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Maria Candida Soares Del-Masso Doutora em Educação. Professora assistente doutora do Departamento de Educação Especial da Faculdade de Filosofia e Ciências da Unesp – Marília.
Maria Amélia de Castro Cotta Doutora em Educação. Professora da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Unesp – Presidente Prudente.
Marisa Aparecida Pereira Santos Doutora em Educação. Professora titular do Departamento de Ciências Humanas da Universidade Sagrado Coração – Bauru.
Olá, cursista! Você já parou para pensar em como a pesquisa está presente em nosso cotidiano? Quantas vezes você utiliza o termo pesquisa para se referir à investigação e à busca de alguma informação? Por exemplo, é comum as pessoas dizerem: “Fiz uma pesquisa de preços nos supermercados de minha região”. Ou ainda: “Fiz uma pesquisa sobre os eventos culturais que terão em minha cidade”, “Fiz uma pesquisa na sala de aula para saber quem são meus alunos”. Quando dizemos isso, o que estamos procurando? Qual o nosso objetivo? Estaria a pesquisa tão distante de nós?
Certamente que não. Usamos a palavra pesquisa em nosso cotidiano para dizer que “estamos investigando”, “estamos analisando”, “estamos procurando”, “estamos selecionando”, “estamos conhecendo” algo.
Essa categoria de investigação é chamada pesquisa de senso comum. Isso quer dizer que o nosso critério de pesquisa, nesse caso, tem como base nossas intuições, valores, crenças, sentidos e experiências que adquirimos na vida em sociedade. Para decidir fazer uma pesquisa de preço, certamente você sabe a priori que os valores de uma mercadoria em relação à outra divergem de um lugar para o outro.
Porém, dificilmente você terá condições de fazer o levantamento de todos os itens de cada supermercado para chegar ao valor exato das diferenças existentes entre um produto e outro sustentado pelo conhecimento do senso comum. A sua necessidade é imediata e a compra tem de caber em seu orçamento.
O mesmo acontece quando você investiga em seu cotidiano de sala de aula quem são seus alunos, de onde eles vêm, quais as particularidades de cada um deles etc. As respostas obtidas têm como base o conhecimento do senso comum e mostram que os alunos são diferentes no conjunto das diversidades.
Isso acontece na sala de aula quando quero saber, apenas pelo conhecimento imediato, a diversidade existente. Você pode até perceber que um aluno é diferente do outro, mas não compreende a origem das diferenças. Você olha um aluno e outro e percebe que são diferentes em algum aspecto.
Um exemplo de conhecimento do senso comum, ou seja, sem preocupação cientifica, é quando nos referimos à deficiência auditiva, por exemplo. Quantas vezes ouvimos dizer: “Ob- servei que as pessoas com deficiência auditiva também são mudas”, “Todos os meus alunos surdos são muito nervosos”, “Todo surdo faz leitura labial” ou ainda que “Os surdos são infantis”. Esses são conhecimentos que não têm base científica para comprová-los.
Queremos dizer, com isso, que a pesquisa do senso comum tem as suas limitações e fundamenta-se num saber simples, superficial e informal, não exigindo bases consistentes e científicas que atestem a veracidade das informações obtidas.
Se por um lado o saber do senso comum traz conhecimentos da sabedoria popular, evi- denciando elementos para que o homem viva em sociedade, por outro, podemos conviver com o prolongamento de crenças e mitos carregados de um juízo de valor.
Assim, podemos sugerir que o conhecimento do senso comum utiliza o método informal. Cabe ainda lembrar que esse tipo de conhecimento se modifica de acordo com o tempo e com a cultura no qual ocorre e está inserido. Pode, inclusive, chegar a ser comprovado cienti- ficamente ou não.
Retomando o exemplo da surdez, os estudos sobre essa temática, associados às questões culturais, objetivaram quebrar mitos e tabus acerca dessa condição de deficiência. Contudo, nem tudo sobre a surdez pode ser comprovado ainda. Pode acontecer de termos novas pesquisas que modifiquem as atuais em relação a alguns aspectos da surdez e, ainda, avancem e descu- bram novas informações sobre essa deficiência. Esse debate também demonstra que a ciência e a pesquisa científica são provisórias, pois são dinâmicas e estão sempre sendo atualizadas.
Assim, um conhecimento do senso comum pode suscitar uma investigação mais detalhada, buscando verificar as hipóteses e a comprovação dos fatos. Para isso, existe um caminho, uma abordagem diferenciada que nos leva até à pesquisa científica.
Lendo essa informação na atualidade, podemos nos perguntar: como os povos antigos viam a deficiência? O julgamento sobre a deficiência visual era realizado a partir de quais crité- rios? Aparência física? Avaliação social? Crenças? Valores da época? Caso fosse a sociedade que determinasse que a pessoa com deficiência era fraca e imperfeita, poderíamos dizer que tais critérios estavam fundamentados no conhecimento científico? Acreditamos que não.
Certezas embasadas na curiosidade constituíram o senso comum de uma determinada sociedade em uma determinada época, as quais foram transmitidas de geração em geração e transformadas em crenças, mitos e muitas vezes em doutrinas inquestionáveis.
Durante muito tempo houve a interferência da religião na formação do conhecimento, dos valores, das crenças, inclusive na explicação sobrenatural de mundo. Para aderir a uma religião, é obrigatório crer ou ter fé nessa explicação. Uma parte fundamental da crença religiosa é a fé. Logo, a explicação para a deficiência visual em termos religiosos é que essa era uma punição divina e um traço do destino. Seria isso verdade? Como poderia ser demonstrado o contrário ou a veracidade da informação?
Então, quais seriam as diferenças entre o conhecimento do senso comum e o conhecimento científico? Você já pensou sobre isso? O que distingue a atitude científica da atitude do senso comum?
A resposta a esses questionamentos é a pesquisa científica, que busca explicações plau- síveis para responder uma determinada questão. A pesquisa científica é objetiva, separa os elementos subjetivos dos elementos objetivos, formula uma teoria geral, delimita alguns fatos para investigar e tenta sugerir que as verdades são sempre provisórias.
O conhecimento científico possui características bem distintas do conhecimento do senso comum. O conhecimento científico é reflexivo, sistemático, analítico, lógico e as explicações, embora não apresentem verdades absolutas, vão muito além das construídas pelo senso co- mum. As respostas oferecidas pelo conhecimento científico desmistificam aspectos e crenças religiosas e desmitificam mitos, superstições e tabus criados ao longo do tempo.
Você se lembra do Professor Pardal, personagem dos quadrinhos Disney que completou 60 anos de existência em 2012? Ele, um morador de Patópolis, é um cientista que realiza invenções malucas. Muitas pesquisas realizadas pelo Professor Pardal originavam-se de conhecimentos do senso comum. As suas pesquisas eram experimentais, realizadas em um laboratório específico. Talvez, um dos problemas dos experimentos do Professor Pardal era a ausência de um método.
Para exemplificar o senso comum, tomemos a afirmativa que ouvimos dizer a respeito da pessoa com deficiência auditiva: “todo surdo tem um excelente poder de atenção, concentra- ção, e não dispersa”.
Em primeiro lugar, essa afirmativa se configura como absoluta e fecha a possibilidade de compreender o sujeito com deficiência auditiva em sua individualidade, pois usamos o termo “todo surdo”. Essa afirmativa não analisa em profundidade a surdez e as pessoas com deficiência auditiva e as suas particularidades; além disso, as implicações biológicas, sociais, culturais e his-
tóricas não são lembradas. A afirmação parte do pressuposto de que a atenção, a concentração, a não dispersão é uma condição inerente do sujeito com surdez. Ou seja, há uma formulação de opiniões leigas, do senso comum.
A abordagem científica busca explicar as implicações econômicas, socioculturais, edu- cacionais, as relações de trabalho, o contexto educacional, a prática docente, as diferentes possibilidades de produzir e não produzir, enfim, busca uma explicação sistemática, analítica e contextualizada que dê conta de esclarecer as leis, as causas que provocam tal fenômeno e as possíveis respostas.
O cientista perguntaria: o que é ser atento? Qual a relação entre atenção e percepção? Qual a relação entre dispersão e memória? Quais as diferenças no modo de compreensão do conhecimento entre um indivíduo com deficiência auditiva e um individuo que não possui essa deficiência? Há diferença de concentração entre pessoas com surdez que utilizam a linguagem de sinais e outras que não dominam esse tipo de linguagem? Como foi o processo de educação de um determinado indivíduo com surdez?
Desse modo, a formulação de uma explicação científica constitui-se num texto elaborado com critérios reflexivos e analíticos acerca dos fenômenos que o produz.
Assim, para elaborarmos uma concepção científica temos que ter subsídios formais, com- provados a partir de conhecimentos empíricos. A partir disso, respostas cientificamente aceitáveis podem ser sugeridas e divulgadas mediante textos científicos e acadêmicos.
Vamos resgatar, brevemente, o significado do que se entende por texto. A palavra texto vem do latim textu, que significa tecido. É isso mesmo, um tecido. O tecido que conhecemos como pano, roupa, é feito a partir da trama de fios. Pois bem, o texto científico é também uma trama de fios. Dependendo da forma como esses fios são trançados, é que teremos um tecido mais denso ou não, um tecido de boa qualidade ou não, que sofre interferência da qualidade dos fios. Nesse caso, a qualidade dos fios depende da qualidade dos dados da pesquisa, das informações obtidas, do material analisado e da capacidade de análise do pesquisador.
Na tentativa de explicar os fenômenos pela essência, o homem passa a produzir ciência. Essa explicação tem raciocínio lógico, reflexivo, analítico, sistemático, crítico.
Para Appolinário (2011, p. 24), ciência é “uma forma especial de produção do conhecimento. É uma maneira específica de explicar a realidade, caracterizada pelo uso da razão associada à experimentação”.
Observe que os conceitos e entendimentos sobre a ciência também divergem por partirem de pressupostos diferenciados. Inserem-se em um debate sobre o objeto das Ciências Naturais, que estudam “os fenômenos naturais como a física, biologia” (APPOLINÁRIO, 2011, p. 25), e das Ciências Sociais, por exemplo, que concebem a pesquisa de modo diferenciado – como aponta Appolinário (2011, p. 25) “designação geral das ciências que estudam os fenômenos humanos e sociais, por exemplo, a psicologia, antropologia, economia”.
APPOLINÁRIO, Fabio. Dicionário de Metodologia Científica. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2011. 295p.
CHAUÍ, M. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 2000. 567p.
MOROZ, M.; GIANFALDONI, M. H. T. A. O processo de pesquisa. Iniciação. 2. ed. Brasília: Liber Livro, 2006. 123p.
SANTOS, B. S. Um discurso sobre as ciências. 7. ed. São Paulo: Cortez, 2010. 92p.