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QUAL PARTE DA CARNE É FRACA?, Notas de estudo de Economia

to de carnes, apontadas na operação “Carne Fraca” da Polícia Federal (PF), alarmaram os consumidores brasileiros e os compradores internacionais a respeito.

Tipologia: Notas de estudo

2023

Compartilhado em 17/01/2023

Nazareth85
Nazareth85 🇵🇹

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MERCADO & NEGÓCIOS
MERCADO DE CARNE
QUAL PARTE DA
CARNE É FRACA?
ANGELO COSTA GURGEL
Coordenador do Mestrado Profissional em Agronegócio (MPAgro) da Escola
de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV-EESP)
A
S RECENTES notícias sobre fraudes na fiscali-
zação de produtos da indústria de processamen-
to de carnes, apontadas na operação “Carne Fraca”
da Polícia Federal (PF), alarmaram os consumidores
brasileiros e os compradores internacionais a respeito
da qualidade e da idoneidade destes produtos.
Esses acontecimentos representam um lamentável
episódio não só para essa indústria alimentícia em
particular, mas também para diversos segmentos da
cadeia nacional de proteína animal e para o agro-
negócio brasileiro. O tamanho do prejuízo ao País
que este episódio provoca é de difícil mensuração.
Sem querer indicar ordem de relevância ou de prio-
ridade, a corrupção no processo de inspeção de
frigoríficos gera:
Risco de contaminação dos alimentos desti-
nados ao consumidor;
Insegurança e preocupação na mente deste
quanto à idoneidade do conteúdo indicado
no rótulo do alimento;
Redução ou interrupção da comercialização
da produção de carnes e derivados de outras
empresas e estabelecimentos, tanto nos mer-
cados domésticos, quanto para exportação,
independentemente de todos os esforços pro-
dutivos e de garantia da qualidade realizados
pelos responsáveis envolvidos;
Diminuição no abate de animais, o que preju-
dica os pecuaristas que nada têm a ver com a
etapa de processamento industrial;
Redução nas vendas de grãos e rações para ali-
mentação animal, entre outras consequências.
Percebe-se, portanto, que todos os elos da cadeia
são duramente afetados, desde o produtor até o
consumidor final. Por isso, qualquer que seja o
ângulo de visão sobre o assunto, é preciso agir de
forma rápida e exemplar na apuração e na punição
dos envolvidos. Sem isso, a credibilidade necessária
para restaurar o funcionamento desses mercados
dificilmente será alcançada.
Em que pesem todas as consequências negativas
desse episódio, resta à sociedade brasileira: buscar
formas de seguir em frente, criando mecanismos
para evitar possíveis sustos futuros dessa natureza;
reconhecer as falhas existentes, bem como os
esforços já realizados e as conquistas alcançadas;
e inovar na montagem e na operacionalização de
formas de controle mais eficientes.
Nesse sentido, é preciso considerar que a opera-
ção “Carne Fraca” da PF foi noticiada pela mídia
como a maior até então conduzida pela instituição,
envolvendo 1.100 agentes nos últimos dois anos,
o que significa centenas de horas de investigação.
Tamanho esforço foi capaz de encontrar, até o
momento, evidências e provas que levaram a 309
mandatos, sendo 27 de prisão preventiva, 11 de
prisão temporária, 77 de condução coercitiva, 194
...O PERCENTUAL DE
PESSOAS ATUANDO DE
FORMA CRIMINOSA NO
SETOR É BEM PEQUENO...
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19

MERCADO &

NEGÓCIOS

MERCADO DE CARNE

QUAL PARTE DA

CARNE É FRACA?

ANGELO COSTA GURGEL

Coordenador do Mestrado Profissional em Agronegócio (MPAgro) da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV-EESP)

A

S RECENTES notícias sobre fraudes na fiscali- zação de produtos da indústria de processamen- to de carnes, apontadas na operação “Carne Fraca” da Polícia Federal (PF), alarmaram os consumidores brasileiros e os compradores internacionais a respeito da qualidade e da idoneidade destes produtos.

Esses acontecimentos representam um lamentável episódio não só para essa indústria alimentícia em particular, mas também para diversos segmentos da cadeia nacional de proteína animal e para o agro- negócio brasileiro. O tamanho do prejuízo ao País que este episódio provoca é de difícil mensuração. Sem querer indicar ordem de relevância ou de prio- ridade, a corrupção no processo de inspeção de frigoríficos gera:

  • Risco de contaminação dos alimentos desti- nados ao consumidor;
  • Insegurança e preocupação na mente deste quanto à idoneidade do conteúdo indicado no rótulo do alimento;
  • Redução ou interrupção da comercialização da produção de carnes e derivados de outras empresas e estabelecimentos, tanto nos mer- cados domésticos, quanto para exportação, independentemente de todos os esforços pro- dutivos e de garantia da qualidade realizados pelos responsáveis envolvidos;
  • Diminuição no abate de animais, o que preju- dica os pecuaristas que nada têm a ver com a etapa de processamento industrial;
  • Redução nas vendas de grãos e rações para ali- mentação animal, entre outras consequências.

Percebe-se, portanto, que todos os elos da cadeia são duramente afetados, desde o produtor até o consumidor final. Por isso, qualquer que seja o ângulo de visão sobre o assunto, é preciso agir de forma rápida e exemplar na apuração e na punição dos envolvidos. Sem isso, a credibilidade necessária para restaurar o funcionamento desses mercados dificilmente será alcançada.

Em que pesem todas as consequências negativas desse episódio, resta à sociedade brasileira: buscar formas de seguir em frente, criando mecanismos para evitar possíveis sustos futuros dessa natureza; reconhecer as falhas existentes, bem como os esforços já realizados e as conquistas alcançadas; e inovar na montagem e na operacionalização de formas de controle mais eficientes.

Nesse sentido, é preciso considerar que a opera- ção “Carne Fraca” da PF foi noticiada pela mídia como a maior até então conduzida pela instituição, envolvendo 1.100 agentes nos últimos dois anos, o que significa centenas de horas de investigação. Tamanho esforço foi capaz de encontrar, até o momento, evidências e provas que levaram a 309 mandatos, sendo 27 de prisão preventiva, 11 de prisão temporária, 77 de condução coercitiva, 194

“...O PERCENTUAL DE

PESSOAS ATUANDO DE FORMA CRIMINOSA NO SETOR É BEM PEQUENO...

20 | AGROANALYSIS - ABR 2017

MERCADO & NEGÓCIOS

de busca e apreensão, tendo 21 estabelecimen- tos apresentado irregularidades, de uma indústria composta por mais de 4.800 estabelecimentos. Em termos relativos, esses números sugerem que o percentual de pessoas atuando de forma criminosa no setor é bem pequeno, apesar de que o ideal mesmo era que não houvesse corruptores nem corrompidos no setor, haja vista o estrago que muito poucos podem gerar na vida de milhões de pessoas, seja como consumidores ou envolvidos na produção. Desta forma, pode-se considerar acerta- da a constante menção de representantes do setor e autoridades públicas, entrevistados nos últimos

dias, sobre a qualidade do produto brasileiro e sobre o rigor das normas e dos procedimentos.

De fato, a legislação brasileira é bastante crite- riosa quanto às especificações e à normatização de produtos e processos produtivos na indústria alimentícia e, em particular, na indústria de carnes. As exigências sanitárias e de qualidade são, também, comparáveis às de nações de primeiro mundo, o que permitiu ao País, depois de muito investimento e avanços, se tornar exportador para mercados considerados os mais exigentes no mundo, como é o caso dos países da União Europeia.

A fiscalização desses procedimentos não está apenas sob responsabilidade de agências e institui- ções brasileiras, como o Ministério da Agricultura, mas também de agentes e fiscais internacionais, que visitam as fábricas e instalações constante- mente e realizam testes e análises frequentes do produto enviado ao exterior. Por isso, um evento de tamanho alcance deve ser evitado e prevenido com ações eficazes e eficientes para tal. Nesse sentido, não parece haver espaço para novas normas de qualidade, de regras mais rígidas na produção ou de procedimentos excessivos de controle e fiscalização, mas sim para avanços nas formas de execução da fiscalização e gestão da informação, valendo-se de ferramentas modernas de apuração e aferição das normas e dos procedimentos que devem ser atendidos, gerando desburocratização

“A FISCALIZAÇÃO (...)

NÃO ESTÁ APENAS SOB RESPONSABILIDADE DE AGÊNCIAS E INSTITUIÇÕES BRASILEIRAS (...), MAS TAMBÉM DE AGENTES INTERNACIONAIS, QUE VISITAM AS FÁBRICAS E INSTALAÇÕES CONSTANTEMENTE.

Fonte: SECEX; USDA

BRASIL: PRODUÇÃO E EXPORTAÇÃO DE CARNE DE BOVINOS, AVES E SUÍNOS

Produção (milhões de toneladas) Exportação (US$ bilhões)

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Produção Exportação