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A Rainha Do Castelo De Ar, Resumos de Tradução

A Rainha do Castelo de Ar. Tradução. Dorothée de Bruchard. COMPANHIA DAS LETRAS. 2007. Digitalização: Vitório - Revisão: Lucia Garcia – Amigos da Leitura.

Tipologia: Resumos

2023

Compartilhado em 17/01/2023

Nazareth85
Nazareth85 🇵🇹

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8 A 12 DE ABRIL

Calcula-se em seiscentos o número de mulheres soldados que combateram na Guerra de Secessão. Alistaram-se travestidas de homem. Hollywood deixou passar batido todo um aspecto da história cultural — ou será que esse aspecto incomoda muito do ponto de vista ideológico? Os livros de história sempre tiveram dificuldade em falar de mulheres que não respeitam os padrões de gênero, e em nenhuma área essa limitação é tão evidente como na guerra e no que se refere ao manejo de armas. No entanto, da Antigüidade aos tempos modernos a história é fértil em relatos protagonizados por guerreiras — as amazonas. Os exemplos mais conhecidos constam nos livros de história em que essas mulheres têm o estatuto de "rainhas", ou seja, de representantes da classe no poder. Com efeito, a sucessão política regularmente coloca uma mulher no trono, por mais desagradável que essa verdade soe. Sendo as guerras insensíveis ao gênero e ocorrendo até mesmo quando uma mulher dirige o país, o resultado é que os livros de história são obrigados a registrar certo número de rainhas guerreiras levadas, conseqüentemente, a se comportar como qualquer Churchill, Stálin ou Roosevelt. Semíramis de Nínive, fundadora do Império

Assírio, e Boadiceia, que liderou uma das mais sangrentas revoltas contra os romanos, são dois exemplos. Esta última, aliás, tem uma estátua à margem do Tâmisa, em frente ao Big Ben. Não deixemos de cumprimentá-la caso estejamos passando por ali. Em compensação, os livros de história são, em geral, bastante discretos sobre as guerreiras que atuaram como simples soldados, exercitando-se no manejo das armas, integrando os regimentos e participando das batalhas contra exércitos inimigos em condições idênticas às dos homens. Essas mulheres, contudo, sempre existiram. Praticamente nenhuma guerra foi travada sem alguma participação feminina.

1. SEXTA-FEIRA 8 DE ABRIL Pouco antes da uma e meia da manhã, o Dr. Anders Jonasson foi acordado pela enfermeira Hanna Nicander. — O que foi? — Perguntou, meio atordoado. — Helicóptero chegando. Dois pacientes. Um homem de idade e uma mulher jovem. Ela levou um tiro. — Estou indo, estou indo — disse Anders Jonasson, cansado. Ainda não se sentia muito desperto, embora na verdade nem tivesse chegado a dormir; só dera um cochilo de meia hora. Estava de plantão no pronto-socorro do Hospital Sahlgrenska, em Göteborg. O início da

Hanna Nicander ofereceu-lhe uma caneca de chá. Ainda não tinha maiores detalhes sobre os novos pacientes. Anders Jonasson deu uma olhada pela janela e viu relâmpagos enormes riscando o céu acima do mar. Ia ser difícil para o helicóptero. De repente, desabou uma chuva violenta. A tempestade se abateu sobre Göteborg. Ele ainda estava diante da janela quando ouviu o barulho do motor e avistou o helicóptero que, sacudido pelas rajadas, se aproximava da área de pouso. Prendeu a respiração ao ver que o piloto parecia ter dificuldade para controlar a aproximação. Então o aparelho sumiu de seu campo de visão e ele ouviu a turbina reduzindo a marcha. Tomou um gole e largou a caneca. Anders Jonasson recebeu os paramédicos na entrada do pronto-socorro. Sua colega de plantão, Katarina Holm, assumiu o primeiro paciente que chegava deitado numa maça, um homem de idade com um ferimento grande no rosto. Coube ao Dr. Jonasson cuidar da mulher que levara um tiro. Uma rápida avaliação mostrou que se tratava de uma adolescente, gravemente ferida e toda suja de terra e sangue. Ele ergueu o cobertor no qual os paramédicos a tinham envolvido e notou que alguém fechara as lesões do quadril e do ombro com

uma larga fita adesiva prateada, o que lhe pareceu uma iniciativa particularmente perspicaz. A fita adesiva bloqueava a entrada das bactérias e a saída do sangue. Uma bala a atingira na parte externa do quadril e atravessara o tecido muscular de lado a lado. Ele ergueu o ombro dela e identificou, nas costas, o orifício de entrada da bala. Não havia orifício de saída, o que significava que a bala estava cravada em algum ponto do ombro. Só restava esperar que não tivesse perfurado o pulmão. Como ele não viu sangue na boca da jovem, concluiu que esse devia ser o caso. — Radiografia — disse à enfermeira que o assistia. Bastava como instrução. Por fim, cortou o curativo que os paramédicos tinham usado na cabeça da jovem. Estremeceu ao apalpar o orifício de entrada com a ponta dos dedos. Ela tinha sido alvejada na cabeça. Ali também não havia orifício de saída. Anders Jonasson deteve-se por um segundo e contemplou a jovem. De repente, sentiu-se invadido pelo pessimismo. Por várias vezes já tinha comparado seu trabalho com o de um goleiro. Todos os dias chegavam a seu local de trabalho, pessoas nas mais diversas condições, e todas com uma única intenção — conseguir ajuda. Entre elas, aquela senhora de setenta e quatro anos que tivera uma parada cardíaca e desabara na

Aquela jovem diante dele poderia viver com uma bala no quadril e outra no ombro. Mas uma bala num ponto qualquer do cérebro já era um problema de outra dimensão. De repente, percebeu que a enfermeira dizia alguma coisa. — Como? — É ela. — Ela quem? — Lisbeth Salander. A garota que vem sendo procurada há várias semanas por triplo assassinato em Estocolmo. Anders Jonasson fitou o rosto da paciente. Hanna estava certa. Era a foto daquela jovem que ele e quase todos os suecos estavam vendo estampada nas bancas de jornais desde a Páscoa. E ali estava a assassina, ferida, o que decerto acabava sendo uma forma impressionante de justiça. Mas isso não lhe dizia respeito. Seu trabalho era salvar a vida de sua paciente, fosse ela uma tríplice assassina ou uma ganhadora do prêmio Nobel. Ou ambas as coisas. Em seguida, houve aquela confusão controlada que caracteriza todo serviço de emergência. A equipe que trabalhava com Jonasson era tarimbada e sabia o que fazer. As roupas que Lisbeth Salander ainda vestia foram recortadas. Uma enfermeira informou sua pressão arterial — dez por

sete — enquanto ele punha o estetoscópio no peito da paciente e escutava os batimentos cardíacos, que pareciam relativamente regulares; a respiração, nem tanto. O Dr. Jonasson não hesitou, de saída, em classificar o estado de Lisbeth Salander como crítico. Os ferimentos do ombro e do quadril podiam esperar, aplicando-se compressas ou até deixando ali os pedaços de fita adesiva, já colocados por uma alma inspirada. O mais urgente era a cabeça. Jonasson ordenou que a passassem pelo tomógrafo no qual o hospital investira dinheiro do contribuinte. Anders Jonasson era um homem loiro de olhos azuis, originário do norte da Suécia, mais precisamente de Umea. Fazia vinte anos que trabalhava nos hospitais Sahlgrenska e Ostra, revezando-se nas funções de pesquisador, patologista e médico do pronto-socorro. Havia nele uma particularidade que perturbava seus colegas e deixava os funcionários orgulhosos de trabalhar com ele: por princípio nenhum paciente deveria morrer nos seus plantões e, de algum modo milagroso, ele conseguira manter seu escore em zero. Alguns pacientes seus tinham falecido, é claro, mas durante cuidados posteriores ou por motivos não relacionados com a sua intervenção.

do Hotel Radisson. Anders Jonasson deu uma olhada no relógio — 1h42 — e tirou o fone do gancho. O recepcionista da noite do Radisson mostrou-se bastante avesso à idéia de transferir uma chamada àquela hora, e o médico precisou falar com bastante veemência para explicar a gravidade da situação e ter a ligação completada. — Oi, Frank — disse Anders Jonasson quando ele finalmente atendeu. — É o Anders. Soube que você estava em Göteborg. Você não daria um pulo aqui no Sahlgrenska para me assistir numa cirurgia de cérebro? — Are you bullshitting me? — inquiriu uma voz cética do outro lado da linha. Embora morasse na Suécia havia vários anos e falasse fluentemente sueco — com sotaque americano, claro —, ele preferia o inglês. Anders Jonasson falou em sueco e Ellis respondeu em inglês. — Frank, lamento ter perdido sua conferência, mas achei que você pudesse me dar umas aulas particulares. Estou aqui com uma mulher com uma bala na cabeça. O orifício de entrada é bem acima da orelha esquerda. Eu não te ligaria se não precisasse de uma segunda opinião. E não conheço ninguém mais competente nesse tipo de assunto. — Não é brincadeira? — perguntou Frank Ellis. — A moça tem uns vinte e cinco anos.

— E qual o aspecto do ferimento? — Orifício de entrada, nenhum orifício de saída. — Mas ela está viva? — Pulso fraco, porém regular, respiração nem tão regular, pressão dez por sete. Ela também está com uma bala no ombro e um ferimento de bala no quadril. Disso eu posso cuidar. — Parece bem promissor — disse o professor Ellis. — Promissor? — Quando alguém está com uma bala na cabeça e continua vivo, a situação deve ser considerada muito auspiciosa. — Você poderia me assistir? — Confesso que passei a noite na companhia de uns amigos. Fui dormir à uma da manhã e muito provavelmente estou com um nível impressionante de álcool no sangue... — Eu tomo as decisões e faço a cirurgia. Mas preciso de alguém que me acompanhe e me avise se eu estiver cometendo alguma aberração. E, verdade seja dita, mesmo um professor Ellis completamente bêbado sem dúvida tem mais condições que eu de avaliar danos cerebrais. — Está bem. Estou indo. Mas você me deve um favor. — Tem um táxi esperando você na frente do hotel.

— Eu sei. Desculpe ter te incomodado, mas... — Deixa disso. — Frank Ellis fez um gesto com a mão para que o amigo não dramatizasse. — Vai lhe custar uma garrafa de Cragganmore na próxima vez que a gente for pescar. — Combinado. Você não cobra caro. — Esse caso me lembra de um outro, alguns anos atrás, quando eu trabalhava em Boston — e que descrevi no New England Journal of Medicine. Era uma garota da mesma idade da sua paciente. Estava indo para a universidade, quando atiraram nela com uma besta. A flecha entrou pela borda da sobrancelha esquerda, atravessou a cabeça e saiu quase no meio da nuca. — E ela sobreviveu? — perguntou Jonasson, pasmo. — Quando ela chegou ao pronto-socorro foi aquela confusão. Cortaram a flecha e passaram a cabeça dela pelo tomógrafo. A flecha atravessava o cérebro de lado a lado. Pela lógica e pelo bom senso, ela deveria estar morta, ou pelo menos em coma, dada a extensão do traumatismo. — E em que condição ela estava? — Ficou consciente o tempo todo. E não só: é claro que estava apavorada, mas se manteve absolutamente coerente. Seu único problema era aquela flecha atravessada no cérebro. — O que você fez?

— Bem, peguei uma pinça e extraí a flecha, depois fiz um curativo. Mais ou menos isso. — E ela se safou? — Ficou em estado crítico por um bom tempo, até receber alta. Mas, para ser franco, poderia ter ido para casa no mesmo dia em que deu entrada no hospital. Nunca tinha visto um paciente com uma saúde tão boa. Anders Jonasson se perguntou se o professor Ellis não estava zombando da cara dele. — Por outro lado — Ellis prosseguiu —, alguns anos atrás tive um paciente de quarenta e dois anos, em Estocolmo, que tinha batido a cabeça na beirada de uma janela, uma pancadinha no cérebro. Ele estava com náuseas e seu estado piorou tão depressa que foi levado de ambulância para o pronto-socorro. Estava desacordado quando o recebi. Apresentava um inchaço pequeno e uma hemorragia mínima. Mas não voltou a acordar e morreu depois de nove dias de cuidados intensivos. Até hoje não sei do que ele morreu. No relatório da autópsia, colocamos "hemorragia cerebral em razão de acidente", mas nenhum de nós ficou satisfeito com essa conclusão. A hemorragia era minúscula, situada num lugar onde não poderia causar dano nenhum. Mesmo assim, o fígado, os rins, o coração e os pulmões foram parando de funcionar, um depois do outro.

la, mas... — Mas o quê? — A bala não é o que mais me preocupa. Isso é o fascinante nos traumatismos cerebrais — se ela sobreviveu à entrada da bala no crânio, é sinal de que também vai sobreviver à saída. O maior problema se situa neste ponto. — Frank Ellis pôs o dedo na tela. — Em volta do orifício de entrada há um monte de estilhaços de osso. Estou vendo pelo menos uma dúzia de fragmentos de uns poucos milímetros de comprimento. Alguns se cravaram no tecido cerebral. É isso que pode matá- la, se você não tomar cuidado. — Essa parte do cérebro é associada à fala e à aptidão com números. Ellis deu de ombros. — Isso é besteira. Não faço a menor idéia de que função tem essas células cinzentas. Quanto a você, tudo o que precisa fazer é dar o melhor de si. Você é quem vai operar. Vou estar logo atrás de você. Posso vestir um jaleco? E onde é que eu lavo as mãos? Mikael Blomkvist olhou para o relógio e constatou que eram três e pouco da manhã. Estava com algemas nos pulsos. Fechou os olhos por um instante. Sentia-se extenuado, mas a adrenalina ajudava a agüentar o tranco. Tornou a abrir os olhos e encarou agressivamente o delegado Thomas Paulsson, que

retribuiu com um olhar constrangido. Estavam sentados ao redor de uma mesa de cozinha, numa granja de um lugarejo chamado Gosseberga, em algum lugar perto de Nossebro, do qual Mikael ouvira falar pela primeira vez não fazia nem doze horas. A catástrofe acabava de ser confirmada. — Idiota — disse Mikael. — Escute... — Idiota — repetiu Mikael. — Puta merda, eu falei que ele era um perigo mortal ambulante. Avisei que precisava ser tratado como uma granada sem pino. Ele matou pelo menos três pessoas, tem o físico de um tanque de guerra e mata com as próprias mãos. E o senhor manda dois guardinhas irem buscá-lo, como se ele fosse um bêbado de festa de aldeia. Mikael voltou a fechar os olhos. Perguntou-se o que mais poderia dar errado naquela noite. Tinha encontrado Lisbeth Salander pouco depois da meia-noite, gravemente ferida. Ligara para a polícia e conseguira convencer o sos-Brigada a mandar um helicóptero a fim de transportar Lisbeth ao Hospital Sahlgrenska. Descrevera em detalhes os ferimentos dela e o buraco que a bala deixara em sua cabeça, e recebera o apoio de uma pessoa inteligente e sensata, que havia se dado conta de que Lisbeth precisava de