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Carta aos Efésios
Tipologia: Notas de estudo
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Não perca as partes importantes!





























































































Título original em inglês: The Letter to the Ephesians
… Introduz e interpreta a totalidade dos livros do NOVO TESTAMENTO. Desde Mateus até o Apocalipse William Barclay explica, relaciona, dá exemplos, ilustra e aplica cada passagem, sendo sempre fiel e claro, singelo e profundo. Temos nesta série, por fim, um instrumento ideal para todos aqueles que desejem conhecer melhor as Escrituras. O respeito do autor para a Revelação Bíblica, sua sólida fundamentação, na doutrina tradicional e sempre nova da igreja, sua incrível capacidade para aplicar ao dia de hoje a mensagem, fazem que esta coleção ofereça a todos como uma magnífica promessa.
PARA QUE CONHEÇAMOS MELHOR A CRISTO O AMEMOS COM AMOR MAIS VERDADEIRO E O SIGAMOS COM MAIOR EMPENHO
Prefácio Introdução Geral Introdução Geral às Cartas Paulinas Introdução à Carta aos Efésios Capítulo 1 Capítulo 3 Capítulo 5 Capítulo 2 Capítulo 4 Capítulo 6
Os comentários a estas duas cartas de Paulo apareceram originalmente por separado com um intervalo de dois anos, para logo ser publicados juntos num só tomo. O autor menciona em seu Prefácio a Gálatas, o fato de haver-se publicado numerosas obras sobre esta epístola, dada a influência que ela teve na Igreja. Lembra que uma das obras mais importantes do Lutero foi seu comentário sobre o Gálatas, e menciona como um "monumento de erudição e um tesouro de materiais" o de E. D. Burton no International Critical Commentary. Dos comentários existentes sobre o texto inglês menciona o de A. W. F. Blunt na Clarendon Bible ; mas, diz, "o melhor comentário em inglês continua sendo o de G. S. Duncan no Moffatt Commentary ". Termina com a afirmação de que Gálatas "leva-nos mais perto do coração do evangelho de Paulo" que qualquer outra de suas cartas. Com referência a Efésios, assinala que é uma das cartas de Paulo mais freqüentemente estudadas, como que põe diante de nós o ideal da Igreja. Menciona como três grandes comentários sobre o texto grego os de J. Armitage Robinson, B. F. Westcott e T. K. Abbott. Entre os comentários sobre o texto inglês, menciona os de E. F. Scott no Moffatt
Jesus Cristo seja conhecido de maneira mais clara por todos os homens e mulheres, que Ele seja amado mais entranhadamente e que seja seguido mais de perto. Minha própria oração é que de alguma maneira meu trabalho possa contribuir para que tudo isto seja possível.
INTRODUÇÃO GERAL ÀS CARTAS DE PAULO
As cartas de Paulo
No Novo Testamento não há outra série de documentos mais interessante que as cartas de Paulo. Isto se deve a que de todas as formas literárias, a carta é a mais pessoal. Demétrio, um dos críticos literários gregos mais antigos, escreveu uma vez: "Todos revelamos nossa alma nas cartas. É possível discernir o caráter do escritor em qualquer outro tipo de escrito, mas em nenhum tão claramente como nas epístolas" (Demétrio, On Style, 227). Justamente pelo fato de Paulo nos deixar tantas cartas, sentimos que o conhecemos tão bem. Nelas abriu sua mente e seu coração àqueles que tanto amava; e nelas, até o dia de hoje, podemos ver essa grande inteligência abordando os problemas da Igreja primitiva, e podemos sentir esse grande coração pulsando com o amor pelos homens, mesmo que estivessem desorientados e equivocados.
A dificuldade das cartas
E entretanto, é certo que não há nada tão difícil como compreender uma carta. Demétrio (em On Style, 223) cita um dito do Artimón, que compilou as cartas do Aristóteles. Dizia Artimón que uma carta deveria ser escrita na mesma forma que um diálogo, devido a que considerava que uma carta era um dos lados de um diálogo. Dizendo o de maneira mais moderna, ler uma carta é como escutar a uma só das pessoas que tomam parte em uma conversação telefônica. De modo que quando
lemos as cartas de Paulo freqüentemente nos encontramos com uma dificuldade: não possuímos a carta que ele estava respondendo; não conhecemos totalmente as circunstâncias que estava enfrentando; só da carta podemos deduzir a situação que lhe deu origem. Sempre, ao ler estas cartas, nos apresenta um problema dobro: devemos compreender a carta, e está o problema anterior de que não a entenderemos se não captarmos a situação que a motivou. Devemos tratar continuamente de reconstruir a situação que nos esclareça carta.
As cartas antigas
É uma grande lástima que se chamasse epístolas às cartas de Paulo. São cartas no sentido mais literal da palavra. Uma das maiores chaves na interpretação do Novo Testamento foi o descobrimento e a publicação dos papiros. No mundo antigo o papiro era utilizado para escrever a maioria dos documentos. Estava composto de tiras da medula de um junco que crescia nas ribeiras do Nilo. Estas tiras ficavam uma sobre a outra para formar uma substância muito parecida com nosso papel de envolver. As areias do deserto do Egito eram ideais para a preservação do papiro, porque apesar de ser muito frágil, podia durar eternamente se não fosse atingido pela umidade. De modo que das montanhas de escombros egípcios os arqueólogos resgataram literalmente centenas de documentos, contratos de casamento, acordos legais, inquéritos governamentais, e, o que é mais interessante, centenas de cartas particulares. Quando as lemos vemos que todas elas respondiam a um modelo determinado; e vemos que as cartas de Paulo reproduzem exata e precisamente tal modelo. Aqui apresentamos uma dessas cartas antigas. Pertence a um soldado, chamado Apion, que a dirige a seu pai Epímaco. Escrevia de Miseno para dizer a seu pai que chegou a salvo depois de uma viagem tormentosa.
Coríntios 1:2; Gálatas 1:3; Efésios 1:2; Filipenses 1:3; Colossenses 1:2; 1 Tessalonicenses 1:3; 2 Tessalonicenses 1:3. (3) O agradecimento : Romanos 1:8; 1 Coríntios 1:4; 2 Coríntios 1: Efésios 1:3; Filipenses 1:3; 1 Tessalonicenses 1:3; 2 Tessalonicenses 1:2. (4) O conteúdo especial : o corpo principal da carta constitui o conteúdo especial. (5) Saudações especiais e pessoais : Romanos 16; 1 Coríntios 16:19; 2 Coríntios 13:13; Filipenses 4:21-22; Colossenses 4:12-15; 1 Tessalonicenses 5:26. É evidente que quando Paulo escrevia suas cartas o fazia segundo a forma em que todos faziam. Deissmann, o grande erudito, disse a respeito destas cartas: "Diferem das mensagens achadas nos papiros do Egito não como cartas, mas somente em que foram escritas por Paulo." Quando as lemos encontramos que não estamos diante de exercícios acadêmicos e tratados teológicos, mas diante de documentos humanos escritos por um amigo a seus amigos.
A situação imediata
Com bem poucas exceções Paulo escreveu suas cartas para enfrentar uma situação imediata. Não são tratados em que Paulo se sentou a escrever na paz e no silêncio de seu estudo. Havia uma situação ameaçadora em Corinto, Galácia, Filipos ou Tessalônica. E escreveu para enfrentá-la. Ao escrever, não pensava em nós absolutamente; só tinha posta sua mente nas pessoas a quem se dirigia. Deissmann escreve: "Paulo não pensava em acrescentar nada às já extensas epístolas dos judeus; e menos em enriquecer a literatura sagrada de sua nação... Não pressentia o importante lugar que suas palavras ocupariam na história universal; nem sequer que existiriam na geração seguinte, e muito menos que algum dia as pessoas as considerariam como Sagradas Escrituras." Sempre devemos lembrar que não porque algo se refira a uma situação imediata tem que ser de valor transitivo. Todos os grandes
cantos de amor foram escritos para uma só pessoa, mas todo mundo adora. Justamente pelo fato de as cartas de Paulo serem escritas para enfrentar uma situação ameaçadora ou uma necessidade clamorosa ainda têm vida. E porque a necessidade e a situação humanas não mudam, Deus nos fala hoje através delas.
A palavra falada
Devemos notar mais uma coisa nestas cartas. Paulo fez o que a maioria das pessoas faziam em seus dias. Normalmente ele não escrevia suas cartas; ditava-as e logo colocava sua assinatura autenticando-as. Hoje sabemos o nome das pessoas que escreveram as cartas. Em Romanos 16:22, Tércio, o secretário, inclui suas saudações antes de finalizar a carta. Em 1 Coríntios 16:21 Paulo diz: “A saudação, escrevo-a eu, Paulo, de próprio punho.” Ou seja: Esta é minha própria assinatura, meu autógrafo, para que possam estar seguros de que a carta provém de mim. (Ver Colossenses 4:18; 2 Tessalonicenses 3:17.) Isto explica muitas coisas. Às vezes é muito difícil entender a Paulo, porque suas orações começam e não terminam nunca; sua gramática falha e suas frases se confundem. Não devemos pensar que Paulo se sentou tranqüilo diante de um escritório, e burilou cada uma das frases que escreveu. Devemos imaginá-lo caminhando de um lado para outro numa pequena habitação, pronunciando uma corrente de palavras, enquanto seu secretário se apressava a escrevê-las. Quando Paulo compunha suas cartas, tinha em mente a imagem das pessoas às quais escrevia, e entornava seu coração em palavras que fluíam uma após outra em seu desejo de ajudar. As cartas de Paulo não são produtos acadêmicos e cuidadosos, escritos no isolamento do estudo de um erudito; são correntes de palavras vitais, que vivem e fluem diretamente de seu coração ao dos amigos aos quais escrevia.
Tíquico foi o portador de ambas as cartas, pois em Colossenses Paulo diz que aquele lhes informará sobre sua situação (Colossenses 4:7); em Efésios diz que Tíquico lhes dará notícias sobre seus assuntos e sobre como ele está (Efésios 6:2). Tíquico está relacionado intimamente com estas duas cartas. Mas além disso há semelhança no conteúdo das mesmas. É tanta a similitude que se contam mais de 55 versículos idênticos. Ou, como sustenta Coleridge, Colossenses é o que poderia chamar-se "a superabundância" de Efésios ou Efésios constitui uma versão mais extensa de Colossenses. No final veremos que esta semelhança é a que nos dá a chave do lugar único de Efésios entre as cartas de Paulo.
O problema
Assim, pois, é certo que Efésios foi escrito quando Paulo estava no cárcere por razão de sua fé e que de algum modo tem a mais estreita relação possível com Colossenses. Onde está pois o problema? O problema surge quando se começa a indagar na pergunta a quem foi escrita a carta. Na antigüidade as cartas eram escritas em rolos de papiro. Ao serem concluídas eram ligadas com uma corda; em caso de ser particularmente privadas ou importantes o nó da corda era selado. Mas raramente ocorria que se chegasse a escrever o endereço do destinatário pela simples razão de que no mundo antigo o homem comum não dispunha de um sistema postal. O governo possuía seu correio, mas só destinado à correspondência oficial e imperial, não ao uso privado nem de cartas deste tipo. Naquela época as cartas eram entregues em mãos; alguém se encarregava de levá-las pessoalmente; pelo qual a direção não era necessária. Por isso os títulos das cartas do Novo Testamento não são absolutamente parte das cartas originais. Os títulos se inseriram depois que as cartas foram colecionadas e publicadas com o fim de que fossem lidas em toda a Igreja.
Agora, quando estudamos mais de perto e com inteligência a Carta aos Efésios advertimos que, efetivamente é muito improvável se dirigiu à Igreja de Éfeso. Há razões internas que levam a esta conclusão. (a) Salta à vista que a Carta foi dirigida a gentios. Os destinatários da Carta eram “gentios na carne, chamados incircuncisão por aqueles que se intitulam circuncisos, na carne... sem Cristo, separados da comunidade de Israel e estranhos às alianças da promessa” (2:11, 12). Paulo lhes suplica: “não mais andeis como também andam os gentios” (4:17). O fato de que se tratasse de gentios não significa, certamente, que a Carta não fosse enviada a Éfeso; mas dá, antes, a certeza de quais eram os destinatários. (b) É inegável que Efésios é a carta mais impessoal que Paulo escreveu. Do começo até o fim não há nenhuma nota pessoal. Carece inteiramente das saudações pessoais e mensagens íntimas de que estão cheias as outras cartas. Isto é duplamente surpreendente se lembrarmos que Paulo permaneceu em Éfeso mais tempo que em qualquer outra cidade; esteve ali não menos de três anos (Atos 18:9-10). Além disso, em Atos 20:17-35 podemos ler a despedida de Paulo dos anciãos de Éfeso em sua última viagem, antes de abandonar Mileto. Em todo o Novo Testamento não há uma passagem de maior intimidade e afeto, e frente a tudo isto é muito difícil crer que Paulo enviasse a Éfeso uma carta completamente impessoal e desprovida de toda nota íntima. (c) Ainda mais. A Carta indica que Paulo e os destinatários não se conheciam pessoalmente; só se conheciam por rumores e referências à margem de todo contato real. Em 1:15 Paulo escreve: “Tendo ouvido da fé que há entre vós”. Conhecia a fidelidade das pessoas às quais se dirigia por informação e não por experiência. Em 3:2 lhes escreve: “Se é que tendes ouvido a respeito da dispensação da graça de Deus a mim confiada para vós outros”; isto equivale a dizer: "Se tiverem ouvido que Deus me encomendou a tarefa especial e a acusação de ser o apóstolo dos gentios como vós". O conhecimento que a Igreja tinha de Paulo — neste caso como apóstolo dos gentios — provinha de informações, não
catarata de palavras apaixonadas; mas em Efésios temos "uma corrente suave e limpa que flui constantemente e transborda suas elevadas margens". Em Efésios a longitude das frases é chamativa. No texto grego de Efésios 1:3-14,15-23; 2:1-9; 3:1-7 achamos sentenças longas e tortuosas. M'-Neile chama efésios, acertadamente e com justiça "um poema em prosa". Tudo isto é muito diferente do estilo normal de Paulo. Então, o que dizer a isto? Em primeiro termo é um fato geral que nenhum escritor de importância escreve sempre no mesmo estilo. Um Shakespeare pode adotar os muito diferentes estilos de Hamlet , O sonho de uma noite do verão , A ferinha domada e os Sonetos. Todo grande estilista — e Paulo o era — escreve num estilo que se adapta a seu propósito e às circunstâncias do momento em que escreve. É crítica de má lei dizer que Paulo não escreveu Efésios simplesmente porque esta Carta contém um novo vocabulário e um novo estilo. Mas há mais ainda. Lembremos como escreveu Paulo a maior parte de suas cartas: em meio de um trabalho apostólico muito ativo em que geralmente estava de viagem. Escreveu para responder os problemas urgentes que deviam ser tratados nesse mesmo momento. Isto significa que a maior parte de suas cartas foram escritas em circunstâncias muito difíceis e quase sempre, correndo contra o tempo. Lembremos agora como escreveu Efésios. Dedicou-se a esta tarefa enquanto estava preso. Portanto dispunha de todo o tempo possível: não tinha por que apressar-se porque tinha pela frente meses da prisão, sem outra coisa a fazer senão pensar e escrever. É de estranhar que o estilo de Efésios não seja o estilo das cartas mais antigas? Ainda mais, a diferença de estilo — o caráter poético e meditativo — é mais visível nos três primeiros capítulos que são uma longa prece que culmina na grande doxologia do final do capítulo três. Por certo que não há nada semelhante a isto nas cartas de Paulo. É a linguagem da prece poesia lírica, não o do argumento, da controvérsia ou da recriminação. É evidente que Efésios foi escrita com um vocabulário e num estilo que diferem do das outras cartas paulinas; mas foi escrita para expressar
novas idéias em circunstâncias inteiramente diferentes e — como o veremos — com um propósito muito diferente do de qualquer das outras. Diferencia-as estão longe de provar que Efésios não pertença a Paulo.
O pensamento da Epístola
Alguns investigadores afirmam que o pensamento de Efésios excede ao de qualquer outra carta paulina. Vejamos qual é esse pensamento. Vimos que Efésios se vincula estreitamente com Colossenses. O grande pensamento central de Colossenses é a suficiência total de Jesus Cristo. Em Jesus Cristo reside todo conhecimento e toda sabedoria (Colossenses 2:3); aprouve ao Pai que nEle habitasse toda plenitude (Colossenses 1:19); numa grande frase, Cristo é "corporalmente toda a plenitude da Divindade" (Colossenses 2:9); só ele é necessário e suficiente para a salvação do homem (Colossenses 1:14). Todo o conteúdo de Colossenses se baseia na suficiência plena de Jesus Cristo. O pensamento de Efésios desenvolve esta concepção; uma síntese completa do mesmo encontra-se em dois versículos do primeiro capítulo onde Paulo apresenta a Deus: “E nos revelou o mistério da sua vontade, de acordo com o seu bom propósito que ele estabeleceu em Cristo, isto é, de fazer convergir em Cristo todas as coisas , celestiais ou terrenas, na dispensação da plenitude dos tempos” (Efésios 1:9-10, NVI). A idéia chave de Efésios é a reunião de todas as coisas em Jesus Cristo. Cristo é o centro em quem se unem todas as coisas e o laço que todo o liga. Na natureza sem Cristo não há mas sim desunião e desarmonia. A natureza é um campo de batalha "vermelho, com dentes e garras". O domínio do homem rompeu a união social que devia existir entre homens e animais. O homem está dividido do homem, a classe da classe, a nação da nação, a ideologia da ideologia, o gentio do judeu. O mundo sem Cristo é um mundo dividido, desunido, fragmentado. O que é verdade do mundo natural exterior também o é da própria natureza
todos os poderes só podem chegar à unidade quando aceitam a Cristo e vivem nEle. Mas também pode ser que houvesse outra coisa que moveu o pensamento de Paulo nesta direção. Paulo era cidadão romano e estava orgulhoso disso. Em suas viagens tinha estado em constante contato com o império romano e agora encontrava-se em Roma a cidade imperial. Agora, com o império romano se estabeleceu uma nova unidade no mundo. A pax romana era um fato muito real. Reinos, cidades e nações, que tinham lutado, combatido, competido e guerreado entre si, congregavam-se agora numa nova unidade dentro do império romano. As barreiras tinham sido derrubadas, as divisões superadas; as hostilidades tinham concluído, as tensões se relaxaram; tudo chegou a adquirir unidade em Roma. Bem pode ser que desde sua prisão Paulo tenha visto sob uma nova luz toda esta unidade centralizada em Roma; pôde ter captado em tudo isto um símbolo ou uma parábola de como todas as coisas devem centralizar-se em Cristo, e reunir-se nEle, se é que de algum modo a natureza, o mundo e a humanidade têm que chegar alguma vez à unidade. Por certo, longe de ser uma concepção que excedesse o pensamento de Paulo, todo seu pensamento e sua experiência o teriam levado precisamente a este resultado.
A função da Igreja
Nos três primeiros capítulos da Carta Paulo oferece sua concepção sobre a unidade em Cristo. Nos seguintes três diz muito sobre o lugar da Igreja no plano de Deus para levar a cabo esta unidade. Para que existe a Igreja? Qual é sua verdadeira função no plano de Deus? Onde intervém a Igreja neste propósito de trazer uma nova unificação a um mundo desunido? É aqui onde Paulo acerta no alvo com uma de suas frases mais importantes. A Igreja é o corpo de Cristo. A Igreja tem que ser as mãos para a obra de Cristo, pés para correr atrás dos que se desviam, uma boca que fala por Ele, um instrumento e um corpo pelos quais pode operar. Assim, pois, achamos em Efésios uma dupla tese. Primeiro, Cristo é o
instrumento de Deus para a reconciliação; segundo, a Igreja é o instrumento de Cristo para essa reconciliação. A Igreja deve levar Cristo ao mundo e dentro dela devem cair por terra todos os muros divisórios e as separações. Mediante a Igreja deve realizar-se e levar-se a cabo a unidade de todos os elementos discordantes. A Igreja deve pregar ao Cristo em quem somente é possível a unidade, e dentro da Igreja deve obter-se e realizar-se essa unidade. Como diz E. F. Scott: "A Igreja tem como finalidade a reconciliação do mundo para a qual veio Cristo: e em todas suas relações entre si, os cristãos devem buscar realizar esta idéia formativa da Igreja".
Quem se não Paulo?
Este é, pois, o pensamento de Efésios. Como vimos, alguns, pensando no vocabulário, no estilo e no pensamento da Carta, não podem crer que Paulo a tenha escrito. E. J. Goodspeed, o investigador norte-americano, adiantou uma teoria interessante, mas não convincente. Diz que com toda probabilidade foi em Éfeso onde cerca de 90 de nossa era, teriam sido recolhidas, publicadas e enviadas a toda a Igreja as cartas de Paulo. Segundo a teoria de Goodspeed o responsável pela recopilação — algum discípulo entusiasta de Paulo — escreveu Efésios como um prefácio ou uma introdução a toda a coleção. Basta um fato importante para deitar por terra com esta teoria. Toda imitação é inferior ao original. Toda obra secundária se revela ela mesma como tal. Mas Efésios, longe de ser inferior, pode ser considerada a maior das cartas de Paulo, e se o próprio Paulo não a escreveu devemos postular como autor a alguém ao menos da talha do apóstolo, ou superior. E. F. Scott faz uma pergunta muito oportuna "Podemos pensar que na Igreja do tempo de Paulo tenha existido um mestre desconhecido de tão suprema excelência? O natural é supor que uma carta tão afim ao melhor da obra de Paulo não pôde ter sido escrita por outro que pelo
se recolheram as cartas de Paulo para sua publicação. Agora, Laodicéia estava numa zona conhecida por seus terremotos e bem pode ter acontecido que todos os arquivos laodicenses fossem destruídos, e que portanto quando se levou a cabo a compilação, a única cópia da carta aos laodicenses fosse a que existia em Éfeso. Esta carta pôde ter sido incluída então na coleção paulina e, como tinha sido achada em Éfeso, poderia ter chegado a conhecer-se como carta aos Efésios, pois em Éfeso sobrevivia a única cópia existente. Isto é completamente possível e sem lugar a dúvida muito provável. A segunda explicação sugerida foi proposta pelo Harnack, o grande investigador alemão, e diz assim. Em seus últimos dias, infelizmente a Igreja de Laodicéia tinha caído da graça. No Apocalipse há uma carta ao Laodicéia que faz um triste relato (Apocalipse 3:14-22). Aqui a Igreja de Laodicéia é condenada triste e categoricamente por Cristo ressuscitado ao ponto de que pronuncia a vívida sentença: "Vomitar-te-ei da minha boca" (Apocalipse 3:16). Agora, no mundo antigo existia um costume denominado damnatio memorias , a condenação da lembrança de alguém. No caso de uma pessoa que tinha rendido notáveis serviços ao Estado seu nome poderia aparecer em livros, anais oficiais, inscrições e memoriais. Mas se tal homem terminava sua carreira com uma baixa traição, uma vergonhosa falta de honestidade ou o colapso total de toda venerabilidade, procedia-se a condenar sua memória. Seu nome era apagado dos livros, riscado de todas as inscrições, apagado de todos os monumentos. Suportava assim uma damnatio memoriae. Harnack pensa como possível que a Igreja do Laodicéia tenha sucumbido a uma damnatio memoriae , de tal maneira que seu nome fosse apagado dos registros cristãos. Se isto foi assim as cópias das cartas a Laodicéia não tinham nenhum endereço. Quando se fez a coleção em Éfeso se introduziu o nome desta última cidade porque a Carta tinha sobrevivido aqui e carecia de outro destinatário.
A carta circular
Ambas as sugestões são possíveis, mas há outra muito mais provável que consideramos correta. Cremos que os manuscritos primitivos de Efésios não tinham o nome de nenhuma Igreja porque de fato a carta não tinha sido escrita a nenhuma Igreja, mas, antes, era uma circular de Paulo a todas as Igrejas da Ásia. Nunca foi possessão de uma Igreja, mas sim possessão de todas as Igrejas. Leiamos de novo o que Paulo diz em Colossenses 4:16: “E, uma vez lida esta epístola perante vós, providenciai por que seja também lida na igreja dos laodicenses; e a dos de Laodicéia, lede-a igualmente perante vós”. Agora, Paulo não diz que os colossenses devam ler a epístola a Laodicéia mas sim a dos de Laodicéia. É como se houvesse dito: "Há uma carta que está circulando, no presente chegou a Laodicéia. Quando chegar — quando lhes for enviada desde Laodicéia — têm que lê-la". Isto soa como se entre as Igrejas da Ásia circulasse uma carta. Pensamos que esta era justamente Efésios.
A quintessência do pensamento de Paulo
Se tudo isto é assim, e cremos que efetivamente o é, então Efésios é a carta suprema de Paulo. Vimos que Efésios e Colossenses estão ligadas estreitamente entre si. Cremos que o que ocorreu foi que Paulo escreveu Colossenses para tratar uma situação concreta e um broto definido de heresia. Ao escrever nessas circunstâncias dá com sua célebre expressão sobre a suficiência plena de Cristo. Disse de si para si: "Isto é algo que devo levar a conhecimento de todos." Assim tomou o material que tinha usado em Colossenses, tirou-lhe tudo o que tinha sabor local e temporário e todo aspecto controverso e escreveu uma nova carta para falar com todos os homens sobre a suficiência plena de Cristo. Efésios é como vimos, uma carta que Paulo enviou a todas as Igrejas do Oriente para lhes anunciar que a unidade destinada a todos os homens e a todas