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O touro branco - Voltaire
Tipologia: Notas de estudo
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Traduzido do siríaco pelo senhor Mamaki, intérprete do Rei da Inglaterra para as línguas orientais
APRESENTAÇÃO
BIOGRAFIA DO AUTOR
CAPÍTULO PRIMEIRO De como a princesa Amaside encontra um boi
CAPÍTULO SEGUNDO De como o sábio Mambrés, antigo feiticeiro do Faraó reconheceu uma velha, e como foi por ela reconhecido.
CAPÍTULO TERCEIRO De como a bela Amaside teve uma entrevista secreta com uma bela serpente.
CAPÍTULO QUARTO De como quiseram sacrificar o boi e exorcismar a princesa.
CAPÍTULO QUINTO De como o sábio Mambrés sabiamente se conduziu.
CAPÍTULO SEXTO De como Mambrés encontrou três profetas e lhes ofereceu um bom almoço.
CAPÍTULO SÉTIMO Chega o rei de Tânis. Sua filha e o touro vão ser sacrificados.
CAPÍTULO OITAVO De como a serpente contou histórias à princesa, para a consolar.
CAPÍTULO NONO De como a serpente não a consolou.
CAPÍTULO DÉCIMO De como quiseram cortar o pescoço à princesa, e de como lho não cortaram.
CAPÍTULO UNDÉCIMO De como a princesa desposou o seu boi.
NOTAS
Nélson Jahr Garcia
Não se conhece muito bem a intenção de Voltaire ao escrever "O Touro Branco". Há hipóteses: plausíveis, lógicas, mas hipóteses. Uma delas sugere que tenha se inspirado em lendas orientais a respeito da metamorfose animal. A mais provável, já que Voltaire sempre se interessou por religiões e mitos, é de que ele teria coletado, dentre os mitos religiosos orientais, aqueles em que os homens entrassem em contato com aos animais, mesclando-os com outros. Reuniu, assim, numa comédia animal, a serpente do paraíso, o asno de Balaão, a baleia de Jonas com as divindades do Egito, igualmente relacionadas a animais, especialmente o touro-rei. Mas é o mesmo e inconfundível Voltaire, com seu conhecimento da alma humana, a filosofia profunda e a ironia impecável. Não é tão irreverente como em outras obras, mas parece não ter resisitido a sê-lo em algumas oportunidades: A serpente do paraíso, contestando a sua condenação, retruca:
Nada disso: dei-lhe o melhor conselho do mundo. Ela honrava-me com a sua confiança. Eu era de parecer que ela e seu marido deviam provar do fruto da árvore da ciência. Acreditava agradar assim ao senhor das coisas. Uma árvore tão necessária ao gênero humano não me parecia plantada para ficar inútil. Desejaria o Senhor ser servido por ignorantes e idiotas? Não é feito o espírito para esclarecer-se e aperfeiçoar-se? Não se deve conhecer o bem e o mal para praticar o primeiro e evitar o segundo? Por certo só me deviam agradecimentos.
em particular por Chaulieu e pelo marquês de la Fare, publicou seus primeiros versos. Em 1717, acusado de ser o autor de um panfleto político, foi preso e encarcerado na Bastilha, de onde saiu seis meses depois, com a Henriade quase terminada e com o esboço do OEdipe. Foi por essa ocasião que ele resolveu adotar o nome de Voltaire. Sua tragédia OEdipe foi representada em 1719 com grande êxito; nos anos seguintes, vieram: Artemise (1720), Marianne (1725) e o Indiscret (1725).
Em 1726, em conseqüência de um incidente com o cavaleiro de Rohan, foi novamente recolhido à Bastilha, de onde só pode sair sob a condição de deixar a França. Foi então para a Inglaterra e aí se dedicou ao estudo da língua e da literatura inglesas. Três anos mais tarde, regressou e publicou Brutus (1730), Eriphyle (1732), Zaïre (1732), La Mort de César (1733) e Adélaïde Duguesclin (1734). Datam da mesma época suas Lettres Philosophiques ou Lettres Anglaises, que provocaram grande escândalo e obrigaram a refugiar-se em Lorena, no castelo de Madame du Châtelet, em cuja companhia viveu até
Sem poder fixar-se em parte alguma, esteve sucessivamente em Estrasburgo, Colmar, Lyon, Genebra, Nantua; em 1758, adquiriu o domínio de Ferney, na província de Gex e aí passou, então, a residir em companhia de sua sobrinha Madame Denis. Foi durante os vinte anos que assim viveu, cheio de glória e de amigos, que redigiu Candide, Histoire de la Russie sous Pierre le Grand, Histoire du Parlement de Paris, etc., sem contar numerosas peças teatrais.
Em 1778, em sua viagem a Paris, foi entusiasticamente recebido. Morreu no dia 30 de março desse mesmo ano, aos 84 anos de idade.
De como a princesa Amaside encontra um boi.
A jovem princesa Amaside, filha de Amásis, rei de Tânis, no Egito, passeava pela estrada de Pelusa com as damas do seu séquito. Estava mergulhada em profunda tristeza; as lágrimas corriam de seus belos olhos. Sabe-se qual o motivo do seu sofrimento e como temia ela desagradar ao rei seu pai com esse mesmo sofrimento. Achava-se em sua companhia o velho Mambrés, antigo mago e eunuco dos faraós, e que não a deixava quase nunca. Vira-a nascer, educara-a, ensinara-lhe tudo o que a uma bela princesa é permitido saber das ciências do Egito. O espírito de Amaside igualava-se à sua bondade; ela era tão sensível, tão terna como encantadora; e era essa sensibilidade que lhe custava tantas lágrimas.
A princesa tinha vinte e quatro anos de idade; o mago Mambrés tinha cerca de mil e trezentos anos. Fora ele, como é sabido, quem sustentara com o grande Moisés aquela famosa disputa na qual a vitória esteve por longo tempo pendente entre os dois profundos filósofos. Se Mambrés sucumbiu, foi unicamente devido à visível intervenção das potências celestes, que favoreceram o seu rival; só mesmo
deuses, para vencer Mambrés.
Amásis o nomeara superintendente da casa de sua filha, e ele se desincumbia dessas funções com a sua ordinária sabedoria. A bela Amaside enternecia-o com seus suspiros.
A bela Amaside chorou e não falou mais.
Como se dirigisse em silêncio para as margens do Nilo, avistou de longe, junto a um bosque banhado pelo rio, uma velha coberta de farrapos, sentada sobre um cômoro. Tinha junto a si uma jumenta, um cão e um bode. A frente dela estava uma serpente que não era como as serpentes ordinárias, pois seus olhos eram tão ternos como animados; sua fisionomia era tão nobre como atraente; sua pele brilhava com as mais vivas e agradáveis cores. Um enorme peixe, mergulhado a meio no rio, não era a menos admirável pessoa da companhia. Havia sobre um ramo um corvo e uma pomba. Todas essas criaturas pareciam empenhadas em animada conversação.
A velha segurava uma leve corrente de aço, de umas cem braças de comprimento, à qual se achava atado um touro que pastava no campo. Esse touro era branco, bem torneado, elegante de linhas, leve até, o que é bastante raro. Seus cornos eram de marfim. Era o que de mais belo já se vira na sua espécie. O de Pasifaé, e aquele cuja figura tomou Júpiter para raptar Europa, não se aproximavam sequer do soberbo animal. Apenas a encantadora novilha em que fora transformada Isis seria, quando muito, digna dele.
Mal viu a princesa, correu para ela com a rapidez de um cavalo árabe que franqueia as vastas planícies e os rios do antigo Saara para se aproximar da brilhante égua que reina no seu coração e que o faz erguer as orelhas. A velha fazia esforços por detê-lo, a serpente parecia querer espantá-lo com seus silvos; o cão o seguia, mordendo-lhe as belas pernas; a jumenta atravessava-se-lhe no caminho e dava-lhe coices para o fazer voltar. O grande peixe remontava o Nilo, e, lançando-se fora d'água, ameaçava devorá-lo; o corvo adejava em torno da cabeça do touro, como se quisesse vazar-lhe os olhos. Só a pomba o acompanhava
A velha recolheu-se um momento, ergueu os olhos ao céu, depois respondeu nos seguintes termos:
Mambrés escutava com respeito. Depois disse:
Enquanto pronunciava estas últimas palavras, a princesa puxou-lhe a manga, indagando:
O mago, mergulhado em profunda cisma, nada respondeu, e Amaside pôs-se a chorar.
Dirigiu-se então à pitonisa, dizendo-lhe:
A velha beijou-lhe respeitosamente a fímbria do vestido de gaze e disse-lhe:
O touro branco, que entendia às maravilhas tudo quanto dizia a velha, mas que não podia falar, aceitou todas as suas propostas, com um ar submisso. Deitou-se a seus pés, mugiu docemente; e, contemplando Amaside com ternura, parecia dizer-lhe:
A jumenta também deu sua opinião, que era a mesma da serpente. Amaside afligiu-se com o fato de que aquela serpente e aquela jumenta falassem tão bem, e que um belo touro, que tinha tão nobres e ternos sentimentos, não pudesse exprimi-los.
-.Essa serpente não é pouca coisa - disse Mambrés. - Não vos enganeis. É talvez a pessoa de maior consideração. Caía o crepúsculo; a princesa viu-se obrigada a voltar para casa, mas prometeu que retornaria no dia seguinte ao mesmo local. As damas do palácio estavam maravilhadas e nada compreendiam do que tinham visto e ouvido. Mambrés fazia as suas reflexões. A princesa, considerando que a serpente havia chamado a velha de senhorita, concluiu ao acaso que esta era virgem, e sentiu alguma aflição de ainda o ser: aflição respeitável, que ela ocultava com tanto escrúpulo quanto o nome de seu bem-amado.
De como a bela Amaside teve uma entrevista secreta com uma bela serpente.
lhes prestar favores, e que não faltaria à entrevista.
O velho mago voltou à princesa com essa boa notícia; mas temia ainda alguma desgraça, e continuava com as suas ponderações.
Nunca ouvi falar nisso.
Acredito-o.
Contou-lhe então o velho todos os rumores que haviam corrido acerca daquela famosa serpente.
Partiu pois com as suas damas palacianas e o bom mago eunuco. A velha fazia o touro pastar bastante longe. Mambrés deixou Amaside em liberdade e foi conversar com a sua pitonisa. A dama de honra pôs-se a conversar com a jumenta; as damas de companhia entretiveram-se com o bode, o cão, o corvo e a pomba; quanto ao grande peixe, que metia medo a todo o mundo, mergulhou no Nilo por ordem da velha.
A serpente foi em seguida ao encontro da bela Amaside, no bosque; e mantiveram ambas a seguinte conversação:
A Serpente: - Não imaginais, Senhora, o quanto me lisonjeia a honra que Vossa Alteza se digna conceder-me.
A Princesa: - A vossa grande reputação, a inteligência de vossa fisionomia e o brilho de vossos olhos logo me decidiram a solicitar esta entrevista. Sei, pela voz pública (se ela não é enganadora que fostes uma grande personagem no céu empíreo.
A Serpente: - É verdade, Senhora, que eu ocupava lá uma posição assaz distinta. Dizem que sou um favorito desgraciado: é um rumor que correu a princípio na Índia (2) Os brâmanes foram os primeiros
que apresentaram uma longa história das minhas aventuras. Não duvido que os poetas do Norte façam um dia com esse material um poema épico assaz estranho; pois, na verdade, é só o que se pode fazer. Não estou, porém, tão decaído que ainda não desfrute neste globo um considerável domínio. Quase me atreveria a dizer que toda a terra me pertence.
A Princesa: - Acredito-o, pois dizem que tendes o talento da persuasão; e agradar, é reinar.
A Serpente: - Sinto, Senhora, enquanto vos vejo e vos escuto, que tendes sobre mim esse império que me atribuem sobre tantas outras almas.
A Princesa: - Sabeis vencer amavelmente. Dizem que subjugastes muitas damas, e que começastes por nossa mãe comum, cujo nome esqueci.
A Serpente: - Nada disso: dei-lhe o melhor conselho do mundo. Ela honrava-me com a sua confiança. Eu era de parecer que ela e seu marido deviam provar do fruto da árvore da ciência. Acreditava agradar assim ao senhor das coisas. Uma árvore tão necessária ao gênero humano não me parecia plantada para ficar inútil Desejaria o Senhor ser servido por ignorantes e idiotas? Não é feito o espírito para esclarecer-se e aperfeiçoar-se? Não se deve conhecer o bem e o mal para praticar o primeiro e evitar o segundo? Por certo só me deviam agradecimentos.
A Princesa: - Dizem no entanto que vos saístes mal. Parece que é desde essa época que tantos ministros foram punidos por terem dado bons conselhos, e tantos verdadeiros sábios e grandes gênios foram perseguidos por terem escrito coisas úteis ao gênero humano.
A Serpente: - Decerto foram inimigos meus que vos contaram essas histórias. Andam a assoalhar que estou mal na Corte. Mas uma prova de que ainda tenho grande crédito por lá é que eles próprios confessam que eu entrei no conselho quando se tratou de pôr Job à prova; e que também fui chamado quando se tomou a resolução de enganar a certo reisote por nome Achab (3) ; fui eu o único encarregado
dessa nobre missão.
A Princesa: - Ah! Não creio que vosso espírito seja afeiçoado aos enganos. Mas, já que continuais no ministério, posso fazer-vos um pedido? Espero que uma autoridade tão amável não me há. de repelir...
A Serpente: - Senhora, os vossos pedidos são leis. Que ordenais?
A Princesa: - Conjuro-vos a dizer-me o que vem a ser esse belo touro branco que me inspira sentimentos incompreensíveis que me enternecem e amedrontam. Disseram-me que teríeis a condescendência de esclarecer-me.
A Serpente: - Senhora, a curiosidade é necessária à natureza humana, e principalmente a vosso amável sexo; sem ela, ficar-se-ia vegetando na mais vergonhosa ignorância. Sempre satisfiz, o mais que pude, a curiosidade das damas Acusam-me de não ter tido essa complacência senão para fazer birra ao senhor das coisas. Juro que o meu único objetivo é ser-vos agradável; mas a velha já vos deve ter avisado de que há algum perigo para vós na revelação desse segredo.
A Princesa: - Ah! é isso que me torna ainda mais curiosa.
A Serpente: - Reconheço nessa atitude todas as belas damas a quem prestei serviço.
A Princesa: - Se tendes sensibilidade, se todos os seres se devem mútuo auxilio, se sentis compaixão por uma desgraçada, não me recuseis esse favor.
com essas preciosas lágrimas que o amor faz derramar.
Imagine-se em que surpresa não estariam mergulhadas a dama de honra e as damas de companhia! Logo que chegaram no palácio, contaram toda essa estranha aventura a seus res pectivos namorados, e cada uma com circunstâncias diferentes que lhe aumentavam a singularidade e contribuíam para a variedade de todas as versões.
Logo que Amásis, rei de Tânis, foi informado do caso, seu coração real encheu-se de justa cólera. Tal foi a indignação de Minos quando soube que sua filha Pasifaé prodigava seus ternos favores ao pai do Minotauro. Assim estremeceu Juno quando viu o seu esposo Júpiter acariciar a bela vaca Io, filha do rio Ínaco. Amásis mandou encerrar a bela Amaside em seu quarto e pôs-lhe à porta uma guarda de eunucos negros; depois convocou o conselho secreto.
Presidia-o o grande mágico Mambrés, mas já não tinha o mesmo crédito de outrora. Todos os ministros de Estado concluíram que o touro branco era um feiticeiro. Dava-se exatamente o contrário: ele estava enfeitiçado; mas na corte sempre se enganam nesses delicados assuntos.
Foi votado por unanimidade que se devia exorcismar a princesa e sacrificar o touro branco e a velha.
O sábio Mambrés não queria impugnar a decisão do rei e do conselho. Era a ele que competia fazer os exorcismos; podia diferi-los sob um pretexto bastante plausível. Acabava de morrer em Mênfis o deus Ápis. Pois um deus boi morre como qualquer boi. E no Egito não era permitido exorcismar ninguém até que se encontrasse um outro boi para substituir o defunto.
O conselho resolveu esperar, pois, pela nomeação do novo Deus em Mênfis.
O bom velho Mambrés sentia a que perigo se achava exposta a sua querida princesa: sabia quem era o seu apaixonado. As sílabas Nabu, que ela deixara escapar, lhe haviam revelado todo o mistério.
A dinastia (5) de Mênfis pertencia então aos babilônios; conservavam eles esse resto das suas
passadas conquistas, que haviam feito sob o maior rei do mundo, de que Amásis era inimigo mortal. Mambrés tinha necessidade de toda a sua sabedoria para bem se conduzir entre tantas dificuldades. Se o rei Amásis descobrisse quem era o enamorado da princesa, ela estaria morta, jurara ele. O grande, o jovem, o belo rei por quem ela se apaixonara, tinha destronado o seu pai, que só recuperara o reino de Tânis desde que se ignorava, fazia agora uns sete anos, o paradeiro do adorável monarca, o vencedor e ídolo das nações, o terno e generoso apaixonado da encantadora Amaside. Mas, sacrificando o touro, infalivelmente a fariam morrer de dor.
Que poderia fazer Mambrés em tão espinhosas circunstâncias? Vai procurar a princesa, ao sair do conselho, e diz-lhe:
Ah! que me importa o meu pescoço - retruca a bela Amaside - se não posso enlaçar o de Nabuco...?
Meu pai é um homem muito mau! Não só recusou dar-me ao belo príncipe que idolatro, mas declarou-lhe guerra; e, quando foi vencido pelo meu amado, descobriu o segredo de o transformar em boi. Já se viu mais tremenda malícia? Se meu pai não fosse meu pai, eu não sei o que lhe faria.
dessa transformação, em minha juventude. Vi cinco poderosas cidades, no local mais seco e árido do mundo, mudadas de súbito em um belo lago. Ah! quando eu era moço, só se andava sobre metamorfoses. Enfim, Senhora, se os exemplos podem abrandar as vossas penas, lembrai-vos de que Vênus transformou os Cerastes em bois.
De como o sábio Mambrés sabiamente se conduziu.
Tendo dito à princesa tudo o que deveria dizer-lhe para a consolar, sem que aliás o conseguisse, o divino Mambrés foi imediatamente falar com a velha.
O sábio lhe pôs o estojo de ébano na boca e ela partiu como um raio.
Mandou depois chamar o cão de Tobias e disse-lhe: - Cão fiel, e mais veloz na corrida do que Aquiles dos pés rápidos, eu sei o que fizeste por Tobias, filho de Tobias, quando tu e o anjo Rafael o acompanhaste a de Nínive a Ragés, na Média, e de Ragés a Nínive, e quando ele trouxe a seu pai dez talentos (8) que o escravo Tobias pai emprestara ao escravo Gabelus; pois aqueles escravos eram muito
ricos.
Entrega a seu destinatário esta carta minha, que é mais preciosa do que dez talentos de prata.
Senhor, se eu trouxe um ramo para a arca, igualmente trarei resposta à. vossa carta.
Tomou a carta no bico. E os três, num instante, perderam-se de vista. Depois disse ele ao corvo:
em toda a terra. Todos os dias tu lhe levavas bom pão e galinhas gordas; só te peço que leves esta carta a Mênfis.
O corvo respondeu-lhe nos seguintes termos:
Mambrés, fulo de raiva, disse ao animal:
todos os voláteis da minha espécie, que só vivem de caça, como abutres, milhafres, águias, bútios, duques, gaviões, falcões, corujas, e à inumerável multidão das aves de rapina. Com muito maior profusão guarneciam a mesa dos leões, dos leopardos, dos tigres, das panteras, das onças, das hienas, dos lobos, doa ursos, das raposas, das fuinhas, e de todos os quadrúpedes carnívoros. Havia na arca oito pessoas importantes, e as únicas que então existiam no mundo, incessantemente ocupadas com a nossa mesa e a limpeza das nossas privadas, a saber: Noé e sua mulher, que não tinham mais de seiscentos anos, e seus três filhos com as respectivas esposas. Era um gosto ver com que cuidado, com que asseio, os nossos oito criados atendiam a mais de quatro mil comensais do mais voraz apetite, sem contar o prodigioso trabalho que exigiam outras dez a doze mil criaturas, desde o elefante e a girafa aos bichos de seda e às moscas. O que me espanta é que o nosso despenseiro Noé seja desconhecido de todas as nações de que ele é o tronco; mas isso pouco me importa. Já estive em festa semelhante (10) com o rei Xisutra da Trácia. Essas
coisas acontecem de tempos em tempos para edificação dos corvos. Numa palavra, quero passar bem e ser muito bem pago, em dinheiro à vista.
O sábio Mambrés desistiu de entregar sua carta a um animal tão difícil de contentar e tão tagarela. - Separaram-se muito descontentes um com o outro.
Era preciso no entanto saber o que era feito do belo touro e não perder a pista da velha e da serpente. Mambrés ordenou a criados inteligentes e fiéis que os seguissem; quanto a ele, avançou de liteira para as margens do Nilo, sempre absorto em suas reflexões.
Como pode ser (dizia consigo) que essa serpente domine quase toda a terra, como ela própria alardeia e tantos eruditos confessam, e no entanto obedeça a uma velha? Como se explica que seja às vezes convocada para o conselho das alturas, quando vive a rastejar na terra? Por que, por sua única virtude, entra diariamente no corpo das pessoas, de onde tantos sábios procuram desalojá-la com palavras. Enfim, como passa, entre um pequeno povo da vizinhança, por haver perdido o gênero humano, e como é que o gênero humano nada sabe a esse respeito? Estou muito velho, estudei durante a vida inteira, e vejo nisso uma porção de incompatibilidades que não posso conciliar. Não saberia explicar o que aconteceu a mim mesmo, nem as grandes coisas que fiz outrora, nem aquelas de que fui testemunha. Pensando bem, começo a suspeitar que este mundo subsiste à custa de contradições: Rerum concordia discors, como outrora dizia na sua língua o meu velho mestre Zoroastro.
Enquanto se achava mergulhado nessa metafísica obscura, como o é toda metafísica, um barqueiro, cantando uma canção de taberna, fez atracar à margem um pequeno barco. Dele saíram três graves personagens, semivestidos de trapos sujos, mas que conservavam, sob aquela indumentária de miséria, o ar mais augusto e majestoso do mundo. Eram Daniel, Ezequiel e Jeremias.
De como Mambrés encontrou três profetas e lhes ofereceu um bom almoço.
Esses três grandes homens, que tinham na face a luz profética, reconheceram o sábio Mambrés como um de seus confrades, pelos poucos raios dessa mesma luz que ainda lhe restavam, e prosternaram-se diante do seu palanquim. Mambrés também os reconheceu como profetas, mais pela sua indumentária do
Após essas expansões, Mambrés falou de negócios. Perguntou aos três peregrinos por que tinham vindo aos Estados do rei de Tânis. Daniel tomou a palavra: disse que o reino de Babilônia ficara em polvorosa após o desaparecimento de Nabucodonosor; que haviam perseguido todos os profetas, segundo o costume da Corte; que eles, profetas, passavam a existência ora vendo reis a seus pés, ora recebendo açoites; que enfim tinham sido obrigados a refugiar-se no Egito, para não ser lapidados. Ezequiel e Jeremias também falaram, longamente, num belíssimo estilo, que mal se podia compreender. Quanto à pitonisa, trazia sempre o seu animal de olho. O peixe de Jonas mantinha-se no Nilo, defronte à tenda, e a serpente espairecia sobre a relva. Depois do café, foram passear à margem do Nilo. Então o touro branco, avistando os profetas seus inimigos, soltou terríveis mugidos; lançou-se impetuosamente sobre eles, com os cornos em riste; e, como os profetas nunca tiveram mais que pele e osso, fatalmente os teria atravessado de um lado a outro, tirando-lhes a vida; mas o Senhor das coisas, que vê tudo e a tudo remedeia, transformou-os imediatamente em gralhas, e eles continuaram a falar como dantes.
A mesma coisa aconteceu depois às Piérides, de tal modo a fábula imita a história.
Esse, novo incidente provocava novas reflexões no espírito do sábio Mambrés.
Eis, pois, (dizia ele consigo) três grandes profetas transformados em gralhas; isto nos deve ensinar a não falar demais e a guardar sempre uma conveniente discrição.
Concluía que a sabedoria vale mais que a eloqüência e meditava profundamente, segundo o seu costume, quando um grande e terrível espetáculo lhe ofuscou os olhos.
Chega o rei de Tânis. Sua filha e o touro vão ser sacrificados.
Turbilhões de poeira erguiam-se de sul a norte. Ouvia-se o ruído dos tambores, das trombetas, dos pífanos, dos saltérios, das citaras, dos sambucos; vários esquadrões com vários batalhões avançavam, e Amásis, rei de Tânis, vinha à sua frente, num cavalo coberto de um xairel escarlate recamado a ouro; e os arautos gritavam:
O bom velho Mambrés fez mais reflexões do que nunca. Compreendeu que o perverso corvo fora contar tudo ao rei e que a princesa corria o risco de lhe cortarem o pescoço. Disse então à serpente:
Depois prosternou-se diante de Amásis, rei de Tânis, e disse-lhe:
Amásis, rei de Tânis, ficou pensativo; depois disse:
O rei, que era muito devoto, disse:
E mandou vir suas tendas, seus cozinheiros, seus músicos, e permaneceu oito dias naquele local, como está escrito em Manethon.
A velha desesperava-se por ver que o touro a que guardava não tinha mais que oito dias de vida. Todas as noites, fazia ela aparecerem fantasmas ao rei, para o desviar de seu cruel desígnio. Mas o rei, pela manhã, não se lembrava mais dos fantasmas que vira à noite, da mesma forma que Nabucodonosor esquecera os seus sonhos.
De como a serpente contou histórias à princesa, para a consolar.
E a serpente contava histórias à bela Amaside, para acalmar seus sofrimentos. Dizia-lhe como curara outrora um povo inteiro da mordedura de certas pequenas cobras, apenas mostrando-se na extremidade de um bastão. Narrava-lhe as conquistas do herói que fez tão belo contraste com Anfião, arquiteto de Tebas, na Beócia. Esse Anfião fazia amontoarem-se as pedras de cantaria ao som do violino: bastava-lhe um rigodão ou um minuete para construir uma cidade; mas o outro as destruía ao som de uma corneta de chifre; mandou enforcar trinta e um poderosos reis num cantão de dezesseis léguas quadradas; fez chover grandes pedras do céu sobre um batalhão de inimigos que lhe fugiam; e, tendo-os assim exterminado, fez