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Técnicas construtivas tradicionais
Tipologia: Slides
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Foto Pedro Martinelli
I- TÉCNICAS CONSTRUTIVAS DO PERÍODO COLONIAL/ VEDAÇÕES E DIVISÓRIAS 1 - Alvenaria: A alvenaria é uma técnica de confecção de muros utilizando tijolos, lajotas ou pedras de mão, aglutinados entre si por meio de uma argamassa. No período do Brasil colonial as argamassas mais utilizadas eram de cal e areia ou de barro 2 - Adobe: O adobe é uma lajota feita de barro com dimensões aproximadas de 20 x 20 x 40 cm, compactados manualmente em formas de madeira, postos a secar à sombra durante certo numero de dias e depois ao sol. O barro deve conter dosagem correta de argila e areia, para não ficar nem muito quebradiça, nem demasiadamente plástica. Para melhorar sua resistência, pode-se acrescentar fibras vegetais ou estrume de boi. As lajotas assim confeccionadas são assentadas com barro, e revestidas com reboco de argamassa de cal e areia. Embora encontremos importantes construções feitas inteiramente de adobe, como a matriz de Santa Rita Durão, MG[1], o material era usualmente reservado a divisórias interiores.
Fig. 1 – Adobe. Confecção e assentamento
3 - Tijolos Cerâmicos Usando a mesma matéria prima – a argila, o tijolo cerâmico difere do adobe pelas suas dimensões menores e pelo fato de ser cozido em fornos, a altas temperaturas. Sua durabilidade o rivaliza com a pedra. Foi talvez o primeiro material de construção durável utilizado pelo homem. Aliás, mesmo o homem fora feito de argila, de acordo com a Bíblia, que ensinava a utilizá-lo [2],e sua presença assinalava para a possibilidade de vida sedentária, junto aos aluviões dos rios. O Portão de Ishtar, na Babilônia, do século IV a.C. e a Muralha da China, do século III a.C., constituem-se em exemplos não somente da durabilidade como também do grau de evolução a que chegou esta técnica no período proto-histórico. Desde o século XVII, o tijolo era comumente empregado na Bahia e em 1711 já existe registro de uma olaria em Ouro Preto. A precariedade de condições, entretanto, reservava a maior parte da produção das olarias para telhas. As alvenarias de tijolos somente vão se tornar comuns no século XIX. Nos séculos precedentes perde, em importância para a taipa de pilão, a pedra e cal, e mesmo o adobe. Entretanto, encontramos fiadas de tijolos associadas à pedra em muros de pedra e cal.
Fig. 2 – Alvenaria de tijolos. Aparelhos. 4 - Pedra: Era o material que conferia maior resistência aos muros, razão porque era utilizada nas fortificações, igrejas monumentais e nas construções oficiais. No início da colonização, ainda no século XVI, já encontramos construções assim realizadas. É o caso da torre que Duarte Coelho ergueu em Olinda em 1535. Foi a técnica preferida das igrejas de Ouro Preto [3]. As pedras utilizadas eram calcários, arenitos ou pedra de rio e granitos , no Rio de Janeiro, e mesmo a pedra-sabão e a canga [4], em Minas. As argamassas eram cal e areia, mais resistente, ou o barro, onde não existia a disponibilidade de cal. As pedras eram de tamanho variável, até 40 cm na maior dimensão ou mais, e acabamento irregular, sem qualquer trabalho de aparelhagem. Pedras menores eram colocadas para calçar as maiores. Na alvenaria de pedra seca, é dispensada a argamassa. As paredes têm grande espessura (0,60 a 1,00 m) e são assentadas com a ajuda de formas de madeira. Esta técnica é mais utilizada para muros exteriores. As pedras de mão, maiores, contornadas por pedras menores recebe o nome de cangicado.
Fig. 4 – Canjicado.
Fig. 3 – Alvenaria de pedra
5 - Cantaria:
Por cantaria entendemos o serviço utilizando a pedra lavrada de maneira precisa, de modo que as peças se ajustam perfeitamente umas sobre as outras sem o auxílio de argamassa aglutinante. Para o assentamento rigoroso utilizam-se grampos metálicos e, às vezes, óleo de baleia como adesivo, para auxiliar na vedação. Apesar de ser um serviço sofisticado, que exige profissional bastante habilitado – o canteiro , é também milenar. Os templos gregos e romanos, as grandes catedrais medievais foram, em sua maioria, executados em cantaria.
No Brasil, entretanto, como também em Portugal, devido à dificuldade de mão de obra qualificada e também devido ao custo, a cantaria não era utilizada na totalidade do edifício, mas apenas em suas partes mais importantes: nos frontispícios, nas soleiras, nas pilastras, nas cornijas, nos portais, nas janelas e nos cunhais, sendo, no restante das vedações, utilizada outra técnica mural. O aparelho das pedras não era muito elaborado, exceto no Rio de Janeiro, a partir da segunda metade do século XVIII.
Fig. 8 – Execução da taipa de pilão. Imagem BARDOU, 1981, p. 20.
Os critérios de escolha do barro não se conservaram plenamente, de vez que dependia de tradição oral e ficou perdida no tempo. Sabe-se que, semelhante ao adobe, deve ser uma mistura bem dosada de argila e areia e alguma fibra vegetal, crina de animal ou mesmo estrume. Podia-se também misturar óleo de baleia, que “conferia uma resistência extraordinária” [6]. O barro é colocado em pequenas quantidades, em camadas sucessivas de aproximadamente 20 cm, que se reduzem a 10 ou 15 cm depois de comprimidas. A secagem durava de 4 a 6 meses, findos os quais as paredes poderiam receber revestimento, geralmente argamassa de cal e areia, que lhe aumentava a resistência. A esta argamassa era, às vezes acrescentada “bosta de vaca”. O resultado era uma argamassa capaz de resistir “à mais forte e duradoura chuva” [7]. Como a parede não podia receber água de chuva, algumas providências eram tomadas, entre elas o uso de grandes beirais e a elevação acima do terreno com alvenaria de pedra. Paulo Santos nos fala de “uma construção existente em Cabo Frio, datando de pelo menos três séculos”, de taipa de pilão, cuja resistência é tão grande, “a ponto de se assemelhar ao nosso concreto” [8] Uma variante do sistema, chamado formigão [9], consiste em misturar à massa de barro pedras miúdas e pedras maiores (pedras de mão). A taipa de pilão foi mais utilizada nas regiões de São Paulo e Goiás. Em Minas, a encontramos em igrejas mais antigas e em residências. Nas cadeias, quando não era possível sua execução com pedra e cal, a taipa era reforçada com engradamento de madeira, nas paredes e nos pisos.
Fig. 9 – Taipa de pilão reforçada com madeira, utilizada nas cadeias. Fonte BARRETO, P. T. “Casas de câmara e cadeia” In: Arquitetura Oficial I,
7 - Pau-a-pique:
Pau-a-pique, taipa de sebe, taipa de mão, barro armado ou taipa de sopapo , são diversos nomes para um dos sistemas mais utilizados tanto nos tempos da colônia como ainda hoje em construções rurais, devido a suas qualidades – baixíssimo custo (todos os materiais são naturais), resistência e durabilidade. Conhecido dos indígenas e dos negros africanos, utilizado no Nordeste, nos Massapés e em Minas.
Na sua versão mais depurada, consiste em uma estrutura mestra de peças de madeira, cuja seção pode variar 50 x 50 cm, 40 x 40 cm até 20 x 20 cm composta de esteios – peças verticais enterradas no solo, baldrames – peças horizontais inferiores, e frechais – peças horizontais superiores. Os esteios tem comprimento de até 15 m, dos quais 2 a 4 m são enterrados.
Fig. 10 – Construção em pau-a-pique rustica. Imagem BARDOU, 198, p. 49. Fig. 11 – Construção em pau-a-pique apurada. Detalhe. Imagem SANTOS, 1951
A parte extrema dos esteios, que ficava enterrada não era afeiçoada em seção quadrada, mantendo a forma roliça das árvores. Era popularmente denominada nabo. As madeiras preferidas era a Aroeira ou Braúna. Os baldrames eram ligados aos esteios por sambladuras tipo rabo-de-andorinha. Entre os esteios e os frechais eram então colocados paus roliços verticais (paus-a-pique), de aproximadamente 10 cm de diâmetro. A este eram ligados horizontalmente outros mais finos, compondo uma malha quadrangular, em apenas um dos lados ou nos dois lados. Esta trama era amarrada com cordões de seda, linho, cânhamo ou buriti. Feita a trama, o barro era jogado e apertado com as mãos, daí o nome de sopapo.
Fig. 12 – Elementos de estrutura em pau-a-pique apurada. Imagem SANTOS, 1951
No caso de paredes muito altas, utilizam-se peças intermediárias entre o baldrame e o frechal, denominadas madres [10]. Sob os baldrames estão os socos, o espaço preenchido com alvenaria, funcionando apenas para vedação. Para reforço do baldrame, entre este e o solo, pode-se colocar peças de madeira, denominadas burros. Paulo Santos nos informa de diversas igrejas de Minas construídas por esta técnica: Santa Rita e Nossa Senhora do Ó, em Sabará, Matriz de Nossa Senhora da Conceição, em Catas Altas, Nossa Senhora das Mercês, em Mariana, Nossa Senhora das Mercês e Perdões em Ouro Preto [11]. Era a técnica muito utilizada também para divisórias internas, sobretudo nos pavimentos elevados, em construções cujas paredes externas eram de taipa de pilão.
Tesoura francesa
Tesoura de linha suspensa
Tesoura clássica ou paladiana
Tesoura de Santo André
Tesoura romana
Cachorros ornamentados. Imagem Lemos 1979.
O alpendre é uma peça coberta, geralmente no pavimento térreo, com uma cobertura autônoma, que não se constitui prolongamento do telhado, como a varanda, mas é apoiada na parede principal do edifício. Vasconcelos conclui dizendo que o alpendre é apoiado na outra extremidade diretamente no solo. Na nomenclatura da técnica edilícia, entretanto, isto se constitui um falso alpendre , pois o verdadeiro alpendre tem uma de suas extremidades em balanço (MONTEIRO, 1976). É comum entretanto vermos o termo alpendre utilizado como sinônimo de varanda , como no texto clássico de Luís Saia, O alpendre nas capelas brasileiras. Existe portando uma divergência entre a terminologia técnica, mais precisa, e aquela dos textos históricos, mais livre.
Estruturas de alpendre e falso alpendre
2 - Forros Os forros mais comuns eram de tábuas de madeira, planos, assentes diretamente na estrutura dos telhados, ou em um barroteamento complementar. As tábuas tinham geralmente largura aproximada de um palmo. Neste caso, a junção das peças de madeira poderia ter várias formas.
Tipos de forro. Fonte Santos, 1951.
As folhas das portas e janelas eram sempre de madeira e não diferiam muito conceitualmente de nossas práticas atuais. As diferenças ficam por conta das disponibilidades técnicas e características acessórias. As folhas podiam ser de réguas, de almofadas, de treliças (urupemas) ou rendas de madeira – estas últimas no caso de folhas de janelas. Mais recentemente, a partir do século XVIII, quando o uso do vidro se torna mais comum, aparecem as folhas de pinásios com vidros.
Folha de réguas (E). Porta principal fazenda em Embu e folha de almofadas (D) Janela da fazenda do Padre Inácio. Imagens Luis Saia, 1975
Folha de treliça. Fazenda Viegas. Imagem Cardoso 1975 Janela com conversadeira
Nos primeiros séculos, o vidro era artigo de luxo, “os mais custosos ornamentos no interior do Brasil”[1]. Conta-se inclusive que, nas mudanças, os moradores levavam as peças de vidro consigo[2]. Robert Smith nos conta que o primeiro a fazer menção de vidros em janelas é o viajante sueco Johan Brelin, em 1756. [3]
Janela com postigo.
Porta com folhas de pinázios
O mais comum era a abertura segundo um eixo vertical – abertura à francesa, ou horizontal, que hoje chamamos de basculante. abertura à francesa para as janelas e portas acionadas por dobradiças de eixo vertical
rótula, seguindo uso consagrado, para janelas de eixo horizontal. Adotamos gelosia como sinônimo de rótula , embora possa também designar o enchimento do quadro das janelas com treliças. Gelosia (do italiano gelosia) ou rótula (do latim rotula, "rodinha") é uma grade de fasquias (tiras compridas e estreitas) de madeira ou pedra colocada no vão de janelas ou portas para proteger da luz e do calor, e através da qual se pode ver sem ser visto. Pode possuir a forma de uma persiana que pode ser enrolada no topo. É uma estrutura herdada da arquitetura da etnia árabe, popularizada na Península Ibérica, e é constituída por treliças de madeira capazes de vedar vãos de janelas, formando uma espécie de gaiola, cujo objetivo era aprisionar ou proteger as mulheres em casa. Uma vez que a gelosia evita que quem está atrás da janela seja visto por quem está de fora, os maridos árabes costumavam usar esta janela nos quartos de suas esposas para que elas não tivessem contato visual direto com outros homens, daí a palavra "gelosia" vir do francês jalousies, ou do inglês jealous, significando "ciúmes".
Desde o século XVIII, tornam-se comuns as janelas de guilhotina , ou abertura à inglesa.
Rótula Abertura à inglesa Janela de guilhotina - Abertura à francesa
As ferragens para acionamento eram as chamadas dobradiças de cachimbo ou dobradiças de leme. O leme era a chapa de ferro fixada nas folhas das portas, os quais tinham as mais variadas dimensões e desenhos. As aldrabas, ou aldravas eram pequenas argolas ou maças metálicas fixadas em um eixo, para o visitante bater na porta; servia em outros casos, para acionar uma tranqueta e assim abrir a porta pelo lado de fora.
Dobradiças de leme
Puxadores e trancas
Aldraba. Fazenda Embu.
Os lajeados eram lajes de pedra – arenitos, gneiss ou calcários, assentados com argamassa de barro. Estas lajes podiam ser trabalhadas por canteiro apenas na face superior, ou também nas faces laterais. Tinham estas lajes de 5 a 10 cm de espessura normalmente, porém em casos excepcionais podiam ser mais espessas. É o caso da cadeia de Ouro Preto, para a qual José Fernandes Pinto Alpoim, em 1745, mandou que os pisos fossem que eram “ lageados por baycho com lagedo de morro, e que nenhuma pedra tivesse menos que cinco palmos de comprido e hum ou dous de groço” [2]. Os lajeados podiam ser feitos de mármore, caso em que o acabamento era bem melhor, e reservado a compartimentos mais nobres, como saguões de edifícios públicos civís ou religiosos. O pé-de-moleque ou calçada portu-guesa era muito comum. Consistia no assentamento sobre a terra batida de seixos rolados (pedras redondas de rio). Podem ser empregados seixos de duas cores, formando mosaico. Podem ser utilizados em interiores de pavimentos térreos, caso em que se utilizam pedras de diâmetro menor, com cerca de 3 cm, ou também para pavimentos de calçamentos de vias públicas, com pedras maiores, de diâmetro aproximado de 10 cm.
Capistrana é uma faixa contínua de lajeado no meio de uma via pública, em cujas laterais se adiciona a pavimentação de seixos ou lajes. O nome capistrana refere-se a Capistrano Bandeira de Mello, presidente da província de Minas, que mandou executar este serviço em 1878.
As paredes eram geralmente caiadas. A cor branca foi, por isso mesmo notada por todos aqueles que deram notícias sobre nossas construções coloniais, como Maria Graham, Vauthier, Kidder e Spix e Martius. A caiação era feita de cal de mariscos, de pedra ou tabatinga[3]. As madeiras eram preferencialmente pintadas a cola, têmpera ou óleo, sendo o óleo utilizado como veículo extraído de mamona, de baleia ou de linhaça. Quando o veículo era a cola, usava-se cola de peixe, de pelica ou couro de boi. Para a têmpera, utilizava-se a secular albumina de ovo. Os corantes mais comuns eram o anil ou índigo - indigueiro- leguminosa (azul), sangue de drago e urucum (vermelho), a açafroa (amarelo), a braúna (preto), o ipê e a cochonilha (cor de rosa)[4]. Nas pinturas decorativas, era comum a chamada “pintura de fingimento”, que procuravam imitar madeira ou mármore. Faiscado era o nome que se dava em Minas Gerais à pintura a óleo ou tempera de portais, ombreiras e batentes de madeira imitando pedra
Nas construções coloniais eram utilizadas sempre fundações diretas, no mais das vezes de alvenaria de pedra seca, qualquer que seja o tipo de parede. A exceção fica com as construções estruturadas com esteios – o pau-a-pique e o enxaimel. Neste caso as peças de madeira que formam os esteios são enterradas no solo com 2 a 4 m de profundidade. A parte enterrada não era afeiçoada em seção quadrada mas mantinha a seção do tronco original. Esta parte do esteio é popularmente chamada de nabo e recebia um tratamento contra o apodrecimento e contra brocas e fungos. Este tratamento consistia em crestar a madeira com fogo. Paulo Santos nos diz que existem esteios mergulhados no solo há mais de dois séculos e com o núcleo central em perfeito estado, embora com a parte externa apodrecida[5].
Alicerce de parede de pau-a-pique. Fonte SANTOS, 1951.
Para as outras técnicas, os alicerces eram sempre a alvenaria de pedra, às vezes seca, às vezes com barro, ou apenas rejuntada com calda. A calda é um barro muito liquefeito, que pode ser derramado e preenche os vazios entre as pedras. Pode ser derramado depois de uma ou duas fiadas prontas. As dimensões dos alicerces eram variáveis, mas não diferiam muito das práticas atuais para fundações diretas. Para a igreja de Nossa Senhora do Monte do Carmo de Ouro Preto foram usados baldrames[6] de cerca de 2 m de profundidade (dezoito palmos) e de largura 90 cm (quatro palmos) externamente para fora da parede e 30 cm (palmo e meio) para dentro, isto é, a largura da parede mais 1,2 m (um total de aproximadamente 3,5 m)[7]. Mais recentemente, os aliceces tornam-se menos profundos e a parte saída das paredes diminui para aproximadamente um palmo. O acabamento dos alicerces é sempre bem nivelado com uma pedra, que os cobre em toda a extensão, não sendo interrompido nem para as obreiras das portas, que são nele encaixados.