













Estude fácil! Tem muito documento disponível na Docsity
Ganhe pontos ajudando outros esrudantes ou compre um plano Premium
Prepare-se para as provas
Estude fácil! Tem muito documento disponível na Docsity
Prepare-se para as provas com trabalhos de outros alunos como você, aqui na Docsity
Encontra documentos específicos para os exames da tua universidade
Prepare-se com as videoaulas e exercícios resolvidos criados a partir da grade da sua Universidade
Responda perguntas de provas passadas e avalie sua preparação.
Ganhe pontos para baixar
Ganhe pontos ajudando outros esrudantes ou compre um plano Premium
Este artigo analisa a complexa relação entre o conhecimento científico e o senso comum, explorando as diferentes perspectivas sobre a hierarquia do conhecimento e a importância de superar a dicotomia entre esses dois sistemas de saber. O texto aborda a influência de figuras como platão, bachelard, gramsci e moscovici, além de discutir a necessidade de uma nova configuração de conhecimento que integre o senso comum e a ciência moderna.
Tipologia: Redação
1 / 21
Esta página não é visível na pré-visualização
Não perca as partes importantes!














115 Cad. Bras. Ens. Fís., v. 27, n. 1: p. 115 - 135, abr. 2010.
**+ *** Marcelo Gomes Germano Departamento de Física – UEPB Wojciech Andrzej Kulesza Departamento de Metodologia da Educação – UFPB João Pessoa – PB Resumo Uma importante questão relacionada aos fundamentos teóricos das práticas educacionais em popularização e comunicação pú- blica da ciência refere-se à problemática relação entre conheci- mento científico e saberes de senso comum. Duas formas de co- nhecer que parecem excluírem-se em seus critérios de explicação da realidade. Se a ciência desenvolve-se em flagrante negação aos saberes de senso comum, como afirmar a possibilidade de sua popularização? Como fazer um caminho inverso de reaproxima- ção e diálogo entre estes dois discursos que pretendem explicar uma mesma realidade por caminhos tão diferentes? Neste traba- lho, revisitamos a epistemologia bachelardiana para, em confron- to com a opinião de outros pensadores, desenvolver uma crítica no sentido de apontar a importância e o lugar do senso comum em meio a essa antiga e persistente discussão. Palavras-chave: Ciência; senso comum; popularização.
116 Germano, M. G. e Kulesza, W. A. Abstract One important question related to the theoretical fundamentals of educational practices in popularization and public communication of Science is the one concerning the difficult relation between scientific knowledge and common sense knowledge. These are two forms of knowledge that seem to exclude themselves mutually at the level of the criteria they use to explain the phenomena. If Science develops itself by contradicting common sense knowledge, how the popularization of scientific results is possible at all? Is there a way back to common sense that makes possible a dialogue between these two kinds of discourse that strive to explain the same reality with so different approaches? In this study, Bachelardian epistemology is revisited and, taking into account the opinion of other philosophers and scientists, we develop a critical standpoint that focuses and underlines the importance of common sense in that old and persistent discussion. Keywords : Science; common sense; popularization.
Não é simples estabelecer com precisão o momento em que aparece um recorte entre conhecimentos de senso comum e conhecimentos de bases filosóficas e científicas. Além de questões relativas à divisão do trabalho e aos conflitos e desigualdades sociais, muitos outros fatores parecem intervir em fenômenos dessa natureza, revelando a complexidade de um processo que acompanha o homem desde a gênese de sua cultura. Já nos poemas de Homero e Hesíodo, encontramos alguns traços dessa qualificação. Conforme escreve Melo Neto (2004), a poesia de Homero é mais voltada ao mundo e à cultura dos nobres, dando maior ênfase a uma educação aristocrática para a qualidade tanto dos nobres como dos heróis. No caso de Hesí- odo, há uma poesia arraigada à terra e à representação da vida campestre, mais rústica, mais simples e mais próxima do trabalho. Portanto, mais próxima de um conhecimento de senso comum. Na escola pitagórica, verifica-se mais acentuadamente a elaboração de explicações matemáticas de natureza mais abstrata e que escapam ao entendimen-
118 Germano, M. G. e Kulesza, W. A. estabelecendo como princípio uma hierarquia na qualidade do conhecimento: enquanto aqueles adquiridos através dos sentidos possuíam qualidade inferior e secundária, os alcançados através da razão dispunham de um status superior e de qualidade primária. Enquanto conceito filosófico, a ideia de senso comum surgiu no século XVIII, representando o combate ideológico da burguesia contra o velho regime e, como escreve Santos (2003, p. 36), trata-se “de um senso que se pretende natural, razoável, prudente, um senso que é burguês e que, por uma dupla implicação, se converte em senso universal”. Porém, com a vitória do projeto burguês, era natu- ral que caísse em desvalorização e descrédito sendo reduzido a um conhecimento ilusório e de segunda categoria. É, portanto, nesse contexto de crítica à sociedade burguesa do século XIX que se erguem as ciências sociais em seu conhecido com- bate aos saberes de senso comum. Se, do ponto de vista das ciências naturais, o testemunho dos sentidos é insuficiente e, na maioria dos casos, só induz ao erro e para as ciências sociais, as ideias forjadas a partir de opiniões cotidianas refletem muito mais a ideologia das classes dominantes, qual é mesmo o lugar do senso comum em meio a esse deba- te? Buscando uma resposta mais adequada para essa questão, procedemos a essa investigação que reúne, em um mesmo debate, pontos de vista que vão desde uma epistemologia próxima das ciências naturais, Bachelard (1984, 1986), até o discurso da sociologia, Santos (2003, 2004), intermediados por uma reflexão pe- dagógica, Freire (1996, 1999), o olhar do marxismo moderno, Gramsci (1979,
II.1 O senso comum na epistemologia de Bachelard O encontro de Bachelard com o problema do senso comum dar-se-á atra- vés de sua indagação a respeito de como pode haver avanço no conhecimento científico. No clássico, “A Formação do Espírito Científico. Contribuição para uma Psicanálise do Conhecimento”, o filósofo francês responde a essa questão
119 Cad. Bras. Ens. Fís., v. 27, n. 1: p. 115 - 135, abr. 2010. introduzindo o conceito de “obstáculos epistemológicos”. Para o autor, é em ter- mos de obstáculos que a questão do desenvolvimento científico deve ser colocada, não em termos de obstáculos externos como a complexidade ou fugacidade dos fenômenos, e nem como a admitida culpa atribuída à fragilidade dos sentidos, mas ... é no âmago do próprio ato de conhecer que aparecem, por uma espé- cie de imperativo funcional, lentidões e conflitos. É ai que mostraremos causas de estagnação e até de regressão, detectaremos causas de inércia às quais daremos o nome de obstáculos epistemológicos (BACHELARD, 1996, p. 17). Embora não coloque a culpa diretamente nos sentidos e nem na fragili- dade do espírito humano, o termo cunhado por Bachelard aponta uma série de atitudes e valores que, de alguma forma, obstaculizam o desenvolvimento do co- nhecimento científico e da própria ciência. Curiosamente, o senso comum aparece como um dos principais exemplos dessas atitudes. Juntamente com o preconceito, a ideologia, a idolatria e a opinião, figura, numa concepção bachelardiana, como um dos primeiros e mais importante, obstáculos epistemológicos ao desenvolvi- mento do conhecimento científico. “Na formação do espírito científico, o primeiro obstáculo é a experiência primeira, a experiência colocada antes e acima da crítica
121 Cad. Bras. Ens. Fís., v. 27, n. 1: p. 115 - 135, abr. 2010. gregada e incoerente do mundo; uma compreensão difusa de uma realidade mar- cada pela presença da ideologia dos grupos dominantes. Por conseguinte, avançar do senso comum para a consciência filosófica “significa passar de uma concepção fragmentária, incoerente, desarticulada, implícita, desagregada, mecânica, passiva e simplista a uma concepção unitária, coerente, articulada, explícita, original, intencional ativa e cultivada” (SAVIANI, 1980, p.10). Essa passagem exigirá uma educação comprometida com a construção de uma nova hegemonia, além de uma nova categoria de intelectuais engajados com a formação e os interesses das clas- ses populares. Nesse processo, Gramsci reconhece que, não existindo nenhuma atividade humana da qual se possa excluir toda intervenção intelectual, todos os homens são intelectuais. No seu trabalho, que nunca pode ser reduzido só à capacidade técnico- manual (enquanto trabalho humano), mas também, fora do seu trabalho cada homem é um intelectual, um filósofo, enquanto participa de uma determinada concepção do mundo, tem gostos artísticos e se comporta de acordo com uma linha de conduta moral... (GRAMSCI, 1979, p. 8) Com efeito, mantendo-se coerente com a ideia de que todo homem é filó- sofo, o autor reconhece a presença de um núcleo positivo no senso comum, o qual denomina de “ bom senso ”. Apesar de envolto na contradição entre suas próprias falas e crenças e as tradições herdadas e veiculadas pelos grupos dominantes, é possível resgatar do senso comum o seu núcleo positivo de bom senso , tarefa que caberá aos intelectuais organicamente ligados aos interesses populares. Como fica evidente, Gramsci não entende o senso comum como algo estático e acabado, mas como um processo que, em contato com os intelectuais, pode ser enriquecido com noções científicas e filosóficas que gradativamente penetram nos costumes. O senso comum é considerado o folclore da filosofia e, numa visão gramsciana, ocupa sempre um lugar intermediário entre o folclore propriamente dito e a filoso- fia (GRAMSCI, 1979). De qualquer forma, é tarefa da filosofia da práxis superar a ideia equivocada de que o senso comum é uma filosofia original e autônoma dos grupos populares, desmascarando a sua realidade contraditória e alienada. II. 3 Das rupturas à superação: o senso comum em Freire Paulo Freire, em sua prática inicialmente vinculada ao problema da alfa- betização de adultos, também vai deparar-se com a problemática relação entre o conhecimento sistematizado e os saberes cotidianos e de senso comum. Se, con-
122 Germano, M. G. e Kulesza, W. A. forme o autor, a leitura do mundo precede à leitura da palavra, esta deveria ser desenvolvida dentro de um processo de conscientização 1 , numa intervenção que conduzisse a uma superação da consciência ingênua em favor de uma consciência crítica. De acordo com Freire (1980, p. 26), “na aproximação espontânea que o homem faz do mundo, a posição normal fundamental não é uma posição crítica, mas uma posição ingênua”. A conscientização implica um afastamento da apreen- são espontânea da realidade e uma postura crítica em que o homem assume uma atitude epistemológica. Contudo, diferente da concepção bachelardiana, defende a ideia de que entre a ingenuidade e a criticidade, entre os saberes de experiência e os que resultam de procedimentos metodologicamente rigorosos não há uma rup- tura, mas uma superação. É na obra “Pedagogia da Autonomia: saberes necessá- rios à prática educativa” que expressa muito claramente sua opinião a respeito desta questão. Na verdade, a curiosidade ingênua que, “desarmada”, está associada ao saber de senso comum, é a mesma curiosidade que, criticizando-se, a- proximando-se de forma cada vez mais metodologicamente rigorosa do objeto cognoscível, se torna curiosidade epistemológica. Muda de quali- dade, mas não muda de essência (FREIRE, 1996, p. 31). Nesse sentido, embora não faça referência a Bachelard, discorda da ideia de ruptura epistemológica e substitui o termo pela palavra superação. De modo que, no processo em que a curiosidade ingênua, sem deixar de ser curiosidade e, pelo contrário, continuando a sê-lo, se criticiza, não há uma ruptura, mas uma superação. No entanto, a superação de uma visão ingênua da realidade não se dará através de comunicados e imposições das lideranças revolucionárias. É no diálogo que o autor deposita todas as suas esperanças. É necessário acreditar nos homens oprimidos, na sua capacidade de pensar certo também. “Se esta crença nos falha, abandonamos a ideia ou não a temos, do diálogo, da reflexão, da comunicação e caímos nos slogans, nos comunicados, nos depósitos, no dirigismo” (FREIRE, 1981, p. 57). Nesse sentido, o autor reafirma em sua “Pedagogia da Esperança”: “O que não é possível – repito-me agora – é o desrespeito ao saber de senso co- mum; o que não é possível é tentar superá-lo sem, partindo dele, passar por ele” (FREIRE 1999, p. 84). Por outro lado, embora tenha afirmado que “ninguém 1 De acordo com Paulo Freire, o termo conscientização foi criado por uma equipe de pro- fessores do Instituto Superior de Estudos Brasileiros por volta de 1964. Entre os professo- res, figuravam os nomes de Vieira Pinto e Guerreiro (FREIRE, 1980, p.25)
124 Germano, M. G. e Kulesza, W. A. encarado como um importante terceiro fator entre o conhecimento científico e a ideologia. Preocupado com a questão do impacto causado pela ciência na cultura das massas, Moscovici discorda da posição marxista em relação ao caráter e ao lugar do senso comum. Para ele, “Os marxistas – ou mais precisamente Lênin! – desconfiavam do conhecimento espontâneo e do pensamento das massas” (MOSCOVICI, 2003, p. 309). Tal convicção teria sustentado a ideia de que os conhecimentos de senso comum deveriam ser purificados de suas irracionalidades ideológicas, religiosas e populares, devendo ser substituído por uma concepção científica do ser humano, da história e da natureza, visão que estaria vinculada à concepção marxista e materialista da história. Em certo sentido, prossegue Moscovici (Idem p. 310), o objetivo era transformar todos os seres humanos em quase cientistas, fazendo-os pensar de uma maneira racional e objetiva. Por outro lado, e, paradoxalmente, considerava-se a comunicação, popularização ou, em uma terminologia francesa, a vulgarização da ciência uma espécie de caricatura que desvirtuava o conhecimento científico em sua versão original. Nesse particular, havia uma convergência entre marxistas e não marxistas; isto é, para ambas as correntes, o conhecimento de senso comum era contaminado, deficiente e errado. Opondo-se a essa corrente de pensamento, Moscovici tenta reabilitar o conhecimento comum, próprio das experiências diárias, linguagens e práticas cotidianas, ao mesmo tempo em que reage contra a ideia de que o povo é incapaz de pensar racionalmente e apenas os intelectuais são portadores de tal privilégio. Portanto, o pensamento de senso comum é considerado razoável, sensível e racional e deve ser entendido como aquele terceiro fator que liga os indivíduos à sua cultura, à sua linguagem e ao seu mundo familiar. Assim como o mito para a antropologia, os sonhos para a psicanálise e o mercado para economia, o senso comum é, para Moscovici, a matéria prima da psicologia social. O senso comum tem suas próprias características e, ao contrário do pensamento científico que, de maneira ideal, pode ser compreendido independentemente do conteúdo e através de formalizações lógico-matemáticas, o pensamento comum, não pode ser dividido em dois; o conteúdo infecta o raciocínio, tornando-o plausível e, sem isso, a forma torna-se incompreensível e sem sentido. É na infância que, muito cedo, a marca do senso comum é adquirida, justamente através da comunicação oral. Não é curioso que, mesmo sem nenhum estudo, as pessoas aprendam a falar com perfeição a sua língua materna? (MOSCOVICI, 2003). Se antes a ciência baseada no senso comum o tornava menos comum, agora o senso comum é a ciência tornada comum. Nesse caso, o senso comum
125 Cad. Bras. Ens. Fís., v. 27, n. 1: p. 115 - 135, abr. 2010. estaria em contínua criação e recriação em nossas sociedades, sobretudo onde conhecimento científico e tecnológico está sendo popularizado. De fato, cada objeto simples, cada lugar comum, esconde dentro de sua banalidade um mundo de conhecimentos e, embora não seja trivial transformar palavras, ideias e acontecimentos não familiares em palavras e ideias usuais e acessíveis, as imagens simbólicas derivadas da ciência e que constituem o conteúdo próprio do senso comum estão sendo frequentemente reconstruídas ou retocadas. II. 5 Ruptura da ruptura: o senso comum na visão de Boaventura Santos A tese inicial de Santos (2004a) é que todo conhecimento científico visa a constituir-se em senso comum. Se a ciência moderna nasceu e cresceu contra o senso comum que considerou superficial, ilusório e falso, a nova ciência deve procurar reabilitar o senso comum , reconhecendo nesta forma de conhecer algumas virtualidades fundamentais ao enriquecimento de nossa relação com o mundo. Em “Introdução a uma Ciência Pós-moderna”, Santos (2003) estabelece com maior clareza o seu ponto de vista e sistematiza melhor os seus argumentos. Ao defender a tese de uma segunda ruptura epistemológica, reconhece que a epistemologia de Bachelard interpreta fielmente o modelo de racionalidade subjacente ao paradigma da ciência moderna e o faz de maneira mais suave e mais simples que as antigas epistemologias idealistas e empiristas. No entanto, só é compreensível dentro do próprio modelo, ou seja, a ruptura epistemológica bachelardiana só é compreensível dentro do paradigma da própria ciência moderna. Assim, se o modelo em questão entra em crise, o mesmo deve suceder- se à epistemologia que lhe dá sustentação. De acordo com o sociólogo português, o processo histórico da crise final da ciência moderna inicia-se com a crise da epistemologia que lhe representa com maior fidelidade, isto é, a epistemologia bachelardiana. Nesse contexto, o autor aponta o reencontro da ciência com o senso comum , sugerindo uma visão alternativa que resgata os aspectos positivos dos saberes cotidianos, sobretudo o seu potencial para os projetos de emancipação social e cultural. Para Santos (2004a), justamente pelo fato de ser indisciplinar e não resultar de uma prática orientada para a produção, o senso comum é capaz de reproduzir-se espontânea e pragmaticamente sem descolar-se das trajetórias de vida dos grupos sociais. E nessa correspondência firma-se de confiança e de segurança. Também é transparente e evidente, questionando a opacidade dos objetos tecnológicos e do obscurantismo do conhecimento científico em defesa do princípio da igualdade do acesso ao discurso e à competência cognitiva e linguística. Mas, conforme acredita
127 Cad. Bras. Ens. Fís., v. 27, n. 1: p. 115 - 135, abr. 2010. sérios obstáculos no caminho do desenvolvimento científico e, ao seguir movimen- to radicalizado pela ciência moderna, declara guerra ao senso comum, que deve ser encarado como fonte de conservadorismos e preconceitos, tornando-se impor- tante apenas como fator de superação. O desenvolvimento vitorioso das ciências naturais modernas nos séculos XIX e XX produziu uma forte influência nas ciências sociais e, particularmente, em algumas correntes marxistas, que passaram a assumir posições deterministas e desconfiar dos saberes de senso comum. Impregnados de irracionalidades ideoló- gicas, religiosas e populares, os saberes cotidianos tornavam-se sérios obstáculos a uma visão científica do ser humano, da história e da natureza, devendo ser substi- tuídos por uma concepção materialista e marxista da realidade. Além de resgatar a importância da ideologia e aperfeiçoar o conceito de hegemonia, Gramsci afasta- se um pouco dessa corrente e, embora reconheça que o pensamento forjado, a partir das classes hegemônicas, encontra-se impregnado nos saberes cotidianos e de senso comum, ainda vislumbra um núcleo positivo de bom senso que, em con- tato com o conhecimento sistemático dos intelectuais organicamente comprometi- dos com as causas populares, pode avançar para o nível de uma consciência filosó- fica. De qualquer modo, a tarefa da filosofia da práxis é superar a ideia equi- vocada de que o senso comum é uma filosofia original e autônoma dos grupos populares e revelar o seu caráter alienado e contraditório. Mas, se, à maneira gramsciana, deve-se reconhecer a presença da ideologia dominante hospedada na consciência dos oprimidos, não acreditamos que a superação desse processo possa ser construída sem a participação consciente e decisiva dos próprios oprimidos. A esse respeito, Freire coloca uma questão que merece uma reflexão mais cautelosa e demorada. Com efeito, ao se afastar da ideia bachelardiana de ruptura epistemológica, nos impõe uma pergunta de grande sutileza e profundidade: have- rá ou não ruptura no processo de construção do conhecimento? Qual a diferença entre ruptura e superação? Seria a ciência um senso comum mais refinado e disci- plinado ou um conhecimento de natureza diferente que nasce justamente a partir de uma ruptura radical com o senso comum? Aqui teremos que abrir um parêntese para, retornando aos exemplos cunhados pelo próprio Bachelard (1984) em sua “Filosofia do Não”, poder construir uma melhor compreensão do problema. É a partir de uma sequência histórica envolvendo diferentes conceitos de massa que o autor demonstra os vários momentos em que se verificam as rupturas epistemológicas, isto é, a negação de um conhecimento estabelecido em benefício de uma explicação mais complexa e abrangente. Em sua primeira forma, a ideia de massa corresponde a uma noção quan- titativa grosseira e muito ligada à realidade dos sentidos. Avalia-se uma massa
128 Germano, M. G. e Kulesza, W. A. pelo sentido da visão, confundindo-se o maior com o mais pesado. Nesse caso, e como sempre, o primeiro conhecimento nasce com a primeira contradição: uma casca vazia contradiz as expectativas dos sentidos e impõe um rompimento com o conhecimento anterior. Um segundo nível é aquele baseado no emprego cauteloso da empiria instrumental da balança, em um exemplo clássico em que a utilização do instrumento precede a sua teoria 3
. Num terceiro momento, a massa é definida como um corpo de noções e não mais como um simples elemento primitivo de uma experiência imediata e direta. A partir de Newton (final do século XVII), a massa passou a ser definida como o quociente da força pela aceleração. Conforme Bachelard (1984), a partir do momento em que se definiram em correlação as três noções de força, de massa e de aceleração, realizou-se um imediato afastamento em relação aos princípios fundamentais do realismo empirista, podendo-se deduzir qualquer uma das noções a partir de qualquer uma das outras duas. Com efeito, partindo da escolha de três categorias fundamentais, como sejam, espaço absoluto, tempo absoluto e massa absoluta, o racionalismo newtoniano dominaria toda a física dos séculos XVIII e XIX. Todavia, uma quarta definição de massa seria apontada pela Teoria da Relatividade (início do século XX), introduzindo uma grande abertura no raciona- lismo fechado em torno das concepções newtonianas e kantianas. Primeiro, a noção de massa como átomo nocional pode ser objeto de análise. Pela primeira vez, um átomo nocional pôde ser decomposto e, nesse caso, chega-se a um estra- nho paradoxo em que o elemento, o elementar, é complexo. Por outro lado, a teoria da relatividade também revela que a massa, antes compreendida como enti- dade absoluta e definida no espaço e no tempo absolutos é, na verdade, uma fun- ção complicada da velocidade. A massa de um objeto, assim como o espaço e o tempo, é relativa ao deslocamento desse objeto. Portanto, numa visão bachelardi- ana, o racionalismo tradicional é profundamente abalado por essa noção múltipla das categorias elementares, “ surgindo corpos de aproximação, corpos de explica- ção, corpos de racionalização”. Nesse caso, uma organização é racional relati- vamente a um corpo de noções, não existindo uma razão absoluta. A quinta e última noção de massa, que aparece nos exemplos de Bache- lard, é aquela sugerida por Dirac. Sem entrar em maiores detalhes sobre essa complexa construção, o autor apresenta a mecânica de Dirac como uma concepção 3 No que se refere à antiga conceituação de massa, a balança já era utilizada muito antes do conhecimento da teoria da alavanca (BACHELARD, 1984, p.15).
130 Germano, M. G. e Kulesza, W. A. uma ligação com as noções anteriores. E é o próprio Bachelard quem reconhece esse fato. Nós tínhamos apenas necessidade de uma massa; o cálculo dá-nos duas, duas massas para um só objeto. Uma dessas massas resume perfeitamen- te tudo o que se sabia da massa nas quatro filosofias precedentes: rea- lismo ingênuo, empirismo claro, racionalismo newtoniano, racionalismo completo einsteiniano. Mas a outra massa dialética da primeira, é uma massa negativa. [...] Por conseguinte, uma metade da mecânica de Di- rac reencontra e continua a mecânica clássica e a mecânica relativista; a outra metade diverge numa noção fundamental; dá origem a algo dife- rente... (1984, p. 20, grifos nossos). De fato, encontramo-nos diante de uma questão paradoxal e é o próprio Bachelard quem reconhece a dualidade contida na complexidade dialética da noção de massa proposta por Dirac. De um lado, a ideia de uma massa negativa se constitui em uma profunda ruptura com as filosofias anteriores, de outro lado, a massa positiva aponta para a continuidade e o reencontro com as noções clássica e relativística. Nesse caso, trata-se de um processo complexo em que coexistem rupturas e continuidades, numa unidade semelhante à unidade hegeliana em que a cultura sempre reaparece como natureza negada, mas imediatamente reafirmada a cada nova síntese autoconsciente. Outro contexto, não menos problemático, no qual essa questão aparece, é aquele em que se discute a passagem revolucionária de uma teoria para outra em meio a uma disputa entre dois paradigmas diferentes. Em tais situações, Tomas Kuhn (2003) defende a tese da incomensurabilidade entre os diferentes paradig- mas em disputa. Um exemplo típico é aquele da passagem da mecânica newtonia- na para a mecânica relativista. Conforme a tese de Kuhn, embora em certas con- dições e limites matemáticos a dinâmica newtoniana possa ser aparentemente derivada da dinâmica relativista, tal derivação é espúria, pelo menos em um pon- to. Todavia, mesmo reinterpretada de uma maneira nova, não podemos ne- gar o reencontro fundamental da mecânica newtoniana com a teoria da relativida- de de Einstein. Nesse particular, preferimos endossar a tese defendida por Bastos Filho (2005), segundo a qual, no curso de uma passagem revolucionária de uma teoria para outra, coexistem tanto aspectos de continuidade como aspectos de descontinuidade. Conforme o referido autor, no caso da teoria da relatividade, “coexistem tanto os aspectos da continuidade ensejados por um limite matemático da teoria da relatividade restrita para a mecânica newtoniana, quanto os aspectos
131 Cad. Bras. Ens. Fís., v. 27, n. 1: p. 115 - 135, abr. 2010. de ruptura consubstanciados por uma descontinuidade filosófica sobre os signifi- cados dos conceitos de energia e de massa nas duas teorias” (Idem, p. 67). Novamente, sustentamos a tese de que se trata de um processo complexo em que, de fato, coexistem rupturas e continuidades. E é justamente esse elo que possibilita o diálogo entre o conhecimento científico e os saberes de senso comum, dando sentido a esforços e tentativas de popularização da ciência e tecnologia. É só no contexto desse paradoxo que encontramos uma explicação para o conceito de superação cunhado por Freire (1996) e para a tese de uma segunda ruptura epistemológica proposta por Santos (2003). Na realidade, os dois autores tentam recuperar e manter o vínculo de ligação entre o conhecimento científico e os saberes de senso comum, flagrantemente desvinculados pela epistemologia bachelardiana. Freire o faz substituindo a palavra ruptura por superação o que, em tese, salvaria o elo da relação. No entanto, ao negar as rupturas bachelardia- nas, corre o risco de não demarcar claramente a necessária linha divisória entre duas formas distintas de conhecimento. Santos por sua vez, recorre a uma segun- da ruptura epistemológica que considera necessária para completar o sentido da primeira. Nesse caso, uma primeira ruptura consistiria em romper com a concep- ção do senso comum sobre o modo como se faz ciência. De acordo com Santos (2003), essa ruptura revelaria que as diferenças entre os modos de produção do conhecimento não são tão absolutas quanto o senso comum julga, mas que, mes- mo assim, existem e são significativas. Em termos reais há, pois, um misto de cumplicidade e denúncia mútua entre as duas formas de conhecimento, e é esta ambiguidade que torna possível a segunda ruptura. Se as duas formas de conhecimento fossem totalmente distintas, a ciência não podia aspirar a transformar-se em senso comum, se fossem idênticas não podia pretender transformar o senso comum (SANTOS, 2003, p. 50). É interessante notar como Santos faz questão de, mantida a distinção en- tre o conhecimento científico e os saberes de senso comum, reconhecer a proximi- dade entre as duas formas de conhecer, numa formulação semelhante à nossa ideia da vinculação paradoxal entre rupturas e continuidades. De fato, sem esses pontos de vinculação, o elo estaria quebrado e a ciência se afastaria completamente da comunidade de sentidos, tornando-se uma entidade estranha à ideia de pertenci- mento à humanidade. Pelo menos por enquanto, ainda não identificamos tal pro- cesso e, se esta será uma possibilidade futura, não se pode deixar de conjecturar. Mas, por enquanto, ainda somos comuns, ainda somos materiais, organismos vivos existenciais e enraizados no mundo e quase toda essa existência se sustenta no conhecimento do senso comum. A esse respeito é muito oportuna a fala de
133 Cad. Bras. Ens. Fís., v. 27, n. 1: p. 115 - 135, abr. 2010. da mente, conformam a linguagem e o comportamento usual, estão constantemen- te sendo retocadas” (MOSCOVICI, 2003, p. 95). Como nos lembra Lévy-Leblond (2004), por mais que a ciência seja for- malizada, ela não pode prescindir da linguagem comum, pois é no espaço entrea- berto entre o cálculo e a palavra que o pensamento pode se manifestar, tanto por meio da narração e da metáfora, como por intermédio do imaginário. Se for, de fato, objetivo da ciência proceder à crítica do senso comum, para alcançar tal propósito, terá que inserir-se na comunidade de sentidos, sem pleitear qualquer privilégio de exceção linguística. Se o discurso científico tem se tornado cada vez mais hermético e inco- mensurável com os discursos que circulam no cotidiano das práticas sociais e essa estranheza já alcança o próprio interior da comunidade científica, haveremos que, seguindo Santos (2003), proceder a uma ruptura da ruptura e, à busca do diálogo, estabelecer uma atitude permanentemente hermenêutica, que tenta transformar a ciência, de um objeto estranho, distante e incomunicável, num objeto familiar e próximo que, embora não compartilhe a língua de todos os dias, seja capaz de comunicar os seus feitos, como também, os seus limites. Trazer o Golem 4 para o interior da casa, para a familiaridade, é ainda o caminho mais seguro.
BACHELARD, G. A Filosofia do não; O novo espírito científico; A poética do espaço. Seleção de textos de José Américo Motta Pessanha. Tradução de Joaquim José Moura Ramos et. al. 2. ed. São Paulo: Editora Abril Cultural, 1984. (Os Pen- sadores). BACHELARD, G. A formação do espírito científico : contribuição para uma psicanálise do conhecimento. Tradução de Estela dos Santos Abreu. Rio de Janei- ro: Editora Contraponto, 1996. BASTOS FILHO, J. B. Reducionismo : uma abordagem epistemológica. Maceió: EDUFAL, 2005. 4 Criatura da mitologia judaica que, feito de argila e água, depois de certos encantamentos, assume a forma de um humanóide.
134 Germano, M. G. e Kulesza, W. A. FREIRE, P. Conscientização : teoria e prática da libertação, uma introdução ao pensamento de Paulo Freire. Tradução de Kátia de Melo e Silva. São Paulo: Mo- raes, 1980. FREIRE, P. Extensão ou comunicação? Tradução de Rosisca Darcy de Oliveira.
LÉVY-LEBLOND, J. O pensar e a prática da ciência, antinomias da razão. Tradução de Maria Lúcia Panzoldo. Bauru: EDUSC, 2004. MELO NETO, J. F. Extensão universitária, autogestão e educação popular. João Pessoa: Editora Universitária da UFPB, 2004. MOSCOVICI, S. Representações sociais : investigação em Psicologia Social. Tradução de Pedrinho A. Guareschi. Petrópolis: Vozes, 2003. NIETZSCHE, F. Obras incompletas. Tradução e notas de Rubens R. Torres Fillho e posfácio de Antônio Cândido. 3. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Os Pensadores). SANTOS, B. S. Um discurso sobre as Ciências. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2004.