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otimo livro, muito recomendado
Tipologia: Resumos
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Função: Abrir com o cotidiano, estabelecer o luto, dar o tom de peso e silêncio. “O silêncio depois da tragédia pesa mais que gritos.” Naquela manhã, até os galos pareceram perder a hora. O céu vinha sem cor, o chão úmido de orvalho, e um cheiro de vela gasta pairava sobre a cidade — desses que grudam no cabelo e não larga nem com reza. Palotina, que sempre se enchia de risada e cheiro de milho assado na época da festa, agora oferecia passos miúdos, olhos baixos e um peso que nem o vento carregava. Enterros se tornaram mais costumeiros que missa. Igual café fraco em dia de luto: ninguém queria, mas todo mundo aparecia. Pelas janelas, velhos espiavam o cortejo deslizar pela rua principal. Dona Noêmia, de xale preto, murmurava o terço, enquanto Waldir tentava segurar a tosse e o soluço na cadeira de palha. Nem os cachorros latiam. Eu — Vitor — já quase acostumado com o vazio do lado de fora e o tumulto das lembranças por dentro, sentia que aquele luto não era só pela morte recente… era pela vila inteira. O ar carregava o mesmo cheiro dos velórios antigos, um peso que não saía nem com missa forte. E por mais que o padre entoasse as orações, parecia que naquela terra até Deus falava baixo.
Função: Introduzir o humor agridoce e o clima de tensão disfarçada. O cortejo avançava devagar, quase empurrado pelo vento frio. O padre Oldemar, voz desafinada e olhar perdido, arriscava um canto fúnebre que tremia mais que vela em ventania. E ninguém corrigia. Ali, até reza parecia ter medo de sair direito quando o assunto era morte antiga. Foi então que, atrás de mim, a voz do compadre Zeca escapou, baixa, num cochicho mais pra remendo de coragem do que pra graça: — Café de velório mais fraco que promessa de político. Alguns disfarçaram o sorriso. Outros fingiram não ouvir. Ninguém riu de verdade. Mas naquela terra, até o sarcasmo serve de escudo quando o medo bate na trave. Eu também não ri. Só pensei que, em Palotina, era mais fácil acreditar em político honesto do que num enterro sem assombro. E o silêncio do povo só confirmava: o medo ali era velho conhecido.
Função: O primeiro choque visual, reforço do presságio Enquanto o padre tropeçava nas palavras e o povo fingia atenção na cruz, meus olhos — esses teimosos — preferiam as sombras. Foi aí que vi. Lá no fundo do cemitério, onde a cerca torta se enrosca nas roseiras secas, um vulto se esgueirou entre os túmulos. Não era gente. Não era bicho. Era... sombra. Daquelas que parecem olhar de volta quando a gente encara. Vi de canto de olho — jurei pra mim mesmo que era só ilusão. Mas o cheiro de vela aumentou. E o vento voltou a cortar o pescoço, gelado feito sopro de coisa velha. O cachorro já tinha sumido. A Dona Noêmia apertava o terço até estalar os dedos. Eu… fingi que não vi. Como todo mundo ali. Porque, em Palotina, a gente aprende cedo: Quem olha demais pro escuro… …acaba enxergando o que não quer.
Função: O instinto animal confirma o presságio — e ninguém ousa contrariar O padre seguia rezando — ou tentando. A voz dele tremia mais do que as velas. Foi quando Waldir cochichou, sem largar o terço: — Cadê o cachorro da Dona Noêmia? Ninguém respondeu. Nem precisava. O bicho já tinha se enfiado debaixo do portão, rabo encolhido, olhos arregalados pro vazio. A Dona Noêmia nem tentou chamar. Só segurou o terço com tanta força que as contas quase cortaram os dedos. E aí, como quem não quer nada, Zeca resmungou: — Se o bicho fugiu… é porque sentiu coisa pior que nós. De novo, ninguém riu. Porque naquela terra, o bicho sente antes. E o homem… O homem finge que não.
Função: Mostrar a negação coletiva diante do sobrenatural O vento passou. O padre tentou retomar a prece, voz embargada, como quem reza só pra si. E o povo… Ah, o povo fez o que sempre faz. Ajeitou o casaco. Abaixou a cabeça. E fingiu que não viu. Ninguém comentou da vela que ficou. Ninguém falou daquelas que se apagaram. Cada um segurava a fé como quem agarra corda em enchente — só pra não afundar primeiro. Naquele canto do mundo, a coragem não era falta de medo. Era vergonha de ser o primeiro a admitir que viu o que não devia. E eu ali, entre rezas, silêncios e olhos que não se cruzavam, percebi: O luto da vila não era só pelos mortos. Era por tudo que a gente fingia não ver.
Função: Insinuar a presença do Compadre sem revelá-lo; tensão sem explicação Foi então que notei. No canto do cemitério, quase fora do alcance da última vela… Uma sombra… Parada. Não se mexia. Não tremia. Não reagia ao vento. Ficava ali, rente à luz, como se o fogo fosse muro que ela não ousasse cruzar. E enquanto todo mundo se agarrava ao terço ou à mentira de que nada acontecia… Eu sentia. O Compadre rondava. Não precisava aparecer. Nem fazer alarde. Bastava… esperar. Porque naquela terra, a morte não bate na porta. Ela se senta no batente… …e espera a gente chamar.
Função: Revelar a regra do fogo e marcar a ligação do passado com o presente Zeca tentou puxar o cachorro pra trás. Dona Noêmia murmurou algo em guarani e virou o rosto. E eu… Fui. Dei um passo à frente — só um — e a ponta dos meus dedos tocou o pano. Frio. Pesado. Quase… quente por dentro. Desenrolei devagar. Ali, entre mechas de cabelo e cera derretida, um papel amarelado, quase apagado, tremia com o vento. As palavras escritas à mão: “Não deixe a chama morrer, ou a sombra volta.” Foi como se a terra inteira prendesse a respiração. O tempo ali parou. O povo fingiu que não viu. Mas eu sabia. Naquela terra, a sombra só espera a gente esquecer. E a vela… …é o único fio que separa o medo da lembrança.
Função: Mostrar o efeito coletivo — o medo se espalha disfarçado de silêncio O povo trocou olhares rápidos. Uns cruzaram os braços. Outros mexeram no terço. Mas ninguém — ninguém — perguntou o que era o embrulho. Porque em Palotina, o medo anda vestido de silêncio. E a coragem… Essa veste a máscara da indiferença. Zeca puxou o cachorro pelo pescoço. Dona Noêmia apertou o terço até os dedos tremerem. Waldir… olhou pro chão. E o padre? O padre ajeitou a batina e fingiu que a oração precisava ser retomada. Eu fiquei ali, com o papel na mão, sabendo o que todos ali também sabiam — mas não queriam dizer: Naquele lugar, ninguém queria saber demais. Porque quem pergunta… …vira resposta.
Função: Elevar a tensão, transformar o presságio em certeza Antes de virar as costas, olhei pra beira do cemitério. A sombra… Continuava lá. Não se mexia. Não sumia. Não ameaçava. Esperava. E eu entendi — do jeito que a gente entende sem querer: O Compadre nunca vai embora. Ele ronda. Ele observa. Ele conta os dias. Não precisa pressa. Não precisa convite. Porque nessa terra, quem não paga… …o Compadre cobra. E quem pensa que escapou… …só tá na fila.
Função: Fechar o capítulo em alta tensão, sem resolução, só promessa de desgraça Antes de sair, olhei uma última vez para o embrulho vazio e a cova aberta. Sabia. Sabia que aquilo ali — o bilhete, a vela, a sombra — não era um aviso. Era um lembrete. Aqui no Oeste… Quem não teme o escuro… …é porque ainda não viu o que se esconde quando a luz se apaga. O vento passou. O Compadre ficou. E eu… Eu não sabia se era medo ou certeza. Só sabia de uma coisa: O pior… …o pior ainda estava por vir.