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os hebreus, Notas de estudo de História

um pouco sobre a história do povo hebreu

Tipologia: Notas de estudo

2012

Compartilhado em 11/07/2012

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adriana-dos-santos-ribeiro-4 🇧🇷

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“ses - — — — — Título do original em francês HISTOIRE DU PEUPLE HÉBREU (Que sais-je?) O Presses Universitaires de France, 1981 Reservam-se os direitos desta edição à EDITORA JOSÉ OLYMPIO LTDA ia Aqientina, 171 — 3º andor + São Cristónio 50971.380 ==» Rio de Janeiro, RJ — República Federativa do Brasil “Tel. (21) 2585-2060 Printed in Brazil / Impresso no Brasil Atendimento e venda direta ao leitor mdiretoDrecord.com.br Tel.: (21) 2585-2002 ISBN 978-85-03-01023-8 Capa: InteRsACE DESIGNERS / SencIO LiUZZ1 Revisão técnica: REGINALDO JONAS B. Hett Professor de Comunicação e História no Redonda e no Centro Cultural Midrash, Rio de Janeiro Povo de capa THE BRIDGEMAN ART LiBraRy/GETTY IMAGES Diagramação: ALTA RESOLUÇÃO ; Ph.D em História. ntro Universitário de Volta Livto revisado segundo o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. CIP-BRASIL CATALOGAÇÃO NA FONTE “SINDICATO NACIONAL DO SE ORES DE IVROS, RJ L563h Lemaire, André, 1942- aiória do povo hebreu / André Lemaire ; tradução de Cs Leite Georgopoutos. - Rio de Janeiro : José Olympio, 2011. Tradução de: Histoire du peuple hébreu ISBN 978-85 03-01023-8 sivilização judaica. 1. Título. 1. Judeus - História - Até TO AC. 2 COD: 909.04924 1L-G21C CDU: 94(=411.16) SUMÁRIO Introdução 9 CarfruLo I: As origens 11 1. Abraão 13 2. Isaac 14 3. Jacó 15 4. Israel-José, 15 CarfruLO Il: A CONFEDERAÇÃO ISRAELITA 19 1. As tribos do Norte 21 l 2. A Cisjordânia central 22 3. As tribos da Transjordânia 24 4. As tribos do Sul 25 CaríruLo Il: À REALEZA UNIFICADA 27 1. A instauração da realeza: Saul 27 2. Davi e a expansão militar 31 3. Salomão e a administração 36 OD DO O O dO Do: 10 | Anpré LemairE gênero literário e a história da redação de cada texto. O resul- tado nem sempre é certo: mais de uma vez, o atual estado de nossa documentação só permite chegar a uma probabilidade, maior ou menor, que nos esforçaremos por destacar. A incerteza da pesquisa histórica é sobretudo evidente no que concerne à cronologia de certos períodos. Para a época das origens e a da Confederação istaelita, toda ten- tativa de cronologia permanece aproximativa e hipotética. A partir da realeza, podemos contar com as indicações da duração de reinado e com os sincronismos dos Livros dos Reis, mas esses dados são, às vezes, incoerentes. Apesar de conhecermos tais datas pelos anais assírios e as crônicas babi- lônicas, muitos sistemas cronológicos permanecem incertos, com variações de poucos anos; as datas desse período serão, pois, quase sempre precedidas de c. (= circa). ÀS ORIGENS As origens do povo hebreu não são diretamente acessíveis ao historiador: nenhum testemunho exterior fala de Israel antes de sua menção na estela do ano 5 do faraó Meneptá (c. 1207 antes da nossa era), e a primeira redação da gesta das origens de Israel, sob a forma de genealogia dos patriarcas Abraão, Isaac e Jacó-Istael, data provavelmente da época da realeza unificada sob Davi e Salomão ou de uma época poste- rior, Com isso, somente o ciclo de Jacó-Israel poderia ter co- nhecido um primeiro registro anterior à realeza de Davi. Essa fixação tardia das tradições patriarcais destaca o papel impor- tante da transmissão oral na sua formação e na sua ligação ao gênero literário das “lendas” sobre as origens, gênero comum a todos os povos, e que o historiador só pode utilizar com muito cuidado e senso crítico: estudo do contexto histórico, transposição da história do herói epônimo para a história co- letiva de um grupo, utilização da ctítica literária para discer- nir as tradições mais antigas e análise de dados topográficos, geralmente muito estáveis, pelo menos nessa região. Historiadores recentes do antigo Israel fizeram remontar a “época patriarcal” ao tempo do “movimento amorita”, por ANDRÉ LEMAIRE resulta claramente do fato de o santuário principal desse grupo estar situado nos “Carvalhos de Mambré”, não longe de Hebron (Gn 13, 18; 14, 13; 18,1) e de ficar em Macpela, perto de Mambré, onde havia um jazigo tradicional do grupo ligado a Abraão (Gn 23, 17.19; 25, 9). Suas relações com os ismaelitas do Neguev parecem ter sido muito tensas (Gn 16, 7-15), enquanto tinham sido mai pacíficas com os moabitas e os amonitas para além do mar Morto, apresentados como descendentes de Lot, sobrinho de Abraão (Gn 19,36-38),ecom osnotáveis “hititas” (Gn 23,3) de Cariat-Arbe (= Hebron). Na verdade, provavelmente porque a primeira unificação da gesta patriarcal é feita em Hebron, capital do reino de Davi durante sete anos, um pouco antes do ano 1000 (2 Sm 2, 1-4; 5, 1-5), o primeiro lugar é dado ao patriarca Abraão, representando os grupos hebreus da região de Hebron. 2. Isaac O grupo hebreu que se liga a Isaac parece ter-se instalado no o de Bersabeia Neguev, nas imediações do' poço e do santuári (Gn 26, 26-33), no território da tribo de Simeão. Esses c hebreus tinham relações, às vezes tensas, às vezes pacíficas, com a cidade-estado de Gerara e seu rei Abimelec, onde o controle dos poços era o principal ponto de litígio. Quando Davi foi de Ziglag a Hebron e se tornou rei de Judá, uniu os simeonitas aos judaítas, o que sugeriu parentesco com os an- tepassados epônimos, sendo Isaac apresentado como o filho único de Abraão. HISTÓRIA DO POVO HEBR 3. Jacó O ciclo do patriarca Jacó, provavelmente independente, no início, do ciclo de Abraão-Isaac, só foi assimilado a este quan- do Davi se tornou rei de Israel e de Judá (2 Sm 5). Foi for- mado por lendas que primitivamente se ligavam aos grupos que constitufam a Confederação, e depois ao reino israelita do Norte. As tradições mais antigas do ciclo de Jacó remetem a origem do grupo a esse pattiarca na Alta Mesopotâmia (Aram- Naharayim), mais precisamente no alto vale do Balih, próximo das cidades de Haran, Serug, Nahor e Terah. Os Benê-Jacó, de origem arameia, deixaram realmente a região de Haran na derrocada do Mitani ligada à invasão assíria do Hanigalbat sob Adadnirari 1 ou Salmanazar 1, por volta de 1275. Esse grupo provavelmente penetrou em Canaã atravessando o Jordão en- tre o vale do Jaboc e o do Wadi Far'ah; fixou-se ao norte e nor- deste de Siquém. Em um santuário, situado em frente a Siquém, frequentado pelos Benê-Jacó, eles armaram suas tendas é com- praram um terreno dos Benê-Hamor, os poderosos de Siquém (Gn 33, 19). Com isso, as relações entre ele e os siquemitas pa- recem ter sido por vezes tensas e violentas (Gn 34), visto que os Benê-Jacó recusavam qualquer assimilação e rejeitavam casa- mentos de suas mulheres com os siquemitas. 4. Israel-José A figura do patriarca Jacó foi identific ada com a de Israel (Gn |32, 29) depois da aliança dos Benê-Israel com os Benê-Jacó (infra). Primitivamente, O grupo dos Benê-Israel 16 | ANDRÉ LEMAIRE era distinto daquele dos Benê-Jacó. Segundo os dados de topografia histórica, o nome “Israel” vem provavelmente de um clá chamado também “Asriel”, instalado na montanha de Efraim, não longe do santuário de Silo, clã e santuário ligados ao grupo que viveu a experiência do êxodo sob a direção de Moisés e, depois, de Josué. Na realidade, a montanha de Efraim foi, em certo momento, organizada de modo autônomo como “casa de José” (Jz 1, 22 ss.), tendo sido José apresentado como o antepassado epônimo desse grupo que representou um papel central na formação da Confederação israelita. O grupo hebreu dos Benê-José/Benê-Israel estabeleceu-se certo tempo no Egito, na região de Goshen, no limite oriental do delta do Nilo. Foi empregado, particularmente, na cons- trução das cidades egípcias de Pitom e de Ramsés (Ex 1, 11). Sob a direção de Moisés, um “hebreu” que provavelmente re- cebeu uma cultura egípcia, esse grupo conseguiu sair do Egi- to, provavelmente no reinado do faraó Ramsés K, por volta de 1270-1250 antes da nossa era. Parece ter ficado por certo tempo nas imediações de Cades-Barneia, no limite entre o Neguev e o Sinai (Nm 13, 26; 20, 1 ss.), O que permitiu a Moisés fazê-los aceitar os fundamentos do particularismo re- ligioso javeísta: Jeová seria sua única divindade, e eles não fariam, para si mesmos, representação esculpida. Contornando o país de Moab, esse grupo venceu Sihon, o rei de Heshbon, em Jasa (Nm 21; 23) e ocupou seu território ao norte do Amon na Transjordânia. Moisés morreu no “país de Moab”, perto do monte Nebo (Dt 32, 49 s.; 34, 1-8), em um território ligado em seguida às tribos de Rúben e de Gad, e Josué lhe sucedeu (Dt 34, 1-9). AAA RR RRRER HisTÓRIA DO POVO HEBREU | 17 : Sob a direção de Josué, os Benê-lsrael transpuseram o J dão perto de Guilgal, não lor ge de Jericó (Js 3, 17; 4 20 Es depois penetraram na Cisjordânia, ocupando Jericó (J ne Betel (Jz 1, 22-26). À sua chegada, os poderosos da tetrá Ie gabaonita, que compreendia as cidades de Gabaon Eq ne e Cariat-larim, propuseram aos israelitas uma ali a à qual Josué aceitou, concedendo-lhes, ao que pare: 5% estatuto de vassalos (Js 9). É a Essa aliança dos gabaonitas com os hebreus israelita ameaçava diretamente a cidade de Jerusalém, cuja vi de acesso pela encosta de Bet-Horon estava nas inaôs dos in k O rei de Jerusalém (Adonisedeg?) reagiu, piivdésha dia coalizão de reis cananeus de Sefela que, com o apoio pre tentaram reabrir a estrada para Jerusalém durante uma is perto da encosta de Bet-Horon (s 10). Por essa úbbes e F a após essa batalha (c, 1210), situam-se à menção de hrs ps de Meneptá e a representação de um dtreitidédio egípcio-israelita num baixo-relevo de Meneptá em Car: , menção e representação associadas à tomada de Geres, pa de 15 quilômetros a oeste de Bet-Horon. Quaisquer que fo s ma os detalhes desse confronto egípcio egnaneu isca os cl israelitas se voltaram para o norte e ocuparam a aióriinia e as colinas de Efraim, isto é, a zona de montanhas e colinas situadas entre Jerusalém e Siquém. od LULLLLLLLLLÓSOS ó 20 | ANDRÉ LEMAIRE “Eu sou Jeová teu Deus, “Tu não te prosternarás diante de um deus estrangeiro, Tu não farás de mim representação esculpida, “Tu não pronunciarás meu nome em vão, “Tu não profanarás meus sábados, Tu não amaldiçoarás teu pai nem tua mãe, Tu não cometerás homicídio contra teu próximo, Tu não cometerás adultério com a mulher do próximo, Tu não cometerás roubo contra teus próximos, Tu não cometerás falso testemunho contra teu próximo, “Tu não tentarás te apossar da casa do teu próximo.” Essas dez regras fundamentais formavam, de algum modo, a constituição da Confederação israelita, cujos .membros eram designados pela expressão “teu próximo”. A unidade era antes de tudo uma unidade religiosa: o reconhecimento de Jeová como divindade única e o respeito a suas festas (sá- bados). Não fazia alusão a nenhuma estrutura ou instituição de confederação. Essa ausência de estrutura central facilitava a integração de novos grupos à Confederação: bastava que, em cada nível da sociedade (família, clã, tribo), as autorida- des tradicionais (“Anciãos”) velassem pelo respeito às regras da vida social enunciadas no Decálogo. Depois da sedentarização, era costume cada família viver na sua “casa de quatro cômodos”, em torno de um pátio com seus silos, construção característica de uma época que a arqueologia recente valorizou. O clã, mais ou menos identificado à aldeia, e agrupando muitas famílias, vivia praticamente com indepen- dência, tanto econômica quanto social (casava-se dentro do OVOS DO LOC LOL LL SL ILLLLLLLLLLL SIL LLC ASAS HistÓRIA DO POVO HEBREU | 21 clã). Ajuntamentos mais numerosos, desenvolvendo o sen- timento de pertencer à Confederação, podiam acontecer nas festas de peregrinação aos principais santuários, sobretudo em Silo. Mas, apenas ocasionalmente, diante de um perigo externo ou interno, muitos grupos, clãs ou tribos podiam se organizar sob a direção de um chefe único, encarregado de conduzir os homens armados. O Livro dos Juízes apresenta muitos desses chefes chamados “juízes” (shóphetim) desempe- nhando um papel importante à frente de uma tribo ou de um grupo de tribos diante de um perigo externo. 1. As tribos do Norte Paralelamente à entrada dos Benê-Israel na Cisjordânia e à sua vitória sobre os cananeus-egípcios na encosta de Bet- Horon, dois grupos hebreus da Galileia, Naftali e Zebulum, surpreenderam o campo do exército de Jabin, rei cananeu de Hasor, nas águas de Merom (js 11). Depois de cortar os jarretes dos cavalos e de queimar os carros, eles penetraram em Hasor e queimaram a cidade. A datação arqueológica da destruição de Hasor permitia situar essa batalha nas águas de Merom na segunda metade do século XIII. Sem atribuir essa destruição a Josué (apesar de Js 11), a entrada dos Benê-Israel na Palestina criou provavelmente um choque psicossociológico suficiente para que as tribos de Zebulum e de Naftali ousassem at: um exército cananeu (Jz 5, 18). Algum tempo depois, provavelmente no decorrer do sé- culo XII, essas duas tribos foram ameaçadas pela chegads de Sísara de Haroset Goim, talvez um dos chefes dos “povos 22 | ANDRÉ LEMAIRE do mar”. Diante dessa ameaça, Barac de Cedes de Naftali, à “profetisa” representando os hebreus da Galileia, aliou-se à Débora da montanha de Efraim (x 4, 2-10), representando a Confederação israelita. Os aliados venceram Sísara próximo à torrente de Quison (ou “águas de Meguido”, Jz 5, 19-21). Essa importante vitória foi celebrada em Israel pelo famoso “canto de Débora” (Jz 5), que mostra a participação das tri- bos de Efraim, Benjamin, Maquir, Zebulum, Naftali, Issakar, enquanto os clãs mais periféricos, de Rúben, Galaad, Dã e Asher, parecem ter ficado à parte dessa batalha que testemu- nha claramente a ligação dos grupos hebreus da Galileia à Confederação israelita. O canto de Débora supõe que a tribo de Dá estivesse insta- lada no alto vale do Jordão, perto da antiga cidade de Laís (ou Leshem). Ora, essa tribo parece ter sido primitivamente seden- tarizada no norte da Sefela. Foi provavelmente sob a pressão dos filisteus, na primeira metade do século XI, que certo nú- mero de clãs de Dã saiu de Zoréa e Estaol para se instalar mais da (Js 19, 40-48; Jz 18). ao norte, numa região menos ameaças 2. A Cisjordânia central a situado na mon- O coração da Confederação israelita estav: tel. tanha de Efraim, perto dos santuários de Siquém, Silo e Be Os clãs dessa região se reagruparam pouco a pouco em três unidades autônomas: Efraim propriamente dito, no centro; Manassés ao norte e Benjamin no sul. Manassés não é mencionado no canto de Débora, o que significa provavelmente que os futuros clãs de Manassés ainda LLLLLLLLLLLLLLLLLLLLODLLLLDLLULLLULDUSUDULO HistÓRIA DO Povo HEBREU | 23 não estavam organizados em unidade autônoma nessa época. A organização da tribo de Manassés em torno do clã de Abie- zer parece obra de Gedeão de Efrat, que tomou a frente da luta contra os madianitas (Jz 6, 33-35). A guerra se desenvolveu em duas campanhas: de início, a expulsão dos madianitas da Cisjordânia, na batalha de En-Harod (Jz 7, 1-22), e execução de seus chefes Oreb e Zeb pelos efraimitas que sitiaram os vaus dojJordão (Jx 7, 22-8, 3); depois, por causa de uma incursão madianita ao monte Tabor, perseguida até a Transjordânia, e execução dos dois chefes Zebá e Sálmana (Jz 8, 10-21). Du- rante essa última campanha, Gedeão confinou os opositores de Fanuel e Socó no vale médio do Jordão, isto é, ele deve ter anexado provavelmente o território de Maquir à tribo de Ma- nassés. Essa dupla vitória militar explica que se tenha formado uma forte corrente em favor de Gedeão para proclamá-lo rei, mas ele se recusou a fundar uma dinastia (Jz 8, 22). As tradições bíblicas relatam dois episódios importantes da história dos clãs israelitas “benjaminitas” situados ao sul da montanha de Efraim (ben-yâmin = “sulista”): a guerra efraimito-benjaminita e o assassinato do rei de Moab pelo benjaminita Aod. A história bíblica da guerra efraimito- benjaminita (Jz 19-21) foi modificada muitas vezes, e é di- fícil discernir os acontecimentos históricos na origem da narrativa atual. Parece que, depois de um crime cometido em Gabaá, certo número de clãs do sul se 'solidarizou com os culpados em vez de mandar prendê-los. Por causa dessa recusa, esses clãs afirmavam sua autonomia em relação aos outros clãs israelitas da montanha de Efraim. Depois de uma guerra civil muito longa, os clãs sulistas foram vencidos, mas = SST OSE sic coco msmo 26 | ANDRÉ LEMAIRE Juízes. Separados geograficamente destes pela cidade-estado de Jerusalém, os clãs dessa região não deviam estar ligados à Confederação israelita. Entretanto, certos clãs hebreus vindos do Sul trouxeram o culto de Jeová e assim prepararam a apro- ximação ulterior entre a “casa de Judá” e a “casa de Israel”. O exemplo mais claro é o dos quenizitas. Foi o quenizita Caleb quem conquistou o Hebron dos Benê-Enac (Js 14, 13; 15, 13) e “Otoniel, filho de Cenez, irmão de Caleb”, quem se apoderou de Cariat-Sefer (Js 15, 15-19). A instalação dos clãs calebitas na região de Hebron foi confirmada pela menção de um “Neguev de Caleb” (1 Sm 30, 14) e de um “Nabal, o ca- lebita” na região do Carmelo e de Maon (1 Sm 25; 1-3). Oto- niel aparece também em Jz 3, 7-11 como “salvador” contra “Cusá-Rasataim rei de Aram”, mas talvez seja preciso corrigir aqui “Aram” para “Edom”, porque os quenizitas se relaciona- vam com os edomitas, os temanitas e os amalecitas (Gn 36, 11.15:42). Clãs quenitas subiram da cidade das Palmeiras (provavel- mente Tamar, ao sul do mar Morto). Ocuparam o “Neguev do quenita” no sudeste de Hebron, perto de Arad (1 Sm 27, 10). Esses povos são apresentados como aparentados com Moisés (x 4, 11; cf Jz 1, 16). Essa tradição significa que os israelitas tinham um sentimento de comunidade, provavelmente reli- giosa, com os quenitas (Jz 4, 11-22;5, 24; cf. 1 Sm 15, 6). Osjerameelitas ocuparam o “Neguev do jerameelita” (1 Sm 27, 10), situado ao sul do Neguev do quenita, provavelmente próximo de Tell el-Milh, na extremidade oriental do uádi de Bersabeia. DODDDDDDDLDLLDDLDDLOLLLUSDS SDL D ACD SSD DDDAS CaríruLo II À REALEZA UNIFICADA (c. 10307-931) No caso de uma ameaça externa, o tênue vínculo que unia os clãs e as tribos da Confederação israelita se tornava insufi- ciente: era então escolhido um chefe militar apenas para con- duzir a guerra. Afastado o perigo, esse chefe só mantinha uma função honorífica (cf. Jx 8, 22-27). Esse esquema da história da época dos Juízes era modificado quando a persistência de um perigo externo exigia a permanência de um chefe militar. Assim Israel passou da instituição ocasional de “juízes” e de “salvadores”-à instauração durável da realeza. 1. A instauração da realeza: Saul Desde os primórdios da Confederação israelita, as diversas tribos enfrentaram apenas inimigos pouco temíveis: madia- nitas, amonitas, moabitas ou cidades cananeias que podiam tomar de surpresa. A situação se tornou diferente quando se defrontaram com o expânsionismo filisteu. Os filisteus eram conhecidos, a partir das inscrições egípcias como um dos “povos do mar” que, com os tjekker, os shekelesh, rererrrrrrrerrrrrrrrrrrerrrereeer HISTÓRIA DO POVO HEBREU E TTeTrTer PAS) | 28 | ANDRÉ LEMAIRE Essa derrota de Ebenezer foi duramente sentida pelos is- raelitas (compreendendo provavelmente Efraim, Manassés e Benjamim), porque os filisteus se apossaram do emblema nacional, “a arca de Deus” do santuário de Silo. Tendo provo- cado a morte de Eli, o sacerdote de Silo, é de seus dois filhos, Hofni e Pinhas, essa derrota marcou também, sem dúvida, o início do papel de Samuel como líder religioso tradicional dos os denyen e os weshesh, tentaram invadir o Egito. Seu avanço foi barrado às portas do Egito em uma batalha dupla, marítima e terrestre, no ano 8 do faraó Ramsés HI (c. 1175). Barrados, mas não destruídos, esses povos se instalaram em torno do Mediterrâneo. Assim os filisteus se estabeleceram na costa entre Gaza e Jafa, os tjekker, um pouco mais ao norte, em | torno da cidade de Dor, e, talvez, os quereteus (cretenses?), ao sa k sul dos filisteus, no Neguev (1 Sm 30, 14). Os egípcios devem israelitas da montanha de Efraim (1 Sm 7, 15-17). e a E o É difícil precisar em detalhe a história da ascensão de Saul à ter permitido essa permanência porque os consideravam mais ? : : realeza. Pelas tradições bíblicas divergentes, parece ser possível ou menos como vassalos. . Á E o « distinguir apenas dois aspectos essenciais desse acontecimen- SR to: de um lado, o papel importante de Samuel na designação Originários de Cáftor (talvez Creta? Am 9, 7; Jr 47, 4), qa E es . . - . de Saul (cf. as lendas de 1 Sm 9-10); de outro, o fato de a es- os filisteus estavam organizados em uma federação de cinco Ê E a E colha de Saul ter sido motivada por suas façanhas militares à cidades: Gaza, Ascalon, Azoto, Ecron & Gat, tendo à frente f d À expêdisionário Benta ae | i hefes chamados sérên, título aproximável do grego ER O LEDS RS DE Gero o Ra a cinco chefes j À Re, : Ro EO E E filiste extremis, os habitantes de Jabes de Galaad de uma rendição in- tyranos, “chefe” (Js 13, 3 ss.). Bem organizados, di ne condicional a Naás, rei dos amonitas (1 Sm 11, 1-11). O mais eram imbatíveis, pois estavam bem armados, pardieu sei plausível é que Saul tenha sido aclamado rei em Guilgal (1 Sm te por terem conseguido o monopólio do trabalho do metal 11, 12-15), isto é, em território não controlado pelos filisteus. (cf. 1 Sm 13, 19 ss.). Após esse reconhecimento, Saul não demorou a dar sinal Os primeiros embates importantes entre os filisteus e a Con- de revolta contra o ocupante filisteu em território benjami- federação israelita aconteceram na região em que os dois terri- nita (1 Sm 13, 2-7.17-18). A Bíblia narra em detalhes apenas tórios faziam fronteira, isto é, próximo às fontes do Yarqôn: : o episódio da batalha de Macmas, no qual se torna célebre Jônatas, o filho de Saul (1 Sm 14), mas a guerra de libertação “Israel partiu em guerra contra os filisteus. Acampou perto de deve ter sido longa e mortífera (1 Sm 14, 52). Os filisteus, Ebenezer, e os filisteus, em Afec. Os filisteus tomaram posição finalmente expulsos da montanha de Efraim, tentaram atacar diante de Israel. Travou-se a batalha, e Israel foi derrotado pe- de novo, a princípio pelo sul, depois pelo norte. Saindo de Socó de Judá, os filisteus tentaram subir pelo los filisteus: no front, em campo aberto, venceram cerca de qua- vale do Terebinto (1 Sm 17; 1-2), ameaçando diretamente tro mil homens” (1 Sm 4, 1-2). 34 | ANDRÉ LEMAIRE foram favorecidas pelo enfraquecimento momentâneo de duas grandes potências da época: o Egito e a Assíria. Entretanto, Davi não parece ter buscado sistematicamente a guerra: depois de ter rechaçado os filisteus, não tentou conquistar seu territó- rio. Além disso, mantinha excelentes relações com os fenícios, especialmente com Hiram, rei de Tiro, visando beneficiar-se de seu comércio e de sua tecnologia (2 Sm 5, 11; cf. 1 Rs 5, 15). A política externa de Davi parece ter sido mais feliz do que sua política interna, dominada por dois problemas prin- cipais: o da sucessão e o da coexistência de Judá e Israel; esses dois problemas aparecem quase sempre ligados. Em relação à descendência de Saul, Davi mostrou certa duplicidade: de um lado, por ocasião de uma calamidade pública, entregou sete descendentes de Saul à vingança dos gabaonitas, que os executaram ritualmente (2 Sm 21, 1-14); de outro, depois de ter desposado Micol, filha de Saul, ele a abandonou, e não ti- veram filhos (2 Sm 6, 20-23), enquanto acolhia em sua corte o último descendente de Saul, Meribaal (= Mephiboshet), um aleijado, para, simultaneamente, honrá-lo e controlá-lo melhor (2 Sm 9). Davi não conseguiu resolver tão bem o pro- blema de sua própria sucessão. Amon, seu primogênito, foi assassinado por ordem do terceiro filho, Absalão, que queria vingar a honra da irmã (2 Sm 13). Depois de algum tempo de exílio na casa do avô, rei de Gessur, e com o apoio de Joab, Absalão conseguiu retomar seu lugar na corte e até se fazer proclamar rei de Hebron pelos represen- tantes das tribos (2 Sm 14; 15, 1-13). Surpreso, Davi deixou PPPTVTTCITIL HISTÓRIA DO POVO HEBREU | 35 Jerusalém precipitadamente e se refugiou em Maanaim além do Jordão com sua guarda pessoal (cretenses e peleus) e os chefes de seu exército. A guerra civil que se seguiu foi muito curta. Joab derrotou o exército israelita dos partidários de Absalão, que foi morto na batalha. Depois de negociações diversas, Davi retornou a Jerusalém. Mas as peripécias desse retorno tinham avivado as tensões entre israelitas e judaítas. Um benjaminita, Siba, filho de Bocri, incitou à revolta, proclamando a indepen- dência de Israel em relação a Davi. Tendo eliminado seu rival Amasa, que acabava de ser posto à frente do exército, Joab se lançou em perseguição do chefe da revolta, que, entregue pe- | los habitantes de Abel Bet-Maaca, onde se tinha refugiado, foi executado. Depois da morte de Amon e de Absalão, o quarto filho de Davi, Adonias, tendo como partidários o general Joab e o sacerdote Abiatar, seguidores de Davi, podia considerar-se herdeiro presuntivo (2 Sm 3,4; 1 Rs 1,5-7). Manteve, porém, à parte o sacerdote Sadoc, o profeta Natã e o chefe da guar- da pessoal de Davi, Banaias. Esse partido defendeu junto ao velho Davi as pretensões de um filho mais jovem, Salomão, filho de Betsabé. Salomão foi coroado ainda em vida do pai, que morreu algum tempo depois (1 Rs 1-2, 10). Em meio a essas conquistas externas e rivalidades internas, Davi deu início a uma organização administrativa ligada a um Tecenseamento, no intuito de recolher impostos (cf. 2 Sm 24, 1-9). Tainbém projetou construir um templo real em Jerusa- lém (2 Sm 7). interna muito viva, e só foram realizados por seu sucessor, sses dois projetos enfrentaram uma oposição 36 | ANDRÉ LEMAIRE Salomão. A administração das casas de Israel e de Judá conti- nuou muito próxima daquela praticada sob Saul. As finanças reais eram alimentadas essencialmente por duas fontes: uma, externa, os butins tomados ao inimigo; outra, interna, Os pro- dutos dos bens da coroa, que parece terem sido importantes e bem geridos (1 Cr 27, 25-31). A tradição bíblica conservou muitas listas dos principais ministros e conselheiros de Davi, entre os quais o chefe do exército, o chefe da guarda pessoal, os sacerdotes de Jerusalém, o escriba real e o arauto real. Parece que o próprio Davi decidia e reservava para si certos setores, como a justiça (2 Sm 8, 15): as autoridades locais continua- vam a exercer a justiça tradicional, havendo, a partir de en- tão, a possibilidade de apelar ao rei (2 Sm 14, 15). Excetuados os problemas de sucessão, o reinado de Davi parece ter tido um êxito excepcional. Quando morreu, ele estava à frente de um verdadeiro império em plena ascensão econômica. Tal sucesso explica que, mais tarde, a figura de Davi tenha sido idealizada, e sua época considerada a Idade de Ouro de Israel. No entanto, esse império continuava frá- gil, e a primeira tarefa do sucessor foi tentar consolidá-lo. 3. Salomão e a administração (c. 971-970-931) Desde a morte de Davi, Salomão começou a consolidar seu poder, tanto no plano interno como no externo. No interno, o novo rei não hesitou em liquidar os chefes da oposição, isto é, os partidários de seu meio-irmão Adonias (1 Rs, 2, 12-46). No plano externo, o faraó Siamon aproveitou a morte de Davi para organizar uma expedição à Palestina, durante a DODDLSDIDLSDDIDIDDDDIDIDIDISDID DNA HisTÓRIA DO POVO HEBREU E: qual tomou e destruiu Gezer. Como o faraó estava conven- cido de que seu exército não era capaz de enfrentar o de Sa- lomão, essa expedição terminou por um compromisso, uma espécie de aliança em pé de igualdade: fato incomum na tra- dição egípcia antiga, o faraó deu em casamento a Salomão uma de suas filhas, que teve' como dote a cidade de Gezer 4 Rs 3,1). Em troca, Salomão se comprometeu a não atacar a pentápole filisteia. Por outro lado, renovou a aliança com Hiram, rei de Tiro (1 Rs 5, 15-32) e desenvolveu o comércio com esse país (infra). Ainda que a historicidade disso seja discutível, dadas as dificuldades da cronologia sul-arábica, Salomão estabeleceu relações com o reino de Sabá (1 Rs 10, 1-10), grande produ- tor de especiarias, cujo comércio podia atrair as boas graças do rei de Jerusalém. Assim, pelo menos no início, Salomão parece ter sabido tirar proveito do poder militar legado por seu pai para se fazer reconhecer como a força política domi- nante no Sul do Levante. Resolvidos os principais problemas de polític: interna e externa, Salomão pôde dedicar-se à sua obra principal; a or- ganização e a administração do império, tarefa que lhe valeu a reputação de “sábio” (hákâm), ou seja, de homem político há- bil, de bom administrador (1 Rs 3, 7-13.28; 5, 9 ss.; 10,6 ss). O GOVERNO CENTRAL Assim como Davi, Salomão se cercou de altos funcioná- rios e de conselheiros, formando uma espécie de gabinete real. A lista apresentada em 1 Rs 4, |-6mostra a continuidade 40 | ANDRÉ LEMAIRE de construção e ouro). As importações provenientes da Fenícia se tornaram tão importantes que, para reequilibrar as trocas, Salomão cedeu ao rei de Tiro o país de Cabul, incluindo provavelmente toda a planície de Aco (1 Rs 9, 10 ss.). Por outro lado, essas grandes obras contribuíram para o desenvolvimento da indústria metalúrgica no vale do Jordão (1 Rs 7, 46 s.). Essas construções, tanto na capital e nas cidades principais como no Líbano (1 Rs 5, 28), necessitavam, sobretudo, de mão-de obra abundante, que só podia ser obtida pela corveia. Apesar de 1 Rs 9, 22, estavam sujeitos a essa corveia não só as antigas populações cananeias, mas também Israel (1 Rs 5, 27). É fácil compreender que o desenvolvimento da instituição da corveia tenha sido muito impopular, provocando várias revol- tas, particularmente na “casa de José”, que se sublevou sob a direção de Jeroboão, filho de Nabat, o chefe da corveia. Essa revolta foi malograda, e Jeroboão se refugiou -no Egito, junto ao faraó Sheshong 1, fundador da XXII dinastia, que acolhia todos os opositores do regime de Salomão (1 Rs 11). A atitude agressiva do Egito no sudoeste e o nascimento de um poderoso reino arameu em Damasco, no nordeste (1 Rs 11, 23-25), em- panaram o final do reinado de Salomão. É difícil fazer um balanço equilibrado da realeza unificada, de Saul a Salomão. Em um século (c.1030-931), o povo hebreu viveu uma transformação considerável. Os clãs de Judá foram unificados sob um mesmo rei e ligados às tribos da Confedera- ção israelita, à qual foram também integradas muitas cidades- estado cananeias. Ainda que essas populações permanecessem CTC RRCCEEERERRRRACCSCAEEESEAEIES HisTÓRIA DO POVO HEBREU | 41 bem diferentes pelas estruturas sociais, pela cultura e até por suas línguas (o hebraico do Norte era diferente do hebraico do Sul e muito próximo do fenício), após um século de unificação elas continuaram marcadas pela consciência de um certo des- tino comum e pela nostalgia da unidade perdida. A unificação se deu em torno da pessoa do rei, e a realeza se tornou uma instituição estável e reconhecida. Embora a escolha da pessoa do sucessor ainda ocasionasse alguns pro- blemas, o princípio dinástico foi admitido: o rei de Jerusa- lém continuou sendo um “filho de Davi” até a destruição da cidade, em 587. Além disso, o rei, sobretudo Salomão, transformou o reino em um Estado organizado, estruturado e administrado, criando um corpo de funcionários (os levi- tas) inteiramente devotados ao serviço do Estado. Para for- mar esses funcionários, ensiná-los a ler, a êscrever, a contar, a gerir um armazém, a distribuir rações, a recolher impostos etc., Salomão instituiu escolas em Jerusalém e nas capitais das prefeituras. Ainda que os testemunhos epigráficos sejam pouco numerosos, essa época viu, sem dúvida, o desenvolvi- mento de uma literatura propriamente israelita, que procu- rava valorizar as tradições nacionais e a pessoa do rei (cf. a fonte javista do Pentateuco ea história da ascensão de Davi). Quando o ensino o exigia, essa literatura não hesitava em re- correr ao “saber” internacional, particularmente ao do Egito (cf. Pr 22, 17-23, 14). Essa estrutura estatal perturbou a estrutura social tra- dicional: família, clã, tribo. O povo hebreu passou de uma Confederação de unidades tribais ou clânicas mais ou menos independentes a um conjunto de prefeituras dependentes de 42 | ANDRÉ LEMAIRE PEFFPPPFrrrr HisTÓRIA DO POvO HEBREU | 43 um Estado centralizado em torno da capital, Jerusalém, com , que provoca- — o exército e a corveia — duas instituições a da população geralmente mal aceita, como ram uma me: o demonstraram as reações ao recenseamento com Davi e depois as revoltas contra a corveia com Salomão. As tensões sociais foram mais fortes porque eram alimentadas por certa inveja dos israelitas em relação aos judaítas. De fato, tanto na administração das prefeituras quanto na organização da corveia e na escolha dos altos funcionários civis e militares, a “casa de Judá” parece ter recebido um tratamento de favor, fonte de ressentimento popular por parte dos israelitas. A transformação profunda da sociedade hebraica foi con- firmada pelas escavações arqueológicas. Enquanto no início da Idade do Ferro I as ruínas ligadas à população israelita são restos de aldeias compostas de unidades independentes — as casas de quatro cômodos — e as únicas construções públi- cas parecem recintos do culto, os vestígios arqueológicos do século X antes da nossa-era comprovam a construção plani- ficada de cidades fortificadas, que comportavam muros com casamatas, portas com tenailles, armazéns reais e construções para homens públicos importantes (governadores?). Aliás, esse desenvolvimento das cidades faz supor um crescimento demográfico bastante importante, e certos historiadores cal- culam que a população dobrou entre o início do reinado de Saul e o fim do de Salomão. á Com Davi, a unificação foi favorecida pela adesão da população à fé de Jeová. O fato de o rei ter sido um gran- de devoto facilitou muito o reconhecimento de Jeová pelos Anciãos de Israel. Davi não poupou esforços para unificar suas duas “casas” em torno da mesma divindade nacional, e é preciso destacar, nesse sentido, o papel representado tanto pelo sacerdote Abiatar, descendente de Eli, assim como pelos profetas Gad e Natã. Com esse mesmo objetivo, Davi trans- feriu a arca para Jerusalém e projetou uma construção em sua honra de um templo digno da grandeza do novo Estado, o que atraiu multidões de peregrinos. Apesar da construção do templo, provavelmente apoiada pelo sacerdote Sadoc, essa política de unidade religiosa ficou meio descuidada sob Salomão. Tanto em Jerusalém como nas antigas cidades cananeias, o culto oficial parece ter ad- mitido certo. número de ritos tradicionais cananeus. Além disso, o caráter cosmopolita da corte de Salomão favoreceu a introdução de cultos estrangeiros, e até a construção de san- tuários voltados para divindades estrangeiras: Camos, deus de Moab; Melcom, deus dos amonitas; Astarte, deusa dos sidônios (1 Rs 11, 1-8). Tais práticas devem ter provocado descontentamento entre os israelitas ligados à religião dos antepassados e suscitado o apoio dos profetas à oposição ao regime de Salomão (cf. 1 Rs 11, 29-39). | Anpré LEMAIRE xplicando-se a união dos benjaminitas a Judá pela proximi- dade geográfica de Jerusalém e pela animosidade tradicional contra os efraimitas. De outro lado, Jeroboão instalou sua ca- pital em Siquém, no coração da “casa de Israel”, mas, ante a ameaça egípcia, precisou se refugiar na Transjordânia, em Penuel. A fim de subtrair seus súditos à sedução religiosa do templo de Jerusalém, Jeroboão se apressou em instituir um templo real ao norte e ao sul do seu reino, em Dã e em Betel (1 Rs 12, 26-33). No ano 5 do reinado de Roboão (c. 926), o faraó Sesac I apro- veitou a divisão do reino salomônico para reafirmar sua auto- ridade sobre a Palestina. Seu exército seguiu um itinerário co- nhecido pelas inscrições egípcias: “Gaza, Gezer, Rubute, Aialon, Qiryatayim, Bet-Horon, Gaba...” À aproximação do exército egípcio, Roboão preferiu se submeter e pagar um pesado tributo sacado dos tesouros do templo e do palácio real (1 Rs 14, 26).O exército egípcio voltou-se então contra o reino de Israel: “Ze- marayim, (Go)phna... (Siquém)..., (Tirza, Migdal, Ada, Sucot, Cades-Penuel...” Assim, depois de ter destruído Siquém, Sesac- continuou o avanço para o uádi Farah, atravessou o Jordão no vau de Damyeh e alcançou Penuel, onde Jeroboão estava re- fugiado. Em seguida, tornou a subir o Jordão até Beitshean e retornou pelo vale de Jezreel, Meguido e a planície de Saron. Nesse meio-tempo, um destacamento destruía as fortalezas de Neguey. Essa expedição egípcia provocou, pois, a destruição da maior parte das cidades da Palestina, exceto aquelas do centro da casa de Judá, e as escavações arqueológicas confirmam essa destruição maciça pelo fim do século X. COS CUTO dC CADA DD dd A HisTÓRIA DO POVO HEBREU | 47 Não tendo sido atingido o centro do reino de Judá, Roboão empreendeu reforçá-lo (2 Cr 11, 6-12). Aproveitando-se do enfraquecimento do reino israelita depois da expedição egípcia, Roboão atacou Jeroboão. Essa guerra continuou após sua morte, sob seu filho Abia ou Abiam (c. 9214-912) e seu neto Asa (c. 912-871). Depois da expedição de Sesac, Jeroboão se instalou em Tirsa, cerca de 10 quilômetros ao norte-nordeste de Siquém. Ele parece ter resistido muito bem às tentativas de reconquis- ta de Roboão, mas o filho deste, Abia, tendo já adquirido cer- ta experiência durante a vida do pai (2 Cr 11, 22), desafiou-o para a batalha de Semeron, e ocupou o sul da montanha de Efraim: Betel, Jesana, Efron (2 Cr 13, 18-19). Essa derrota avivou a oposição interna, particularmente a do profeta Afas de Silo (1 Rs 14, 1-20). E ainda, pouco tempo depois da morte de Jeroboão (c. 910), seu filho Nadab foi derrubado por uma conspiração no momento em que sitiava a cidade filisteia de Gebeton (1 Rs 15, 27) Baasa, da casa de Issacar, foi proclamado rei de Israel em Tersa (c. 909-886; 1 Rs 15, 27.33). Retomou a guerra contra Judá e fortificou Rama, 8 quilômetros ao norte de Jerusalém, a fim de bloquear a estrada setentrional de acesso à capital judaica. O rei de Judá, Asa, recorreu à intervenção estrangei- ra do rei arameu de Damasco, Benadad, filho de Tabremon Este, em troca de uma significativa soma de dinheiro e ouro, rompeu sua aliança com Israel e atacou o alto vale do Jordão Aion, Dã, Abel-Bet-Maaca e o território de Naftali. Para de fender-se, Baasa precipitadamente deixou Ramá, que Asa fez desmantelar fortificando as fortalezas benjaminitas de Gaba « RR 48 | ANDRÉ LEMAIRE Masfa (1 Rs 15, 16-22). A derrota de Baasa avivou a oposição: interna, particularmente a do profeta Jeú, filho de Hanani (1 Rs 16, 1-7). Também, pouco tempo depois da morte de Baasha, seu filho Ela (c. 886-885) foi derrubado pela conspi- ração dirigida por um de seus oficiais, “Zambri, comandante da metade dos carros”. Depois de exterminar toda a descendência de Baasa, Zam- bri foi proclamado rei de Israel em Tersa, mas O exército, si- tiando de novo Gebeton, não aceitou esse golpe de estado e, sob a direção do general Amri, sitiou Tersa. O palácio real foi incendiado e Zambri morreu durante o ataque (c. 885). Depois de uma guerra civil de quatro anos e da morte de seu rival, Tebni, filho de Ginet, Amri foi reconhecido rei de toda a Israel em Tersa (c. 881). 2. A dinastia de Amri (c. 881-841) Ami tentou conseguir a estabilidade e a paz para seu reino. Como o palácio real de Tersa fora destruído, ele fundou uma nova capital, Samaria, cerca de 12 quilômetros a noroeste de Siquém. Essa escolha marcava a vontade de renovação e o de- sejo de aproximação com a Fenícia, que foi confirmada pelo ca- samento de seu filho Acab com Jezabel, filha de Etbaal, rei de Tiro (1 Rs 16, 31). Essa aliança se fazia mais necessária porque se tornava clara a améaça assíria: uma expedição assíria tinha chegado ao Mediterrâneo, e as cidades de Tiro, Sidon, Biblos e Arvade foram obrigadas a pagar tributo a Assurnasirpal IL. Segundo a estela de Mesa, rei de Moab, Amri submeteu o país de Moab, que pagou o tributo (linhas 4-8). Em compen- HisTÓRIA DO POVO HEBREU | 49 sação, pôs termo à guerra contra o reino de Judá. É verdade que, no fim do longo reinado de Asa, o reino judaíta estava enfraquecido, militar e financeiramente, pelas guerras e pelo tributo a pagar aos arameus; já não representava, pois, amea- ça séria para o reino israelita. Morto Amri, sua política foi seguida por seu filho Acab (c. 874-853). Sob a influência de Jezabel, mulher de Acab, as relações fenício-israelitas se desenvolveram, tanto do ponto de vista político quanto do econômico e cultural. O rei de Moab, rico em rebanhos, “pagava ao rei de Israel uma renda anual” em cordeiros e em carneiros lanudos (2 Rs 3, 4). À aproximação com o reino de Judá foi selada por uma aliança: Atalia, filha de Acab, desposou Jorão, filho de Josafá (2 Rs 8, 18. 26). Essa política de reconciliação visava prevenir a ameaça assíria cada vez mais clara. Em 853, Salmanazar II atacou uma coalizão da maior parte dos Estados da Síria-Palestina, compreendendo, em particular, Irhuleni de Hamate, Hadadidri (= Hadadézer) de Damasco e Acab de Israel; este último comandava o maior contingente de carros da coalizão (dois mil!). A batalha de Qargar impediu o avanço assírio por cerca de dez anos. Na sequência, a tradição bíblica faz morrer Acab de morte vio- ! lenta, em uma guerra contra os arameus, em Ramot de Galaad (1 Rs 22, 1-38), mas essa narrativa se referia originariamente a Jorão, filho de Acab, (infra). Na verdade, Acab morreu prova- velmente de morte natural na-Samaria, pouco depois da bata- lha de Qargar (1 Rs 21, 29: 22,40). Embora a narrativa bíblica tenha sido muito marcada pela átic: q Ends á cri ótica dos partidários de Jeú, adversários da descendência de