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20. Tiago (Barclay), Notas de estudo de Teologia

Carta de Tiago

Tipologia: Notas de estudo

2013

Compartilhado em 09/05/2013

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tiago-das-neves-rossendy-11 🇧🇷

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TIAGO
ÍNDICE
JAMES
WILLIAM BARCLAY
Título original em inglês:
The Letter of James
Tradução: Carlos Biagini
O NOVO TESTAMENTO Comentado por William Barclay
… Introduz e interpreta a totalidade dos livros do NOVO
TESTAMENTO. Desde Mateus até o Apocalipse William Barclay
explica, relaciona, dá exemplos, ilustra e aplica cada passagem, sendo
sempre fiel e claro, singelo e profundo. Temos nesta série, por fim, um
instrumento ideal para todos aqueles que desejem conhecer melhor as
Escrituras. O respeito do autor para a Revelação Bíblica, sua sólida
fundamentação, na doutrina tradicional e sempre nova da igreja, sua
incrível capacidade para aplicar ao dia de hoje a mensagem, fazem que
esta coleção ofereça a todos como uma magnífica promessa.
PARA QUE CONHEÇAMOS MELHOR A CRISTO
O AMEMOS COM AMOR MAIS VERDADEIRO
E O SIGAMOS COM MAIOR EMPENHO
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Baixe 20. Tiago (Barclay) e outras Notas de estudo em PDF para Teologia, somente na Docsity!

TIAGO

ÍNDICE

JAMES

WILLIAM BARCLAY

Título original em inglês: The Letter of James

Tradução: Carlos Biagini

O NOVO TESTAMENTO Comentado por William Barclay

… Introduz e interpreta a totalidade dos livros do NOVO TESTAMENTO. Desde Mateus até o Apocalipse William Barclay explica, relaciona, dá exemplos, ilustra e aplica cada passagem, sendo sempre fiel e claro, singelo e profundo. Temos nesta série, por fim, um instrumento ideal para todos aqueles que desejem conhecer melhor as Escrituras. O respeito do autor para a Revelação Bíblica, sua sólida fundamentação, na doutrina tradicional e sempre nova da igreja, sua incrível capacidade para aplicar ao dia de hoje a mensagem, fazem que esta coleção ofereça a todos como uma magnífica promessa.

PARA QUE CONHEÇAMOS MELHOR A CRISTO O AMEMOS COM AMOR MAIS VERDADEIRO E O SIGAMOS COM MAIOR EMPENHO

ÍNDICE

Prefácio Introdução Geral Introdução à Epístola de Tiago Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5

PREFÁCIO A TIAGO, 1 E 2 PEDRO

A Epístola de Tiago sofreu longamente por causa das severas críticas de que foi objeto por parte de Martinho Lutero. Não é possível esquecer facilmente que Lutero a chamou "uma simples epístola de palha", afirmando, além disso, que não pôde encontrar nela a Cristo (Os Prefácios Bíblicos de Lutero, inclusive o Prefácio a Tiago, podem ser encontrados em Reformation Writings of Martin Luther, vol. II, traduzidos por Bertram Lee Woolf). Inevitavelmente a pessoa se aproxima de Tiago sentindo que se trata de um dos livros menos importantes do Novo Testamento. Entretanto, em meu caso particular, quanto mais me aproximei da Epístola de Tiago tanto mais significativa resultou para mim esta breve carta. E. U. Blackman cita este veredicto de Marty a respeito de Tiago : "A Epístola é uma obra mestra de vigorosa e reverente simplicidade". Pode ocorrer que algum leitor comece o estudo de Tiago como um dever mas que — assim como eu — o termine como um deleite. A Epístola de Tiago foi afortunada quanto a comentaristas. Em primeiro lugar estão os comentários do texto grego. O de J. B. Mayor, nos Comentários Macmillan, é uma das maiores obras deste gênero na língua inglesa. O de J. H. Ropes no International Critical Commentary é um modelo de equilibrada e metódica erudição. O de W. O. E. Oesterley no Expositor's Greek Testament é muito útil e, tal como se pode esperar de seu erudito autor, é especialmente esclarecedor com respeito ao pensamento e às crenças judias que formam o pano de fundo da Carta. O

que é produto de erudição sadia ainda que conservadora. Deste modo aparecem num mesmo volume, por E. H. Plumptre na Cambridge Bible for Schools and Colleges, obra que hoje é antiga, mas ainda está cheia de esclarecedora sabedoria. Também são encaradas junto por James Moffatt no volume sobre The General Epistles del Moffatt Commentary. Sobre Primeira Pedro há dois notáveis comentários modernos. O denso trabalho de E. G. Selwyn nos Macmillan Commentaries já ocupou seu lugar entre os grandes comentários em língua inglesa. O comentário de F. W. Beare é muito mais radical em suas conclusões, mas reveste singular importância. Pessoalmente tenho uma especial dívida de gratidão com a breve exposição de C. E. B. Cranfield, obra mestra de sucinta mas lúcida e iluminadora exposição. Minha dívida para com tal obra faz-se evidente em cada página de meu próprio livro. Em The Interpreter’s Bible a exposição a cargo de A. M. Hunter é definidamente proveitosa. No Cambridge Greek Testament for Schools and Colleges há um avultado e útil volume sobre Primeira Pedro escrito por G. W. Blenkin. A bibliografia sobre Segunda Pedro é muito menos abundante. Os Comentários Macmillan incluem um extenso volume sobre Segunda Pedro, junto com Judas , escrito por J. B. Mayor. Trata-se de um monumento de erudição neotestamentária e clássica comparável com o volume que o mesmo autor dedicou a Tiago. No Cambridge Greek Testament for Schools and Colleges há um excelente ainda que breve volume escrito por M. R. James. Nada jamais diminuirá o atrativo de Primeira Pedro. Por sua parte, pode ser que Segunda Pedro não tenha a mesma fascinação, mas poucos livros há no Novo Testamento que melhor nos capacitem para perceber os insidiosos ataques que foram feitos contra a doutrina e contra a ética cristãs em dias da Igreja primitiva. Contra tais ataques os escritores do Novo Testamento tiveram que erigir suas defesas, razão pela qual este documento bíblico resulta de suma importância.

É minha esperança e meu rogo a Deus que esta exposição capacite aos quais a leiam para valorizar e apreciar mais as epístolas aqui comentadas.

William Barclay. Trinity College, Glasgow, março de 1956.

INTRODUÇÃO GERAL

Pode dizer-se sem faltar à verdade literal, que esta série de Comentários bíblicos começou quase acidentalmente. Uma série de estudos bíblicos que estava usando a Igreja de Escócia (Presbiteriana) esgotou-se, e se necessitava outra para substituí-la, de maneira imediata. Fui solicitado a escrever um volume sobre Atos e, naquele momento, minha intenção não era comentar o resto do Novo Testamento. Mas os volumes foram surgindo, até que o encargo original se converteu na idéia de completar o Comentário de todo o Novo Testamento. Resulta-me impossível deixar passar outra edição destes livros sem expressar minha mais profunda e sincera gratidão à Comissão de Publicações da Igreja de Escócia por me haver outorgado o privilégio de começar esta série e depois continuar até completá-la. E em particular desejo expressar minha enorme dívida de gratidão ao presidente da comissão, o Rev. R. G. Macdonald, O.B.E., M.A., D.D., e ao secretário e administrador desse organismo editar, o Rev. Andrew McCosh, M.A., S.T.M., por seu constante estímulo e sua sempre presente simpatia e ajuda. Quando já se publicaram vários destes volumes, nos ocorreu a idéia de completar a série. O propósito é fazer que os resultados do estudo erudito das Escrituras possam estar ao alcance do leitor não especializado, em uma forma tal que não se requeiram estudos teológicos

tratados religiosos escritos pelos primitivos pais. Aparece pois, assim, a Epístola de Tiago mas é aceita com reserva. O primeiro escritor latino que cita Tiago palavra por palavra é Hilário de Poitiers e o faz numa obra intitulada De Trinitate , escrita ao redor do ano 357 D.C. Então, se Tiago apareceu tão tardiamente na Igreja latina e se, mesmo depois de fazê-lo, ainda foi considerado com certa incerteza, como chegou a integrar-se no Novo Testamento? A influência promotora foi a de Jerônimo pois ele, sem vacilar, incluiu Tiago em sua versão Vulgata do Novo Testamento. Mas até então há um matiz de dúvida. Em seu livro De Viris Illustribus Jerônimo diz: "Tiago, que é chamado o irmão do Senhor... escreveu somente uma epístola, a qual é uma das sete epístolas católicas, e a que, segundo alguns dizem, foi publicada por algum outro sob o nome de Tiago." Assim, pois, persiste aqui o acento de dúvida. Jerônimo aceitou a Carta plenamente mas notava a existência de algumas dúvidas quanto a quem era o autor. Como foi então dissipada finalmente a incerteza na Igreja latina? Foi porque Agostinho aceitou plenamente a Tiago e não duvidou de que o Tiago em questão era o irmão de nosso Senhor. Tiago emergiu tardiamente na Igreja latina; durante longo tempo houve uma espécie de interrogante contra ele. Mas a inclusão que desta Epístola fez Jerônimo na Vulgata, e a plena aceitação por parte de Agostinho, levaram finalmente, ainda que depois de uma luta, a seu reconhecimento total e definitivo.

A Igreja de Síria

Poderia pensar-se que a Igreja de Síria teria sido primeira em aceitar a Epístola de Tiago , se realmente tivesse sido escrita na Palestina, e se realmente tivesse sido obra de Tiago, o irmão de nosso Senhor. Mas na Igreja de Síria houve a mesma vacilação. O Novo Testamento oficial da Igreja de Síria é chamado Peshitto , que era para a Igreja de Síria o que a Vulgata para a Igreja latina. Esta versão Peshitto das Escrituras em

siríaco foi feita pela Rábbula, bispo da Edessa, ao redor do ano 412 D.C. Nela, foi traduzida pela primeira vez esta Epístola ao siríaco; e até o ano 451 d.C. não há na literatura religiosa siríaca indício algum da mesma. Depois disto a Epístola de Tiago foi mais aceita, mas tão tardiamente que em 549 d.C. ainda Paulo de Nisibis questionava o direito de Tiago a integrar o Novo Testamento e ainda o classificava entre os livros controvertidos. Em realidade não foi até mediados do século VIII quando a grande autoridade de João de Damasco fez por Tiago na Igreja de Síria o que Agostinho tinha feito na igreja latina.

A Igreja Grega

Tiago emergiu mais cedo na Igreja de fala grega que nas Igrejas latina ou síria mas, mesmo assim, sua aparição definitiva se retardou. O primeiro escritor que cita a Epístola por seu nome é Orígenes, o grande erudito e condutor da escola de Alexandria. Escrevendo quase em meados do século III, diz: "Se a fé for chamada fé, mas existe aparte das obras, tal fé é morta, como lemos na carta que gentilmente atribui a Tiago." Certo é que em outras obras ele cita a Epístola como pertencendo indubitavelmente a Tiago, e mostra crer que o tal Tiago é o irmão de nosso Senhor; mas mais uma vez há aqui um pano de fundo de dúvida. Eusébio, o notável erudito da Cesárea, investigou em sua época — em meados do século IV — a posição de vários livros dentro do Novo Testamento ou muito próximos a este. Ele classifica a Tiago entre os livros que são "discutidos"; e escreve sobre o mesmo: "A primeira das epístolas chamadas católicas diz-se que é dela (de Tiago); mas deve- se notar que alguns a consideram espúria; e certamente é verdade que são muito poucos os escritores que a mencionam." Novamente aqui aparece o acento de dúvida. O próprio Eusébio aceitava a epístola mas sabia bem que outros não procediam assim. O momento decisivo na Igreja de fala grega chegou em 367 d.C. Nesse ano Atanásio publicou no Egito sua famosa Carta de Páscoa. Nesta Carta se

do Novo Testamento naqueles escuros e distantes dias é desconhecida para muita gente da Igreja atual. A razão é a seguinte: Na Igreja Católica Romana o lugar de Tiago foi finalmente determinado pelo Decreto do Concílio do Trento. Mas na Igreja protestante os antecedentes de Tiago seguiram sendo questionados em forma crescente devido aos ataques de Lutero, quem o teria eliminado totalmente do Novo Testamento. No índice de sua edição alemã do Novo Testamento, Lutero indicou os livros, atribuindo a cada um um número. Mas no final dessa lista há um grupo pequeno, separado do resto, que não leva numeração alguma. Este grupo está composto por Tiago, Judas, Hebreus e Apocalipse. Estes eram livros aos quais Lutero decididamente considerava como secundários. Lutero foi especialmente rigoroso com Tiago. E o juízo adverso de um grande homem com relação a qualquer livro pode ser como uma pedra de moinho pendurada para sempre ao pescoço desse livro. No parágrafo final de seu Prefácio ao Novo Testamento é onde o reformador alemão pronuncia seu famoso veredicto sobre Tiago :

Em resumo o evangelho e a primeira epístola de São João; as epístolas de São Paulo, especialmente aquelas aos Romanos e aos Efésios; e a Primeira Epístola de São Pedro são os livros que mostram a Cristo. Ensinam tudo o que precisam saber para sua salvação. E isto ainda que nunca vissem nem escutassem a respeito de nenhum outro livro ou nenhuma outro ensino. Em comparação com estes, a Epístola de Tiago é uma epístola cheia de palha , porque não contém nada evangélico. Falarei mais a respeito disto em outros prefácios.

Conforme a sua promessa, Lutero desenvolveu este veredicto no Prefácio às Epístolas de Tiago e de São Judas. Começa dizendo: "Tenho conceito elevado da epístola de Tiago e a considero valiosa em que pese a que em longínquos tempos foi rechaçada. Não expõe doutrinas humanas, mas acentua muito a lei de Deus. Porém, para dar minha própria opinião — e sem prevenção contra a de nenhum outro — direi

que não a considero como autoridade apostólica." E passa a dar suas próprias razões para este rechaço. Primeiro, e em aberta oposição a Paulo e ao resto da Bíblia, Tiago atribui a justificação às obras, citando erroneamente a Abraão como alguém que foi justificado pelas obras. Isto em si mesmo prova que a Epístola não pode ter origem apostólica. Segundo, nenhuma só vez dá aos cristãos instrução alguma em relação à Paixão, à Ressurreição ou ao Espírito de Cristo nem faz alusão a isso. Somente menciona a Cristo duas vezes. E Lutero prossegue dando seu próprio princípio para a prova de qualquer livro: "A verdadeira pedra de toque para provar qualquer livro é descobrir se este destaca ou não destaca a proeminência de Cristo... Aquilo que não ensina a Cristo não é apostólico, ainda que tenha sido ensinado por Pedro ou por Paulo. Por outro lado, aquilo que prega a Cristo, é apostólico, ainda que Judas, Anás, Pilatos ou Herodes o ensinassem."

Nesta prova Tiago fracassa. E Lutero prossegue: "A epístola de Tiago, entretanto, só conduz à lei e às obras desta. Mescla uma coisa com outra a tal extremo que suspeito que algum homem bom e piedoso reuniu umas poucas coisas tais pelos discípulos dos apóstolos e as deixou consignadas por escrito. Ou talvez a epístola foi redigida por algum outro que tomou notas de um dos sermões de Tiago. À lei ele a chama lei de liberdade (Tiago 1:25; 2:12) em que pese a que Paulo a chama lei de escravidão, ira, morte e pecado" (Gálatas 3:23s.; Romanos 4:15; 7:1 Vos.)."

E conclui Lutero: "Em resumo: Tiago deseja nos proteger daqueles que confiam na fé sem chegar às obras. Mas não tem nem o espírito nem o pensamento nem a eloqüência necessários para esta tarefa. Faz violência à Escritura e assim contradiz a Paulo e a toda a Bíblia. Tenta conseguir, acentuando a lei, o que os apóstolos conseguem atraindo o homem ao amor. Portanto, nego-lhe um lugar entre os escritores do verdadeiro cânon de minha Bíblia. Não obstante, não me oporia a que outro o colocasse ou elevasse aonde lhe agrade, porque esta epístola contém muitas passagens excelentes. Um homem não

(comp. com Mateus 27:56 e João 19:25). Tampouco se sabe nada deste e nenhuma relação pode ter tido com nossa Epístola. (4) Existe Tiago, irmão de João e filho de Zebedeu, um dos doze (Mateus 10:2; Marcos 3:17; Lucas 6:14; Atos 1: 13). No relato do Evangelho Tiago nunca aparece independentemente de seu irmão João (Mateus 4:21; 17:1; Marcos 1:19,29; 5:37; 9:2; 10:35,41; 13:3; 14:33; Lucas 5:10; 8:51; 9: 28. 54). Este Tiago foi o primeiro do grupo apostólico em ser submetido a martírio já que foi decapitado por ordem de Herodes Agripa I o ano 44 D.C. Este Tiago esteve relacionado com nossa Epístola. O Codex Corbeiensis , códice latino do quarto século, no final da Epístola tem uma nota atribuindo-a muito definidamente a Tiago, filho do Zebedeu. O único lugar onde isto se tomou seriamente foi na Igreja da Espanha, na qual, até fins do século XVII Tiago, filho de Zebedeu, foi freqüentemente considerado como autor da Epístola. Isto devia-se a que Tiago da Compostela, santo padroeiro da Espanha, é identificado como filho de Zebedeu, e era muito natural que a Igreja espanhola estivesse predisposta a desejar que o santo padroeiro de seu país fosse autor de uma Carta do Novo Testamento. Mas o martírio de Tiago ocorreu muito logo como para que ele pudesse ter escrito a Carta a Carta e, de toda maneira, não há nada anterior ao Codex Corbeiensis para relacioná-lo com ele. (5) Finalmente, está Tiago, aquele que é chamado irmão de Jesus. Ainda que a primeira relação concreta de Tiago com esta Carta não surge até Orígenes, na primeira metade do século III. É a este Tiago a quem se atribuiu tradicionalmente a Epístola. E também a ele é que a Igreja Católica Romana definitivamente atribui a Carta visto que, em 1546, o Concílio do Trento estabeleceu que o livro de Tiago é canônico e foi escrito por um apóstolo. Reunamos, pois, as evidências com relação a este Tiago. Pelo Novo Testamento nos inteiramos de que ele era um dos irmãos de Jesus (Marcos 6:3; Mateus 13:58). Posteriormente consideraremos em que sentido deve ser tomada a palavra "irmão". Durante o ministério de Jesus

é evidente que sua família não o entendeu nem tampouco simpatizou com ele e, no caso de poder fazê-lo, teriam restringido suas atividades (Mateus 12:46-50); Marcos 3:21, 31-35; João 7:3-9). João abertamente afirma: "Nem mesmo os seus irmãos criam nele (João 7:5). De maneira que durante o ministério terrestre de Jesus, Tiago era contado entre os seus oponentes. Entretanto, com o livro dos Atos chega uma repentina e inexplicável mudança. Quando começa o relato, a mãe de Jesus e os irmãos de este se acham reunidos com o pequeno grupo de cristãos (1:14). Daí em diante é evidente que Tiago se converte no líder da Igreja de Jerusalém. Como chegou a acontecer isto nunca foi explicado, mas a preeminência de Tiago é evidente. A Tiago é a quem Pedro faz conhecer a notícia de sua fuga da prisão (Atos 2:17). É Tiago quem indubitavelmente preside o concílio de Jerusalém que acorda o ingresso dos gentios na Igreja cristã (Atos 15). Tiago e Pedro são aqueles com que Paulo se reúne quando faz sua primeira viagem a Jerusalém; e com Pedro, Tiago e João ("colunas da Igreja") discute e determina Paulo o campo de seus trabalhos (Gálatas 1:19; 2:9). É a Tiago a quem Paulo vai com a oferenda das Igrejas gentílicas em seu visita a Jerusalém, esta visita que ia ser a última dela e que conduziria a seu encarceramento (Atos 21:18-25). Este último episódio é importante. Mostra a Tiago com muita simpatia para com os judeus que ainda observavam a lei judaica, e muito desejoso de que os escrúpulos deles não fossem ofendidos, ao extremo de persuadir a Paulo para que demonstrasse sua lealdade à Lei assumindo os gastos de certos judeus que estavam cumprindo um voto de nazireado. É totalmente evidente que Tiago era o líder da Igreja de Jerusalém. Como podia esperar-se, isto foi grandemente destacado e desenvolvido pela tradição e a lenda. Hegesipo, o antigo historiador, diz que Tiago foi o primeiro bispo da Igreja de Jerusalém. Clemente de Alexandria vai mais além ainda e afirma que foi eleito para esse cargo por Pedro e por João. Jerônimo, em seu livro De Viris Illustribus , afirma decididamente:

imediatamente é acrescentado: ‘Ele tomou o pão, e o abençoou, e o partiu e o deu a Tiago o justo e lhe disse: Irmão meu, come seu pão, porque o Filho do Homem se levantou dentre os que dormem’.

Esta é uma passagem que tem suas dificuldades. No começo da mesma parece dar a entender que Jesus se levantou dentre os mortos e saiu da tumba, entregou ao servo do sumo sacerdote a mortalha que tinha levado enquanto esteve morto, e foi encontrar se com seu irmão Tiago. Também parece implicar que Tiago esteve presente na Última Ceia. Ainda que a passagem tem seus pontos obscuros, uma coisa, entretanto, está clara: naqueles últimos dias e horas, algo com relação a Jesus tinha comovido o coração de Tiago de maneira que este fez voto de não comer até que Jesus ressuscitasse; assim Jesus chegou até ele e lhe deu a segurança de que o que estava esperando já tinha acontecido. O certo é que houve um encontro de Tiago e o Ressuscitado. O que ocorreu naquele sagrado e íntimo momento, jamais saberemos. Mas sim sabemos isto: que a partir de então o Tiago que tinha sido um hostil e inamistoso oponente de Jesus chegou a ser seu servo na vida e sua mártir na morte.

Tiago, mártir por Cristo

A antiga tradição atesta unanimemente que Tiago sofreu uma morte de mártir. Os relatos em relação às circunstâncias de sua morte variam, mas o fato de que foi martirizado permanece imutável. O relato do Josefo é muito breve ( Antiguidades 20:9. I):

De maneira que Ananus, sendo um homem dessa classe, e pensando que tinha obtido uma boa oportunidade devido ao fato de que Festo estava morto e Albino não tinha chegado ainda, reuniu um conselho judicial e fez comparecer perante ele o irmão de Jesus chamado o Cristo — Tiago era seu nome — e a alguns outros, e sob a acusação de terem violado a Lei, entregou-os para que fossem apedrejados.

Ananus era um sumo sacerdote judeu. Festo e Albino eram procuradores da Palestina, que exerciam as mesmas funções que tinha tido Pilatos. O significativo deste relato é que Ananus aproveitou o intervalo entre a morte de um procurador e a chegada do sucessor deste para eliminar a Tiago e a outros dirigentes da Igreja cristã. Em realidade, isto concorda bem com o caráter de Ananus, segundo o que sabemos dele. Isso significaria, então, que Tiago foi martirizado no ano 62 D.C. Um relato muito mais extenso da morte de Tiago, encontramos na história do Hegesipo. A obra propriamente tal se perdeu mas Eusébio, em sua História Eclesiástica (2:23) preservou completo o relato da morte de Tiago. É tão interessante que se justifica que o citemos integralmente:

Recebeu o governo da Igreja, junto com os apóstolos, Tiago irmão do Senhor, quem já dos tempos de Cristo até nossa idade foi chamado o Justo. Pois certamente existiram muitos que se chamavam com o nome de Tiago. Mas este foi santo do ventre de sua mãe. Nunca bebeu vinho nem suco de tâmaras; absteve-se totalmente das carnes de animais. Nunca cortou a cabeleira, nem costumava ungir nem banhar seu corpo. Era o único entre todos que tinha o direito e a faculdade de entrar no santuário íntimo do templo. Não usava vestimenta de lã mas sim de linho. Costumava entrar sozinho no templo e orar ali intercedendo perante Deus de joelhos pelos pecados do povo, ao ponto de que seus joelhos tivessem calos como os do camelo, quando venerando a Deus assiduamente se prostrava no solo, fazendo votos pela salvação do povo. Por causa de sua singular justiça, era chamado Justo e Oblias, que significa em latim munimentum populi et justitia , como predisseram os profetas a respeito dele. Alguns pertencentes às sete seitas que existiam entre os judeus e das quais lembramos ter escrito nos livros anteriores, perguntaram-lhe qual era a porta de Jesus, aos quais respondeu que Jesus era Salvador. Ouvidas estas palavras, creram alguns deles que Jesus era verdadeiramente o Cristo. As seitas mencionadas não criam nem na ressurreição nem na futura vinda de Cristo para retribuir a cada um segundo seus merecimentos. Quantos, pois, deles, creram, creram certamente por obra e ministério de Tiago. Como pois cressem muitos dos personagens, os judeus, os escribas e fariseus

começaram a lançar pedras nele. E enquanto cobriam de pedras o homem, um dos sacerdotes, dos filhos do Recabe, filho do Recabim, que tinham sido elogiados por Jeremias, com voz suplicante disse: "Perdoem, mas o que fazeis? O Justo ora por vós." Enquanto isso um dos lavadeiros deles, tomando o bastão com que estava acostumado a esfregar as vestes, feriu a cabeça do Justo. E desta maneira acabou a vida com um feliz martírio. Foi sepultado no mesmo lugar e ainda subsiste seu sepulcro junto ao templo. Este Tiago foi eloqüente testemunha, tanto para os judeus como para os gregos, de que Jesus foi verdadeiramente o Cristo. Não muito depois aconteceram o cerco de Vespasiano e a cativeiro dos judeus."

As últimas palavras deste fragmento da história do Hegesipo mostram que este tinha uma data distinta para a morte de Tiago. Josefo a situa no ano 62 d.C, mas se isto aconteceu justo antes do sítio de Vespasiano, então a data seria ao redor do ano 66 d.C. Bem pode ser que na história do Hegesipo haja muito de lenda, mas dela surgem duas coisas: Primeiro, é evidente mais uma vez, que Tiago sofreu uma morte de mártir; segundo, está claro que depois de tornar-se cristão Tiago permaneceu completamente leal à Lei judaica ortodoxa. Em realidade, tão leal foi Tiago à Lei que os judeus o consideravam como a um deles. Isto certamente concordaria bem com a atitude de Tiago para com Paulo quando chegou a Jerusalém com a oferenda para a Igreja dessa cidade (Atos 21:18-25) porque, como já vimos, Tiago nessa ocasião insistiu com Paulo para que demonstrasse não ser era inimigo da Lei, custeando os gastos de alguns que estavam cumprindo o voto de nazireado.

O irmão de nosso Senhor

Antes de deixar a Tiago como pessoa, há outra questão com relação a ele que temos que tratar de resolver. Em Gálatas 1:19 Paulo refere-se a Tiago como o irmão do Senhor. Em Mateus 13:55 e em Marcos 6: aquele é mencionado entre os irmãos de Jesus e, em Atos 1:14, ainda que

não se dão nomes, diz-se que os irmãos de Jesus estavam entre os seguidores de Cristo na Igreja primitiva. A pergunta que temos que responder é esta: Qual é o significado da palavra irmão? Este é um interrogante que tem que ser respondido porque a Igreja Católica Romana atribui grande importância à resposta, e o mesmo faz o setor anglo-católico da Igreja Anglicana. Esta é uma questão sobre a que, certamente, na época de Jerônimo houve na Igreja uma contínua polêmica. Há três teorias quanto ao vínculo familiar destes "irmãos" de Jesus. Consideremos uma após outra.

A teoria jeronimiana

Esta teoria recebe seu nome de Jerônimo, que a expôs no ano 383 d.C. Ninguém antes dele tinha sugerido algo semelhante. A importância desta teoria está demonstrada pelo fato de constituir uma crença determinada e estabelecida da Igreja Católica Romana, sendo para ela artigo de fé. Entenderemos melhor a complicada argumentação de Jerônimo se a recortarmos numa série de pontos: (1) Tiago, o irmão de nosso Senhor, está incluído entre os doze apóstolos. Paulo escreve: “Não vi outro dos apóstolos, senão Tiago, o irmão do Senhor” (Gálatas 1:19). Aí reside a prova de que Tiago era um apóstolo. (2) Jerônimo insiste em que a palavra apóstolo só pode ser empregada com referência a um dos doze; reitera que o título de apóstolo está limitado a eles e somente a eles. Agora, se é assim, teremos que buscar Tiago entre os doze. Não se pode identificá-lo com Tiago, o irmão de João e filho do Zebedeu quem, além disso, pelo tempo a que se refere Gálatas 1:19 já tinha sido martirizado, como claramente o diz Atos 12:2. Portanto, tem que ser identificado como o único Tiago que havia entre os Doze, quer dizer: Tiago o filho de Alfeu. Por conseguinte, e segundo esta teoria, Tiago, o irmão de nosso Senhor e Tiago, o filho de Alfeu são uma e a mesma pessoa, ainda que sob distintas descrições.