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Viagens da Saudade, Esquemas de Poética

movimento saudosista, que se constituem como testemunho da complexa e multifacetada ... Palavras-chave: Fernando Pessoa, Saudosismo, Teixeira de Pascoaes, ...

Tipologia: Esquemas

2023

Compartilhado em 16/01/2023

Nazareth85
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Viagens da Saudade

Coordenação

Maria Celeste Natário

Paulo Borges

Luís Lóia

Organização

Cláudia Sousa

Nuno Ribeiro

Rodrigo Araújo

Porto

FICHA TÉCNICA

Título: Viagens da Saudade

Coordenação: Maria Celeste Natário

Paulo Borges

Luís Lóia

Organização: Cláudia Sousa

Nuno Ribeiro

Rodrigo Araújo

Editor: Universidade do Porto. Faculdade de Letras

Ano de edição: 2019

ISBN: 978‐989‐8969‐26‐

DOI: https://doi.org/10.21747/ 978‐989‐8969‐26‐2/viag

URL: https://ler.letras.up.pt/site/default.aspx?qry=id022id1671&sum=sim

A relação entre Fernando Pessoa e a poética do saudosismo é complexa e multifacetada. Se, por

um lado, encontramos um distanciamento crítico de Pessoa face ao saudosismo, por outro lado, é

possível constatar na obra do poeta e pensador português uma revalorização de elementos

subjacentes à mundividência saudosista. Um dado importante para a tematização da relação entre

Pessoa e a poética saudosista corresponde à publicação, em 1912, dos artigos sobre a nova poesia

portuguesa em A Águia , revista que se constitui como órgão da Renascença Portuguesa e palco de

exposição e debate das teses do saudosismo, cujo exemplo paradigmático corresponde aos textos

da querela entre Teixeira de Pascoaes e António Sérgio publicados nessa revista nos anos de 1913

e 1914, para além de inúmeros outros escritos de Pascoaes publicados em A Águia relativos ao

ideário saudosista^694. No primeiro dos artigos de Pessoa publicado na revista A Águia , com o título

«A Nova Poesia Portuguesa Sociologicamente Considerada», encontramos a seguinte afirmação

acerca de Teixeira de Pascoaes, no contexto da análise das teses relativas ao surgimento de um

período máximo na literatura portuguesa e ao consequente aparecimento de um supra-Camões:

Vistos estes elementos sociológicos do problema, salta aos olhos a inevitável conclusão. É ela a mais extraordinária, a mais consoladora, a mais estonteante que se pode ousar esperar. É ela de ordem a coincidir absolutamente com aquelas intuições proféticas do poeta Teixeira de Pascoaes sobre a futura civilização lusitana , sobre o futuro glorioso que espera a Pátria Portuguesa. Tudo isso, que a fé e a intuição dos místicos deu a Teixeira de Pascoaes, vai o nosso raciocínio matematicamente confirmar.^695

Esta afirmação relativa a Teixeira de Pascoaes constitui-se como particularmente relevante tendo

em consideração o papel que Pascoaes teve na constituição do ideário saudosista. Numa apreciação

literária de Fernando Pessoa lemos a seguinte afirmação a respeito da relevância da temática da

saudade em Teixeira de Pascoaes: «Se ha cousa que Pascoaes tenha dito e repetido é que a palavra

saudade tem para elle um sentido muito largo, □. O mais que o podem acusar – qualquér filologo

  • é de ter dado a uma palavra uma extensão que ella não tem»^696. (^694) Para a consulta dos escritos de Pascoaes sobre o saudosismo publicados em A Águia , bem como os textos da querela entre Pascoaes e Sérgio a respeito do ideário saudosista, veja-se a seguinte referência bibliográfica: PASCOAES, Teixeira, A Saudade e o Saudosismo (dispersos e opúsculos) , compilação, introdução, fixação de texto e notas de Pinharanda Gomes, Assírio & Alvim, Lisboa 1988. (^695) PESSOA, Fernando, Crítica – Ensaios, Artigos e Entrevistas , edição de Fernando Cabral Martins, Assírio & Alvim, Lisboa 2000, p. 15. (^696) BOTHE, Pauly Ellen, Apreciações Literárias de Fernando Pessoa , Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa 2013, p. 205.

A temática da saudade viria a encontrar reflexo na produção poética de Fernando Pessoa. No

poema «Ó sino da minha Aldeia», correspondente ao primeiro de uma série de dois poemas

antecedidos pelo título «Impressões do Crepúsculo», publicados em 1914 no número único da

revista A Renascença e com os quais Pessoa estreia a sua publicação ortónima em poesia

portuguesa após seu retorno da África do Sul, encontramos, desde logo, a temática da saudade.

Com efeito, lemos na última quadra do poema «Ó sino da minha Aldeia»:

A cada pancada tua, Vibrante no céu aberto, Sinto mais longe o passado, Sinto a saudade mais perto.^697

A temática da saudade viria a constituir-se como um elemento presente ao longo dos diversos

períodos da produção poética de Fernando Pessoa. Assim, numa quadra ao gosto popular datável

de 1935, ano da morte do autor português, lemos o seguinte:

Saudades, só portugueses Conseguem senti-las bem, Porque têm essa palavra Para dizer que as têm.^698

Nesta quadra encontramos uma manifesta alusão à tese de Pascoaes relativa ao carácter

intraduzível da palavra saudade, o que se tornará claro se confrontarmos este texto poético de

Pessoa com as afirmações de Teixeira de Pascoaes a esse respeito, conforme se pode verificar, a

título exemplificativo, no texto O Espírito Lusitano ou o Saudosismo , onde se lê:

Nós somos, na verdade, o único Povo que pode dizer que na sua língua existe uma palavra intraduzível nos outros idiomas, a qual encerra todo o sentido da sua alma colectiva. A alma lusitana concentrou-se numa só palavra, e nela existe e vive, como na pequena gota de orvalho a imagem do sol imenso. Sim: a palavra Saudade é intraduzível. O único povo que sente a Saudade é o português, incluindo, talvez o galego, porque a Galiza é um bocado de Portugal sob as patas de leão de Castela.^699 (^697) PESSOA, Fernando, Ficções do Interlúdio , edição de Fernando Cabral Martins, Assírio & Alvim, Lisboa 2018, p.

(^698) PESSOA, Fernando, Quadras , edição de Luísa Freire, Assírio & Alvim, Lisboa 2012, p. 112. (^699) PASCOAES, A Saudade e o Saudosismo , op. cit., p. 51.

P[ascoaes]; mas procede por opposição, por reacção. P[ascoaes] virado do avesso, sem o tirar do logar onde está, dá isto – Alberto Caeiro.^703

Contudo, para se compreender de um modo mais aprofundado o impacto do saudosismo na

teorização poética de Fernando Pessoa é necessário ter em consideração os textos pessoanos

relativos à revista modernista Orpheu e ao sensacionismo.

Com efeito, num fragmento destinado a um artigo crítico sobre a revista Orpheu encontramos a

explícita afirmação do saudosismo como um dos movimentos, a par do simbolismo, do cubismo e

do futurismo, que se encontra na base dos princípios basilares subjacentes à atitude estética do

grupo do Orpheu , tal como se pode ler no seguinte trecho:

A nova corrente literaria portuguesa, que ha algum tempo se tem vindo esboçando, sem contudo se reunir e se concentrar, apareceu agora em revista, Orpheu. Não é facil dar em poucas palavras idéa do que sejam os princípios basilares, extraordinariamente novos e perturbadores, d’esta corrente literaria. Partindo em parte do symbolismo, em parte do saudosismo portuguez, um pouco tambem, sem duvida, do cubismo e do futurismo, esta corrente consegue, porém, realisar uma novidade, e atravez das varias modalidades apresentadas pelos seus poetas e prosadores, pouca relação parece ter com as correntes apresentadas.^704

Noutro texto lemos também a respeito da relação entre o grupo ligado à revista Orpheu e o

movimento saudosista:

Um grupo de intellectuaes portuguezes, jovens todos naturalmente, acaba de atirar para o mercado literario uma revista trimestral, “Orpheu” que merece, em verdade, séria atenção. A priori , para quem sabe que desde o “saudosismo” de Teixeira de Pascoaes, qualquer cousa de novo, difficil de definir, surgiu em Portugal, era de prever, pelo simples apparecimento da revista, que se tratava de uma manifestação nova d’esse mesmo espirito saudosista , lusitanista , ou como se lhe queira chamar, em que parece que ia entrando toda a nova literatura portugueza.^705

No entanto, apesar de Pessoa reconhecer o saudosismo como um dos movimentos que se encontra

na base do ideário estético da revista Orpheu , constatamos ao longos dos fragmentos sobre essa

revista inúmeros trechos que estabelecem uma demarcação entre a atitude saudosista e o ideário

dos membros de Orpheu. É isso que verificamos no seguinte trecho, onde Pessoa caracteriza o

saudosismo enquanto um movimento fechado dentro de um conceito artístico estreito, que apenas

pretende ser português, por contraposição à atitude internacionalista da escola de Orpheu :

(^703) PESSOA, Obra Completa de Alberto Caeiro , op. cit., p. 288. (^704) PESSOA, Fernando, Sensacionismo e Outros Ismos , edição de Jerónimo Pizarro, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa 2009, pp. 43-44. (^705) PESSOA, Sensacionismo e Outros Ismos , op. cit., p. 49.

Ao contrario do saudosismo, que está fechado dentro de um conceito artistico, que nos seus creadores é com certeza elevado, mas que é estreito como pensamento humano que não pretende ser senão portuguez, a escola de “Orpheu” (não sabemos se ella tem um nome) é internacionalista por excelencia, resulta de uma synthese de todas as correntes modernas, e de alguma cousa mais, que lhe é proprio, e que é onde consiste o seu maior valor e interesse.^706

Assim, a principal demarcação que Fernando Pessoa estabelece entre o ideário saudosista e a

atitude estética dos membros de Orpheu reside no carácter regionalista do movimento saudosista

por oposição à atitude cosmopolita e englobante de todas as correntes subjacente ao grupo de

Orpheu. Lemos nesse sentido o trecho de um fragmento intitulado «Inquérito Literário»:

Mas faltavam, e faltam, á “Renascença Portugueza”, ou, melhor dizendo, ao saudosismo, os caracteristicos distinctivos duma corrente literaria maxima. Propriamente fallando, o saudosismo é um regionalismo em ponto grande; não é um nacionalismo propriamente tal. É talvez mais um provincialismo do que outra cousa qualquer. Distancia-se absolutamente de todas as correntes portuguesas que o teem precedido em toda a historia literaria de Portugal, mas pecca por tacanhez e estreiteza dentro do proprio ambito de systema literario. […] Ao contrario do saudosismo, a Escola de Lisboa pretende incluir dentro de si todas as escolas e correntes passadas e, por sua virtualidade própria, transcendel-as. Ella pretende, em especial incluir (1) os elementos metaphysicos do saudosismo, isto é, a esthetica pantheista do avisinhamento das Cousas da nossa interpretação dellas; (2) os elementos metaphysicos (e estheticos) do decadentismo e symbolismo^707.

Nos escritos relativos ao sensacionismo – um movimento estético criado por Fernando Pessoa

tendo por base a sensação como realidade fundamental – encontramos também uma reapreciação

crítica de elementos presentes no pensamento saudosista. Com efeito, numa lista do espólio de

Pessoa intitulada «Opiniões da Nova Geração» encontramos, desde logo, o Saudosismo e o

Sensacionismo listados em conjunto com outros movimentos estéticos surgidos no contexto do

modernismo português. É isso que constatamos no seguinte documento pessoano:

Opiniões da Nova Geração:

  1. O Saudosismo. (Leonardo Coimbra ou Pascoaes).
  2. Integralismo Lusitano. (João de Amaral).
  3. O Byzantinismo. (Luiz de Montalvor).
  4. O Vertiginismo. (Raul Leal).
  5. O Futurismo. (José de Almada-Negreiros).
  6. O Sensacionismo. (Fernando Pessoa).
  7. O Neo-Paganismo. (Antonio Móra). (^706) PESSOA, Sensacionismo e Outros Ismos , op. cit., p. 49. (^707) PESSOA, Sensacionismo e Outros Ismos , op. cit, p. 120.

Para além de todas as considerações relativas ao saudosismo que temos vindo a apresentar

encontramos nos escritos relativos ao Sebastianismo e Quinto Império importantes elementos para

a análise do impacto que a leitura do saudosismo teve na obra de Fernando Pessoa. Os textos

relativos ao sebastianismo são aqueles onde, muito provavelmente, a reapropriação do ideário

saudosista se faz sentir com maior força no âmbito dos escritos pessoanos. Com efeito, lemos o

seguinte trecho a respeito da relação entre o saudosismo e o sebastianismo:

Qualquer estudioso da nossa nova poesia, ainda que haja sido educado ausentemente, em França ou pseudo- França, constata sem custo e por intuição imediata, uma semelhança curiosa entre estes dois factos religiosos da vida nacional – os unicos dois factos religiosos que são realmente nacionais – Sebastianismo e Saudosismo.^711

Ainda a respeito da religião da saudade enquanto a mais elevada forma de fé lusitana, encontramos

as seguintes considerações que nos apresentam o sebastianismo e o saudosismo como estádios da

fé lusitana:

A religião da saudade é a mais alta fórma da fé lusitana, porquanto, é a alma da raça, e já não de um individuo da raça feito objecto da fé. É messiânica □ Os estadios da fé lusitana: (1) o estadio catholico (2) estadio sebastianista (3) estadio Saudosista.


O “mito da grandeza futura” contido no sebastianismo.^712

No entanto, para se compreender a reapropriação do saudosismo no âmbito do pensamento

sebastianista pessoano é necessário ter em consideração aquilo que Pessoa nos diz no texto

« Sebastianismo – sua Renascença », no qual encontramos uma apresentação do sebastianismo

enquanto potenciador de um alargamento do elemento saudosista subjacente ao desenvolvimento

sebastianista em Portugal. É justamente isso que encontramos expresso nos pontos 4, 5 e 6 do texto

« Sebastianismo – sua Renascença »:

  1. O movimento saudosista e a sua base sebastianista. O saudosismo está criando a base intellectual e moral ao sebastianismo, puramente popular.
  2. Como implantar o sebastianismo? Se elle tiver de se implantar apparecerá quem o pregue. Mas qual deve ser a acção dos intellectuais? Tripla: (l) atacar o catholicismo, mas atacal-o sempre com a insinuação do (^711) PESSOA, Fernando, Sebastianismo e Quinto Império , edição, introdução e notas de Jorge Uribe e Pedro Sepúlveda, Ática, Lisboa 2011, p. 70. (^712) PESSOA, Sebastianismo e Quinto Império , op. cit., p. 69.

elemento nacional, sempre lembrado, nos intersticios do ataque, a figura nacional de D. Sebastião; (2) crear a atmosphera moral necessaria ao saudosismo, base do sebastianismo; (3) alargar a acção d’este.

  1. A divinização da Saudade. Pascoaes está creando maiores cousas, talvez, do que elle proprio mede e julga. A alma lusitana está gravida de divino.^713

Todos os dados apresentados permitem-nos compreender a natureza plural e multifacetada da

reavaliação do saudosismo no contexto da obra de Fernando Pessoa, o que nos possibilita

considerar que o pensamento saudosista, não obstante as reservas críticas da parte de Pessoa, se

constitui ainda assim como um elemento fundamental para a criação poética e reflecção teórico-

literária do poeta e pensador português.

Referências bibliográficas

BORGES, Paulo (2008) , O Jogo do Mundo – Ensaios sobre Teixeira de Pascoaes e Fernando Pessoa , Lisboa: Portugália. BOTHE, Pauly Ellen (2013), Apreciações Literárias de Fernando Pessoa , Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda. FEIJÓ, António (2015), Uma Admiração Pastoril pelo Diabo (Pessoa e Pascoaes) , Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda. PASCOAES, Teixeira de (1988), A Saudade e o Saudosismo (dispersos e opúsculos) , compilação, introdução, fixação de texto e notas de Pinharanda Gomes, Lisboa: Assírio & Alvim. PESSOA, Fernando (2000), Crítica – Ensaios, Artigos e Entrevistas , edição de Fernando Cabral Martins, Lisboa: Assírio & Alvim. PESSOA, Fernando (2009), Sensacionismo e Outros Ismos , edição de Jerónimo Pizarro, Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda. PESSOA, Fernando (2011), Sebastianismo e Quinto Império , edição, introdução e notas de Jorge Uribe e Pedro Sepúlveda, Lisboa: Ática. PESSOA, Fernando (2012), Quadras , edição de Luísa Freire, Lisboa: Assírio & Alvim. PESSOA, Fernando (2016), Obra Completa de Alberto Caeiro , edição de Jerónimo Pizarro e Patricio Ferrari, Lisboa: Tinta-da-China. PESSOA, Fernando (2018), Ficções do Interlúdio , edição de Fernando Cabral Martins, Lisboa: Assírio & Alvim. (^713) PESSOA, Sebastianismo e Quinto Império , op. cit., pp. 56-57.