. Mas é preciso que ele esteja continuamente sob as vistas de todos os animais que me acompanham e que estão encarregados da sua guarda. Se não procurar escapar-se, não lhe farão mal algum; mas ai dele! se tentar romper de novo a corrente, como fez logo que vos avistou. Não responderei então por sua vida. Esse grande peixe que vedes infalivelmente o engoliria, guardando-o por mais de três dias na barriga; ou então essa serpente, que vos pareceu talvez tão branda e amável, poderia dar-lhe uma picada mortal.

O touro branco, que entendia às maravilhas tudo quanto dizia a velha, mas que não podia falar, aceitou todas as suas propostas, com um ar submisso. Deitou-se a seus pés, mugiu docemente; e, contemplando Amaside com ternura, parecia dizer-lhe:

  • Vinde ver-me algumas vezes no prado. A serpente tomou então a palavra, e disse-lhe:
  • Princesa, aconselho-vos a seguirdes cegamente tudo quanto vos diz a senhorita de Endor.

A jumenta também deu sua opinião, que era a mesma da serpente. Amaside afligiu-se com o fato de que aquela serpente e aquela jumenta falassem tão bem, e que um belo touro, que tinha tão nobres e ternos sentimentos, não pudesse exprimi-los.

  • Ah! nada é tão comum na Corte - dizia ela baixinho. - Todos os dias se vêem ali belos senhores que não sabem conversar e feiarrões que falam com segurança.

-.Essa serpente não é pouca coisa - disse Mambrés. - Não vos enganeis. É talvez a pessoa de maior consideração. Caía o crepúsculo; a princesa viu-se obrigada a voltar para casa, mas prometeu que retornaria no dia seguinte ao mesmo local. As damas do palácio estavam maravilhadas e nada compreendiam do que tinham visto e ouvido. Mambrés fazia as suas reflexões. A princesa, considerando que a serpente havia chamado a velha de senhorita, concluiu ao acaso que esta era virgem, e sentiu alguma aflição de ainda o ser: aflição respeitável, que ela ocultava com tanto escrúpulo quanto o nome de seu bem-amado.

CAPÍTULO TERCEIRO

De como a bela Amaside teve uma entrevista secreta com uma bela serpente.

lhes prestar favores, e que não faltaria à entrevista.

O velho mago voltou à princesa com essa boa notícia; mas temia ainda alguma desgraça, e continuava com as suas ponderações.

  • Quereis falar com a serpente, senhora; será quando aprouver à Vossa Alteza. Lembrai-vos, no entanto, que é preciso saber lisonjeá-la; pois todo animal é cheio de amor próprio, e sobretudo a serpente. Dizem que ela foi outrora expulsa de um belo lugar por causa de seu excessivo orgulho.

Nunca ouvi falar nisso.

Acredito-o.

Contou-lhe então o velho todos os rumores que haviam corrido acerca daquela famosa serpente.

  • Mas, seja como for, Alteza, não lhe podereis arrancar o segredo senão lisonjeando-a. Ela passa, num país vizinho, por haver pregado uma terrível peça às mulheres; é justo que, por sua vez, uma mulher a seduza.
  • Farei o possível - disse a princesa.

Partiu pois com as suas damas palacianas e o bom mago eunuco. A velha fazia o touro pastar bastante longe. Mambrés deixou Amaside em liberdade e foi conversar com a sua pitonisa. A dama de honra pôs-se a conversar com a jumenta; as damas de companhia entretiveram-se com o bode, o cão, o corvo e a pomba; quanto ao grande peixe, que metia medo a todo o mundo, mergulhou no Nilo por ordem da velha.

A serpente foi em seguida ao encontro da bela Amaside, no bosque; e mantiveram ambas a seguinte conversação:

A Serpente: - Não imaginais, Senhora, o quanto me lisonjeia a honra que Vossa Alteza se digna conceder-me.

A Princesa: - A vossa grande reputação, a inteligência de vossa fisionomia e o brilho de vossos olhos logo me decidiram a solicitar esta entrevista. Sei, pela voz pública (se ela não é enganadora que fostes uma grande personagem no céu empíreo.

A Serpente: - É verdade, Senhora, que eu ocupava lá uma posição assaz distinta. Dizem que sou um favorito desgraciado: é um rumor que correu a princípio na Índia (2) Os brâmanes foram os primeiros

que apresentaram uma longa história das minhas aventuras. Não duvido que os poetas do Norte façam um dia com esse material um poema épico assaz estranho; pois, na verdade, é só o que se pode fazer. Não estou, porém, tão decaído que ainda não desfrute neste globo um considerável domínio. Quase me atreveria a dizer que toda a terra me pertence.

A Princesa: - Acredito-o, pois dizem que tendes o talento da persuasão; e agradar, é reinar.

A Serpente: - Sinto, Senhora, enquanto vos vejo e vos escuto, que tendes sobre mim esse império que me atribuem sobre tantas outras almas.

A Princesa: - Sabeis vencer amavelmente. Dizem que subjugastes muitas damas, e que começastes por nossa mãe comum, cujo nome esqueci.

A Serpente: - Nada disso: dei-lhe o melhor conselho do mundo. Ela honrava-me com a sua confiança. Eu era de parecer que ela e seu marido deviam provar do fruto da árvore da ciência. Acreditava agradar assim ao senhor das coisas. Uma árvore tão necessária ao gênero humano não me parecia plantada para ficar inútil Desejaria o Senhor ser servido por ignorantes e idiotas? Não é feito o espírito para esclarecer-se e aperfeiçoar-se? Não se deve conhecer o bem e o mal para praticar o primeiro e evitar o segundo? Por certo só me deviam agradecimentos.

A Princesa: - Dizem no entanto que vos saístes mal. Parece que é desde essa época que tantos ministros foram punidos por terem dado bons conselhos, e tantos verdadeiros sábios e grandes gênios foram perseguidos por terem escrito coisas úteis ao gênero humano.

A Serpente: - Decerto foram inimigos meus que vos contaram essas histórias. Andam a assoalhar que estou mal na Corte. Mas uma prova de que ainda tenho grande crédito por lá é que eles próprios confessam que eu entrei no conselho quando se tratou de pôr Job à prova; e que também fui chamado quando se tomou a resolução de enganar a certo reisote por nome Achab (3) ; fui eu o único encarregado

dessa nobre missão.

A Princesa: - Ah! Não creio que vosso espírito seja afeiçoado aos enganos. Mas, já que continuais no ministério, posso fazer-vos um pedido? Espero que uma autoridade tão amável não me há. de repelir...

A Serpente: - Senhora, os vossos pedidos são leis. Que ordenais?

A Princesa: - Conjuro-vos a dizer-me o que vem a ser esse belo touro branco que me inspira sentimentos incompreensíveis que me enternecem e amedrontam. Disseram-me que teríeis a condescendência de esclarecer-me.

A Serpente: - Senhora, a curiosidade é necessária à natureza humana, e principalmente a vosso amável sexo; sem ela, ficar-se-ia vegetando na mais vergonhosa ignorância. Sempre satisfiz, o mais que pude, a curiosidade das damas Acusam-me de não ter tido essa complacência senão para fazer birra ao senhor das coisas. Juro que o meu único objetivo é ser-vos agradável; mas a velha já vos deve ter avisado de que há algum perigo para vós na revelação desse segredo.

A Princesa: - Ah! é isso que me torna ainda mais curiosa.

A Serpente: - Reconheço nessa atitude todas as belas damas a quem prestei serviço.

A Princesa: - Se tendes sensibilidade, se todos os seres se devem mútuo auxilio, se sentis compaixão por uma desgraçada, não me recuseis esse favor.

com essas preciosas lágrimas que o amor faz derramar.

Imagine-se em que surpresa não estariam mergulhadas a dama de honra e as damas de companhia! Logo que chegaram no palácio, contaram toda essa estranha aventura a seus res pectivos namorados, e cada uma com circunstâncias diferentes que lhe aumentavam a singularidade e contribuíam para a variedade de todas as versões.

Logo que Amásis, rei de Tânis, foi informado do caso, seu coração real encheu-se de justa cólera. Tal foi a indignação de Minos quando soube que sua filha Pasifaé prodigava seus ternos favores ao pai do Minotauro. Assim estremeceu Juno quando viu o seu esposo Júpiter acariciar a bela vaca Io, filha do rio Ínaco. Amásis mandou encerrar a bela Amaside em seu quarto e pôs-lhe à porta uma guarda de eunucos negros; depois convocou o conselho secreto.

Presidia-o o grande mágico Mambrés, mas já não tinha o mesmo crédito de outrora. Todos os ministros de Estado concluíram que o touro branco era um feiticeiro. Dava-se exatamente o contrário: ele estava enfeitiçado; mas na corte sempre se enganam nesses delicados assuntos.

Foi votado por unanimidade que se devia exorcismar a princesa e sacrificar o touro branco e a velha.

O sábio Mambrés não queria impugnar a decisão do rei e do conselho. Era a ele que competia fazer os exorcismos; podia diferi-los sob um pretexto bastante plausível. Acabava de morrer em Mênfis o deus Ápis. Pois um deus boi morre como qualquer boi. E no Egito não era permitido exorcismar ninguém até que se encontrasse um outro boi para substituir o defunto.

O conselho resolveu esperar, pois, pela nomeação do novo Deus em Mênfis.

O bom velho Mambrés sentia a que perigo se achava exposta a sua querida princesa: sabia quem era o seu apaixonado. As sílabas Nabu, que ela deixara escapar, lhe haviam revelado todo o mistério.

A dinastia (5) de Mênfis pertencia então aos babilônios; conservavam eles esse resto das suas

passadas conquistas, que haviam feito sob o maior rei do mundo, de que Amásis era inimigo mortal. Mambrés tinha necessidade de toda a sua sabedoria para bem se conduzir entre tantas dificuldades. Se o rei Amásis descobrisse quem era o enamorado da princesa, ela estaria morta, jurara ele. O grande, o jovem, o belo rei por quem ela se apaixonara, tinha destronado o seu pai, que só recuperara o reino de Tânis desde que se ignorava, fazia agora uns sete anos, o paradeiro do adorável monarca, o vencedor e ídolo das nações, o terno e generoso apaixonado da encantadora Amaside. Mas, sacrificando o touro, infalivelmente a fariam morrer de dor.

Que poderia fazer Mambrés em tão espinhosas circunstâncias? Vai procurar a princesa, ao sair do conselho, e diz-lhe:

  • Eu vos servirei, minha bela princesa; mas vos cortarão o pescoço, repito-vos, se pronunciardes o nome de vosso amado.

Ah! que me importa o meu pescoço - retruca a bela Amaside - se não posso enlaçar o de Nabuco...?

Meu pai é um homem muito mau! Não só recusou dar-me ao belo príncipe que idolatro, mas declarou-lhe guerra; e, quando foi vencido pelo meu amado, descobriu o segredo de o transformar em boi. Já se viu mais tremenda malícia? Se meu pai não fosse meu pai, eu não sei o que lhe faria.

  • Não foi vosso pai quem lhe pregou essa cruel partida - disse o sábio Mambrés. - Foi um palestino, um de nossos antigos inimigos, um habitante de um pequeno país compreendido na multidão dos Estados que o vosso augusto pretendente dominou para os civilizar. Essas metamorfoses não vos devem surpreender; bem sabeis que eu as fazia outrora muito mais belas: nada era mais comum então do que essas mudanças que espantam hoje os sábios. A história verdadeira que lemos juntos nos ensinou que Licaonte, rei da Arcádia, foi transformado em lobo. A bela Calisto, sua filha, foi transformada em ursa; Io, filha de Ínaco, a nossa venerável Isis em vaca; Dafne, em loureiro; Sirinx, em flauta. A bela Edith. mulher de Loth, o melhor, o mais carinhoso pai que já se viu, não se mudou, em nossas vizinhanças, numa grande estátua de sal muito bela e picante, que conservou todas as características do seu sexo e que tem mensalmente as suas regras (6), como o atestam os grandes homens que a viram? Fui testemunha

dessa transformação, em minha juventude. Vi cinco poderosas cidades, no local mais seco e árido do mundo, mudadas de súbito em um belo lago. Ah! quando eu era moço, só se andava sobre metamorfoses. Enfim, Senhora, se os exemplos podem abrandar as vossas penas, lembrai-vos de que Vênus transformou os Cerastes em bois.

  • Eu sei - murmurou a infeliz princesa. - mas quem disse que os exemplos consolam? Se o meu amado estivesse morto, acaso me consolaria a idéia de que todos os homens morrem?
  • A vossa pena pode findar - disse o sábio, - e já que o vosso amado se transformou em boi, bem compreendeis que, de boi, poderá transformar-se em homem. Quanto a mim, deveria ser transformado em tigre ou em crocodilo, se não empregasse o pouco de poder que me resta a serviço de uma princesa digna das adorações da terra, a bela Amaside, a quem criei sobre os meus joelhos, e cujo fatal destino a submete a tão cruéis provações.

CAPÍTULO QUINTO

De como o sábio Mambrés sabiamente se conduziu.

Tendo dito à princesa tudo o que deveria dizer-lhe para a consolar, sem que aliás o conseguisse, o divino Mambrés foi imediatamente falar com a velha.

  • Minha camarada - começou ele, - belo é o nosso ofício, mas assaz perigoso: correis o risco de ser enforcada, e o vosso boi de ser queimado, ou afogado ou comido. Não sei o que farão dos outros animais, pois, embora profeta, de poucas coisas sou sabedor. Mas ocultai com todo o cuidado a serpente e o peixe; que um não ponha a cabeça fora d'água, e o outro não saia do seu buraco. Alojarei o boi em um dos meus estábulos no campo; ali ficareis com ele, pois afirmais que não vos é permitido abandoná-lo. O bode emissário poderá oportunamente servir de bode expiatório; nós o enviaremos para o deserto, carregado dos pecados da tropa: está acostumado a - essa cerimônia, que não lhe faz mal nenhum; e é sabido que tudo se expia com um bode que passeia. Peço-vos apenas que me empresteis desde já o cão de Tobias, que é um lebrel muito ágil, a jumenta de Balaão, que corre mais que um dromedário; o corvo e a pomba
  • Sei com que fidelidade serviste a meu confrade Balaão; serve-me agora da mesma forma. Não há onocrótalo que te iguale na corrida; vai, minha amiga, entrega a minha carta em mão própria e regressa logo.
  • Como servi a Balaão - respondeu a jumenta, - servirei a monsenhor: vou e volto.

O sábio lhe pôs o estojo de ébano na boca e ela partiu como um raio.

Mandou depois chamar o cão de Tobias e disse-lhe: - Cão fiel, e mais veloz na corrida do que Aquiles dos pés rápidos, eu sei o que fizeste por Tobias, filho de Tobias, quando tu e o anjo Rafael o acompanhaste a de Nínive a Ragés, na Média, e de Ragés a Nínive, e quando ele trouxe a seu pai dez talentos (8) que o escravo Tobias pai emprestara ao escravo Gabelus; pois aqueles escravos eram muito

ricos.

Entrega a seu destinatário esta carta minha, que é mais preciosa do que dez talentos de prata.

  • Senhor - respondeu-lhe o cão, - se eu segui outrora o mensageiro Rafael, posso igualmente desincumbir-me de vosso recado. Mambrés lhe pôs a carta na boca. E falou da mesma forma à pomba. Esta lhe respondeu:

Senhor, se eu trouxe um ramo para a arca, igualmente trarei resposta à. vossa carta.

Tomou a carta no bico. E os três, num instante, perderam-se de vista. Depois disse ele ao corvo:

  • Sei que alimentaste o grande profeta Elias (9), quando ele estava oculto junto ao Cárites, tão famoso

em toda a terra. Todos os dias tu lhe levavas bom pão e galinhas gordas; só te peço que leves esta carta a Mênfis.

O corvo respondeu-lhe nos seguintes termos:

  • É verdade, senhor, que eu levava diariamente comida ao grande profeta Elias, o tesbita, a quem vi subir na atmosfera sobre um carro de fogo puxado por quatro cavalos de fogo, embora não seja esse o costume; mas eu sempre ficava cm metade do almoço para mim. Estou disposto a levar vossa carta, contanto que me assegureis duas boas refeições por dia e que meu serviço seja pago à vista, adiantadamente.

Mambrés, fulo de raiva, disse ao animal:

  • Que glutão e velhaco me saíste! Não me admira que Apolo, de branco que eras como um cisne, te haja tornado negro como uma toupeira, quando, nas planícies de Tessália, traíste a bela Corônis, infeliz mãe de Esculápio. Dize-me uma coisa: comias diariamente lombo de vaca e frangos, durante os dez meses em que estiveste na arca?
  • Senhor, nós ali passávamos muito bem - retrucou o corvo. - Serviam assado duas vezes por dia a

todos os voláteis da minha espécie, que só vivem de caça, como abutres, milhafres, águias, bútios, duques, gaviões, falcões, corujas, e à inumerável multidão das aves de rapina. Com muito maior profusão guarneciam a mesa dos leões, dos leopardos, dos tigres, das panteras, das onças, das hienas, dos lobos, doa ursos, das raposas, das fuinhas, e de todos os quadrúpedes carnívoros. Havia na arca oito pessoas importantes, e as únicas que então existiam no mundo, incessantemente ocupadas com a nossa mesa e a limpeza das nossas privadas, a saber: Noé e sua mulher, que não tinham mais de seiscentos anos, e seus três filhos com as respectivas esposas. Era um gosto ver com que cuidado, com que asseio, os nossos oito criados atendiam a mais de quatro mil comensais do mais voraz apetite, sem contar o prodigioso trabalho que exigiam outras dez a doze mil criaturas, desde o elefante e a girafa aos bichos de seda e às moscas. O que me espanta é que o nosso despenseiro Noé seja desconhecido de todas as nações de que ele é o tronco; mas isso pouco me importa. Já estive em festa semelhante (10) com o rei Xisutra da Trácia. Essas

coisas acontecem de tempos em tempos para edificação dos corvos. Numa palavra, quero passar bem e ser muito bem pago, em dinheiro à vista.

O sábio Mambrés desistiu de entregar sua carta a um animal tão difícil de contentar e tão tagarela. - Separaram-se muito descontentes um com o outro.

Era preciso no entanto saber o que era feito do belo touro e não perder a pista da velha e da serpente. Mambrés ordenou a criados inteligentes e fiéis que os seguissem; quanto a ele, avançou de liteira para as margens do Nilo, sempre absorto em suas reflexões.

Como pode ser (dizia consigo) que essa serpente domine quase toda a terra, como ela própria alardeia e tantos eruditos confessam, e no entanto obedeça a uma velha? Como se explica que seja às vezes convocada para o conselho das alturas, quando vive a rastejar na terra? Por que, por sua única virtude, entra diariamente no corpo das pessoas, de onde tantos sábios procuram desalojá-la com palavras. Enfim, como passa, entre um pequeno povo da vizinhança, por haver perdido o gênero humano, e como é que o gênero humano nada sabe a esse respeito? Estou muito velho, estudei durante a vida inteira, e vejo nisso uma porção de incompatibilidades que não posso conciliar. Não saberia explicar o que aconteceu a mim mesmo, nem as grandes coisas que fiz outrora, nem aquelas de que fui testemunha. Pensando bem, começo a suspeitar que este mundo subsiste à custa de contradições: Rerum concordia discors, como outrora dizia na sua língua o meu velho mestre Zoroastro.

Enquanto se achava mergulhado nessa metafísica obscura, como o é toda metafísica, um barqueiro, cantando uma canção de taberna, fez atracar à margem um pequeno barco. Dele saíram três graves personagens, semivestidos de trapos sujos, mas que conservavam, sob aquela indumentária de miséria, o ar mais augusto e majestoso do mundo. Eram Daniel, Ezequiel e Jeremias.

CAPÍTULO SEXTO

De como Mambrés encontrou três profetas e lhes ofereceu um bom almoço.

Esses três grandes homens, que tinham na face a luz profética, reconheceram o sábio Mambrés como um de seus confrades, pelos poucos raios dessa mesma luz que ainda lhe restavam, e prosternaram-se diante do seu palanquim. Mambrés também os reconheceu como profetas, mais pela sua indumentária do

  • A propósito - disse Mambrés, - explicai-me o que entendeis pelo vosso Oolla e o vosso Ooliba, que tanto se preocupavam com cavalos e burros.
  • Ah! - respondeu Ezequiel, - são flores de retórica.

Após essas expansões, Mambrés falou de negócios. Perguntou aos três peregrinos por que tinham vindo aos Estados do rei de Tânis. Daniel tomou a palavra: disse que o reino de Babilônia ficara em polvorosa após o desaparecimento de Nabucodonosor; que haviam perseguido todos os profetas, segundo o costume da Corte; que eles, profetas, passavam a existência ora vendo reis a seus pés, ora recebendo açoites; que enfim tinham sido obrigados a refugiar-se no Egito, para não ser lapidados. Ezequiel e Jeremias também falaram, longamente, num belíssimo estilo, que mal se podia compreender. Quanto à pitonisa, trazia sempre o seu animal de olho. O peixe de Jonas mantinha-se no Nilo, defronte à tenda, e a serpente espairecia sobre a relva. Depois do café, foram passear à margem do Nilo. Então o touro branco, avistando os profetas seus inimigos, soltou terríveis mugidos; lançou-se impetuosamente sobre eles, com os cornos em riste; e, como os profetas nunca tiveram mais que pele e osso, fatalmente os teria atravessado de um lado a outro, tirando-lhes a vida; mas o Senhor das coisas, que vê tudo e a tudo remedeia, transformou-os imediatamente em gralhas, e eles continuaram a falar como dantes.

A mesma coisa aconteceu depois às Piérides, de tal modo a fábula imita a história.

Esse, novo incidente provocava novas reflexões no espírito do sábio Mambrés.

Eis, pois, (dizia ele consigo) três grandes profetas transformados em gralhas; isto nos deve ensinar a não falar demais e a guardar sempre uma conveniente discrição.

Concluía que a sabedoria vale mais que a eloqüência e meditava profundamente, segundo o seu costume, quando um grande e terrível espetáculo lhe ofuscou os olhos.

CAPÍTULO SÉTIMO

Chega o rei de Tânis. Sua filha e o touro vão ser sacrificados.

Turbilhões de poeira erguiam-se de sul a norte. Ouvia-se o ruído dos tambores, das trombetas, dos pífanos, dos saltérios, das citaras, dos sambucos; vários esquadrões com vários batalhões avançavam, e Amásis, rei de Tânis, vinha à sua frente, num cavalo coberto de um xairel escarlate recamado a ouro; e os arautos gritavam:

  • "Que apanhem o touro branco, que o amarrem, que o lancem ao Nilo, e que o dêem de comer ao peixe de Jonas: pois o rei meu senhor, que é justo, quer vingar-se do touro branco, que enfeitiçou a sua filha."

O bom velho Mambrés fez mais reflexões do que nunca. Compreendeu que o perverso corvo fora contar tudo ao rei e que a princesa corria o risco de lhe cortarem o pescoço. Disse então à serpente:

  • Corre a consolar a bela Amaside; dize-lhe que não tema coisa alguma, haja o que houver, e conta-lhe histórias distrair suas penas, pois as histórias sempre divertem as moças, e é com histórias que a gente vence na vida.

Depois prosternou-se diante de Amásis, rei de Tânis, e disse-lhe:

  • Ó rei! que vivas para sempre. O touro branco deve ser sacrificado, pois Vossa Majestade tem sempre razão, mas o Senhor das coisas disse: Esse touro só deve ser comido pelo peixe de Jonas depois que Mênfis houver encontrado um deus para colocar no lugar do seu deus que é morto. Então sereis vingado, e vossa filha exorcismada, pois ela está possessa. Tendes bastante religião para não obedecer às ordens do Senhor das coisas.

Amásis, rei de Tânis, ficou pensativo; depois disse:

  • É morto o boi Ápis; que Deus lhe tenha a alma! Quando acreditais que se possa achar outro boi para reinar sobre fecundo Egito?
  • Sire - disse Mambrés, - não vos peço mais que oito dias.

O rei, que era muito devoto, disse:

  • Concedo-os, e quero permanecer aqui esses oito dias; após o que, sacrificarei o sedutor de minha filha.

E mandou vir suas tendas, seus cozinheiros, seus músicos, e permaneceu oito dias naquele local, como está escrito em Manethon.

A velha desesperava-se por ver que o touro a que guardava não tinha mais que oito dias de vida. Todas as noites, fazia ela aparecerem fantasmas ao rei, para o desviar de seu cruel desígnio. Mas o rei, pela manhã, não se lembrava mais dos fantasmas que vira à noite, da mesma forma que Nabucodonosor esquecera os seus sonhos.

CAPÍTULO OITAVO

De como a serpente contou histórias à princesa, para a consolar.

E a serpente contava histórias à bela Amaside, para acalmar seus sofrimentos. Dizia-lhe como curara outrora um povo inteiro da mordedura de certas pequenas cobras, apenas mostrando-se na extremidade de um bastão. Narrava-lhe as conquistas do herói que fez tão belo contraste com Anfião, arquiteto de Tebas, na Beócia. Esse Anfião fazia amontoarem-se as pedras de cantaria ao som do violino: bastava-lhe um rigodão ou um minuete para construir uma cidade; mas o outro as destruía ao som de uma corneta de chifre; mandou enforcar trinta e um poderosos reis num cantão de dezesseis léguas quadradas; fez chover grandes pedras do céu sobre um batalhão de inimigos que lhe fugiam; e, tendo-os assim exterminado, fez