




























































































Estude fácil! Tem muito documento disponível na Docsity
Ganhe pontos ajudando outros esrudantes ou compre um plano Premium
Prepare-se para as provas
Estude fácil! Tem muito documento disponível na Docsity
Prepare-se para as provas com trabalhos de outros alunos como você, aqui na Docsity
Encontra documentos específicos para os exames da tua universidade
Prepare-se com as videoaulas e exercícios resolvidos criados a partir da grade da sua Universidade
Responda perguntas de provas passadas e avalie sua preparação.
Ganhe pontos para baixar
Ganhe pontos ajudando outros esrudantes ou compre um plano Premium
Livro Representações do intelectual [2005]
Tipologia: Notas de estudo
1 / 130
Esta página não é visível na pré-visualização
Não perca as partes importantes!





























































































d e s f a v o r e c i d o s ■; p ou c o r e p r e s e n t a - dos, sua viscío b r - v i ;ist; u u e c o m b i -* l'if;!? e n y n : i h :! V i i. ■ : j : ; o í n ;. ; r i * i ; i ' ■'') í;.;’ 'ir':-.;;?
y '4jU
Letras já publicou Orientalismo (1990),
As Conferências Reith de 1993
Tradução M ilton H atoum
Co m pan h ia Das L e t r a s
Copyright © 1994 by Edward W. Said Título original Representations o f the intellectual: The 1993 Reith Lectures Capa Ettore Bottini Foto de capa Layne Kennedy / C o rb is / Stock Photos Preparação Cacilda Guerra Revisão O lga Cafalcchio Isabel lorge C u ry
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (c ip) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Said, Edward W., 1935- Representações do in telectu al: as Conferências Reith de 1993 / Edward W. Said ; tradução M ilton H atoum. — São Paulo : Com panhia das Letras, 2 0 0 5. Título original: Representations o f the intellectual: The 1993 Reith Lectures. Bibliografia. ISBN 8 5 -3 5 9 -O 6 U -
[2005] Todos os direitos desta edição reservados à E D IT O R A S C H W A R C Z L T D A. Rua Bandeira Paulista 702 cj. 32 04532-002 — São Paulo — sp Telefone (11) 3707- Fax (11) 3707- w w w .com panhiadasletras.com .br
Introdução
Não há equivalente às Conferências Reith nos Estados Uni dos, apesar de vários am ericanos — Robert Oppenheimer, John Kenneth Galbraith, John Searle — as terem proferido desde a i- nauguração da série de program as radiofônicos em 1 948, por Ber- tran d Russell. Ouvi alguns desses programas — lem bro-m e par ticularm ente das conferências de Toynbee, em 1 950 — enquanto m enino que crescia no m undo árabe, onde a BBC era uma parte m uito im portante da nossa vida. Ainda hoje, frases com o “Londres inform ou esta m anhã” são um refrão com um no Oriente Médio, e sempre usadas com a suposição de que “Londres” diz a verdade. N ão sei se essa visão é apenas um vestígio do colonialismo, embora tam bém seja verdade que na Inglaterra e no estrangeiro a BBC ocu pa uma posição na vida pública que não é apreciada nem por agên cias governamentais, com o a Voz da América, nem por redes am e ricanas, incluindo a CNN. U m a razão é que program as com o as Conferências Reith e os muitos debates e documentários são apre sentados pela BBC não tan*o com o programas sancionados oficial m ente, mas com o ocasiões que oferecem aos ouvintes e especta
9
dores um conjunto impressionante de m aterial sério e, com fre qüência, de excelente qualidade. Por isso, senti-me muito honrado pela oportunidade de pro ferir as Conferências Reith de 1 9 9 3 , a convite de Anne Winder, da lute Devido a problemas de prazos e horários, acertam os uma data para fim de junho, em vez da data habitual, em janeiro. Mas quase a partir do m om ento em que • conferências foram anunciadas pela BBC, no final de 1 9 9 2 , houv ím coro de críticas persistente, em bora relativamente pequeno, em prim eiro lugar pelo fato de terem me convidado. Fui acusado de ser um ativista na luta pelos 'direitos palestinos e, portanto, desqualificado para qualquer tri buna séria ou respeitável. Esse foi apenas o primeiro de uma série de argumentos totalmente antiintelectuais e anti-racionais, todos eles, ironicamente, apoiando a tese das minhas conferências sobre o papel público do intelectual com o um outsider, um “am ador” e um perturbador do status quo. Essas críticas revelam, de fato, m uita coisa sobre as atitudes britânicas para com o intelectual. É claro que tais críticas são imputadas ao público britânico por certos jornalistas, mas a fre qüência com que são repetidas dá a essas noções alguma credibili dade social corrente. Ao com entar os temas anunciados das m i nhas conferências — “Representações do intelectual” — , um simpático jornalista afirm ou que era o assunto menos inglês para se abordar. As expressões “torre de m arfim ” e “um olhar de sar casm o” foram associadas à palavra “intelectual”. Esse raciocínio deplorável foi sublinhado pelo falecido Raym ond W illiams em Keyworãsr. “Até a m etade do século x x eram dominantes em inglês os usos desfavoráveis dos term os intelectuais, intelectualismo e intelligentsia ”, diz ele,“e é claro que tais usos persistem”. U m a das tarefas do intelectual reside no esforço em derrubar os estereótipos e as categorias redutoras que tanto limitam o pen- .sam ento hum ano e a com unicação. Antes de com eçar as conferên
10
um a separação cirúrgica em oposições vastas e sobretudo ideoló gicas com o O riente e Ocidente. M esm o os críticos bem -in ten cion ad os das minhas conferên cias — com entadores que p areciam ter um verdadeiro conheci m ento do que eu dizia— p artiram do princípio de que minhas exi gências sobre o papel do intelectual na sociedade continham uma m ensagem autobiográfica velada. Perguntaram -m e a respeito da p o sição de intelectuais de d ireita, co m o W yndham Lewis ou W illiam Buckley, e por que, na m inha opinião, todo intelectual tem de ser u m h om em ou u m a m u lh er de esquerda. O que não perce beram foi o fato de que Julien Benda, a quem (talvez paradoxal m ente) m e refiro com algum a freqüência, situava-se politicamen te bem à direita. C om efeito, m inha tentativa nessas conferências foi, antes de mais nada, falar de intelectuais precisamente com o aquelas figuras cujo desem penho público não pode ser previsto nem forçado a enquadrar-se n u m slogan, num a linha partidária ortod oxa ou num dogm a rígido. O que tentei sugerir é que os pa drões de verdade sobre a m iséria hum ana e a opressão deveriam ser m antidos, apesar da filiação p artid ária do intelectual enquanto indivíduo, das origens e de lealdades ancestrais. Nada distorce mais o desem penho público do intelectual do que os floreios re tóricos, o silêncio cauteloso, a jactância patriótica e a apostasia re trospectiva e autodram ática. A ten tativa de ad erir a u m p ad rão universal e único com o tem a desem penha um papel im p ortan te na m inha abordagem do intelectual. O u, antes, a in teração entre a universalidade e o local, o subjetivo, o aqui e agora. O interessante livro de John Carey The intellectuals and the masses: p rid e andprejudice among the literary intelligentsia 1 8 8 0 - 1 9 3 9 1 [Os intelectuais e as massas: orgulho e p reco n ceito en tre a in telligentsia literária, 1 8 8 0 -1 9 3 9 ] foi pu blicado nos Estados Unidos depois de eu ter escrito minhas confe rências. mas descobri que o conjunto de suas conclusões desani-
12
madoras complementava as minhas. Segundo Carey, intelectuais britânicos com o Gissing, Wells e W yndham Lewis execravam o crescim ento das m odernas sociedades de m assa, deplorando coisas com o “o hom em com um ”, os subúrbios, o gosto da classe m édia; ao contrário, prom overam um a aristocracia natural, os “bons” velhos tempos e a cultura da classe alta. Para m ím , o in- telectual dirige-se a um público tão amplo quanto possível, que é sua platéia natural, em vez de desancá-lo. O problema para o in telectual não é tanto, com o Carey discute, a sociedade de massa co m o um todo, mas antes os que estão por dentro do sistema, especia listas, grupos de interesses, profissionais que, nos moldes definidos no início do século XX pelo erudito Walter Lippmann, m oldam a opinião pública, tornando-a conform ista e encorajando a co n fiança num grupinho superior de homens que sabem tudo e estão no poder. Pessoas bem relacionadas pro m ovem interesses p a r ticulares, mas são os intelectuais que deveriam questionar o nacio nalismo patriótico, o pensam ento corporativo e um sentido de privilégio de classe, raça ou sexo.
A universalidade significa correr um risco no sentido de ir além das certezas fáceis que nos são dadas pela nossa form ação, língua e nacionalidade, que tão freqüentemente nos escudam da realidade dos outros. Também significa procurar e tentar manter um padrão único para o comportamento humano quando são abordados cer tos assuntos, como política externa e política social. Assim, se con denamos um ato de agressão injustificada de um inimigo, de veríamos também ser capazes de fazer o mesmo quando nosso governo invade um rival mais fraco. Não há regras por meio das quais intelectuais possam saber o que dizer ou fazer; nem para o ver dadeiro intelectual secular há deuses a serem venerados e a quem pedir orientação firme.
13
alunos tem um valor de verdade, ou se vê com o uma personalidade advogando uma perspectiva excêntrica, mas consistente? Todos nós vivem os num a sociedade e som os m em bros de 0 um a nacionalidade com sua própria língua, tradição e situação histórica. Até que ponto os intelectuais são servos dessa realidade, até que p on to são seus inimigos? A m esm a coisa acontece com a relação dos intelectuais com as instituições (academia, Igreja, enti dade profissional) e com os poderes de um m odo geral, os quais, na nossa época, cooptaram a intelectualidade em grau extraordi nariam ente alto. C om o assinala o poeta Wilfred Owen, o resultado é que “os escribas im põem suas vozes ao povo/ E apregoam obe diência ao Estado” Por isso, a m eu ver, o principal dever do in telectual é a busca de uma relativa independência em face de tais pressões. Daí minhas caracterizações do intelectual com o um exi- lado e m arginal, com o am ado r e autor de um a linguagem que tenta falar a verdade ao poder. Uma das virtudes, assim com o um a das dificuldades, de pro ferir as C onferências Reith é o fato de estarm os lim itados pelo rigor inflexível do form ato de um p rogram a de trinta m inutos: um a conferência p o r semana durante seis semanas. No entanto, o conferencista se dirige ao vivo a um público enorm e, muito m aior do que aquele a que norm alm ente intelectuais e acadêm icos se dirigem. Para abordar um assunto tão complexo e potencialmente interm inável co m o o m eu, essa situação representou para m im um a exigência especial no sentido de ser o mais preciso, acessível e econôm ico possível. Ao prepará-las para publicação, mantive-as praticam ente com o foram proferidas, acrescentando apenas uma referência ocasional ou um exemplo, para assim m elhor preservar tanto o m om en to quanto a necessária concisão do original, sem deixar no texto qualquer brecha para ofuscar ou, de outra m aneira, diluir ou suavizar os temas mais im portantes. Assim, enquanto tenho pouco a acrescentar que possa m udar
15
as idéias expostas aqui, gostaria que esta introdução fornecesse um pouco mais de contexto. Ao sublinhar o papel do intelectual com o um outsider, tenho tido em mente quão impotentes nos sentimos tantas vezes diante de um a rede esmagadoramente poderosa de autoridades sociais — os meios de comunicação, os governos, as corporações etc. — que afastam as possibilidades de realizar qual quer m udança. Não perten cer deliberadamente a essas autori dades significa, em m uitos sentidos, não ser capaz de efetuar mudanças diretas e, infelizmente, ser às vezes relegado ao papel de um a testem unha que confirm a um horror que, de outra maneira, não seria registrado. Um relato recente e muito comovente de Peter Dailey sobre o talentoso ensaísta e rom ancista afro-am ericano Jam es Baldwin m ostra particularm ente bem essa condição de “testem unha” em todo o seu páthos e eloqüência ambígua. M as restam poucas dúvidas de que figuras com o Baldwin e M alcolm X definem o tipo de trabalho que mais influenciou mi nhas representações da consciência do intelectual. O que me prende é mais um espírito de oposição do que de acom odação, porque o ideal rom ântico, o interesse e o desafio da vida intelectual devem ser encontrados na dissensão contra o status quo, num m om ento em que a luta em nom e de grupos desfavorecidos e pou co representados parece pender tão injustamente para o lado con trário ao deles. Meus antecedentes na política palestina intensi ficaram ainda mais essa posição. Tanto no Ocidente com o no m undo árabe, a lacuna que separa os poderosos dos despossuídos aprofunda-se a cada dia; e, entre os intelectuais que estão no poder, essa lacuna ressalta um a indiferença presunçosa que é realmente assustadora. Poucos anos depois de causar estardalhaço, o que poderia ser m enos atrativo e menos verdadeiro do que a tese de Fukuyama sobre o “fim da História” ou o estudo de Lyotard sobre o “desaparecimento” das “grandes narrativas”? O m esmo se pode dizer dos pragm áticos e dos realistas de cabeça dura que tram a
16
editorial. Agradeço-lhe m uito. Pelo seu interesse nessas conferên cias e pela gentileza em publicar alguns trechos, agradeço tam bém aos meus queridos amigos Richard Poirier, editor da Raritan Review, e Jean Stein, editora da Grand Street. A substância dessas páginas foi constantem ente iluminada e revigorada pelo exemplo de muitos intelectuais de valor e grandes amigos; um a lista de seus nom es nesta in trod u ção seria talvez em b araçosa para eles, p o dendo parecer desagradável. De todo m odo, alguns desses nomes aparecem nas conferências. Saúdo-os e agradeço-lhes por sua so lidariedade e seus ensinamentos. A dra. Zaineb Istrabadi ajudou- me em todas as fases da preparação dessas conferências: sou-lhe muito grato pela sua assistência eficaz.
E. W. S. Nova York l Fevereiro, 1994
Os intelectuais formam um grupo de pessoas m uito grande ou extremamente pequeno e altam ente selecionado? Sobre essa questão, duas das mais famosas descrições de intelectuais do sé culo x x são fundam entalm ente opostas. A ntonio G ram sci, o m arxista, militante, jornalista e brilhante filósofo político italia no, que foi preso por Mussolini entre 1926 e 1937, escreveu nos seus Cadernos do cárcere que “todos os homens são intelectuais, embora se possa dizer: mas nem todos os homens desempenham na sociedade a função de intelectuais”.1 A p rópria carreira de Gramsci exemplifica o papel que ele atribuiu ao intelectual. Filó- logo capacitado, ele foi ao m esm o tem po um organizador do movimento da classe operária italiana e, em sua atividade jornalís tica, um dos analistas sociais mais conscientemente ponderados, cujo objetivo era construir não apenas um m ovim ento social, mas tam bém toda uma formação cultural associada a esse movim ento. Gram sci tenta m ostrar que as pessoas que desem penham um a função intelectual na sociedade podem ser divididas em dois tipos: prim eiro, os intelectuais tradicionais, com o professores,
19